terça-feira, 22 de maio de 2018

Despedida estrondosa de Ozzy no Rio




Texto e fotos de Cleber Jr.

Ozzy avisa que esta é sua última turnê mundial. Não que deixará os palcos definitivamente, mas, provavelmente, não virá mais por essas bandas. O Rio de Janeiro foi a última data, numa Jeunesse Arena com bom público e, acima de tudo, animado, para cantar junto com o Príncipe das Trevas os clássicos de sua extensa carreira. Junto com Ozzy uma banda espetacular, onde o destaque é o brutamonte Zakk Wylde que deixa sua marca esmerilhando solos e riffs com técnica e garra.

O set list não mudou pelos palcos do Brasil e o show começa a projeção de uma apresentação com fotos de Ozzy criança seguindo ao longo da carreira, para emendar com Bark at the Moon. Em seguida Mr. Crowley, que tem sua introdução tocada por Adam Wakeman nos teclados e uma parada estratégica para o público soltar a voz no início da letra, mas, a turma estava mais preocupada em registrar com os celulares e perdeu a chance. Ozzy chamou o público de volta, mas o clima já havia sido quebrado.

Pausa para uma água e I Don't Know dá continuidade ao álbum Blizzard of Ozz, o primeiro de sua carreira solo, que fornece quatro músicas para o set com um encaixe antes da quarta para recordar pela primeira vez o Black Sabbath, com a bela Fairies Wear Boots. Os álbuns Blizzard e No More Tears forneceram quatro músicas cada para o set.





Como o tom é de despedida, Suicide Solution, me fez lembrar de Randy Roads, seu primeiro grande parceiro pós Sabbath, que renovou a carreira de Ozzy com sua técnica incendiária e, de certa forma, mostrou o caminho para o cantor ir atrás de jovens e excelentes guitarristas.

Já que estamos na Zona Oeste do Rio, o palco se ilumina de vermelho e War Pigs vem bem a calhar com o momento que a região vive, uma verdadeira zona de guerra, em nome da paz. Em que os versos “Politicians hide themselves away. They only started the war. Why should they go out to fight? They leave that role to the poor,” se encaixam perfeitamente.

Zakk Wyld assume o comando, sola alucinadamente e desce para tocar próximo do público, enquanto Wakeman, Tommy Cufletos na bateria e Blasko no baixo seguram a onda lá do palco e Ozzy dá uma respirada. Cufletos não tem o mesmo tempo, logo após Zakk encantar a turma do gargarejo e deixar aflito quem não estava tão perto para fazer o seu selfie, ele fica só no palco e emenda seu impressionante solo de bateria, com participação ativa do público.

Zakk Wylde

Na sequência,  a parte final do show  com a banda de volta para emendar Shot in the Dark , I Don't Want to Change the World e Crazy Train em que, incentivado por Ozzy ,o publico enlouquece e faz o primeiro ensaio para uma roda.

Praticamente sem intervalo para o bis e incentivada por Ozzy a platéia urra "one more song!" A triste Mama, I'm Coming Home dá o tom de despedida, mas ainda dá tempo de Paranoid, o maior clássico do Black Sabbath enlouquecer de vez a legião de seguidores de Ozzy e ninguém fica parado. O velho Ozzy se despede, deixando em quem assistiu a sensação de sempre... Ozzy é o melhor!!





Obs. As fotos foram feitas de celular, a produção do show, não permitiu nem divulgou fotos do show.

