quinta-feira, 16 de abril de 2020

Beatles, o fim. Parte dois


Beatles e respectivas esposas com o Maharishi

Após o enorme sucesso de Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band, a trilha sonora do Verão do Amor, os Beatles embarcaram numa das utopias dos anos 60, a busca da plenitude espiritual, da paz interior. A corrente do papa lisérgico americano Timothy Leary achava que o LSD seria um instrumento para conseguir este fim de transcender o material e se conectar com o espiritual.

Um caminho extra drogas era a meditação transcendental que os Beatles praticaram por dois anos em 1967 e 1968. O primeiro interesse partiu da modelo Pattie Boyd, mulher de George Harrison, que leu sobre a meditação e seu criador, o guru indiano Maharishi Mahesh Yogi. Quando soube que ele ia a Londres para uma palestra no dia 24 de agosto de 1967, ela avisou George, já envolvido com a música e o hinduísmo. Ele chamou John Lennon e Paul McCartney. Não chamou Ringo porque a mulher Maureen, deu à luz o segundo filho, Jason, em 19 de agosto. 


Maharishi Mahesh Yogi

Gostaram tanto que decidiram viajar no dia seguinte, já com Ringo, a Bangor, País de Gales, para um seminário do Maharishi. Estavam ligados nos ensinamentos do guru quando receberam a notícia da morte do empresário da banda Brian Epstein. Era 27 de agosto de 1967. Brian, velho consumidor de drogas químicas, morreu de overdose acidental de uma delas, Carbitral, misturada com álcool. A notícia trouxe a banda de volta à realidade. Brian os empresariava desde primeiro de outubro de 1962, os quatro a ele recorriam quando desejavam alguma coisa, fosse passagens de avião, uma mansão no campo ou um carro de luxo. Brian andava deprimido desde que seus contratados fizeram a última apresentação ao vivo em 29 de agosto de 1966 no Candlestick Park em São Francisco e desistiram de voltar à estrada.


Brian Epstein

Perplexos com a notícia, voltaram a Londres, mas não compareceram ao funeral para não criar tumulto. Uma cerimônia em memória de Brian aconteceu dia 17 de outubro na New London Synagogue com a presença dos quatro. 

Começava ali um período turbulento que quase os levou à falência. No dia primeiro de setembro de 1967 os quatro se reuniram na casa de Paul no nº sete da Cavendish Avenue, Londres, para decidir o que fariam sem Brian Epstein. De cara tinham que enfrentar um problema administrativo. Os contadores da banda informaram em 1966 que havia dois milhões de libras em caixa que iriam para o imposto de renda a menos que fizessem um investimento comercial, porque os impostos para empresas eram menores do que os de pessoas físicas. 

Daí criaram a Beatles Ltd que transformaram em Beatles Corp para administrar seus negócios com Brian Epstein na diretoria. Quando ele morreu não havia substituto e os Beatles resolveram cuidar eles mesmos dos negócios. No começo de 1968 nasceria a Apple Corps como uma organização multimedia com inúmeros e complicados tentáculos.



Nesta reunião de primeiro de setembro, resolveram levar adiante um projeto bolado por Paul em 11 de abril de 1967 num voo de Los Angeles para Londres. Ele foi comemorar o 21º aniversário da namorada Jane Asher, atriz da companhia de teatro Old Vic em turnê na América. 

Paul McCartney estava numa fase muito criativa, foi dele a ideia de Sgt Pepper’s, ser a apresentação da fictícia banda do Sargento Pimenta. Decidiram ir em frente com um especial para a televisão sobre a excursão de um ônibus de turistas com intervenções mágicas pelo caminho, uma Magical Mystery Tour, para não dizer uma Psychedelic Mystery Tour, afinal era 1967, auge da psicodelia.



Paul tinha tudo esquematizado num grande gráfico com quadros para cada um dos Beatles nas paradas do ônibus, daí resolveram seguir em frente a toque de caixa, Dez dias depois começaram as filmagens  numa base desativada da Força Aérea com um elenco de desconhecidos, um ônibus psicodélico e muito improviso. A ação era em torno de Ringo e sua tia gordona Jessie (Jessie Robins) numa excursão para ver o festival anual de luzes da cidade de Blackpool. 

O filme foi um fracasso quando transmitido pela BBC em preto e branco no dia 26 de dezembro de 1967, o que tirou o efeito psicodélico. Uma segunda transmissão, desta vez a cores, não agradou também. 



O saldo positivo foram belos clipes para a trilha sonora. Sete canções inéditas bem variadas, a fanfarra da faixa título, a balada bucólica The Fool on the Hill, de Paul, a instrumental Flying, a saudosista Your Mother Should Know, de Paul, a intrigante Blue Jay Way de George Harrison e a psicodélica I Am The Walrus, de John, Nos créditos Hello Goodbye, de Paul, esta em single com I Am the Walrus. No Reino Unido foi lançado num EP duplo com um libreto. Na América em formato LP com singles no lado B. Primeiro lugar nos dois lados do Atlântico.

Os Beatles fecharam 1967 com o revés, da morte de Brian Epstein, e muitos sucessos, quatro singles e dois álbuns em primeiro lugar. Um Grammy de melhor canção para Michelle, de Paul e a participação na primeira transmissão mundial ao vivo, a Our World, no dia 25 de junho com o hino All You Need Is Love.



A história continua. 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

O fim dos Beatles - Parte Um


P: Este álbum é uma pausa em relação aos Beatles ou o começo de uma carreira solo? 
R Paul McCartney): O tempo dirá. Por ser um álbum solo significa o começo de uma carreira solo e por não ser com os Beatles é apenas um descanso. Então é ambos. 
P: Seu rompimento com os Beatles, temporário ou permanente, se deve a diferenças pessoais ou musicais? 
R: Diferenças pessoais, diferenças econômicas, diferenças musicais, mas principalmente porque me divirto mais com a minha família. Temporário ou permanente? Realmente não sei. 
P:Você antevê um dia em que Lennon e McCartney voltem a ser uma parceria ativa de composições? 
R: Não. 

