sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Festival Art Mix reuniu seis bandas no Vivo Rio

Mauricio Kyann - Nove Zero Nove - Fotos de Cleber Junior

Estive na noite finada de quinta no Vivo Rio para a primeira noite do festival Rio Art Mix, patrocinado por uma bebida que nunca tinha ouvido falar, Catuaba Selvagem. Como não bebo há uns 25 anos, saí sem provar a dita cuja que era oferecida por gatas vestidas de anjos (não existe feminino, anjo não tem sexo). No lineup quatro bandas novas, duas conhecidas CPM 22 e Autoramas.



Drenna

Por algum problema não diagnosticado, o imenso lugar estava vazio quando cheguei, foi enchendo, mas não deu meia casa. Especulava-se falta de divulgação, lugar grande demais, o dia de finados e até a logo do festival e o nome, que não dão ideia de um festival de rock, parece de uma feira de arte. Louvável abrir espaço para bandas que estão na batalha do reconhecimento e espero que, avaliadas as falhas, se faça nova edição no ano que vem. Há planos até de estender para outros estados.


Badauí - CPM 22

Vi três das seis bandas, ficar altas madrugadas no more. Na abertura estranhei o show da Nove Zero Nove. Conheço e gosto da banda, mas não foi uma boa apresentação. O som estava embolado, não havia entrosamento, estava desarrumado, o microfone de voz audível só quando o Maurício Kyann gritava. A guitarras de Paulo Pestana e Pedro Arruda mal timbradas e quando Rafael Cabral dava viradas, ouvia-se apenas uma parte dos tambores. Perguntei para a baixista Eliza Schinner o que tinha acontecido, incluindo se tinha bom retorno. Resposta: “Eu estava ouvindo direitinho. Na verdade, tudo MUITO embolado. Tivemos QUINZE MINUTOS de passagem de som. Não deu nem pra passar a bateria, naquele esquema bacana em que você passa bumbo, caixa, tudo separado. Foi tudo de uma vez. Subimos no palco 19h45 pra passar o som e mandaram sair às 20h. Ou seja...não tem como ajeitar um som desse jeito.”

Pois é, sacanagem com uma boa banda. Além disso o vocalista Mauricio Kyann podia ser menos panfletário e se concentrar mais no seu ofício, sem ficar apenas berrando o tempo todo e falando bobagens como “vamos arrasar e  nada vamos deixar pro Chico Buarque.”  Chico fará temporada na mesma casa.


Eliza Schinner Baixo - Nove Zero Nove

Intervalo, tome Catuaba aplicada pelas anjos até que chegou a hora de Drenna. Som da banda impecável, equilibrado, voz clara e nítida, pelo jeito passaram o som de maneira decente. Drenna faz um pop rock de excelente qualidade, boas letras, melodias agradáveis e interpretação segura. Ela toca guitarra em algumas músicas, mas fica apenas ao microfone em outras e apresenta também uma boa performance de palco. Ao lado dela três músicos muito bem entrosados e seguros:  Milton Carlos (bateria), Bruno Moraes (baixo) e Junior Macedo (guitarra). Quando o som e a banda não estão legais eu fico tenso, incomodado, quando está tudo certo, como foi com a Drenna, eu relaxo e entro na vibe do show, que foi bom do começo ao fim. Drenna tem hits em potencial no álbum Desconectar, a faixa título e Ela Vai Chamar Sua Atenção, além de Anônimo e Andar Sozinho. Além de uma bela  versão para Roda Viva, de Chico Buarque, com um arranjo pesado com climas que ilustram o protesto da letra alusiva à ditadura: "a gente quer ter voz ativa. No nosso destino mandar. Mas eis que chega Roda Viva e carrega o destino pra lá."


Kauan (Folks) em participação com a Nove Zero Nove

Não gosto do CPM 22 e nunca tinha visto ao vivo. Da geração surgida nos anos 90 que levou o rótulo de Emo, hardcore melódico, nunca me agradou aos ouvidos. Como foram a terceira atração da noite, lá fui eu grudar na grade pra ver como a banda funciona no palco. O som é coeso, integrado, com muito punch. O único integrante original é o vocalista Badaui, Japinha (batera) e Luciano entraram em 1999,  o guitarrista Phil em 2014 e o baixista Fernando em 2016. A banda toca com o pé embaixo o tempo todo, mesmo uma música que Badaui diz ter feito em homenagem ao pai falecido é uptempo.

Junior Macedo - Drenna

Dois guitarristas se revezam em solos e base, cada um sabe sua parte, me pareceu que é sempre a mesma coisa e não vi espaço para muitos improvisos. Badaui não é um grande vocalista, é o trivial simples que dá conta do recado, não faz modulações e canta quase sempre do mesmo jeito. E é o rei das rimas pobres em letras que falam de relacionamentos, muitas rimas de verbos com verbos e truques como  a surrada formula mim-enfim-assim-fim. Uma galera teve acesso ao pit em frente ao vocalista, que fez o show para eles, não se movimentou no palco, ficou direto no centrão, não é do tipo que agita o público.

A maior parte da plateia estava presente por causa deles. Cantaram, dançaram, pularam, meninas embevecidas não sei com que. Quando acabaram, o publico pegou o beco, ficou vaziaço e ainda faltavam três bandas. Botar a banda mais popular no meio dá nisso. Completaram o lineup de ontem Alfie Sá, Autoranmas e Black Alien. O festival acaba nesta sexta com Monstros do Ula Ula, Deia Cassali, SuperCombo, Rocca vegas, Rico Dalasam  Raimundos.




O amigo Cleber comentou que os jovens hoje só querem saber de banda conhecida e me perguntou se era assim nos anos 80. Respondi que era um panorama e uma juventude bem diferente da atual. Não havia internet, o jovem tinha que correr atrás de uma música com a qual se identificasse. E não havia a princípio, escutavam rock gringo e a MPB de então não lhes agradava. Daí a música deles nasceu dentro da própria geração.

ABruno Moares (baixo) - Drennadicionar legenda

Hoje em dia há muitas opções e o jovem que só quer saber de coisa conhecida na verdade está desprezando a ele mesmo, que também é novo e se identifica com músicas massificadas, não procura a identidade musical de sua geração. Não sabe, mas quem perde é ele mesmo.



SETLISTS
Drenna
Intro
Retorno
Anônimo
Ela vai chamar sua atenção
Roda viva
Andar sozinho
Sabotagem
Alivio
Desconectar
Entorpecer

Nove Zero Nove
Mártir
Levanta
Cova Rasa
Temporal
Desfaz
Ode Química (Pinguim)
Mendigo
Happy End

Obs. Os músicos da Drenna tiveram mais destque nas fotos porque ela colocou no site nome e foto de cada um, o que não acontece com a Nove  Zero Nove. Quer ser mais divulgado, organize-se.

domingo, 29 de outubro de 2017

Paralamas do Sucesso arrasadores no Vivo Rio

Fotos de Cleber Junior

Estive na noite de sábado num Vivo Rio lotado para o lançamento no Rio do concerto Sinais do Sim, dos Paralamas do Sucesso. Noite abençoada pelos deuses da música, uma banda impecável com um setlist diferenciado em que alguns sucessos foram trocados por canções significativas de um mesmo álbum. Exemplo? Viernes 3 AM, de Hey Na Na, em vez de Ela Disse Adeus. Uma escolha que nos permitiu curtir lindas canções fora do óbvio. O artista pode ficar preso nas músicas consagradas, deixar de lado um material rico que não chegou às paradas. O publlco martela para ouvir o óbvio, mas, se é realmente fã do artista, deve entrar em sintonia com o que ele lhe apresenta ao vivo, deve ir, ver e ouvir.

Herbert Vianna

Destaco no setlist um bloco dedicado ao medo nosso de cada dia nos grandes centros urbanos, especialmente no nosso conflagrado Rio de Janeiro o que, felizmente, não nos abate, se não o Vivo Rio estaria vazio. “Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo. Sem saber o calibre do perigo. Eu não sei d'aonde vem o tiro,” dizem os versos de abertura de O Calibre, palavras que batem no peito dos cariocas, o poeta Herbert Vianna como cronista de seu tempo, numa levada pesada que traduz o perigo que denuncia. Emenda com Selvagem, que aponta uma realidade cotidiana: “”A cidade apresenta suas armas. Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos. E o espanto está nos olhos de quem vê o grande monstro a se criar.” É de 1986. O monstro cresceu e aterroriza a população. Uma guitarra distorcida marca a levada e João Barone dá umas porradas na bateria que soam como tiros, especialmente quando uma luz forte acende a cada porrada.

Tem mais. “No beco escuro explode a violência,” começa O Beco, com descrição de atos violentos e, ao final “nada mais me deixa chocado, nada.”  Finalmente, Medo do Medo, da rapper portuguesa Capicua que alinha todos os nossos temores, da policia, da justiça, do desemprego, “de morrer mais cedo que a prestação.”

Bi Ribeiro

O restante do repertório nos permite viajar por sentimentos mais lúdicos, tudo muito bem embalado numa produção magnífica. Um show de luzes em movimento envolve o palco em cores múltiplas, incluindo luzes amarelas fortes na cara da plateia – Os designers adoram cegar o publico. Um telão mostra imagens muito bem transadas que ilustram as músicas e mostram diversas fases ao longo de 34 anos. Como sempre me acontece, lá fui de volta aos primeiros shows que vi, no bar Western e sob a lona mágica do Circo Voador, quando a banda só tinha repertório para 45 minutos de show e, num deles, tocou tudo de novo para uma “galera” entusiasmada. Realmente um longo caminho.

João Barone

A banda abriu com duas novas, Sinais do Sim e Itaquaquecetuba (imagino o que Herbert ensaiou pra pronunciar isso), duas boas amostras do novo lançamento, seguidas de dois sucessos, Meu Erro e Lourinha Bombril. Ótima qualidade de som, a bateria bem microfonada com o bumbo audível, Herbert com uma Les Paul. Setlist montado com alternância de sucessos e menos conhecidas, mais palatável para o público.  Não me lembro de ter ouvido Capitão de Indústria, devem ter tocado no tour de Hey Na Na no distante 1996, belo arranjo.


Mestre João Fera

Arranjos são um forte na banda. O trio conta com reforço do estre João Fera (desde 1986) e com os sopros de Bidu Cordeiro (trombone) e José Monteiro Junior (sax tenor). Falta um trompete para completar o naipe, enriqueceria bastante, em Lanterna dos Afogados, o solo original é de trompete e Monteiro faz um timbre aproximado, que não soa da mesma maneira. O solo é maravilhoso, o povo aplaudiu e é seguido por um dos mais belos solos de Herbert, que tinha a voz limpa sem a rouquidão de alguns shows que vi e, felizmente, abandonou um vibrato que passou a usar depois do acidente.

Bidu Cordeiro (trombone), Monteiro Junior (sax tenor)

Herbert não gosta de grandes solos, ele não veste a camisa de guitar hero, dá o recado curto e virtuoso, só se espalhou ao final de Caleidoscópio num pegada que delirou o povo. João Barone é um show à parte, parece que tem dois bateristas tocando, prefere viradas curtas de efeito, explorando os timbres de cada tambor e prato. Bi Ribeiro, como já disse Liminha, é um chão absurdo, a banda repousa sobre sua base trovejante, só não gostei de ele ficar no escuro a maior parte do tempo. Ele não se movimenta, fácil era botar uma luz em cima.




Ufa! ‘Tou falando demais. Gosto dos Paralamas, não à toa escrevi a biografia deles, Vamo Batê Lata, à venda nos sebos virtuais tipo Mercado Livre. Se deixar faço um tratado. Ah, João Fera, que músico maravilhoso, suas barbas brancas lhe dão um ar de mestre (e é), enriquece de maneira magistral as canções, seja na abertura de Lanterna dos Afogados e em A Outra Rota, um resgate do incompreendido álbum Os Grãos (1991). Uma que gosto muito é Viernes 3 AM, original de Charly Garcia, versão de Herbert Vianna, tema pesado, o narrador se mata no final, em versos de grande força poética: “Então levanta o cano outra vez e aperta contra a testa. E fecha os olhos e vê um céu de primavera. Bang! Bang! Bang! Folhas mortas que caem. Sempre igual. Os que não podem mais se vão.” Claro que os três tiros são ima licença poética, ninguém se mata com três tiros.

Quer saber. Um puta show de uma formação impecável, que, espero, ainda passe algumas vezes pelo Rio. Vale vários repetecos. Não tenho feito outra coisa desde 1982.

SETLIST
22h03
1. SINAIS DO  SIM – Faixa título (2017)
2. ITAQUAQUECETUBA – Sinais do Sim (2017)
3. MEU ERRO – O Passo do Lui (1984)
4. LOURINHA BOMBRIL (Parate y Mira - D.Blanco e Bahiano. Versão \herbert Vianna) – Nove Luas (1996)
5. CAPITÃO DE INDÚSTRIA (Marcos e Paulo Sergio Valle) – Nove Luas (1996)
6. UNS DIAS – Bora Bora (1988)
7. A OUTRA ROTA - Os Grãos (1991).
8. SOLDADO DA PAZ – Longo Caminho (2002)
9. VIERNES 3AM (Charly Garcia e Herbert Vianna) – Hey Na Na (1998)
10. O CALIBRE – Longo Caminho  ( 2002)
11. SELVAGEM – Faixa título (1986)
12 . O BECO – Bora Bora (1988)
13. MEDO DO MEDO (rapper portuguesa Capicua e João Ruas) – Sinais do Sim (2017)
14. SABER AMAR – Vamo Batê Lata (1995)
15. BUSCA VIDA – Nove Luas (1996)
16. AONDE QUER QUE EU VÁ (Herbert Viana – Paulo Sergio Valle) – Arquivo II (2000)
17. O AMOR NÃO SABE ESPERAR – Hey Na Na (1998)
18. SEMPRE ASSIM – Sinais do Sim (2017)
19. LANTERNA DOS AFOGADOS -  Big Bang – (1989)
20. CALEIDOSCÓPIO – Arquivo (1990)
21. OLHA A GENTE AÍ – Sinais do Sim (2017)
22. A LHE ESPERAR (Arnaldo Antunes – Liminha) – Brasil Afora (2009)
23. UMA BRASILEIRA (Herbert Vianna – Carlinhos Brown) Vamo Batê Lata (1995)
24. SKA – O Passo do Lui (1984)
25. VITAL E SUA MOTO – Cinema Mudo (1983)
26. ALAGADOS - Selvagem? (1986)
23h34
BIS
23h36
27. BUNDALELÊ  - Bora Bora (1987)
28. TEU OLHAR – Sinais do Sim (2017)
29. CUIDE BEM DO SEU AMOR – Longo Caminho (2002)
30. ÓCULOS – O Passo do Lui (1984)
23h49

FICHA TÉCNICA
Direção de arte e projeções: Batman Zavareze
Design de Iluminação: Cristiano Vaz e Marcos Olívio
Concepção artística: José Fortes e Paralamas
Roadie de Herbert - Helder Vianna
Roadie de Barone - Pedro Antunes
Roadie de Bi - Alexandre Duayer
P.A. (som para a plateia) - Leo Garrido
Monitor: Adriano Siuza
Produção: Orbilo Rosa e Robson Gonçalves



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Folks lança single que busca aproximação com identidade brasileira e trata da intolerância nas redes sociais

A turma toda que foi à audição - Foto de Daniel Santos

Estive quinta à noite na lendária Toca do Bandido, o estúdio criado pelo músico e produtor Tom Capone (1966-2004), para ouvir Sobre Viver, novo single da banda carioca Folks, uma prévia do álbum a ser lançado em 2018. Um trabalho primoroso de execução da banda com a produção de Felipe Rodarte, Folks honorário e principal produtor do Novo Rock. O single vai para as plataformas de streaming nesta sexta, 27 de outubro, mas a prévia reuniu integrantes das bandas Detonautas, Nove Zero Nove, Verbara, Pessoal da Nasa e Drenna, além de fãs que ganharam uma promoção para lá estar.

A canção é do vocalista Kauan Calazans com o guitarrista Paulinho Barros e o baterista PV. O tema é bem atual. Kauan conta que se incomoda muito com a agressividade, a descarga de coisas ruins e a intolerância nas redes sociais. Ele ficou pensando nesses assuntos, um dia o baterista PV disse-lhe uma frase, “Hoje eu sou mais, entendo o que faz bem.” Que lhe serviu como um gatilho e aí a letra saiu rapidinho. O refrão é poderoso, a banda ataca com intensidade para sublinhar versos que exaltam a liberdade para se misturar, outro tema em discussão constante nas redes sociais diante das mudanças que a sociedade vive atualmente. Em meio ao caos político e econômico há um novo pacto social em construção, novos termos de convivência, de aceitação, de compreensão que independem da podridão que emana de todas as esferas de governo. E a letra mostra isso também no título Sobre Viver, novas formas de conviver e sobre viver.

Viajei, mas acho que é por aí.


Da E - Felipe Rodarte (produtor), Paulinho Barros (guitarra), Sergio S (guitarra),  PV (bateria, atrás), Kauan Calazans (voz) e Guilherme Figa (baixo) 

A banda contou com participações do veterano percussionista  Edinho Souza, que passa a acompanhar a banda em shows, os teclados do colíder do Barão Vermelho Maurício Barros e, nos vocais, Drenna, líder da banda que leva seu nome e Nicole Cyrne vocalista da Blitz. A voz de Kauan ganhou uma textura mais grave, o trabalho do guitarrista Sergio S. é primoroso nos solos e comentários, brilha na canção inteira. Ele usou uma Gibson Les Paul 59 num amp Marshall Plexi Super Lead vintage que usa válvulas antigas, mesmo modelo que Jimi Hendrix usava. A canção pode ser um hit se devidamente divulgada em rádio e televisão, a mídia que projeta artistas. Publico a letra, mas não posso divulgar a canção antes do dia 27. Estará no meu programa Jam Sessions de domingo, 29.

Felipe Rodarte está a caminho de Las Vegas porque uma produção sua, o álbum Brutown, da dupla sergipana The Baggios, concorre ao Grammy Latino de melhor disco de rock na seção brasileira do prêmio. Ele é o principal produtor do novo rock e um pensador dos rumos desta geração. Fez uma exposição muito interessante antes de me mostrar a nova música. Aliás um tema que sempre abordei nas minhas matérias ao longo destes 35 anos em que cubro o rock brasileiro. Ele disse que a Folks busca agora uma identidade brasileira para sua música. Como rolou na Geração 80, começou com tinturas gringas, mas dissociada da nossa cultura. Hora de ir por caminho semelhante ao dos Paralamas, que começaram influenciados pelo Police e depois acharam um caminho na ponte África-Jamaica-Bahia ou o Barão Vermelho, inicialmente na linha Rolling Stones e depois num hard rock suingado.

Ele chamou a atenção para algo que eu já tinha sentido. Esta geração começou num nível bem mais alto do que a geração 80, basta comparar os primeiros discos de Paralamas etc com os atuais. No começo dos anos 00 eu não entendi porque a evolução demonstrada nos 80 e 90 se quebrou e apareceram formações medíocres. A maturação de uma geração mais consistente levou tempo.

Hoje aí estão com excelentes formações sem conseguir ainda conquistar espaço num mercado tomado pela mediocridade sertaneja e funkeira, com algumas exceções. Felipe Rodarte acredita que em algum momento a barreira vai se romper, eu espero que sim e faço minha parte, como sempre fiz.


Folks mais Fábio Brasil (segundo da esquerda p direita) e Renato Rocha (segundo da direita p esquerda) os Detonautas. E eu de enxerido. Foto de Felipe Rodarte

A falta de um suporte financeiro prejudica a evolução das bandas, tocam em lugares pequenos que pouco rendem. Num papo do lado de fora do estúdio, a querida Eliza Schinner, baixista da Nove Zero Nove, dizia que não se sentia incentivada a gravar um novo álbum porque tinham lançado um e nada aconteceu por conta do bloqueio. Argumentei e ela concordou que deve lançar singles periodicamente, um por semestre pelo menos, para criar ou renovar interesse. As bandas estão num trabalho lento de formação de público e elogiei a persistência desta geração, que batalha duro, toca onde der pra tocar, não importa o tamanho do lugar.

Enfim, espero ver esta geração vencer, como vi as anteriores vencerem.

Sobre Viver
(Kauan Calazans / Paulinho Barros / Pv)
Na busca pra não se sentir refém
A calma faz o instinto ir além
Hoje eu sou mais
Entendo o que faz bem

O brilho que é a arte de viver
Sabendo que a mente cria o ser
Hoje eu sou mais
Entendo o que faz bem

(Refrão)
Viva a liberdade
Viva a liberdade
Pra se misturar
Viva a liberdade
Ascender a confiança e se deixar levar
Que eu sou mais

A gente vive pelo mundo
A cada esquina pulando muro eu vou
Estar disposto e admirar
A perfeição de ser quem voce é

Refrão

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Sepultura ganha reforço de cordas para atacar de Machine Messiah no Rock in Rio

Andreas Kisser - Fotos de André Luiz Costa

"Sepultura, Sepultura"... o som mais poderoso do Rock in Rio troou no encerramento do Palco Sunset neste domingo. O equivalente a um terremoto de 20 pontos na escala Richter, um tsunami continental, uma bomba de hidrogênio norte coreana? Tudo isso define mais ou menos a potência que o quarteto brasileiro desencadeou no palco. Era insuportável ficar diante das caixas de subwoofers no pit, perigas descolar o cérebro do crânio. Que puta show!!


Derrick Green

O carro chefe foi o novo álbum, Machine Messiah, responsável por seis das 12 músicas do setlist. No apoio uma seção de violinos com Lucas e Moisés Lima, mais instrumentistas da Orquestra Sinfônica de Santo André e o maestro Renato Zanuto, que tocou um órgão Hammond. Os violinos tiveram que brigar para serem ouvidos em meio aos trovejantes baixo (Paulo Jr), guitarra (Andreas Kisser) e bateria (Eloy Casagrande ), além da mega poderosa garganta de Derrick Green. Adjetivação demais, né? Fazer o que, o Sepultura chegou a um nível de excelência que o credencia para a elite do metal planetário. Totalmente superada a ausência dos irmãos fundadores Max e Igor Cavalera (Há controvérsias, sei disso).

Paulo Junior e Derrick Green

Se são os Messias de Metal já seria exagero, mas que mandam muito bem sem dúvida. Na plateia formou-se a habitual roda, que sempre assusta os seguranças. Vários subiram nos degraus da grade para ver o que acontecia. