quarta-feira, 16 de junho de 2021

Beatles na India em busca de iluminação

No penúltimo ano de vida, os Beatles brilharam artisticamente com um álbum de 30 músicas, todas distintas, o single de maior vendagem Hey Jude/Revolution, a entrada e cena da artista de vanguarda Yoko Ono, um agravante na abalada relação dos quatro e de John com a esposa Cynthia Powell. E a última tentativa de buscar iluminação espiritual numa viagem ao ashram do Maharishi Mahesh Yoga em Rishikesh, Índia, cidade aos pés do Himalaia conhecida como a Capital Mundial do Yoga.
Em 1967, John, George, Paul e Ringo tiveram o primeiro contato com a Meditação Transcendental do Maharishi, viram uma palestra em Londres, foram ao pais de Gales para um seminário, interrompido pela morte súbita do empresário Brian Epstein. Daí tiveram que assumir os negócios da banda e decidiram produzir o filme para a TV Magical Mystery Tour.
Em meados de fevereiro de 1968 começaram sua Magical Mystery Tour da vida real, rumo à Índia. No dia 15, embarcaram em Londres John e a esposa, Cynthia, Paul e a noiva Jane Asher. No dia 19 foi a vez de George e Ringo com as respectivas esposas Pattie e Maureen. No dia 14 tinha ido na frente o faz tudo Mal Evans com bagagens e a ordem de arranjar transporte para o ashram. Depois de 20 horas de voo, com escalas, até Nova Delhi nada de carros confortáveis, mas táxis precários do aeroporto até Rishikesh numa precária estrada de terra chacoalhando por seis horas. Como estavam imbuídos de fé e espírito aventureiro adoraram. Quebrados da viagem foram alojados em bangalôs de formato oval e apagaram.
Enquanto os Beatles descansam vamos dar um pulo na Rishikesh atual. Como tudo que os Beatles tocam vira ouro, com o passar dos anos peregrinos começaram a ir à cidade para conhecer o lugar onde os Beatles meditaram. O ashram abandonado foi restaurado e pode ser visitado por duas libras, agora com o nome de Beatles Ashram.  Em 2018, 50º aniversário da estada deles, pouco mais de 10 mil pessoas lá estiveram.
Pousadas e restaurantes surgiram para receber o que chamam de Flower Power Pilgrims, jovens que vivem hoje como se ainda fosse a era psicodélica dos anos 60. Há lugares para meditar, todo tipo de serviço como Terapia New Age, Mãos Curadoras da Escola Heiki e coisas como Cristais Sonoros Tibetanos de Cura, Pedras Vedicas etc. E cidades vizinhas também aproveitam a aura deixada pelos Beatles para faturar.
De volta ao passado, quase refeitos do cansaço, uma noite não basta, ainda mais em condições precárias, os Beatles foram conhecer o lugar. A Academia de Meditação Transcendental ficava em um complexo a 45 metros de altura do Rio Ganges, cercada por montanhas. O acesso era por uma ponte suspensa onde havia o aviso Proibido camelos e elefantes.  Havia umas 60 pessoas da Europa e da América entre elas celebridades como a atriz Mia Farrow e sua irmã Prudence. O vocalista dos Beach Boys Mike Love, o cantor Donovan, amigo de Paul e, ofuscando a todos, a maior banda de rock do planeta.
A alimentação era toda vegetariana. Como tinha problemas de estômago, Ringo levou uma mala cheia de feijões em lata que comia com ovos, ele tinha medo da comida indiana, muito temperada. O almoço e o jantar variavam pouco: sopa seguida de um prato principal, arroz e salada com tomate, alface, nabo, cenoura e batata. O refeitório era grande, com paredes de vidro. Macacos invadiam em busca de comida, quem bobeasse dançava. O Maharishi comia em seu luxuoso bangalô.
Um alfaiate local fez roupas para todos, calças tipo pijamas e blusas largas, os quatro cultivaram barbas. Fazia muito calor de dia e só amenizava no final da tarde. Havia palestras com o Maharishi de manhã e à noite, seguidas por sessões de meditação de manhã e à tarde que os Beatles curtiram por um tempo para relaxar das tensões de seu cotidiano. Num final de tarde foram todos passear de barco pelo Ganges com dois cantores locais fazendo a trilha sonora. Como não podia deixar de ser, George e Donovan começaram a cantar, os outros seguiram numa mistura de canções inglesas e alemãs.
Foi bom enquanto durou para Ringo, o primeiro a jogar a toalha, que voltou para Londres no dia primeiro de março. Alegou saudade dos filhos e as queixas da mulher, Maureen contra nuvens de mosquitos que a atacavam. Em 26 de março foi a vez de Paul puxar o barco. Os mais resistentes foram John e George que partiram em 12 de abril em meio a uma confusão sobre suposto assédio a Prudence, irmã de Mia Farrow (Não vou detalhar porque está bem explicado nos posts sobre o álbum branco).
John voltou para Londres com seu casamento abalado, Cynthia se queixou de desinteresse dele e do interesse pelas cartas de Yoko Ono que chegavam quase diariamente. Em novembro se divorciou e ficou com Yoko. George e Pattie ficaram na Índia até 21 de abril, foram a Madras visitar Ravi Shankar. O melhor saldo foi que os Beatles voltaram com 48 canções e esboços que se espalhariam pelo álbum branco e Abbey Road.
Tem mais, só desculpem a demora porque sou muito enrolado.
Posts do álbum branco:
Primeira parte – Não localizado. Tentando
Segunda parte - http://www.blogdojama.com.br/2018/11/os-50-anos-do-album-branco-dos-beatles.html
Terceira parte - http://www.blogdojama.com.br/2018/11/album-branco-parte-3-helter-skelter.html
Quarta parte - http://www.blogdojama.com.br/2018/11/the-beatles-final-numberninenumberninen.html


quinta-feira, 13 de maio de 2021

Documentário Os Quatro Paralamas mostra as internas da banda em imagens inéditas

                                                                             Trailer

Numa olhada rápida no google, encontrei seis documentários sobre os Paralamas do Sucesso. Os Quatro Paralamas não é mais um deles, mas um mergulho nos bastidores do trio Herbert-Bi-Barone e o empresário José Fortes, apresentado como o quarto integrante. Quarteto que funciona como um só, o que dá liga são dois sentimentos nobres, amizade e amor. João Barone dá uma risada quando diz: “Somos moleques ou um bando de velhos que se acham moleques.” José Fortes avalia: “Nunca pensamos que a banda ia acabar.  Nossos melhores amigos somos nós mesmos” e Bi observa que é uma mistura de amizade e trabalho. 



O documentário, dirigido por Roberto Berliner,  não tem um narrador para amarrar as cenas, a maioria sem identificação de tempo e lugar. Uma identificação escrita na tela ajudaria, como não tem o espectador não sabe o que está vendo em muitas cenas. Cenas antigas mostram o Herbert elétrico no palco e fora dele, o inverso depois do acidente. Não podia ser diferente. Perder o amor da vida, Lucy Needham Vianna e chegar com apenas 30% de chances de vida ao Hospital Copa D’Or e conseguir sobreviver é quase um milagre. 


Aqui vemos destroços do ultraleve na praia de Mangaratiba, onde houve o acidente em 4 de fevereiro de 2001, a vigília no Hospital, Barone ilustra bem o clima ao dizer que a Lucy estava sendo enterrada no momento em que Herbert fazia cirurgia para tirar coágulos do cérebro. Zé Fortes conta que apavorou quando o cirurgião Paulo Niemeyer disse que Herbert dificilmente sobreviveria e revela que nada contou a ninguém na época.

Zé Fortes, Herbert, Barone e Bi
Além dos cuidados médicos, a grande terapia de Herbert foi tocar com Barone e Bi. Quando melhorou voltaram a tocar horas e mais horas, o documentário é rico em imagens, na interação entre eles, embora não mostre em detalhes a ajuda que lhe davam para lembrar de tudo. Herbert ficou sem memória recente, o que foi bem doloroso no começo. Tiveram que contar da morte de Lucy, ele se desesperava e esquecia, depois de algumas vezes desistiram de contar até ele poder assimilar.

A memória antiga foi preservada e há cenas dele tocando a primeira música que fez na vida e também Pinguins, da época de ensaios na casa da avó do Bi, dona Ondina. Os três sentados num canto do palco cercado de guitarras bateram um papo interessante sobre o futuro. Herbert diz que tinha vontade de ter filhos, mas que temeria pôr o filho num ônibus no Rio sem saber se ele ia voltar. 




Parênteses: no álbum Som do Sim (2000) ele fez História de Uma Bala sobre violência urbana “O bonde do mal na rua e a paz de alguém está para acabar”. E mais adiante O Calibre: “Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo. Sem saber o calibre do perigo. Eu não sei de onde vem o tiro.”  Me disse em 2000 que pensava até em mudar do Rio por medo da segurança dos filhos.”

Voltando. Herbert entendia um filho como dar pro mundo alguém que contribua para melhorá-lo. “A única coisa que você pode dar para uma pessoa é amor, o resto ela tem que conquistar.”

Destroços do ultraleve de Herbert na praia de Mangaratiba

Há uma breve história dele com Lucy, como se conheceram e como, na sua timidez, arrastou Bi para ir com ele conhecer os pais dela no interior da Inglaterra.

E a investida na Argentina no começo dos anos 90 com muito sucesso por lá. Belas imagens de passeios numa larga avenida e praça e a amizade com Charly Garcia, um dos ícones do rock  argentino. E com Fito Paez num show no Canecão, Rio de Janeiro, a primeira aparição depois do acidente.


Ufa! Desculpem se ficou longo. Para complementar as imagens e os demais documentários sugiro minha biografia da banda Vamo Batê Lata, disponível em sebos. Novo está caro, vi até a 279 reais.


 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

O lado sombrio de Roberto Carlos na ditadura

 


Roberto Carlos faz 80 anos nesta segunda festejado com todas as honras devidas a um “rei”. Que eu saiba ele nunca fez um mea culpa de seu comportamento nos anos da ditadura quando foi conivente com os militares na fase mais repressiva, pós AI-5, no governo do general Garrastazu Médici (1969 -1974).

Artistas como Caetano e Gil amargavam um exilio em Londres depois de presos e colocados dentro de um avião com a recomendação de não voltarem. Chico Buarque foi para a Itália depois do que viu acontecer com Gil e Chico. E muitos outros casos semelhantes. 

Um relatório do Centro de Informações do Exército distribuído a outros órgãos de repressão, afirmava que artistas simpáticos ao regime deveriam ser blindados. O informe, difundido para outros órgãos da repressão política, cita, entre outros, Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo, Wanderley Cardoso (não achei todos). 

Roberto cantou nas olímpiadas do Exército de 1970 e 1971. Em 1973 recebeu a Medalha do Pacificador, por serviços prestados ao Exército, entregue pelo general linha dura Humberto de Souza Mello. Em 1976 outra condecoração, a Ordem do Rio Branco, por serviços prestados à nação, entregue pelo ditador, general Ernesto Geisel. 


Este era um grande período de popularidade de Roberto com uma penca de grandes sucessos como As Curvas da Estrada de Santos, Sua Estupidez, Jesus Cristo, Nossa Senhora, Detalhes e outros que mantinham as massas alienadas enquanto a geração nova da MPB lutava contra o status quo nos festivais da canção com músicas como Pra Não Dizer Que Não falei das Flores, Caetano Veloso com É Proibido Proibir e muitos outros artistas que não conseguiram participar devido à censura das canções que tentaram incluir. 

Anos antes, em 1967, Roberto teve censurado o trailer do filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura por não ter enviado a tempo. Ele foi ao ministro da justiça Gama e Silva que mandou a Censura liberar por se tratar “de uma história cujo protagonista é o mais admirado e popular artista brasileiro”.



Roberto apoiou a censura ao filme Je Vous Salue Marie por questões cristãs e já bem mais recentemente, em 2007, vetou a biografia Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo Cesar Araújo, o que desencadeou um longo debate. Em 2015, o Supremo acabou com o veto a biografias.

O “rei” anunciou há tempos que escreve sua autobiografia, que ele é o mais indicado para contar sua história. A ver como ele vai tratar este período sombrio em que colaborou com a ditadura no auge da repressão e da tortura. 

Ah, ele também elogiou o ditador do Chile, general Augusto Pinochet.

Tá bom ou quer mais?


 

 

 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Beatles, o fim. Parte dois


Beatles e respectivas esposas com o Maharishi

Após o enorme sucesso de Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band, a trilha sonora do Verão do Amor, os Beatles embarcaram numa das utopias dos anos 60, a busca da plenitude espiritual, da paz interior. A corrente do papa lisérgico americano Timothy Leary achava que o LSD seria um instrumento para conseguir este fim de transcender o material e se conectar com o espiritual.

Um caminho extra drogas era a meditação transcendental que os Beatles praticaram por dois anos em 1967 e 1968. O primeiro interesse partiu da modelo Pattie Boyd, mulher de George Harrison, que leu sobre a meditação e seu criador, o guru indiano Maharishi Mahesh Yogi. Quando soube que ele ia a Londres para uma palestra no dia 24 de agosto de 1967, ela avisou George, já envolvido com a música e o hinduísmo. Ele chamou John Lennon e Paul McCartney. Não chamou Ringo porque a mulher Maureen, deu à luz o segundo filho, Jason, em 19 de agosto. 


