sábado, 8 de dezembro de 2018

Há 38 anos, o último dia de John Lennon

John e Yoko em frente ao  Dakota
Neste oito de dezembro, há 38 anos, John Lennon era assassinado pelo fã Mark David Chapman. Um choque imenso para milhões de pessoas no mundo que tinham os Beatles como referência em suas vidas. Neste post recrio em detalhes o último dia de vida de John Lennon. 




Primeiro Ato

John Lennon e Yoko Ono se mudaram em 1973 para o edifício Dakota, um prédio imponente no número um da Rua 72 Oeste, de frente para o Central Park. Inicialmente de aluguel do ator Robert Wagner, mas aos poucos compraram cinco unidades no prédio, moravam no sétimo andar, apartamento número 72 e usavam o vizinho 71 como estúdio e escritório.  A segunda-feira oito de dezembro ia ser agitada, John estava na fase de divulgação de seu primeiro álbum de inéditas desde Walls and Bridges (1974), o Double Fantasy, lançado em 17 de novembro e assinado por ele e Yoko.  Ele costumava tomar o desjejum no Café La Fortuna, a algumas quadras do Dakota na Rua71 Oeste, mas o local não abre às segundas.  Por volta de 10 da manhã saiu para cortar o cabelo numa barbearia próxima, optou por um corte estilo anos 50, com topete, como o da tribo inglesa de Teddy Boys a que os Beatles pertenciam no começo.




De volta ao Dakota, às 11 da manhã recebeu a fotógrafa Annie Leibovitz. Ele conversara longamente com o jornalista da Rolling Stone Jonathan Cott na sexta-feira anterior, dia cinco, e Annie foi fazer as fotos numa sessão que durou 90 minutos. Uma delas ficou mais famosa, ele encolhido nu sobre Yoko totalmente vestida, a capa da edição 335 de 22 de janeiro de 1981. A revista queria fotos só dele, mas John exigiu incluir Yoko porque Double Fantasy era do casal.




O próximo compromisso foi por volta de meio dia e 30, uma entrevista sobre o álbum para os jornalistas Dave Sholin e Laurie Kaye, da RKO Radio Network, a primeira a transmitir via satélite. Entrevistado pela rede britânica ITV em 2010, nos 30 anos de morte de John, Dave Sholin recordou: “O Dakota é um prédio impressionante. (No sétimo andar, apartamento 72) entramos num espaço incrível, uma sala maravilhosa onde tivemos que tirar os sapatos, sentamos em almofadas e Yoko nos saudou. Olhei para cima e vi nuvens brancas lindas pintadas no teto. Yoko conversou conosco por quase meia-hora, aí uma porta abriu, John entrou, deu uma pirueta no ar e disse: ‘Aqui estou pessoal, pronto para começar o show.’ Ele abriu os braços e veio em nossa direção, como se quisesse nos deixar confortáveis. E funcionou, em dois ou três minutos conversávamos como se nos conhecêssemos há anos. Nas três horas e meia em que estivemos juntos, ele se mostrou feliz e cheio de entusiasmo com as novas perspectivas familiares e musicais. Ele pretendia fazer uma turnê do novo disco.”  John concluiu a entrevista com uma frase otimista: “Meu trabalho só terminará no dia em que estiver morto e enterrado, o que espero demore muito, muito tempo.”


Foto de Annie Leibovitz para a Rolling Stone

Às cinco da tarde, mais ou menos, ele e Yoko saíram do Dakota, logo depois da equipe da RKO, iam para o estúdio trabalhar. Por algum motivo, o carro deles não apareceu, então John pediu uma carona ao pessoal da RKO. Antes de entrar no carro atendeu vários fãs que pediram autógrafos.  Um deles foi seu assassino, Mark Chapman, que rondava o Dakota há alguns dias. Um  fotógrafo amador, Paul Goresh, que estava sempre no Dakota e já conhecia John, registrou o momento. Goresh foi ao Dakota ver se John tinha autografado o livro A Spaniards In The Works que deixara na portaria. Estava autografado e Goresh o resgatou. 

     John autografou o álbum Double Fantasy para seu assassino Mark Chapman

Ele falou mais cedo com Mark Chapman, que lhe disse ter vindo do Havaí só para pegar um autógrafo na sua cópia de Double Fantasy. Quando Goresh perguntou onde ele estava hospedado, Chapman lhe deu um fora e se afastou. Goresh contou ainda que cumprimentou John na calçada e este perguntou se ele tinha pego o livro. Foi quando Chapman se aproximou com o LP nas mãos e o estendeu para John sem dizer nada. “Você quer que eu autografe?” Chapman fez que sim com a cabeça, John autografou, perguntou se era só isso que ele queria, Chapman o pegou de volta e se afastou sem dizer uma única palavra. John virou para Goresh com um olhar tipo “que esquisito” e entrou na limusine. 




Dave Sholin contou na entrevista citada acima que no caminho para o estúdio John falou de seu relacionamento com Paul McCartney, com quem brigou nos momentos finais dos Beatles e os dois trocaram farpas em entrevistas e em músicas de seus álbuns solo. “Ele é como um irmão, eu o amo, coisas de família, a gente tem altos e baixos, mas no fim das contas eu faria qualquer coisa por ele e acho que ele faria o mesmo por mim,” disse John, segundo Sholin.


John, Yoko e Sean


No estúdio Record Plant, no 321 da Rua 44 Oeste, ele finalizou a canção de Yoko Walking On A Thin Ice, lançada como single em seis de janeiro de 1981. Gravou várias partes de guitarra com sua Rickenbacker 325, de 1958, usada nos primeiros tempos dos Beatles. Em seguida mixou a canção com o produtor do disco, Jack Douglas, que lembrou em entrevistas: “John estava nas nuvens. Acabamos a mixagem naquela noite e os acompanhei até o elevador: ‘A gente se vê no Sterling,’ o estúdio de masterização, na manhã seguinte às nove. Ele era só sorrisos, levava fitas cassete com gravações e Yoko também era só sorrisos. E a porta do elevador se fechou.”  Isso foi por volta de 22h30, cogitaram de jantar no restaurante Stage Deli, frequentado por celebridades porque ficava perto do famoso Carnegie Hall, mas decidiram ir para casa dar um beijo de boa noite no filho, Sean Ono Lennon, então com cinco anos.




O porteiro do Dakota, John Hastings, um fã dos Beatles, estava lendo uma revista pouco antes das 11 da noite, quando ouviu tiros do lado de fora e barulho de vidro estilhaçado. John cambaleou para dentro, andou vários passos e caiu, espalhando fitas cassete que tinha nas mãos. Yoko veio logo em seguida gritando, “John foi baleado”. Hastings apertou o alarme que chamava a polícia, correu e se ajoelhou junto a Lennon. Yoko gritava pedindo uma ambulância, depois foi para junto do marido e gritou “Tudo bem John. Você vai ficar bom.” Hastings tirou a gravata para usar como torniquete, mas não havia lugar para aplicá-lo. O sangue jorrava do peito e da boca de Lennon, seus olhos abertos e desfocados, ele tossiu vomitando sangue e pedaços de tecido. Dois carros de polícia chegaram, os policiais Bill Gamble e James Moran entraram no prédio, viram Lennon, viraram-no para avaliar os ferimentos, disseram que não dava para esperar uma ambulância e levaram-no para um dos carros, que saiu em disparada com ele e Yoko dentro. 




Outros dois policiais, Steve Spiro e Peter Collin, prenderam Mark Chapman, que não tentou fugir. Ele sentou na calçada e ficou lendo o livro O Apanhador do Campo de Centeio, de J.D. Salinger, que trata das angústias existenciais e da revolta do adolescente Holden Caulfield diante dos desafios do mundo.

Segundo Ato



Pouco depois de meia-noite, o doutor Stephan Lynn, chefe da emergência do Hospital Roosevelt, no número 1000 da Décima Avenida com a Rua 59 Oeste, saiu para falar com o batalhão de jornalistas aglomerado do lado de fora:

– John Lennon foi trazido num carro de polícia para o pronto socorro do Hospital Roosevelt esta noite, pouco depois das 11 horas. Ele estava morto ao dar entrada. Mesmo assim, extensos esforços para ressuscitá-lo foram feitos mas, a despeito de transfusões e de outras medidas, não foi possível salvá-lo. Ele tinha sete ferimentos a bala no braço esquerdo, no peito e nas costas. Houve danos significativos nos principais vasos do peito que provocaram maciça perda de sangue, o que provavelmente resultou na sua morte. O óbito foi declarado às 23h 07m.




Em entrevistas, o doutor Lynn rememorou aquela noite em que dava plantão na emergência do Hospital Roosevelt: “Dois policiais entraram com o paciente numa maca e mandei que o colocassem na sala de ressuscitação. Havia três perfurações de bala na parte superior do lado esquerdo do peito e uma no braço esquerdo. Não sabíamos quem era ainda, a rotina é colocar o nome numa etiqueta presa na roupa, olhei e dizia 'John Lennon'. Uma enfermeira não acreditou, disse ‘não parece John Lennon, não pode ser.’  De repente ouvi alguém chorando e entrou Yoko Ono, aí tivemos certeza de quem era e algumas pessoas da equipe começaram a chorar." Lynn logo constatou que as  balas [hollow point] tinham destruído todos os vasos sanguíneos que saíam do coração, a aorta e suas ramificações: "Ficou claro que nada mais havia a fazer, mesmo assim eu massageei o coração com  as mãos numa tentativa de fazê-lo bater e fizemos uma transfusão de sangue, mas, com todos os vasos sanguíneos destruídos, de nada adiantou. Restou-nos declarar o óbito. Ficamos todos em estado de choque e muitos choravam compulsivamente." 

Estas declarações incoerentes do médico refletem a perplexidade e o estado de choque dele e da equipe. Se estava morto, como ressuscitá-lo? Se o sistema circulatório foi destruído, para que massagear o coração e fazer uma transfusão?


Yoko Ono na saída do Hospital Roosevelt

O doutor Lynn saiu da sala para dar a notícia a Yoko. Sua primeira reação foi de negação. ‘Não é verdade. Você está mentindo. Não pode ser. Não acredito,’ disse ela, segundo o médico, que prosseguiu: “Ela caiu, coloquei minha mão atrás de sua cabeça para evitar que batesse no chão. Chorava desesperadamente e repetia ‘não, não, não’. Uma enfermeira se aproximou e lhe entregou a aliança de John. Ela se conteve e pediu que não divulgassem nada até ela chegar em casa e contar a Sean, cinco anos, que devia estar assistindo televisão àquela hora.




Não foi possível atender ao pedido porque um jovem jornalista da rede de TV ABC, Alan Weiss, sofrera um acidente de motocicleta e estava sendo atendido na emergência. Quando soube do que se tratava, imediatamente ligou para a redação e a ABC foi a primeira a dar a notícia. Sean não estava vendo TV, já tinha ido dormir. Numa entrevista a Philip Norman, autor da biografia John Lennon, A Vida, lançada aqui pela Companhia das Letras, Sean disse que acordou no dia seguinte sem saber de nada: “Senti uma atmosfera muito estranha na casa, todas aquelas multidões do lado de fora. Minha mãe sentada na cama debaixo do cobertor e eu juro que me lembro de ter visto um jornal, quase entendendo algo da manchete. Lembro de ficar de pé ao lado dela, enquanto me dizia ‘seu pai levou tiros e morreu’. E lembro que a coisa mais importante para mim era que não queria que ela me visse chorar. Lembro-me de dizer: ‘Não se preocupe mamãe. Você ainda é jovem, vai encontrar outra pessoa’. Aos cinco anos de idade achava que aquilo era a coisa mais madura pra dizer.”

Terceiro Ato



Às duas da madrugada, o porta-voz da polícia, James Sullivan, falou com centenas de jornalistas apinhados na sala de imprensa do 20º distrito no nº 120 da Rua 82 Oeste.

– Pedimos que viessem para dar um breve relato do que sabemos até agora sobre o homicídio de John Lennon. Prendemos Mark David Chapman, residente na Rua South Kukui 55, no Havaí, pela morte de John Lennon. É caucasiano, pele bronzeada, um metro e setenta, 80 quilos, cabelos castanhos, olhos azuis, 25 anos de idade. Nascido no dia 10 de maio de 1955, aparentemente está em Nova York há mais ou menos uma semana, tendo se hospedado na Associação Cristã de Moços e no Sheraton Centre. Ele esteve rodeando o prédio Dakota nos últimos dias e conseguiu obter um autógrafo num disco de Mr. Lennon quando este saía para o estúdio. Permaneceu no Dakota de noite esperando que Mr. Lennon voltasse. Pouco antes das 11 horas, John Lennon e sua esposa chegaram de volta ao Dakota numa limusine que parou na frente do edifício. Existe uma entrada de automóvel que podia ter sido usada. Os dois saíram e andaram até a arcada do Dakota. Este indivíduo, Mr. Chapman, veio por trás e chamou “Mr. Lennon”. Em seguida, em posição de combate, esvaziou o revólver Charter Arms calibre 38. O sr. Lennon gritou “Fui baleado”, subiu os degraus, empurrou a porta e caiu.”


                                             A arma do crime. Mark usou balas hollow point

Coda


Comoção coletiva com a notícia do crime

Centenas de pessoas se aglomeraram em frente ao Dakota, assim que a notícia se espalhou, cantando Give Peace A Chance. Muitos choravam, portavam velas e bastões de incenso. Lá dentro Yoko ligou para Paul McCartney e para Mimi, a tia que criou John. Ela foi acordada e, quando disseram que era Yoko, sua primeira reação, ainda sonolenta, foi dizer: “O que ele aprontou desta vez?” Ringo, que estivera com John dois meses antes, pegou um avião para Nova York nas Bahamas com a noiva Barbara Bach, desembarcou e foi direto para o Dakota.

Julian Lennon, filho do primeiro casamento, veio do País de Gales. Paul McCartney, pálido e abatido, falou com a imprensa na saída do Air Studio e pediu todo apoio a Yoko. Em comunicado, emitido mais tarde, Paul disse que as diferenças entre os dois, na reta final dos Beatles, de 1968 a 1970, eram coisa do passado e que se tornavam grandes amigos outra vez. George Harrison estava gravando quando recebeu a notícia. Interrompeu e foi para casa. Mais tarde, num comunicado, disse: “Depois de tudo que passamos juntos eu tinha e ainda tenho um grande amor e respeito por John. Estou atordoado. Roubar uma vida é o roubo mais definitivo.” 

O corpo de Lennon foi cremado dia 10 de dezembro no Ferncliff Cemetery em Hartsdale, Nova York. Não houve velório. Yoko Ono espalhou as cinzas no Central Park, onde cinco anos depois construíram o Strawberry Fields Memorial.


Memorial Strawberry Fields

O Assassino

Mark David Chapman, hoje com 63 anos, está confinado desde 15 de maio de 2012 na Wende Correctional Facility em Alden, estado de Nova York. Foi condenado a de 20 anos à prisão perpétua em 24 de agosto de 1981 e levado para a penitenciária de Attica, na cidade homônima do estado de Nova York, onde permaneceu até ser transferido. Pela sentença ele podia requerer liberdade condicional a cada 24 meses após 20 anos de prisão e o fez no ano 2000. Desde então teve o pedido negado 10 vezes, a última em 23 de agosto deste ano. A próxima audiência de condicional é em agosto de 2020.

Mark Chapman  em  2013

Na época do processo, Chapman citou argumentos religiosos e acusou John de hipocrisia para justificar seu crime. Ele se mostrou irritado com o primeiro álbum solo John Lennon/Plastic Ono Band (1970) pela música God, em que Lennon proclama descrença em tudo, incluindo Jesus, e diz que Deus é um conceito que usamos para medir nossa dor.  E ainda pela declaração dele em 1966 de que os Beatles eram mais populares do que Jesus. "Eu fiquei com raiva porque ele disse que não acreditava em Deus e não acreditava nos Beatles. Quem ele pensa que é, falando essas coisas contra Deus, o céu e os Beatles. Uma nuvem negra tomou minha alma de tanto ódio e revolta.”