No dia 10 de abril de 1970, Paul McCartney revelou o que se sabia internamente há um ano. O fim dos Beatles. No lançamento de seu primeiro disco solo, McCartney, ele incluiu uma entrevista preparada com ajuda do assessor Peter Brown em que apresentava o disco e dava a notícia que logo correu o mundo. As tensões foram se acumulando ao longo dos anos, com John Lennon mais interessado em sua parceria com a artista japonesa Yoko Ono, George Harrison mergulhado na música e na filosofia da Índia e Ringo navegando ao sabor dos acontecimentos. Isso e a derrocada financeira da banda por conta de projetos mal administrados, como a butique e a gravadora Apple. 


Paul com a filha reeém nascida Mary. Foto da esposa e mãe Linda McCartney

Paul era o único interessado em manter os Beatles. Se não fosse ele, possivelmente não haveria banda depois de Revolver, a julgar pelas palavras de John no livro The Beatles Anthology. Ele diz que só o medo o impediu de sair, um temor do qual se livrou só quando caiu de amores por Yoko: 
- Eu estava assustado demais para sair dos Beatles, o que eu queria desde que paramos com as turnês. Eu estava vagamente procurando um lugar para ir, mas não tinha coragem de pular sozinho do barco, então fiquei na área. Quando me apaixonei por Yoko, senti que aquilo era diferente de tudo na minha vida, mais do que um disco de sucesso, mais do que ouro, mais do que qualquer coisa. Estar com Yoko me libertou, me completou. Antes éramos só meia pessoa. Somos duas metades e, juntos, somos um todo. 

A presença de Yoko teve um impacto desagregador, mas ela não pode ser culpada pelo fim dos Beatles. O novo casal gravou um álbum conceitual na noite em que consumaram carnalmente a união, lançado com o nome de Two Virgins, os dois pelados na capa, com imediata controvérsia externa e interna.  

- Pode ser legal para você, mas nós todos temos que responder por isso. Qualquer coisa que um de nós faça, os outros tem que responder – disse Ringo a John. E recebeu como resposta: 
- Ah Ringo, você só tem que atender o telefone. 



George manifestou indiferença e soltou farpas: 
- Estavam tão envolvidos um com o outro que acharam de importância mundial tudo que faziam ou diziam. Só ouvi uns trechos e achei que a capa era de dois corpos de aparência estranha, dois corpos flácidos nus. Eu estava ficando cheio dos Beatles na época e de tudo que os envolvia. Eu estava entrando em outro lance, a música indiana.
                                                   
Paul foi o mais compreensivo, se disse apenas “ligeiramente chocado” e até escreveu duas frases enigmáticas para a capa de  Two Virgins ( "Quando dois grandes santos se encontram, é uma experiência de humildade. A longa batalha para provar que ele é um santo."). O que realmente chocou Paul e os demais foi a presença constante de Yoko: quando ela se recuperava de um acidente de carro do casal na Escócia, John mandou colocar uma cama para ela no estúdio. 
- Foi um período muito difícil. John ia para um canto do estúdio e ficava horas lá com Yoko. Isso era o tempo todo. Nós éramos os Beatles, era nossa carreira e essa garota aparece do nada. Era muito chato ter ela sempre por perto, ela sentava nos amplificadores e a gente ficava com medo de mandar ela sair por causa da reação do John. Acho que ele saiu dos Beatles para limpar o terreno no relacionamento com ela – queixou-se Paul (Ressalve-se que a culpa não era dela, mas de John). 


John mandou colocar uma cama no estúdio para Yoko Ono assistir às gravações

George também tinha críticas: 
-Era muito estranho vê-la sentada lá. Nós sempre fomos os quatro e George Martin, nosso produtor. Havia visitas ocasionais, mas imagine uma estranha presente o tempo todo. Era uma vibração ruim. 
Harrison conta que a gravação do álbum branco foi difícil porque havia “muito ego na banda.” Cita o exemplo de sua canção While My Guitar Gently Weeps, uma das melhores do disco: 
- John e Paul estavam envolvidos com suas canções e não queriam trabalhar comigo. Achei aquilo uma vergonha e fiquei frustrado. Um dia fui para Londres com Eric Clapton e o chamei para fazer um solo na música. Ele ficou assustado com a responsabilidade de tocar num disco dos Beatles, mas topou. Quando cheguei com Eric e disse que ele ia participar da música, os outros se tocaram e começaram a dar suas contribuições.


George Harrison E) e Eric Clapton, amigos por toda a vida

O fato de John, Paul e George muitas vezes estarem trabalhando em estúdios diferentes no álbum branco é citado sempre como prova da desagregação da banda, mas George oferece um adendo que não desmente, mas dá outra explicação. Isso se devia à pressa de acabar o disco, porque a EMI estabeleceu um prazo de entrega e eles estavam atrasados


Ringo, George. Paul. John

A fase final da banda aconteceu entre momentos de desagregação e períodos em que tudo voltava ao lugar, especialmente quando sentiam que trabalhavam numa grande canção. É o que se pode ver no filme Let It Be, onde está a famosa briga de George com Paul porque este queria lhe ensinar uma passagem de guitarra durante as filmagens nos estúdios Twickenham no primeiro mês de 1969, mas também se vê muitos momentos em que sorriam felizes com o que estavam fazendo (Os Beatles mandaram fazer uma nova versão que mostre exatamente isso, bons momentos, acharam o original muito pra baixo. Estreia dia quatro de setembro). 