Maharishi Mahesh Yogi

Gostaram tanto que decidiram viajar no dia seguinte, já com Ringo, a Bangor, País de Gales, para um seminário do Maharishi. Estavam ligados nos ensinamentos do guru quando receberam a notícia da morte do empresário da banda Brian Epstein. Era 27 de agosto de 1967. Brian, velho consumidor de drogas químicas, morreu de overdose acidental de uma delas, Carbitral, misturada com álcool. A notícia trouxe a banda de volta à realidade. Brian os empresariava desde primeiro de outubro de 1962, os quatro a ele recorriam quando desejavam alguma coisa, fosse passagens de avião, uma mansão no campo ou um carro de luxo. Brian andava deprimido desde que seus contratados fizeram a última apresentação ao vivo em 29 de agosto de 1966 no Candlestick Park em São Francisco e desistiram de voltar à estrada.


Brian Epstein

Perplexos com a notícia, voltaram a Londres, mas não compareceram ao funeral para não criar tumulto. Uma cerimônia em memória de Brian aconteceu dia 17 de outubro na New London Synagogue com a presença dos quatro. 

Começava ali um período turbulento que quase os levou à falência. No dia primeiro de setembro de 1967 os quatro se reuniram na casa de Paul no nº sete da Cavendish Avenue, Londres, para decidir o que fariam sem Brian Epstein. De cara tinham que enfrentar um problema administrativo. Os contadores da banda informaram em 1966 que havia dois milhões de libras em caixa que iriam para o imposto de renda a menos que fizessem um investimento comercial, porque os impostos para empresas eram menores do que os de pessoas físicas. 

Daí criaram a Beatles Ltd que transformaram em Beatles Corp para administrar seus negócios com Brian Epstein na diretoria. Quando ele morreu não havia substituto e os Beatles resolveram cuidar eles mesmos dos negócios. No começo de 1968 nasceria a Apple Corps como uma organização multimedia com inúmeros e complicados tentáculos.



Nesta reunião de primeiro de setembro, resolveram levar adiante um projeto bolado por Paul em 11 de abril de 1967 num voo de Los Angeles para Londres. Ele foi comemorar o 21º aniversário da namorada Jane Asher, atriz da companhia de teatro Old Vic em turnê na América. 

Paul McCartney estava numa fase muito criativa, foi dele a ideia de Sgt Pepper’s, ser a apresentação da fictícia banda do Sargento Pimenta. Decidiram ir em frente com um especial para a televisão sobre a excursão de um ônibus de turistas com intervenções mágicas pelo caminho, uma Magical Mystery Tour, para não dizer uma Psychedelic Mystery Tour, afinal era 1967, auge da psicodelia.



Paul tinha tudo esquematizado num grande gráfico com quadros para cada um dos Beatles nas paradas do ônibus, daí resolveram seguir em frente a toque de caixa, Dez dias depois começaram as filmagens  numa base desativada da Força Aérea com um elenco de desconhecidos, um ônibus psicodélico e muito improviso. A ação era em torno de Ringo e sua tia gordona Jessie (Jessie Robins) numa excursão para ver o festival anual de luzes da cidade de Blackpool. 

O filme foi um fracasso quando transmitido pela BBC em preto e branco no dia 26 de dezembro de 1967, o que tirou o efeito psicodélico. Uma segunda transmissão, desta vez a cores, não agradou também. 



O saldo positivo foram belos clipes para a trilha sonora. Sete canções inéditas bem variadas, a fanfarra da faixa título, a balada bucólica The Fool on the Hill, de Paul, a instrumental Flying, a saudosista Your Mother Should Know, de Paul, a intrigante Blue Jay Way de George Harrison e a psicodélica I Am The Walrus, de John, Nos créditos Hello Goodbye, de Paul, esta em single com I Am the Walrus. No Reino Unido foi lançado num EP duplo com um libreto. Na América em formato LP com singles no lado B. Primeiro lugar nos dois lados do Atlântico.

Os Beatles fecharam 1967 com o revés, da morte de Brian Epstein, e muitos sucessos, quatro singles e dois álbuns em primeiro lugar. Um Grammy de melhor canção para Michelle, de Paul e a participação na primeira transmissão mundial ao vivo, a Our World, no dia 25 de junho com o hino All You Need Is Love.