A mulher dele, Gloria, afirmou: "Ele ficou com raiva que Lennon pregasse o amor e a paz e tivesse milhões de dolares.” Chapman ampliou: “Ele nos dizia para imaginar que não tínhamos bens e lá estava ele, com milhões de dolares, iates e mansões no campo, rindo de gente como eu que acreditava nas mentiras dele, comprava os discos e que tinha sua vida influenciada pelas músicas dele.”

Chapman tem bom comportamento, se diz religioso e tem direito a uma visita íntima de 42 horas por ano da mulher Gloria.

Observações

Este é o relato mais fiel que consegui levantar através de pesquisas em livros e na internet. Há várias discrepâncias nas pesquisas, os horários certamente são aproximados, algumas informações contraditórias são absurdas, como os nomes dos quatro policiais que chegaram primeiro ao Dakota. Bastava olhar a ocorrência na delegacia para ver os nomes, mas há vários deles citados na mesma hora e no mesmo lugar. Optei pelos citados mais vezes. 

Um erro comum repetido em vários livros, incluindo em John  Lennon A Vida, de Philip Norman, que citei, é que John  tomou o desjejum no Café La Fortuna, que ficava a um quarteirão do Dakota. Frequentadores do La Fortuna na mesma época disseram a um documentário da BBC que o La Fortuna não abria às segundas, dia de folga do pessoal. Acreditei no depoimento do doutor Stephan Lynn  porque em momentos muito traumáticos a gente costuma lembrar de tudo, daí lhe dei este crédito. 

Boa parte do material acima é do livro A Balada de John e Yoko, autoria da equipe da revista Rolling Stone, que cobriu extensivamente os Beatles e a carreira solo de John Lennon e fez a última entrevista com ele. Foi editado em 1983 aqui pelo Clube do Livro, da Editora Abril. Há exemplares à venda no Mercado Livre. Recomendo.


domingo, 25 de novembro de 2018

The Beatles final: numberninenumberninenumberninenumbernine






No dia de hoje, 25 de novembro, há 50 anos, era lançado na América The Beatles, o álbum branco, no Reino Unido tinha sido dia 22. Duplo, mais caro, mesmo assim ficou em primeiro lugar por nove semanas nos domínios do Tio Sam. Hoje acumula 19,5 milhões de cópias por lá, o que deve aumentar com a edição de aniversário enriquecida por uma nova mixagem, um CD acústico e dois CDs de takes de estúdio.

Encerro a série sobre o álbum com o lado quatro, dominado por duas canções de John Lennon. Revolution 1 é o início de sua fase política que se estenderá à carreira solo, culminando com o segundo álbum, Sometime In New York City (1972), incluindo uma "guerra" contra o governo de Richard Nixon que o via como subversivo pela militância (Nixon caiu em 1974 pelo escândalo Watergate e John conseguiu o visto em 1976). 

Na segunda, Revolution 9, ele levou a música concreta às massas, oito minutos e 20 segundos de algo nunca ouvido fora do restrito círculo da música experimental em que brilhavam nomes como John Cage e Karlheinz Stockhausen. Os fãs entraram em órbita ouvindo aquilo, ainda mais com os neurônios aditivados por letrinhas mágicas como THC e LSD. 

Neste último lado temos quatro canções de John, uma de Paul e uma de George. Interessante o contraste entre Revolution Nine e Good Night, que fecha o disco, ambas de John, uma muito louca, outra uma canção de ninar com orquestra. A mesma diversidade se repete para os demais Beatles e a grande conclusão, infelizmente saudosista, é que eram bons tempos em que quatro caras de uma banda faziam um disco de 30 músicas diferentes umas das outras.
Let's go.

 Revolution1 (John Lennon)



A primeira manifestação política de John. Ele contou à Rolling Stone que já tinha vontade de criticar a Guerra do Vietnam quando a banda fez a última turnê americana em 1966, mas o empresário, Brian Epstein, proibiu.

Os acontecimentos de 1968, a revolta estudantil na França, protestos na América, o assassinato do líder negro Martin Luther King, a pregação de uma revolução pela militância de esquerda americana, do Youth International Party aos Panteras Negras. Tudo isso o motivou a fazer Revolution.

Foi a primeira música gravada do álbum branco, John a queria para lado A de um single, Paul e George vetaram por ser política, daí ele resolveu gravar uma versão rápida e distorcida que acabou no lado B de Hey Jude com o título de Revolution.



A versão lenta do álbum passou a ser Revolution 1. A letra é um diálogo imaginário de John com um militante que prega a revolução e John responde “We all want to change the world (...) when you talk about destruction. Don’t you know that you can count me out.” Todos queremos mudar o mundo, mas quando você fala em destruição, não conte comigo.” É assim que ele canta no single, mas no álbum sua posição e dúbia porque diz, ao mesmo tempo, “out in.” Mais adiante afirma ao interlocutor imaginário “But if you want money for people with minds that hate. All I can tell is brother you have to wait” (Mas se você quer dinheiro para gente com mentes que odeiam. Tudo que posso lhe dizer é que terá que esperar). Aos que culpam a Constituição, ele manda que mudem suas cabeças. Aos que levam posters do líder chinês Mao Tse-tung, ele rebate que nada vão conseguir. O Take 18 tem 10 minutos e 28 segundos. Os seis minutos finais foram retirados e formam a base de Revolution 9.




John ficou mordido com a recusa de a versão lenta ser lado A do single, embora reconhecesse a qualidade de Hey Jude.
“Os Beatles poderiam muito bem ter lançado a versão lenta como single, fosse ela um disco de ouro ou de madeira. Mas estavam chateados com o lance da Yoko e com o fato de eu estar me tornando tão dominante e criativo como nos primeiros tempos, depois de anos apático. Eu acordei e não ficaram nem um pouco satisfeitos,” disse ele, citado no livro All We Are Saying, de David Sheff.


John colocou a voz deitado no estúdio por se sentir mais confortável

A gravação aconteceu em quatro sessões a 30 e 31 de maio, quatro e 21 de junho: John cantou, tocou violão e guitarra; Paul tocou piano, órgão, baixo e fez vocais; George tocou guitarra e fez vocais e Ringo tocou bateria. Esta versão tem dois trompetes e quatro trombones. 

Honey Pie (Paul McCartney)




Canção ao estilo das bandas de vaudeville dos anos 20, com sopros manipulados tecnicamente para soarem como as antigas gravações em 78 rotações. A história de uma garota pobre do norte da Inglaterra que faz sucesso na América e seu apaixonado a chama de volta. 

Paul ouvia muito jazz tradicional em casa. Seu pai James “Jim” McCartney tocava numa banda e tinha muitos discos. “Gosto das melodias e das letras dessas canções antigas, coisas que não se ouve hoje em dia. Eu até gostaria de ser um escritor dos anos 20, saca, cartola e fraque. Então nesta sou eu fingindo que vivo em 1925,” disse Paul em 1968. 

Ele falou que John também gostava de vaudeville, apesar de chamar canções de Paul como esta e When I’m Sixty Four de “Canções de vovozinha.”

Gravado nos estúdios Trident nos dias 1, 2 e 4 de outubro, com Paul na voz, piano e guitarra; John na guitarra; George no baixo e Ringo na bateria. Os sopros são cinco saxofones e dois clarinetes. Um verso “now she’s hit the big time”, no princípio, recebeu forte compressão e chiados para soar como num disco antigo.

Savoy Truffle (George Harrison)




Brincadeira com o guitarrista Eric Clapton, grande amigo de Harrison, que devorava caixas de bombons Good News com sabores como Savoy Truffle, Montelimart, Gingersling, Cream Tangerine e Coffee Dessert, todos citados na letra. 

George conta na autobiografia I Me Mine que Clapton tinha cáries pela grande quantidade de chocolates que ingeria. Na época da composição, depois de voltar da Índia, ele tinha consertado os dentes, mas viu na casa de George uma caixa de Good News e atacou. George contou que o verso “you have to have them all puled out...” significava que Clapton tinha que parar de comer doces. 



O verso “You know that what you eat you are” é do assessor de imprensa da banda Derek Taylor. Faltava um verso, George perguntou se tinha alguma ideia e Derek lembro do filme You Are What You Eat, do amigo dele Alan Pariser. Ele deu um twist e sugeriu a George “You know that what you eat you are” que o autor rimou com “we all know Obladi Bla da”, a canção de Paul que tinha torrado o saco do resto da banda por ter exigido zilhões de takes.

Gravada no Trident e em Abbey Road nos dias 3, 5, 11 e 14 de outubro, teve George no vocal com dobra e guitarra, Paul no baixo e Ringo na bateria e pandeiro. Os sopros são seis saxofones – dois barítonos e quatro tenores – que tocaram lindamente o arranjo do assistente de George Martin, Chris Thomas. Quando estava pronto, George pediu ao engenheiro Ken Scott que distorcesse o som, o que foi feito injetando os sopros em dois amplificadores que foram saturados e sujaram tudo. 

Antes de os músicos ouvirem, George pediu desculpas pelo que tinha feito, mas explicou que era assim que queria. Eles não gostaram nem um pouquinho, mas estavam ali para fazer o que o autor desejava.

Cry Baby Cry (John Lennon)



Canção inspirada num comercial que mandava as crianças chorarem para as mães comprarem uma marca de flocos de milho ("Cry baby cry\ Make your mother buy). Em Sgt Pepper’s John também tinha feito uma inspirada em comercial de flocos de milho, Good Morning Good Morning (ele deixava a TV ligada).



Letra inspirada em histórias de fantasia  que John conhecia da infância. A segunda estrofe de Sing a Song for Sixpence é uma das influências:
“The king was in his counting house counting out his money
The queen was in the parlor eating bread and honey
The maid was in the garden hanging out the clothes
When down came a blackbird and pecked off her nose”
John escreveu: “The king of Marigold was in the kitchen cooking breakfast for the queen. The queen was in the parlour playing piano for the children of the king.” Mais adiante ele coloca o rei colhendo flores no jardim e a rainha pintando retratos para as férias das crianças. E a duquesa de Kircaldy sempre atrasada para o chá e por aí vai.

Gravada nos dias 15, 16 e 18 de julho, com John na voz, violão, piano e órgão, Paul no baixo, George na guitarra solo, Ringo na bateria e no pandeiro e George Martin no harmônio. 

No dia 18, os Beatles compareceram à première de Yellow Submarine, mas também finalizaram a faixa com uma nova voz de John, vocais e efeitos. Um fragmento de canção de Paul “Can you take me back faz a passagem para a faixa seguinte (o álbum não tem separação de músicas).

Revolution 9 (John Lennon)




Começa com um diálogo entre o produtor George Martin e o gerente da Apple Alistair Taylor que esquecera de trazer uma prometida garrafa de vinho e pede desculpas para Martin. Daí entra uma voz repetindo “number nine” encontrada numa fita de teste usada por John para criar um loop repetido ao longo da peça, inspirada nos experimentalismos de gênios como John Cage e Karlheinz Stockhausen. Seis minutos cortados do final de Revolution 1 formam a base aqui, com os gritos de Right e Alright de John.

A colagem foi feita por John e Yoko, com uma força de George Harrison, e inclui coisas como John e George falando coisas aleatórias: “take this brother, may serve you well”, “the watusi”, “the twist”, “the eldorado”, “economically viable”, “financial imbalance”, “there ain’t no rule for company freaks”. Yoko canta “you become naked” e solta aqueles gritos irritantes. 



Outros sons:
- George Martin para o engenheiro de som Geoff Emerick:“Acenda a luz vermelha” com muito eco e repetida várias vezes.
- Um coral com violinos ao contrário.
- Uma peça sinfônica picotada ao contrário;
- Um pequeno trecho orquestral de A Day in the Life repetido várias vezes.
- Um mellotron de trás pra frente (tocado por John).
- Vários trechos de sinfonias e óperas. Identificou-se A Fantasia de Beethoven para Coral As Ruas de Cairo , Estudos Sinfônicos de Schumann (ao contrário), moteto de Vaughan Williams O Clap Your Hands, e o acorde final da Sinfonia nº 7, de Sibelius. 




E ainda a canção Awal Hamsha do cantor e compositor sírio Farid al-Atrash, um dueto de trompa e oboé, uma guitarra elétrica ao contrário, um efeito usado em Tomorrow Never Knows. E muitos sons avulsos como tiro, pratos percutidos com força, risadas de multidão, vidro quebrado, buzinas de carros e uma multidão num estádio de futebol americano cantando “Hold that line\ Block that kick.” Pelo menos 45 sons diferentes foram identificados.



Um engenheiro falou que o “number nine number nine” virou mania na gravadora e as pessoas ficaram semanas repetindo como um mantra. John levou os funcionários de arquivo e os engenheiros à loucura com sua pesquisa de sonoridades, colagens feitas na base de gilete e cola, loops grandes que tinham que ser segurados com lápis longe dos gravadores e a loucura de jogar tudo isso nos oito canais e fazer a mixagem com efeitos de pan. Chegou a usar os três estúdios de Abbey Road para as montagens com 10 gravadores repetindo loops, alguns, grandes, segurados com lápis por técnicos da gravadora, muitos deles putos da vida porque a montagem entrou pela noite e vários tinham pegado nove da manhã.

Quando ficou pronto, John mostrou aos demais. Paul só disse “Not bad\ Não é ruim”, o que significou que não tinha gostado. George e Ringo nada disseram, ficaram sem jeito. Paul e George Martin tentaram, sem sucesso, demover John de incluir a peça no álbum porque não era o estilo da banda. Resultado: Milhões de fãs em todo o mundo tiveram o primeiro contato com a música concreta.
Depois disso, só restava finalizar o disco com algo bem careta.

Good Night ( John Lennon)




Ringo canta esta cantiga de ninar feita por John para seu filho Julian, de cinco anos. Resultado do momento em que vivia, separando-se da esposa Cynthia e do filho Julian, então com cinco anos, para ficar com Yoko Ono.

Nos dias 28 de junho e dois de julho, John e Ringo gravaram uma base, que George Martin levou para criar o arranjo de orquestra, gravado no dia 22 de julho por 26 músicos, com o coral dos Mike Sammers Singers, quatro rapazes e quatro moças. Ringo colocou o vocal definitivo nesta noite numa sessão que foi de sete e meia da noite a uma e 40 da madrugada.




quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Álbum Branco, Parte 3: Helter Skelter inspira chacina

O lado três de The Beatles, o álbum branco que completa 50 anos, tem a música mais polêmica, o rockão de Paul McCartney Helter Skelter, usado pelos fanáticos da seita californiana de Charles Manson como desculpa para assassinar a atriz Sharon Tate, dois amigos dela e outro. que foi visitar o jardineiro na edicula, estava saindo quando Manson chegou e foi a primeira vítima.


Sharon Tate tinha 26 anos

Helter Skelter, Blackbird, Sexy Sadie, I Will, Honey Pie e Piggies, entre outras,  conteriam mensagens de uma rebelião que jogaria negros contra brancos numa guerra racial e Manson se ergueria como o guia dos vencedores. Ele via os Beatles como Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. 

Charles Manson morreu na cadeia em novembro de 2017 aos 83 anos. Quando cometeu os crimes tinha 34 anos

O crime chocou o mundo pela violência e, ao estilo show business da América, pela morte da bela Sharon, grávida de oito meses. É óbvio que a música nada tinha a ver com isso, mas ficou associada ao crime. Helter Skelter, ao pé da letra significa confusão, desordem, na Inglaterra era um escorrega em espiral nos parques de diversões e a letra se refere a isso: “quando eu chego ao fundo, volto ao alto do escorregador, onde dou voltas num passeio, chego ao fundo e te vejo de novo”.

O lado três tem três músicas de John Lennon, duas de Paul McCartney, uma de George Harrison e a única de Lennon e McCartney: Birthday, que abre o lado três. Vamos às faixas:

Birthday (Lennon & McCartney)





Única da lendária dupla no álbum, com os dois se revezando na voz principal. A parte principal é de Paul completada por John. Gravada no dia 18 de setembro, quando a BBC exibiu pela primeira vez o filme The Girl Can’t Help It, estrelado pela louraça belzebu Jayne Mansfield como uma cantora em busca da fama. Mas o atrativo principal eram os números musicais de Little Richard, autor da canção-título, Fats Domino, The Platters e Gene Vincent & The Blue Caps. Os Beatles combinaram de começar a sessão de gravação às 17h em Abbey Road, depois seguir para a casa de Paul, na vizinha Cavendish Avenue, para ver o filme às 21h05. Paul foi o primeiro a chegar ao estúdio e os outros o encontraram levando Birthday ao piano com sua voz no alcance máximo ao estilo de Little Richard, usada por ele no passado em Long Tall Sally e I'm Down.



Os quatro começaram a trabalhar na base com Paul na voz e piano, John na guitarra, voz e vocal, George no baixo e Ringo castigando os tambores. Um rock rápido ao melhor estilo de Little Richard. Depois do filme voltaram para concluir, acertando algumas partes, John gravou sua contribuição, duas esposas que estavam no estúdio, Pattie Harrison e Yoko Ono ajudaram nos vocais. A canção substitui o tradicional Parabéns Pra Você nos aniversários da turma do rock. 


Yer Blues (John Lennon)



"Uma coisa engraçada sobre o campo do Maharishi é que, apesar de ser muito bonito e de eu meditar oito horas por dia, estava compondo as canções mais deprimentes da Terra. Em Yer Blues quando escrevi  'I'm so lonely I want to die,' não estava brincando. Era como me sentia, tentando alcançar Deus e sentindo impulsos suicidas," contou Lennon na Beatles Anthology. Na época ele já conhecia Yoko Ono, mas o romance não tinha engatado e ela escrevia muitas cartas para ele. John ainda estava com Cynthia, presente em Rishikesh.



Eles gravaram numa a sala pequena do estúdio dois por causa de um comentário irônico do engenheiro de som Ken Scott quando gravaram Not Guilty, de Harrison: "George queria gravar na sala de controle com falantes em volume máximo para ter a sensação de estar ao vivo. Lembro que John entrou nessa hora e lhe disse 'que diabos, do jeito que vocês andam fazendo, vão acabar gravando na sala ao lado.' Era usada para guardar máquinas de gravação, sem tratamento acústico. John achou a ideia maravilhosa e disse que a próxima seria gravada na sala," contou Scott citado em The Complete Beatles Recording Sessions, de Mark Lewisohn. E assim foi feito com todos os vazamentos a que tinham direito.

Ringo se entusiasmou: "Yer Blues foi o máximo, imbatível. Éramos nós quatro de verdade numa sala pequena sem separações. Era o nosso grupo, juntos, algo como um grunge dos anos 60, grunge blues," disse ele na Anthology, numa demonstração de saudade dos tempos em que os quatro tocavam juntos de verdade.

As guitarras de John e George passaram por caixas Leslie, Paul tocou baixo e Ringo bateria nas sessões de 13 e 14 de agosto. John faz uma grande interpretação nesta canção e faz o solo de apenas duas notas. No final John canta sem o microfone com captação mínima, dando a impressão de que está bem longe. No dia 20, Ringo gravou a contagem “two, three...” que abre a canção.Na sessão do dia 14 John também gravou What’s the New Mary Jane, que ficaria inédita em lançamento oficial até 1996, quando foi incluída no volume três da Beatles’ Anthology, relançada agora nos Extras da nova edição do álbum branco.

Mother’s Nature Son
( Paul McCartney)



A letra fala de um rapaz pobre que nasceu filho da mãe natureza. Em sua atobiografia Many Years Fron Now, Paul conta que se inspirou numa palestra do Maharishi sobre a natureza. John também foi tocado pelas palavras do guru e fez A Child of Nature, que ficou de fora porque preferiu-se a canção de Paul com o mesmo tema. Na carreira solo John mudou a letra e gravou como Jealous Guy.

Paul terminou a canção em Liverpool. “Fui visitar meu pai, sempre me sentia bem quando ia lá, o que me deixava inspirado. Tinha uma canção de Nat King Cole que eu adorava, chamada Nature Boy, com um verso 'Havia um garoto, muito estranho e gentil...que ama a natureza,’ isso me inspirou.”

Paul gravou sozinho com voz dobrada, violões, bateria e tímpano em 25 takes, aproveitando o 24º. A primeira sessão foi no dia nove com gravação só de voz e violão. No dia 20 de agosto, Paul gravou um segundo violão, o tímpano e a bateria. Para esta última pediu ao engenheiro Ken Scott que ela tivesse um som parecido com bongôs e sugeriu que fosse gravada no corredor. Também foram gravados os sopros: dois trompetes e dois trombones.

Everybody's Got Something to Hide Except Me and My Monkey
(John Lennon)



Esta canção, de aparente letra non sense, se refere a a charge de um jornal inglês que mostrava Yoko Ono como um macaco nas costas de Lennon. John e Yoko ficaram muito chocados com as reações negativas ao relacionamento deles. "Estávamos felizes na Swinging London e, de repente, a Idade Média desabou sobre nós," disse ela numa entrevista.

Alguns versos são citações do Maharishi durante a estada da banda na Índia.“Come on it’s such a joy” (“Venham, é tanta alegria”) era uma frase frequente do guru indiano. “The deeper you go the higher you fly” (“Quanto mais fundo você for, mais alto voará”) e “Your inside is out and your outside is in” (“Seu interior está para fora e seu exterior para dentro”).

Gravada em quatro sessões nos dias 26 e 27 de junho e 1º e 23 de julho, John cantou, tocou guitarra e percussão. George fez vocal, tocou guitarra e percussão. Paul fez vocais, tocou baixo e percussão. Ringo tocou bateria e percussão. Todos bateram palmas. A canção tem uma insistente sineta.
No dia primeiro de julho, Paul gravou um baixo e vocais. Todos os quatro contribuíram para os repetidos “comeoncomeoncomeoncome on” no final.

Sexy Sadie (John Lennon)



Uma ácida crítica de John Lennon a um suposto assédio do guru Maharishi Mahesh Yogi a uma das mulheres presentes ao ashram em Rishikesh, India.

Tudo não passou de fofoca de um trambiqueiro grego chamado Alex Mardas, conhecido como Magic Alex, que convenceu os Beatles de que poderia construir um estúdio de 72 canais e não fez coisa alguma, só mamou nas tetas do Fab Four até ser posto porta a fora. Alex chegou a Rishikesh e se ressentiu de Lennon não estar lhe dando a atenção que  julgava merecer, daí tramou para John sair e ele voltar a ficar bem com ele novamente.


“Alexis começou a espalhar o boato que repercutiu no campo sem qualquer evidência ou justificativa. Ficou claro que ele queria tirar os Beatles dali, não tive dúvidas disso,” disse Cynthia Lennon, esposa de John (ele já conhecia Yoko, mas não tinham começado uma relação).



Paul McCartney não se impressionou com o suposto assédio e rebateu: “Ele nunca disse que era um deus, pelo contrário, sempre ressaltou que era um professor de meditação. Nunca se falou em voto de castidade, nem em uma proibição de tocar nas mulheres. Não dei importância, não vi motivo para ir embora,” disse Paul.

John Lennon  já estava de saco cheio de tanta meditação e viu ali uma desculpa para se mandar: “Comecei a compor esta quando já estávamos de malas prontas esperando um táxi que não chegava. Entramos numas de que estavam retardando o táxi para não podermos escapar de lá. O grego maluco estava com a gente, paranoico, repetindo toda hora que era magia negra, que iam me manter lá pelo resto da vida,” contou John.

Alex Mardas, o 171

Os primeiros versos citavam o guru: 
“Maharishi, what have you done? You made a fool of everyone.” George reclamou: “Não pode dizer isso, é ridículo. Então sugeri Sexy Sadie e ele aceitou,” disse.

Os dois versos iniciais são de uma canção do grande cantor, compositor e produtor americano Smokey Robinson, I’ve Been Good to You, que dizem: “Look what you've done/You made a fool of everyone". 

A canção consumiu 35 horas de estúdio nos dias 19 e 24 de julho e 13 e 21 de agosto. John fez a voz com dobra, vocal, tocou violão, órgão Hammond e guitarra base. Paul tocou baixo, piano e fez vocal. George tocou guitarra solo e fez vocal e Ringo tocou pandeiro e bateria. 

A sessão do dia 19, de 19h30 até 3h30, foi dispersiva, com muitos improvisos, incluindo seis minutos instrumentais de Summertime, de George Gershwin. Vinte e um takes foram gravados da canção, mas John rejeitou todos. No dia 24, recomeçaram com 23 takes, John marcou um deles como melhor, mas começou tudo de novo no dia 13 de agosto, desta vez mais rápido, com apenas sete takes. A canção foi finalizada no dia 21 de agosto. 

Helter Skelter (Paul McCartney)





Uma das primeiras canções, se não a primeira, do que viria a ser chamado de heavy metal. Paul ficou mordido com uma declaração de Pete Tonshend na Melody Maker sobre ter gravado a “canção mais alta, barulhenta e crua” da carreira do Who. 

Paul resolveu fazer uma que fosse muito mais tudo isso e há versões de que foi uma resposta a quem o acusava de só fazer baladas. Os Beatles gravaram em três sessões nos dias 18 de julho, nove e 10 de setembro com Paul no vocal, guitarra e baixo. John tocou baixo, sax tenor, baixo, guitarra e vocal. George tocou guitarra e fez vocal e Ringo bateria, numa performance excepcional. A sessão do dia 18 foi toda de jam sessions, uma delas de 27 minutos e uma outra foi editada e incluída no volume três da Antologia. 


Helter Skelter

A sessão do dia nove de setembro foi descrita como uma loucura total pelo engenheiro Brian Gibson, que insinua que eles estavam drogados. O auxiliar de George Martin, Chris Tomas, conta que George Harrison botou fogo num cinzeiro e andou com ele na cabeça enquanto Paul gravava a voz. 

A canção tem um fade out e, a seguir, um fade in até um final caótico em que Ringo grita que está com bolhas nos dedos - "I've got blisters on my fingers" - , uma referência à performance incendiária nos tambores e pratos. 

Long Long Long (George Harrison)




Depois da demência de Helter Skelter esta balada de George cai muito bem. Gravada em três sessões nos dias sete, oito e nove de outubro com John Lennon ausente. George cantou com dobra e tocou violões, Paul tocou baixo e órgão Hammond. O coprodutor Chris Thomas piano. 

Um ruído climático no final é de uma garrafa de vinho que estava em cima da caixa Leslie e começou a tremer quando Paul tocava. Eles gostaram do som e o repetiram com um microfone para a devida captação. 

A letra de George pode ser interpretada como de amor romântico, mas o engajamento religioso dele pode lhe dar uma outra interpretação: “Faz muito, muito, muito tempo/ Como eu posso ter te perdido/ Se eu te amava/ Levou muito, muito, muito tempo/ Agora estou feliz por ter te encontrado”.

Fim do lado três. Falta um.