A tal briga provocou a saída temporária de George da banda, irritado com o projeto do documentário e com a intenção de Paul de fazer um show ao vivo para ser filmado, sem falar na presença de Yoko e nos palpites dela nos arranjos: 
- Antigamente a gente pegava as guitarras, aprendia a música e desenvolvia o arranjo. Por volta de Sgt. Pepper’s isso mudou. Paul passou a ter uma idéia fixa de como gravar as canções sem aceitar sugestões de ninguém. Embora o novo álbum e filme nos levasse  a tocar ao vivo novamente, havia muitas situações em que ele já sabia o que queria. Fiquei sem entender o que estava fazendo ali, aquilo era doloroso. Para completar John e Yoko espalhavam vibrações negativas, eles só queriam ficar um com o outro, ele não queria saber da gente – queixou-se George.

George estudou citara com o mestre Ravi Shankar


Daí, em 10 de janeiro George pediu o boné, logo depois da discussão com Paul nos estúdios de Twickenham. John sugeriu chamarem Eric Clapton para o lugar de George, Paul discordou. Eles ainda fizeram uma jam session e interromperam tudo. No dia 12 tiveram uma reunião tensa com George na casa de Ringo sem acordo algum e o dissidente saiu batendo a porta. Na terça-feira, 14, George concordou em voltar desde que não houvesse mais filmagem e nem show ao vivo, que fossem para o estúdio gravar o que seria o álbum Get Back (que virou Let It Be), uma volta da banda à simplicidade dos primeiros dias. Para acomodar  exigências da filmagem houve um avordo para o concerto no telhado da Apple em 30 de janeiro de 1969, a derradeira apresentação ao vivo dos Beatles.

John já queria deixar a banda, mas o fato de George sair, o integrante Junior, mexeu com seu ego. O engenheiro Geoff Emerick conta em sua autobiografia Here There And Everywhere que Paul tinha pouca paciência com a demora de George em elaborar seus solos e se considerava melhor na guitarra do que George. Mesmo assim, não aceitou a saída e muito menos a substituição de Harrison.


AFilmagens nos estúdios Twickenham janneiro de 1969

Paul diz na Anthology que a ideia de Get Back/Let It Be, o filme, era mostrar o processo de criação dos Beatles: 

- O que acabou acontecendo foi que o documentário mostrou o rompimento do grupo e não o que pretendíamos a princípio. Não percebemos na época que documentávamos o nosso fim. Era, provavelmente uma história melhor – mas uma história triste, fazer o que.

Os Beatles iriam gravar Get Back/Let It Be, arquivá-lo e, com os brios afetados pelo material aquém da capacidade deles, juntariam os cacos para gravar um último álbum, Abbey Road. No caminho, mais desentendimentos e uma quase falência financeira da banda. 

A história continua. 

domingo, 8 de dezembro de 2019

Há 39 anos, o último dia de vida de John Lennon


John e Yoko diante do edifício Dakota

Neste oito de dezembro, há 39 anos, John Lennon era assassinado pelo fã Mark David Chapman. Um choque imenso para milhões de pessoas no mundo que tinham os Beatles como referência em suas vidas. Neste post recrio em detalhes o último dia de vida de John Lennon. 

Primeiro Ato


John Lennon e Yoko Ono se mudaram em 1973 para o edifício Dakota, um prédio imponente no número um da Rua 72 Oeste, de frente para o Central Park. Inicialmente de aluguel do ator Robert Wagner mas, aos poucos, compraram cinco unidades, moravam no sétimo andar, apartamento número 72 e usavam o vizinho 71 como estúdio e escritório.  A segunda-feira oito de dezembro ia ser agitada, John estava na fase de divulgação de seu primeiro álbum de inéditas desde Walls and Bridges (1974), o Double Fantasy, lançado em 17 de novembro, assinado por ele e Yoko.  Ele costumava tomar o desjejum no Café La Fortuna, a algumas quadras do Dakota na Rua 71 Oeste, mas o local não abre às segundas.  Por volta de 10 da manhã saiu para cortar o cabelo numa barbearia próxima, optou por um corte ao estilo dos anos 50, com topete, como o da tribo inglesa de Teddy Boys a que os Beatles pertenciam no começo.


Foto de Annie Leibovitz

De volta ao Dakota, às 11 da manhã recebeu a fotógrafa Annie Leibovitz. Ele conversara longamente com o jornalista da Rolling Stone Jonathan Cott na sexta-feira anterior, dia cinco, e Annie foi fazer as fotos numa sessão que durou 90 minutos. Uma delas ficou mais famosa, ele encolhido nu sobre Yoko totalmente vestida, a capa da edição 335 de 22 de janeiro de 1981. A revista queria fotos só dele, mas John exigiu incluir Yoko porque Double Fantasy era do casal.


Foto de Annie Leibovitz


O próximo compromisso foi por volta de meio dia e 30, uma entrevista sobre o álbum para os jornalistas Dave Sholin e Laurie Kaye, da RKO Radio Network, a primeira a transmitir via satélite. Entrevistado pela rede britânica ITV em 2010, nos 30 anos de morte de John, Dave Sholin recordou: “O Dakota é um prédio impressionante. (No sétimo andar, apartamento 72) entramos num espaço incrível, uma sala maravilhosa onde tivemos que tirar os sapatos, sentamos em almofadas e Yoko nos saudou. Olhei para cima e vi nuvens brancas lindas pintadas no teto. 



Yoko conversou conosco por quase meia-hora, aí uma porta abriu, John entrou, deu uma pirueta no ar e disse: ‘Aqui estou pessoal, pronto para começar o show.’ Ele abriu os braços e veio em nossa direção, como se quisesse nos deixar confortáveis e funcionou, em dois ou três minutos conversávamos como se nos conhecêssemos há anos. Nas três horas e meia em que estivemos juntos, ele se mostrou feliz e cheio de entusiasmo com as novas perspectivas familiares e musicais. Ele pretendia fazer uma turnê do novo disco.”  John concluiu a entrevista com uma frase otimista: “Meu trabalho só terminará no dia em que estiver morto e enterrado, o que espero demore muito, muito tempo.”



Às cinco da tarde, mais ou menos, ele e Yoko saíram do Dakota, logo depois da equipe da RKO, iam para o estúdio trabalhar. Por algum motivo, o carro deles não apareceu, então John pediu uma carona ao pessoal da RKO. Antes de entrar no carro atendeu vários fãs que pediram autógrafos. Um deles seu assassino, Mark Chapman, que rondava o Dakota há alguns dias. Um  fotógrafo amador, Paul Goresh, que estava sempre no Dakota e já conhecia John, registrou o momento. Goresh foi ao Dakota ver se John tinha autografado o livro A Spaniards In The Works que deixara na portaria. Estava autografado e Goresh o resgatou. 

John autografou Double Fantasy para seu assassino, Mark Chapman


Goresh falou mais cedo com Mark Chapman, que lhe disse ter vindo do Havaí só para pegar um autógrafo na sua cópia de Double Fantasy. Quando Goresh perguntou onde ele estava hospedado, Chapman lhe deu um fora e se afastou. Goresh contou ainda que cumprimentou John na calçada e este perguntou se ele tinha pego o livro. Foi quando Chapman se aproximou com o LP nas mãos e o estendeu para John sem dizer nada. “Você quer que eu autografe?” Chapman fez que sim com a cabeça, John autografou, perguntou se era só isso que ele queria, Chapman o pegou de volta e se afastou sem dizer uma única palavra. John virou para Goresh com um olhar tipo “que esquisito” e entrou no carro. 



Dave Sholin contou na entrevista citada acima que no caminho para o estúdio John falou de seu relacionamento com Paul McCartney, com quem brigou nos momentos finais dos Beatles e os dois trocaram farpas em entrevistas e em músicas de seus álbuns solo. “Ele é como um irmão, eu o amo, coisas de família, a gente tem altos e baixos, mas no fim das contas eu faria qualquer coisa por ele e acho que ele faria o mesmo por mim,” disse John, segundo Sholin.


Foto de Anne Leibovitz



No estúdio Record Plant, no 321 da Rua 44 Oeste, ele finalizou a canção de Yoko Walking On A Thin Ice, lançada como single em seis de janeiro de 1981. Gravou várias partes de guitarra com sua Rickenbacker 325, de 1958, usada nos primeiros tempos dos Beatles. Em seguida mixou a canção com o produtor Jack Douglas, que lembrou em entrevistas: “John estava nas nuvens. Acabamos a mixagem naquela noite e os acompanhei até o elevador: ‘A gente se vê no Sterling,’ o estúdio de masterização, na manhã seguinte às nove. Ele era só sorrisos, levava fitas cassete com gravações e Yoko também era só sorrisos. E a porta do elevador se fechou.”  Isso foi por volta de 22h30, cogitaram jantar no restaurante Stage Deli, frequentado por celebridades porque ficava perto do famoso Carnegie Hall, mas decidiram ir para casa dar um beijo de boa noite no filho, Sean Ono Lennon, então com cinco anos.

John. Yoko e Sean



O porteiro do Dakota, John Hastings, um fã dos Beatles, estava lendo uma revista, pouco antes das 11 da noite, quando ouviu tiros do lado de fora e barulho de vidro estilhaçado. John cambaleou para dentro, andou vários passos e caiu, espalhando fitas cassete que trazia. Yoko veio logo em seguida gritando, “John foi baleado”. Hastings apertou o alarme que chamava a polícia, correu e se ajoelhou junto a Lennon. Yoko gritava pedindo uma ambulância, depois foi para junto do marido e gritou “Tudo bem John. Você vai ficar bom.” Hastings tirou a gravata para usar como torniquete, mas não havia lugar para aplicá-lo. O sangue jorrava do peito e da boca de Lennon, seus olhos abertos e desfocados, ele tossiu vomitando sangue e pedaços de tecido. Dois carros de polícia chegaram, os policiais Bill Gamble e James Moran entraram no prédio, viram Lennon, viraram-no para avaliar os ferimentos, disseram que não dava para esperar uma ambulância e levaram-no para um dos carros, que saiu em disparada com ele e Yoko dentro. 




Outros dois policiais, Steve Spiro e Peter Collin, prenderam Mark Chapman, que não tentou fugir. Ele sentou na calçada e ficou lendo o livro O Apanhador do Campo de Centeio, de J.D. Salinger, que trata das angústias existenciais e da revolta do adolescente Holden Caulfield diante dos desafios do mundo.

Segundo Ato

Pouco depois de meia-noite, o doutor Stephan Lynn, chefe da emergência do Hospital Roosevelt, no número 1000 da Décima Avenida com a Rua 59 Oeste, saiu para falar com o batalhão de jornalistas aglomerado do lado de fora:

– John Lennon foi trazido num carro de polícia para o pronto socorro do Hospital Roosevelt esta noite, pouco depois das 11 horas. Ele estava morto ao dar entrada. Mesmo assim, extensos esforços para ressuscitá-lo foram feitos mas, a despeito de transfusões e de outras medidas, não foi possível salvá-lo. Ele tinha sete ferimentos a bala no braço esquerdo, no peito e nas costas. Houve danos significativos nos principais vasos do peito que provocaram maciça perda de sangue, o que provavelmente resultou na sua morte. O óbito foi declarado às 23h 07m.