A história continua. 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

O fim dos Beatles - Parte Um


P: Este álbum é uma pausa em relação aos Beatles ou o começo de uma carreira solo? 
R Paul McCartney): O tempo dirá. Por ser um álbum solo significa o começo de uma carreira solo e por não ser com os Beatles é apenas um descanso. Então é ambos. 
P: Seu rompimento com os Beatles, temporário ou permanente, se deve a diferenças pessoais ou musicais? 
R: Diferenças pessoais, diferenças econômicas, diferenças musicais, mas principalmente porque me divirto mais com a minha família. Temporário ou permanente? Realmente não sei. 
P:Você antevê um dia em que Lennon e McCartney voltem a ser uma parceria ativa de composições? 
R: Não. 

No dia 10 de abril de 1970, Paul McCartney revelou o que se sabia internamente há um ano. O fim dos Beatles. No lançamento de seu primeiro disco solo, McCartney, ele incluiu uma entrevista preparada com ajuda do assessor Peter Brown em que apresentava o disco e dava a notícia que logo correu o mundo. As tensões foram se acumulando ao longo dos anos, com John Lennon mais interessado em sua parceria com a artista japonesa Yoko Ono, George Harrison mergulhado na música e na filosofia da Índia e Ringo navegando ao sabor dos acontecimentos. Isso e a derrocada financeira da banda por conta de projetos mal administrados, como a butique e a gravadora Apple. 


Paul com a filha reeém nascida Mary. Foto da esposa e mãe Linda McCartney

Paul era o único interessado em manter os Beatles. Se não fosse ele, possivelmente não haveria banda depois de Revolver, a julgar pelas palavras de John no livro The Beatles Anthology. Ele diz que só o medo o impediu de sair, um temor do qual se livrou só quando caiu de amores por Yoko: 
- Eu estava assustado demais para sair dos Beatles, o que eu queria desde que paramos com as turnês. Eu estava vagamente procurando um lugar para ir, mas não tinha coragem de pular sozinho do barco, então fiquei na área. Quando me apaixonei por Yoko, senti que aquilo era diferente de tudo na minha vida, mais do que um disco de sucesso, mais do que ouro, mais do que qualquer coisa. Estar com Yoko me libertou, me completou. Antes éramos só meia pessoa. Somos duas metades e, juntos, somos um todo. 

A presença de Yoko teve um impacto desagregador, mas ela não pode ser culpada pelo fim dos Beatles. O novo casal gravou um álbum conceitual na noite em que consumaram carnalmente a união, lançado com o nome de Two Virgins, os dois pelados na capa, com imediata controvérsia externa e interna.  

- Pode ser legal para você, mas nós todos temos que responder por isso. Qualquer coisa que um de nós faça, os outros tem que responder – disse Ringo a John. E recebeu como resposta: 
- Ah Ringo, você só tem que atender o telefone. 



George manifestou indiferença e soltou farpas: 
- Estavam tão envolvidos um com o outro que acharam de importância mundial tudo que faziam ou diziam. Só ouvi uns trechos e achei que a capa era de dois corpos de aparência estranha, dois corpos flácidos nus. Eu estava ficando cheio dos Beatles na época e de tudo que os envolvia. Eu estava entrando em outro lance, a música indiana.
                                                   
Paul foi o mais compreensivo, se disse apenas “ligeiramente chocado” e até escreveu duas frases enigmáticas para a capa de  Two Virgins ( "Quando dois grandes santos se encontram, é uma experiência de humildade. A longa batalha para provar que ele é um santo."). O que realmente chocou Paul e os demais foi a presença constante de Yoko: quando ela se recuperava de um acidente de carro do casal na Escócia, John mandou colocar uma cama para ela no estúdio. 
- Foi um período muito difícil. John ia para um canto do estúdio e ficava horas lá com Yoko. Isso era o tempo todo. Nós éramos os Beatles, era nossa carreira e essa garota aparece do nada. Era muito chato ter ela sempre por perto, ela sentava nos amplificadores e a gente ficava com medo de mandar ela sair por causa da reação do John. Acho que ele saiu dos Beatles para limpar o terreno no relacionamento com ela – queixou-se Paul (Ressalve-se que a culpa não era dela, mas de John). 


John mandou colocar uma cama no estúdio para Yoko Ono assistir às gravações

George também tinha críticas: 
-Era muito estranho vê-la sentada lá. Nós sempre fomos os quatro e George Martin, nosso produtor. Havia visitas ocasionais, mas imagine uma estranha presente o tempo todo. Era uma vibração ruim. 
Harrison conta que a gravação do álbum branco foi difícil porque havia “muito ego na banda.” Cita o exemplo de sua canção While My Guitar Gently Weeps, uma das melhores do disco: 
- John e Paul estavam envolvidos com suas canções e não queriam trabalhar comigo. Achei aquilo uma vergonha e fiquei frustrado. Um dia fui para Londres com Eric Clapton e o chamei para fazer um solo na música. Ele ficou assustado com a responsabilidade de tocar num disco dos Beatles, mas topou. Quando cheguei com Eric e disse que ele ia participar da música, os outros se tocaram e começaram a dar suas contribuições.


George Harrison E) e Eric Clapton, amigos por toda a vida

O fato de John, Paul e George muitas vezes estarem trabalhando em estúdios diferentes no álbum branco é citado sempre como prova da desagregação da banda, mas George oferece um adendo que não desmente, mas dá outra explicação. Isso se devia à pressa de acabar o disco, porque a EMI estabeleceu um prazo de entrega e eles estavam atrasados


Ringo, George. Paul. John

A fase final da banda aconteceu entre momentos de desagregação e períodos em que tudo voltava ao lugar, especialmente quando sentiam que trabalhavam numa grande canção. É o que se pode ver no filme Let It Be, onde está a famosa briga de George com Paul porque este queria lhe ensinar uma passagem de guitarra durante as filmagens nos estúdios Twickenham no primeiro mês de 1969, mas também se vê muitos momentos em que sorriam felizes com o que estavam fazendo (Os Beatles mandaram fazer uma nova versão que mostre exatamente isso, bons momentos, acharam o original muito pra baixo. Estreia dia quatro de setembro). 

A tal briga provocou a saída temporária de George da banda, irritado com o projeto do documentário e com a intenção de Paul de fazer um show ao vivo para ser filmado, sem falar na presença de Yoko e nos palpites dela nos arranjos: 
- Antigamente a gente pegava as guitarras, aprendia a música e desenvolvia o arranjo. Por volta de Sgt. Pepper’s isso mudou. Paul passou a ter uma idéia fixa de como gravar as canções sem aceitar sugestões de ninguém. Embora o novo álbum e filme nos levasse  a tocar ao vivo novamente, havia muitas situações em que ele já sabia o que queria. Fiquei sem entender o que estava fazendo ali, aquilo era doloroso. Para completar John e Yoko espalhavam vibrações negativas, eles só queriam ficar um com o outro, ele não queria saber da gente – queixou-se George.

George estudou citara com o mestre Ravi Shankar


Daí, em 10 de janeiro George pediu o boné, logo depois da discussão com Paul nos estúdios de Twickenham. John sugeriu chamarem Eric Clapton para o lugar de George, Paul discordou. Eles ainda fizeram uma jam session e interromperam tudo. No dia 12 tiveram uma reunião tensa com George na casa de Ringo sem acordo algum e o dissidente saiu batendo a porta. Na terça-feira, 14, George concordou em voltar desde que não houvesse mais filmagem e nem show ao vivo, que fossem para o estúdio gravar o que seria o álbum Get Back (que virou Let It Be), uma volta da banda à simplicidade dos primeiros dias. Para acomodar  exigências da filmagem houve um avordo para o concerto no telhado da Apple em 30 de janeiro de 1969, a derradeira apresentação ao vivo dos Beatles.

John já queria deixar a banda, mas o fato de George sair, o integrante Junior, mexeu com seu ego. O engenheiro Geoff Emerick conta em sua autobiografia Here There And Everywhere que Paul tinha pouca paciência com a demora de George em elaborar seus solos e se considerava melhor na guitarra do que George. Mesmo assim, não aceitou a saída e muito menos a substituição de Harrison.


AFilmagens nos estúdios Twickenham janneiro de 1969

Paul diz na Anthology que a ideia de Get Back/Let It Be, o filme, era mostrar o processo de criação dos Beatles: 

- O que acabou acontecendo foi que o documentário mostrou o rompimento do grupo e não o que pretendíamos a princípio. Não percebemos na época que documentávamos o nosso fim. Era, provavelmente uma história melhor – mas uma história triste, fazer o que.

Os Beatles iriam gravar Get Back/Let It Be, arquivá-lo e, com os brios afetados pelo material aquém da capacidade deles, juntariam os cacos para gravar um último álbum, Abbey Road. No caminho, mais desentendimentos e uma quase falência financeira da banda. 

A história continua.