SET LIST:
1- Bark at the Moon
2 - Mr. Crowley
3 - I Don't Know
4 - Fairies Wear Boots (Black Sabbath)
5 - Suicide Solution
6 - No More Tears
7 - Road to Nowhere
8 - War Pigs (Black Sabbath)
9 - Solo de Zakk -  Miracle Man / Crazy Babies / Desire / Perry Mason
10 - Solo de Tommy Cufletos
11 - Shot in the Dark
12 - I Don't Want to Change the World
13 - Crazy Train
BIS:
14 - Mama, I'm Coming Home
15 - Paranoid (Black Sabbath)
16 - Changes (Black Sabbath) música ambiente



domingo, 6 de maio de 2018

Paralamas voltam a Porto Velho após 18 anos e arrasam

Fotos de Licias Santos

Os Paralamas do Sucesso fizeram seu primeiro show em 18 anos aqui em Porto Velho, Rondônia, na imensa e requintada Talismã 21 na noite deste sábado. Foram tantas emoções a ponto de Herbert dizer que a acolhida fazia valer a pena o deslocamento (cinco horas de vôo, dois aviões).

A banda trouxe o show completo com telão e luzes feéricas, o volume estava satisfatório, mas havia algum embolamento, com a guitarra de Herbert mais alta que o restante. Em algumas partes da casa ficava mais definido. Claro que isso não faz a menor diferença para o público, que ali está para se divertir e celebrar um reencontro que demorou tanto.

A noite não começou bem. Uma banda local de covers assassinou sem piedade sucessos do rock brasileiro dos anos 80 e 90. Zero entrosamento, um frontman de voz potente, mas ruim em afinação e interpretação. Foi uma hora de tortura auditiva que terminou com o massacre de Another Brick In The Wall Part 2 do Pink Floyd.

Herbert Vianna

Uma hora da manhã (duas no Rio) Paralamas no palco. Telão solta imagens, as moving lights bailam, abre com a faixa título do novo álbum Sinais do Sim, seguida da também recente Itaquaquecetuba , com o povo ainda na animação da entrada deles. Há várias maneiras de fazer um setlist. Se o artista entra com um hit, a empolgação de sua entrada emenda com o sucesso e vira delírio.
Os Paralamas entraram com duas novas, curtas, ainda no impacto da entrada e, antes que o entusiasmo esvaísse, mandou Meu Erro e a temperatura subiu novamente.

A banda mantém a mesma formação agregada há décadas, daí o ataque musical devastador. Bidu Cordeiro (trombone), Monteiro Junior (sax tenor) e o mestre João Fera fazem complementos essenciais para as músicas antigas ganharem nova vida e as mais recentes brilharem. Bi Ribeiro manda sua base sólida no baixo e João Barone é o coração do trio com suas levadas precisas e viradas criativas.Se os músicos não se movimentam, o som, como dizem os axezeiros, tira o povo do chão.


João Barone

Daí em diante eles foram regulando a temperatura da “rapaziada”, como Herbert diz, entre sucessos e menos conhecidas. Ele ataca também de MC com apelo para a plateia levantar as mãos, indaga quem era nascido antes das músicas mais antigas, apresenta os músicos com adjetivações extremas. Herbert é gente finíssima, suporta com elegância, resignação e elevado astral o fardo que a vida lhe impôs de ficar numa cadeira de rodas. E até brinca em Vital e Sua Moto ao cantar “em cima dessas rodas também bate um coração.”  Um lance peculiar é que a banda não costuma sorrir no palco, como veem pelas fotos. Todos muito concentrados em dar aos fãs o que vieram buscar. E recebem um forte feedback que, como disse Herbert, vale o deslocamento do Rio com escala em Brasília, num total de quase cinco horas de voo. Por isso ele agradeceu várias vezes a vibração da plateia.


Bi Ribeiro

Em Sempre Assim, Herbert convidou todos a dar um pulo em Jamaica na batida dolente deste reggae do último disco. Falou sobre “a batida do blues que vem do coração,” citou grandes mestres como Jimi Hendrix, Eric Clapton e Led Zeppelin (Jimmy Page) ao dizer que todos foram influenciados pelo blues e que Caleidoscópio ia na mesma vibe. Para fazer jus aos citados, Herbert fez solos inspirados, incluindo o final em que ficou só, mandando ver num solo longo, o que não é habitual. Seus solos sempre servem à música e não o contrário.


João Fera

No meio do show a banda encaixa um set sobre violência com três canções que remetem para a violência urbana, bem menor aqui em Porto Velho do que no Rio. O Calibre se refere às balas perdidas que tanto matam nos versos “Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo, sem saber o calibre do perigo. Eu não sei, da onde vem o tiro. ” Selvagem fala no “grande monstro a se criar”, os garotos que pedem esmola nos sinais e O Beco fala na explosão de violência. Depois de volta ao romântico, incluindo o hino Lanterna dos Afogados, um solo memorável no sax de Monteiro Junior e meu solo favorito de Herbert. Na reta final Ska bota todo mundo pra pular junto com Vital e Sua Moto e Alagados. No bis a instrumental chacoalhante ao estilo afro-baiano Bundalelê e Óculos. Zé fini.

Duas e meia da manhã, o povo sai lentamente. Uma chuva fina cai na madrugada amazônica de Porto Velho, uns enfrentam, outros esperam. Uma bela noite.



Obs. Não tive foto aproveitável de Bidu e Monteiro, estavam sem iluminação alguma. Sorry.


SETLIST
Sinais do Sim
Itaquaquecetuba
Meu Erro
Lourinha Bombril
Capitão de Indústria
Uns Dias
A Outra  Rota
O Calibre
Selvagem – O Beco
Aonde Quer Que Eu Vá
Busca Vida
Sempre Assim
O Amor Não Sabe Esperar
Olha a Gente aí
Lanterna dos Afogados
Cuide Bem do Seu Amor
Caleidoscópio
Uma Brasileira
Ska
Vital e Sua Moto
Alagados
BIS
Bundalelê
Óculos

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Festival Art Mix reuniu seis bandas no Vivo Rio

Mauricio Kyann - Nove Zero Nove - Fotos de Cleber Junior

Estive na noite finada de quinta no Vivo Rio para a primeira noite do festival Rio Art Mix, patrocinado por uma bebida que nunca tinha ouvido falar, Catuaba Selvagem. Como não bebo há uns 25 anos, saí sem provar a dita cuja que era oferecida por gatas vestidas de anjos (não existe feminino, anjo não tem sexo). No lineup quatro bandas novas, duas conhecidas CPM 22 e Autoramas.



Drenna

Por algum problema não diagnosticado, o imenso lugar estava vazio quando cheguei, foi enchendo, mas não deu meia casa. Especulava-se falta de divulgação, lugar grande demais, o dia de finados e até a logo do festival e o nome, que não dão ideia de um festival de rock, parece de uma feira de arte. Louvável abrir espaço para bandas que estão na batalha do reconhecimento e espero que, avaliadas as falhas, se faça nova edição no ano que vem. Há planos até de estender para outros estados.


Badauí - CPM 22

Vi três das seis bandas, ficar altas madrugadas no more. Na abertura estranhei o show da Nove Zero Nove. Conheço e gosto da banda, mas não foi uma boa apresentação. O som estava embolado, não havia entrosamento, estava desarrumado, o microfone de voz audível só quando o Maurício Kyann gritava. A guitarras de Paulo Pestana e Pedro Arruda mal timbradas e quando Rafael Cabral dava viradas, ouvia-se apenas uma parte dos tambores. Perguntei para a baixista Eliza Schinner o que tinha acontecido, incluindo se tinha bom retorno. Resposta: “Eu estava ouvindo direitinho. Na verdade, tudo MUITO embolado. Tivemos QUINZE MINUTOS de passagem de som. Não deu nem pra passar a bateria, naquele esquema bacana em que você passa bumbo, caixa, tudo separado. Foi tudo de uma vez. Subimos no palco 19h45 pra passar o som e mandaram sair às 20h. Ou seja...não tem como ajeitar um som desse jeito.”

Pois é, sacanagem com uma boa banda. Além disso o vocalista Mauricio Kyann podia ser menos panfletário e se concentrar mais no seu ofício, sem ficar apenas berrando o tempo todo e falando bobagens como “vamos arrasar e  nada vamos deixar pro Chico Buarque.”  Chico fará temporada na mesma casa.


Eliza Schinner Baixo - Nove Zero Nove

Intervalo, tome Catuaba aplicada pelas anjos até que chegou a hora de Drenna. Som da banda impecável, equilibrado, voz clara e nítida, pelo jeito passaram o som de maneira decente. Drenna faz um pop rock de excelente qualidade, boas letras, melodias agradáveis e interpretação segura. Ela toca guitarra em algumas músicas, mas fica apenas ao microfone em outras e apresenta também uma boa performance de palco. Ao lado dela três músicos muito bem entrosados e seguros:  Milton Carlos (bateria), Bruno Moraes (baixo) e Junior Macedo (guitarra). Quando o som e a banda não estão legais eu fico tenso, incomodado, quando está tudo certo, como foi com a Drenna, eu relaxo e entro na vibe do show, que foi bom do começo ao fim. Drenna tem hits em potencial no álbum Desconectar, a faixa título e Ela Vai Chamar Sua Atenção, além de Anônimo e Andar Sozinho. Além de uma bela  versão para Roda Viva, de Chico Buarque, com um arranjo pesado com climas que ilustram o protesto da letra alusiva à ditadura: "a gente quer ter voz ativa. No nosso destino mandar. Mas eis que chega Roda Viva e carrega o destino pra lá."


Kauan (Folks) em participação com a Nove Zero Nove

Não gosto do CPM 22 e nunca tinha visto ao vivo. Da geração surgida nos anos 90 que levou o rótulo de Emo, hardcore melódico, nunca me agradou aos ouvidos. Como foram a terceira atração da noite, lá fui eu grudar na grade pra ver como a banda funciona no palco. O som é coeso, integrado, com muito punch. O único integrante original é o vocalista Badaui, Japinha (batera) e Luciano entraram em 1999,  o guitarrista Phil em 2014 e o baixista Fernando em 2016. A banda toca com o pé embaixo o tempo todo, mesmo uma música que Badaui diz ter feito em homenagem ao pai falecido é uptempo.

Junior Macedo - Drenna

Dois guitarristas se revezam em solos e base, cada um sabe sua parte, me pareceu que é sempre a mesma coisa e não vi espaço para muitos improvisos. Badaui não é um grande vocalista, é o trivial simples que dá conta do recado, não faz modulações e canta quase sempre do mesmo jeito. E é o rei das rimas pobres em letras que falam de relacionamentos, muitas rimas de verbos com verbos e truques como  a surrada formula mim-enfim-assim-fim. Uma galera teve acesso ao pit em frente ao vocalista, que fez o show para eles, não se movimentou no palco, ficou direto no centrão, não é do tipo que agita o público.

A maior parte da plateia estava presente por causa deles. Cantaram, dançaram, pularam, meninas embevecidas não sei com que. Quando acabaram, o publico pegou o beco, ficou vaziaço e ainda faltavam três bandas. Botar a banda mais popular no meio dá nisso. Completaram o lineup de ontem Alfie Sá, Autoranmas e Black Alien. O festival acaba nesta sexta com Monstros do Ula Ula, Deia Cassali, SuperCombo, Rocca vegas, Rico Dalasam  Raimundos.




O amigo Cleber comentou que os jovens hoje só querem saber de banda conhecida e me perguntou se era assim nos anos 80. Respondi que era um panorama e uma juventude bem diferente da atual. Não havia internet, o jovem tinha que correr atrás de uma música com a qual se identificasse. E não havia a princípio, escutavam rock gringo e a MPB de então não lhes agradava. Daí a música deles nasceu dentro da própria geração.

ABruno Moares (baixo) - Drennadicionar legenda

Hoje em dia há muitas opções e o jovem que só quer saber de coisa conhecida na verdade está desprezando a ele mesmo, que também é novo e se identifica com músicas massificadas, não procura a identidade musical de sua geração. Não sabe, mas quem perde é ele mesmo.



SETLISTS
Drenna
Intro
Retorno
Anônimo
Ela vai chamar sua atenção
Roda viva
Andar sozinho
Sabotagem
Alivio
Desconectar
Entorpecer

Nove Zero Nove
Mártir
Levanta
Cova Rasa
Temporal
Desfaz
Ode Química (Pinguim)
Mendigo
Happy End

Obs. Os músicos da Drenna tiveram mais destque nas fotos porque ela colocou no site nome e foto de cada um, o que não acontece com a Nove  Zero Nove. Quer ser mais divulgado, organize-se.

domingo, 29 de outubro de 2017

Paralamas do Sucesso arrasadores no Vivo Rio

Fotos de Cleber Junior

Estive na noite de sábado num Vivo Rio lotado para o lançamento no Rio do concerto Sinais do Sim, dos Paralamas do Sucesso. Noite abençoada pelos deuses da música, uma banda impecável com um setlist diferenciado em que alguns sucessos foram trocados por canções significativas de um mesmo álbum. Exemplo? Viernes 3 AM, de Hey Na Na, em vez de Ela Disse Adeus. Uma escolha que nos permitiu curtir lindas canções fora do óbvio. O artista pode ficar preso nas músicas consagradas, deixar de lado um material rico que não chegou às paradas. O publlco martela para ouvir o óbvio, mas, se é realmente fã do artista, deve entrar em sintonia com o que ele lhe apresenta ao vivo, deve ir, ver e ouvir.

Herbert Vianna

Destaco no setlist um bloco dedicado ao medo nosso de cada dia nos grandes centros urbanos, especialmente no nosso conflagrado Rio de Janeiro o que, felizmente, não nos abate, se não o Vivo Rio estaria vazio. “Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo. Sem saber o calibre do perigo. Eu não sei d'aonde vem o tiro,” dizem os versos de abertura de O Calibre, palavras que batem no peito dos cariocas, o poeta Herbert Vianna como cronista de seu tempo, numa levada pesada que traduz o perigo que denuncia. Emenda com Selvagem, que aponta uma realidade cotidiana: “”A cidade apresenta suas armas. Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos. E o espanto está nos olhos de quem vê o grande monstro a se criar.” É de 1986. O monstro cresceu e aterroriza a população. Uma guitarra distorcida marca a levada e João Barone dá umas porradas na bateria que soam como tiros, especialmente quando uma luz forte acende a cada porrada.

Tem mais. “No beco escuro explode a violência,” começa O Beco, com descrição de atos violentos e, ao final “nada mais me deixa chocado, nada.”  Finalmente, Medo do Medo, da rapper portuguesa Capicua que alinha todos os nossos temores, da policia, da justiça, do desemprego, “de morrer mais cedo que a prestação.”

Bi Ribeiro

O restante do repertório nos permite viajar por sentimentos mais lúdicos, tudo muito bem embalado numa produção magnífica. Um show de luzes em movimento envolve o palco em cores múltiplas, incluindo luzes amarelas fortes na cara da plateia – Os designers adoram cegar o publico. Um telão mostra imagens muito bem transadas que ilustram as músicas e mostram diversas fases ao longo de 34 anos. Como sempre me acontece, lá fui de volta aos primeiros shows que vi, no bar Western e sob a lona mágica do Circo Voador, quando a banda só tinha repertório para 45 minutos de show e, num deles, tocou tudo de novo para uma “galera” entusiasmada. Realmente um longo caminho.

João Barone

A banda abriu com duas novas, Sinais do Sim e Itaquaquecetuba (imagino o que Herbert ensaiou pra pronunciar isso), duas boas amostras do novo lançamento, seguidas de dois sucessos, Meu Erro e Lourinha Bombril. Ótima qualidade de som, a bateria bem microfonada com o bumbo audível, Herbert com uma Les Paul. Setlist montado com alternância de sucessos e menos conhecidas, mais palatável para o público.  Não me lembro de ter ouvido Capitão de Indústria, devem ter tocado no tour de Hey Na Na no distante 1996, belo arranjo.


Mestre João Fera

Arranjos são um forte na banda. O trio conta com reforço do estre João Fera (desde 1986) e com os sopros de Bidu Cordeiro (trombone) e José Monteiro Junior (sax tenor). Falta um trompete para completar o naipe, enriqueceria bastante, em Lanterna dos Afogados, o solo original é de trompete e Monteiro faz um timbre aproximado, que não soa da mesma maneira. O solo é maravilhoso, o povo aplaudiu e é seguido por um dos mais belos solos de Herbert, que tinha a voz limpa sem a rouquidão de alguns shows que vi e, felizmente, abandonou um vibrato que passou a usar depois do acidente.

Bidu Cordeiro (trombone), Monteiro Junior (sax tenor)

Herbert não gosta de grandes solos, ele não veste a camisa de guitar hero, dá o recado curto e virtuoso, só se espalhou ao final de Caleidoscópio num pegada que delirou o povo. João Barone é um show à parte, parece que tem dois bateristas tocando, prefere viradas curtas de efeito, explorando os timbres de cada tambor e prato. Bi Ribeiro, como já disse Liminha, é um chão absurdo, a banda repousa sobre sua base trovejante, só não gostei de ele ficar no escuro a maior parte do tempo. Ele não se movimenta, fácil era botar uma luz em cima.




Ufa! ‘Tou falando demais. Gosto dos Paralamas, não à toa escrevi a biografia deles, Vamo Batê Lata, à venda nos sebos virtuais tipo Mercado Livre. Se deixar faço um tratado. Ah, João Fera, que músico maravilhoso, suas barbas brancas lhe dão um ar de mestre (e é), enriquece de maneira magistral as canções, seja na abertura de Lanterna dos Afogados e em A Outra Rota, um resgate do incompreendido álbum Os Grãos (1991). Uma que gosto muito é Viernes 3 AM, original de Charly Garcia, versão de Herbert Vianna, tema pesado, o narrador se mata no final, em versos de grande força poética: “Então levanta o cano outra vez e aperta contra a testa. E fecha os olhos e vê um céu de primavera. Bang! Bang! Bang! Folhas mortas que caem. Sempre igual. Os que não podem mais se vão.” Claro que os três tiros são ima licença poética, ninguém se mata com três tiros.

Quer saber. Um puta show de uma formação impecável, que, espero, ainda passe algumas vezes pelo Rio. Vale vários repetecos. Não tenho feito outra coisa desde 1982.

SETLIST
22h03
1. SINAIS DO  SIM – Faixa título (2017)
2. ITAQUAQUECETUBA – Sinais do Sim (2017)
3. MEU ERRO – O Passo do Lui (1984)
4. LOURINHA BOMBRIL (Parate y Mira - D.Blanco e Bahiano. Versão \herbert Vianna) – Nove Luas (1996)
5. CAPITÃO DE INDÚSTRIA (Marcos e Paulo Sergio Valle) – Nove Luas (1996)
6. UNS DIAS – Bora Bora (1988)
7. A OUTRA ROTA - Os Grãos (1991).
8. SOLDADO DA PAZ – Longo Caminho (2002)
9. VIERNES 3AM (Charly Garcia e Herbert Vianna) – Hey Na Na (1998)
10. O CALIBRE – Longo Caminho  ( 2002)
11. SELVAGEM – Faixa título (1986)
12 . O BECO – Bora Bora (1988)
13. MEDO DO MEDO (rapper portuguesa Capicua e João Ruas) – Sinais do Sim (2017)
14. SABER AMAR – Vamo Batê Lata (1995)
15. BUSCA VIDA – Nove Luas (1996)
16. AONDE QUER QUE EU VÁ (Herbert Viana – Paulo Sergio Valle) – Arquivo II (2000)
17. O AMOR NÃO SABE ESPERAR – Hey Na Na (1998)
18. SEMPRE ASSIM – Sinais do Sim (2017)
19. LANTERNA DOS AFOGADOS -  Big Bang – (1989)
20. CALEIDOSCÓPIO – Arquivo (1990)
21. OLHA A GENTE AÍ – Sinais do Sim (2017)
22. A LHE ESPERAR (Arnaldo Antunes – Liminha) – Brasil Afora (2009)
23. UMA BRASILEIRA (Herbert Vianna – Carlinhos Brown) Vamo Batê Lata (1995)
24. SKA – O Passo do Lui (1984)
25. VITAL E SUA MOTO – Cinema Mudo (1983)
26. ALAGADOS - Selvagem? (1986)
23h34
BIS
23h36
27. BUNDALELÊ  - Bora Bora (1987)
28. TEU OLHAR – Sinais do Sim (2017)
29. CUIDE BEM DO SEU AMOR – Longo Caminho (2002)
30. ÓCULOS – O Passo do Lui (1984)
23h49

FICHA TÉCNICA
Direção de arte e projeções: Batman Zavareze
Design de Iluminação: Cristiano Vaz e Marcos Olívio
Concepção artística: José Fortes e Paralamas
Roadie de Herbert - Helder Vianna
Roadie de Barone - Pedro Antunes
Roadie de Bi - Alexandre Duayer
P.A. (som para a plateia) - Leo Garrido
Monitor: Adriano Siuza
Produção: Orbilo Rosa e Robson Gonçalves



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Folks lança single que busca aproximação com identidade brasileira e trata da intolerância nas redes sociais

A turma toda que foi à audição - Foto de Daniel Santos

Estive quinta à noite na lendária Toca do Bandido, o estúdio criado pelo músico e produtor Tom Capone (1966-2004), para ouvir Sobre Viver, novo single da banda carioca Folks, uma prévia do álbum a ser lançado em 2018. Um trabalho primoroso de execução da banda com a produção de Felipe Rodarte, Folks honorário e principal produtor do Novo Rock. O single vai para as plataformas de streaming nesta sexta, 27 de outubro, mas a prévia reuniu integrantes das bandas Detonautas, Nove Zero Nove, Verbara, Pessoal da Nasa e Drenna, além de fãs que ganharam uma promoção para lá estar.

A canção é do vocalista Kauan Calazans com o guitarrista Paulinho Barros e o baterista PV. O tema é bem atual. Kauan conta que se incomoda muito com a agressividade, a descarga de coisas ruins e a intolerância nas redes sociais. Ele ficou pensando nesses assuntos, um dia o baterista PV disse-lhe uma frase, “Hoje eu sou mais, entendo o que faz bem.” Que lhe serviu como um gatilho e aí a letra saiu rapidinho. O refrão é poderoso, a banda ataca com intensidade para sublinhar versos que exaltam a liberdade para se misturar, outro tema em discussão constante nas redes sociais diante das mudanças que a sociedade vive atualmente. Em meio ao caos político e econômico há um novo pacto social em construção, novos termos de convivência, de aceitação, de compreensão que independem da podridão que emana de todas as esferas de governo. E a letra mostra isso também no título Sobre Viver, novas formas de conviver e sobre viver.

Viajei, mas acho que é por aí.


Da E - Felipe Rodarte (produtor), Paulinho Barros (guitarra), Sergio S (guitarra),  PV (bateria, atrás), Kauan Calazans (voz) e Guilherme Figa (baixo) 

A banda contou com participações do veterano percussionista  Edinho Souza, que passa a acompanhar a banda em shows, os teclados do colíder do Barão Vermelho Maurício Barros e, nos vocais, Drenna, líder da banda que leva seu nome e Nicole Cyrne vocalista da Blitz. A voz de Kauan ganhou uma textura mais grave, o trabalho do guitarrista Sergio S. é primoroso nos solos e comentários, brilha na canção inteira. Ele usou uma Gibson Les Paul 59 num amp Marshall Plexi Super Lead vintage que usa válvulas antigas, mesmo modelo que Jimi Hendrix usava. A canção pode ser um hit se devidamente divulgada em rádio e televisão, a mídia que projeta artistas. Publico a letra, mas não posso divulgar a canção antes do dia 27. Estará no meu programa Jam Sessions de domingo, 29.

Felipe Rodarte está a caminho de Las Vegas porque uma produção sua, o álbum Brutown, da dupla sergipana The Baggios, concorre ao Grammy Latino de melhor disco de rock na seção brasileira do prêmio. Ele é o principal produtor do novo rock e um pensador dos rumos desta geração. Fez uma exposição muito interessante antes de me mostrar a nova música. Aliás um tema que sempre abordei nas minhas matérias ao longo destes 35 anos em que cubro o rock brasileiro. Ele disse que a Folks busca agora uma identidade brasileira para sua música. Como rolou na Geração 80, começou com tinturas gringas, mas dissociada da nossa cultura. Hora de ir por caminho semelhante ao dos Paralamas, que começaram influenciados pelo Police e depois acharam um caminho na ponte África-Jamaica-Bahia ou o Barão Vermelho, inicialmente na linha Rolling Stones e depois num hard rock suingado.

Ele chamou a atenção para algo que eu já tinha sentido. Esta geração começou num nível bem mais alto do que a geração 80, basta comparar os primeiros discos de Paralamas etc com os atuais. No começo dos anos 00 eu não entendi porque a evolução demonstrada nos 80 e 90 se quebrou e apareceram formações medíocres. A maturação de uma geração mais consistente levou tempo.

Hoje aí estão com excelentes formações sem conseguir ainda conquistar espaço num mercado tomado pela mediocridade sertaneja e funkeira, com algumas exceções. Felipe Rodarte acredita que em algum momento a barreira vai se romper, eu espero que sim e faço minha parte, como sempre fiz.


Folks mais Fábio Brasil (segundo da esquerda p direita) e Renato Rocha (segundo da direita p esquerda) os Detonautas. E eu de enxerido. Foto de Felipe Rodarte

A falta de um suporte financeiro prejudica a evolução das bandas, tocam em lugares pequenos que pouco rendem. Num papo do lado de fora do estúdio, a querida Eliza Schinner, baixista da Nove Zero Nove, dizia que não se sentia incentivada a gravar um novo álbum porque tinham lançado um e nada aconteceu por conta do bloqueio. Argumentei e ela concordou que deve lançar singles periodicamente, um por semestre pelo menos, para criar ou renovar interesse. As bandas estão num trabalho lento de formação de público e elogiei a persistência desta geração, que batalha duro, toca onde der pra tocar, não importa o tamanho do lugar.

Enfim, espero ver esta geração vencer, como vi as anteriores vencerem.

Sobre Viver
(Kauan Calazans / Paulinho Barros / Pv)
Na busca pra não se sentir refém
A calma faz o instinto ir além
Hoje eu sou mais
Entendo o que faz bem

O brilho que é a arte de viver
Sabendo que a mente cria o ser
Hoje eu sou mais
Entendo o que faz bem

(Refrão)
Viva a liberdade
Viva a liberdade
Pra se misturar
Viva a liberdade
Ascender a confiança e se deixar levar
Que eu sou mais

A gente vive pelo mundo
A cada esquina pulando muro eu vou
Estar disposto e admirar
A perfeição de ser quem voce é

Refrão