Pouco depois da divulgação do assassinato, fãs foram para a porta do Hospital Roosevelt


Em entrevistas, o doutor Lynn rememorou aquela noite em que dava plantão na emergência do Hospital Roosevelt: “Dois policiais entraram com o paciente numa maca e mandei que o colocassem na sala de ressuscitação. Havia três perfurações de bala na parte superior do lado esquerdo do peito e uma no braço esquerdo. Não sabíamos quem era ainda, a rotina é colocar o nome numa etiqueta presa na roupa, olhei e dizia 'John Lennon'. Uma enfermeira não acreditou, disse ‘não parece John Lennon, não pode ser.’  De repente ouvi alguém chorando e entrou Yoko Ono, aí tivemos certeza de quem era e algumas pessoas da equipe começaram a chorar." Lynn logo constatou que as  balas [hollow point, se abrem ao atingir o alvo para causar danos máximos] tinham destruído todos os vasos sanguíneos que saíam do coração, a aorta e suas ramificações: "Ficou claro que nada mais havia a fazer, mesmo assim eu massageei o coração com  as mãos numa tentativa de fazê-lo bater e fizemos uma transfusão de sangue, mas, com todos os vasos sanguíneos destruídos, de nada adiantou. Restou-nos declarar o óbito. Ficamos todos em estado de choque e muitos choravam compulsivamente." 

Estas declarações incoerentes do médico refletem a perplexidade e o estado de choque dele e da equipe. Se estava morto, como ressuscitá-lo? Se o sistema circulatório foi destruído, para que massagear o coração e fazer uma transfusão?

Yoko Ono na saída do hospital Roosevelt


O doutor Lynn saiu da sala para dar a notícia a Yoko. Sua primeira reação foi de negação. ‘Não é verdade. Você está mentindo. Não pode ser. Não acredito,’ disse ela segundo o médico, que prosseguiu: “Ela caiu, coloquei minha mão atrás de sua cabeça para evitar que batesse no chão. Chorava desesperadamente e repetia ‘não, não, não’. Uma enfermeira se aproximou e lhe entregou a aliança de John. Ela se conteve e pediu que não divulgassem nada até ela chegar em casa e contar a Sean, que devia estar assistindo televisão àquela hora.




Não foi possível atender ao pedido porque um jovem jornalista da rede de TV ABC, Alan Weiss, sofrera um acidente de motocicleta e estava sendo atendido na emergência. Quando soube do que se tratava, imediatamente ligou para a redação e a ABC foi a primeira a dar a notícia. Sean não estava vendo TV, já tinha ido dormir. Numa entrevista a Philip Norman, autor da biografia John Lennon, A Vida, lançada aqui pela Companhia das Letras, Sean disse que acordou no dia seguinte sem saber de nada: “Senti uma atmosfera muito estranha na casa, todas aquelas multidões do lado de fora. Minha mãe sentada na cama debaixo do cobertor e eu juro que me lembro de ter visto um jornal, quase entendendo algo da manchete. Lembro de ficar de pé ao lado dela, enquanto me dizia ‘seu pai levou tiros e morreu’. E lembro que a coisa mais importante para mim era que não queria que ela me visse chorar. Lembro-me de dizer: ‘Não se preocupe mamãe. Você ainda é jovem, vai encontrar outra pessoa’. Aos cinco anos de idade achava que aquilo era a coisa mais madura pra dizer.”

Terceiro Ato


O assassino Mark Chapman encapuzado na delegacia


Às duas da madrugada, o porta-voz da polícia, James Sullivan, falou com centenas de jornalistas apinhados na sala de imprensa do 20º distrito no nº 120 da Rua 82 Oeste.

– Pedimos que viessem para dar um breve relato do que sabemos até agora sobre o homicídio de John Lennon. Prendemos Mark David Chapman, residente na Rua South Kukui 55, no Havaí, pela morte de John Lennon. É caucasiano, pele bronzeada, um metro e setenta, 80 quilos, cabelos castanhos, olhos azuis, 25 anos de idade. Nascido no dia 10 de maio de 1955, aparentemente está em Nova York há mais ou menos uma semana, tendo se hospedado na Associação Cristã de Moços e no Sheraton Centre. Ele esteve rodeando o prédio Dakota nos últimos dias e conseguiu obter um autógrafo num disco de Mr. Lennon quando este saía para o estúdio. Permaneceu no Dakota de noite esperando que Mr. Lennon voltasse. Pouco antes das 11 horas, John Lennon e sua esposa chegaram de volta ao Dakota numa limusine que parou na frente do edifício. Existe uma entrada de automóvel que podia ter sido usada. Os dois saíram e andaram até a arcada do Dakota. Este indivíduo, Mr. Chapman, veio por trás e chamou “Mr. Lennon”. Em seguida, em posição de combate, esvaziou o revólver Charter Arms calibre 38. O sr. Lennon gritou “Fui baleado”, subiu os degraus, empurrou a porta e caiu.”

O revolver 38 special calibre 38 que matou John Lennon


Coda





Centenas de pessoas se aglomeraram em frente ao Dakota, assim que a notícia se espalhou, cantando Give Peace A Chance. Muitos choravam, portavam velas e bastões de incenso. Lá dentro Yoko ligou para Paul McCartney e para Mimi, a tia que criou John. Ela foi acordada e, quando disseram que era Yoko, sua primeira reação, ainda sonolenta, foi dizer: “O que ele aprontou desta vez?” Ringo, que estivera com John dois meses antes, pegou um avião para Nova York nas Bahamas com a noiva Barbara Bach, desembarcou e foi direto para o Dakota. Julian Lennon, filho do primeiro casamento, veio do País de Gales. Paul McCartney, pálido e abatido, falou com a imprensa na saída do Air Studio e pediu todo apoio a Yoko. Em comunicado, emitido mais tarde, Paul disse que as diferenças entre os dois, na reta final dos Beatles, de 1968 a 1970, eram coisa do passado e que se tornavam grandes amigos outra vez. George Harrison estava gravando quando recebeu a notícia. Interrompeu e foi para casa. Mais tarde, num comunicado, disse: “Depois de tudo que passamos juntos eu tinha e ainda tenho um grande amor e respeito por John. Estou atordoado. Roubar uma vida é o roubo mais definitivo.” 

O corpo de Lennon foi cremado dia 10 de dezembro no Ferncliff Cemetery em Hartsdale, Nova York. Não houve velório. Yoko Ono espalhou as cinzas no Central Park, onde cinco anos depois construíram o Strawberry Fields Memorial.

Memorial para John Lennon, Central Park



O Assassino

Mark Chapman na época da prisão e em 2018


Mark David Chapman, hoje com 64 anos, está confinado desde 15 de maio de 2012 na Wende Correctional Facility em Alden, estado de Nova York. Foi condenado a de 20 anos a prisão perpétua em 24 de agosto de 1981 e levado para a penitenciária de Attica, na cidade homônima do estado de Nova York, onde permaneceu até ser transferido. Pela sentença ele pode requerer liberdade condicional a cada 24 meses após 20 anos de prisão e o fez no ano 2000. Desde então teve o pedido negado 10 vezes, a última em 28 de agosto de 2018. A próxima audiência de condicional é em agosto de 2020.

Na época do processo, Chapman citou argumentos religiosos e acusou John de hipocrisia para justificar seu crime. Ele se mostrou irritado com o primeiro álbum solo John Lennon/Plastic Ono Band (1970) pela música God, em que Lennon proclama descrença em tudo, incluindo Jesus, e diz que Deus é um conceito que usamos para medir nossa dor.  E ainda pela declaração dele em 1966 de que os Beatles eram mais populares do que Jesus. "Eu fiquei com raiva porque ele disse que não acreditava em Deus e não acreditava nos Beatles. Quem ele pensa que é, falando essas coisas contra Deus, o céu e os Beatles. Uma nuvem negra tomou minha alma de tanto ódio e revolta.”





A mulher dele, Gloria, afirmou: "Ele ficou com raiva que Lennon pregasse o amor e a paz e tivesse milhões de dólares.” Chapman ampliou: “Ele nos dizia para imaginar que não tínhamos bens e lá estava ele, com milhões de dólares, iates e mansões no campo, rindo de gente como eu que acreditava nas mentiras dele, comprava os discos e que tinha sua vida influenciada pelas músicas dele.”


Gloria Chapman


Chapman tem bom comportamento, se diz religioso e tem direito a uma visita íntima de 42 horas por ano da mulher Gloria.



Observações


Este é o relato mais fiel que consegui levantar através de pesquisas em livros e na internet. Há várias discrepâncias nas pesquisas, os horários certamente são aproximados, algumas informações contraditórias são absurdas, como os nomes dos quatro policiais que chegaram primeiro ao Dakota. Bastava olhar a ocorrência na delegacia para ver os nomes, mas há vários deles citados na mesma hora e no mesmo lugar. Optei pelos citados mais vezes. 




Um erro comum repetido em vários livros, incluindo em John  Lennon A Vida, de Philip Norman, que citei, é que John  tomou o desjejum no Café La Fortuna, que ficava a um quarteirão do Dakota. Frequentadores do La Fortuna na mesma época disseram a um documentário da BBC que o La Fortuna não abria às segundas, dia de folga do pessoal. Acreditei no depoimento do doutor Stephan Lynn  porque em momentos muito traumáticos a gente costuma lembrar de tudo, daí lhe dei este crédito. 

Boa parte do material acima é do livro A Balada de John e Yoko, autoria da equipe da revista Rolling Stone, que cobriu extensivamente os Beatles e a carreira solo de John Lennon e fez a última entrevista com ele. Foi editado em 1983 aqui pelo Clube do Livro, da Editora Abril. Há exemplares à venda no Mercado Livre. Recomendo.

Obs. A ferramente é instável em relação ao espaçamento entre fotos e textos, uns maiores, outros menores. Não consigo acertar. Sorry. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Projeto Legião Urbana XXX anos faz show impecável em Porto Velho

Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá - Fotos de Diego Matheus

Não costumo esperar nada do sábado à noite aqui em Porto Velho, mas este foi diferente. Muitas emoções, bicho. O Projeto Legião Urbana XXX Anos baixou aqui para revisitar as canções do segundo álbum da banda, Dois (1986) e o terceiro, Que País É Esse (1987), este um registro do repertório do Aborto Elétrico, primeiro formação punk de Brasília, que tinha Renato Russo e os irmãos Fê e Flávio Lemos, ambos hoje no Capital Inicial. Mais do que revisitar foi uma recriação do repertório, com um som vigoroso que foi ao hardcore várias vezes sob o comando de Dado Villa-Lobos numa das melhores performances que vi e foram muitas. Os dois legionários, Dado e Marcelo, sentiram a porrada do massacrante calor amazônico, não passaram bem, mas prevaleceu o profissionalismo. As cinco mil pessoas que foram à Talismã 21 dançaram e cantaram a maior parte do repertório, incluindo os 168 versos da cinematográfica Faroeste Caboclo, a saga do indigitado João de Santo Cristo.
O show comemorou o oitavo aniversário do Grego Original, uma casa de rock aqui de Porto Velho que está se mantendo numa cidade majoritariamente breganeja. 


André Frateschi e Dado Villa-Lobos

O primeiro bloco com músicas de Dois, a começar por Daniel na Cova dos Leões, me jogou numa viagem de lembranças dos primeiros shows no Circo Voador com Renato equilibrando um baixo Rickenbacker maior que ele e noites memoráveis no Noites Cariocas. Good times, mas vale o presente. Dado e Marcelo encontraram em André Frateschi o intérprete perfeito para seu repertório. Canta à sua maneira, performance de palco própria e com respeito por estar interpretando um dos maiores legados musicais da História de nossa música. No camarim perguntei a ele se tinha assistido shows da Legião com o Renato no vocal, disse que sim, então tem conhecimento de causa do que está fazendo. A banda também não é mais a mesma, reformulada musicalmente para um som mais pesado. Uma segunda guitarra com Lucas Vasconcellos, que segura a base e faz alguns solos, o performático baixista Mauro Berman e Rodrigo Tavares nos teclados e programações.


Lucas Vasconcellos (guitarra e violão)

Quase Sem Querer, suave em disco, ganhou peso e o coro da plateia. Eu Sei, também conhecida como Sexo Verbal, ganhou um solo rasgado de Dado, que mandou power chords em Índios.
Os dois titulares cantaram várias. Marcelo abriu o bloco punk com Tédio e Dado fechou com Conexão Amazônica, adequada por estarem in loco, e verdadeira porque Rondônia faz fronteira com a Bolívia e muita cocaína é apreendida aqui, então muitas vezes a conexão amazônica está interrompida, mas sempre retomada porque há narizes ávidos por toda parte. Musica Urbana 2 vai sem Dado, André canta e toca gaita. Depois faz uma homenagem a quem chama de maior compositor e cantor do Brasil e grita pelo nome de Renato Russo. A casa vem abaixo, muita emoção rolando. Marcelo deixa a bateria para cantar a saga do improvável casal, o prosaico Eduardo e a intelectual Monica, com cinco mil vozes no apoio. No final, volta para a bateria e fazem um grand finale estendido.


Mauro Berman (baixo)

É hora da épica saga de João de Santo Cristo, Faroeste Caboclo, outra grande comunhão de palco e plateia, com os músicos no final pulando pelo palco. Aliás, os que podem se movimentam bastante.
Em Que Pais é Esse um momento marcante. André passa uma toalha num vinho derramado e a levanta “ensanguentada” nos versos “Terceiro mundo se for, piada no exterior. Mas o Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão. Quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão,” gesto bem adequado ao clima de terror vigente nas reservas indígenas com invasões e assassinatos de líderes.


Rodrigo Tavares (teclados e programações)

Reta final, as suaves Angra dos Reis e Andrea Doria, porrada em Fábrica. Dado encerra com Tempo Perdido, todos cantam com ele este hino de esperança de quem julga ter todo o tempo do mundo, o que Renato não teve. 


Dado Villa-Lobos

Rápida saída e volta para um alentado bis que começa com Marcelo cantando Vento no Litoral marcando numa pandeirola, de repente espatifa o instrumento com força no chão. Na hora dos versos “Olha só o que eu achei, cavalos marinhos” teve um momento de raiva e falou “Achei cavalos marinhos e não manchas de óleo”, vai ao fundo do palco e volta para finalizar a canção. 



Marcelo Bonfá

Dado emenda com Giz, seguida por Há Tempos, do disco seguinte aos dois do show, As Quatro Estações (1989), que a plateia canta junto na empolgação, que emenda com Será, do álbum de estreia que levou o nome da banda (1985). Fecha os trabalhos com o manifesto político Perfeição, do álbum O Descobrimento do Brasil (1993). Eles me comentaram que, em todos os anteriores, a plateia mandava o “Fora Bolsonaro”, mas não rolou em Porto Velho.



Foto de Ticiane Moura

Duas horas de show sem a gente sentir, prova da excelência da banda e do repertório. Deram um tempo no camarim e partiram para pegar suas coisas no hotel com voo para o Rio marcado para 4h40 da madrugada, uma escala e total de quase seis horas de volta. Esta é a vida de músicos. Para fazer o que gostam, duas horas de palco, espera em aeroportos e voos longos, mas felizes pelo dever cumprido e pela alegria levada a uma plateia que adoraram.
Urbana Legio Omnia Vincit mais uma vez.






segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Balanço do Rock in Rio de Elza Soares a Iron Maiden

Elza Soares - Foto de Rogerio Bezerra

Aqui o melhor das atrações do Rock in Rio que assisti pela web.

Elza Soares - Aos 89 anos, fez o show mais importante do Rock in Rio. Num festival em que o protesto com a situação atual do Brasil partiu mais da plateia que do palco. Elza mostrou ser a artista mais relevante não apenas do festival, mas do país. Sentada, por força do peso da idade, sua voz poderosa conclamou todos a irem para a rua, criticou a situação atual de desemprego, defendeu os pobres, principais alvos da cassação de direitos trabalhistas e civis da era bolsonarista, lembrou a canção Comportamento Geral, lançada por Gonzaguinha em 1973, que critica a passividade do povo brasileiro e que se aplica perfeitamente aos dias de hoje. Criticou o racismo com ênfase na defesa da mulher negra.
Musicalmente a roupagem de Elza é contemporânea, fase iniciada em 2014 com o disco de bases eletrônicas A Vox e a Máquina. Desde então lançou três álbuns muito elogiados, A Mulher do Fim do Mundo (2015), Deus é Mulher (2018) e o recente Planeta Fome (2019).


Iza - Foto de Luck Veloso

Iza - Na área pop sai consagrada Iza, revelação recente que conseguiu uma projeção rápida a partir de seu single Pesadão, do final de 2017, uma das músicas mais tocadas no ano passado. Aceita pela Globo, virou técnica do The Voice e chegou ao Rock in Rio com um show bem produzido de sucesso que unânime, suficiente para alavancá-la para o Palco Mundo. Linda, excelente forma física, vozeirão, canta e dança sem voz de apoio, nova nomenclatura para playback criado por Anitta.

Robert Fripp - Foto de Luck Veloso

King Crimson – Banda mais importante do festival, embora não do agrado da maioria do público presente ao domingo pop do RiR. Formação sofisticada que vai do rock ao jazz ao experimentalismo, ênfase no ritmo com três bateristas, duas guitarras, uma delas a Gibson Les Paul do fundador Robert Fripp, uma belíssima performance no sax tenor, barítono, soprano e flauta de Mel Collins. 



Tony Levin toca o Chapman Stick - foto de Luck Veloso

Repertório reduzido por apenas uma hora de show, sete músicas, bem menos das 19 do show de São Paulo, mesmo assim lavou a alma da elite rocker.

Dave Matthews - Foto Rogerio Bezerra

Dave Matthews Band – Uma formação musical sofisticada, mas não complexa como o King Crimson. Suas canções, que não tem apelo popular, são executada com maestria  Dave faz a base  ao violão/guitarra, sopros guitarras e teclados enriquecem com solos e fraseados. Baixo e bateria seguram no groove. Mandaram uns covers espertos e muito bem recriados, Sledgehammer de Peter Gabriel, Sexymotherfucker, de Prince e Staying Alive de Bee Gees com o riff de Back to Black do AC DC.


Foo Fighters – Não sou fã da banda, mas reconheço sua competência ao vivo. Dave Grohl é um maestro de multidões, leva o povo para onde ele quiser. Puxa as canções na sua Gibson azul DG 335 e a banda vai atrás com competência. Tem hits suficientes para ser headliner e cumpre muito bem este papel.
Obs. Não nos deixaram fotografar Foo Fughters.


Nile Rodgers - Foto de Rogerio Bezerra



Nile Rodgers e Chic – Poucos músicos no mundo tem o currículo de Nile Rodgers, músico, compositor e produtor, funk old school de balanço irresistível, segura o groove na guitarra para a banda arrasar à sua volta.


Buchecha e Fernanda Abreu, No telão MC Sapão´- Foto de Rogerio Bezerra

Orquestra Funk e cantores, entre eles Fernanda Abreu, Buchecha e Ludmilla – Não gosto de funk, mas é um estilo que reflete a realidade cultural do meio onde nasceu, as favelas brasileiras. As bases, precárias e mal produzidas, receberam um upgrade de responsa com uma orquestra afiada que tinha até fagote e trompa.

Lulu Santos - Foto de Rogerio Bezerra

Lulu Santos – maior hitmaker pop dos anos 80, além de exímio guitarrista, fez um show no Sunset que não teve erro, só sucessos, incluiu sua fase dançante e seu material mais recente próprio e de Rita Lee, de quem gravou um CD recriando parte da obra. O convidado Silva ficou apertado entre o repertório do titular, que lhe deu pouco espaço, parafraseando Luiz 14 “Le montrer, c'est moi”, o espetáculo sou eu.


Detonautas e Pavilhão 9 –  Atitude, entrosamento e repertório fizeram da apresentação dos Detonautas a melhor das bandas nacionais no RiR. Tico Santa Cruz mandou vários sucessos acompanhado pela multidão. Ele sempre foi politizado, desta vez propôs à plateia que se concentrasse em vibrações positivas num contraponto à negatividade que reina na era Bolsonaro. E ainda deu força ao Centro de Valorização da Vida que ajuda pessoas com depressão e em iminência de suicídio. Dividiu o palco com o Pavilhão 9, formação politizada que representa a periferia de São Paulo.

Iron Maiden- A noite do metal teve nove bandas, mas não há o  que discutir. And the winner is Iron Maiden!!!! A donzela não é mais de ferro, é de titânio, tal a potência da formação incipiente em 1975 com o líder Steve Harry e o guitarrista Dave Murray. A formação que veio agora fechou em 1999 com a volta de Bruce, quarto vocalista da banda ou quinto se contarmos Blaze Bayley, que o substituiu quando saiu para a carreira solo entre 1993 e 1999, e a volta de Adrian Smith, que saiu em 1990.
A banda uniu a melhor música com os melhores gimmicks, a começar pela réplica inflável do caça inglês Spitfire, da Segunda Guerra, pairando sobre o palco na abertura, as trocas de roupa, cenários, o inevitável Eddie etc. Eles começaram com a mesma fala do primeiro ministro  britânico Winston Churchill na Segunda Guerra Mundial, usada no primeiro Rock in Rio, em 1985, quando aqui vieram na World Slavery Tour: “Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; nunca nos renderemos, disse Churchill depois da retirada das tropas aliadas da França em 1940 derrotadas pelos nazistas.”
Os três guitarristas representam uma artilharia considerável sem parecer que há guitarras demais na banda. Tenho implicância particular com um tipo de solo técnico feito por guitarristas de várias bandas, aqui por Dave Murray principalmente, a sequência de notas na arte mais aguda do braço da guitarra que soam todos iguais, mas Adrian Smith e Janick Gers usam outras opções sonoras.


Andreas Kisser - Foto de Rogerio Bezerra

Melhores - Bruce Dickinson foi o maior vocalista do festival. Meu guitarrista favorito é Andreas Kisser, o que mais fugiu dos clichês sonoros, sempre criando sonoridades próprias de grande impacto que destacam o Sepultura diante das demais bandas,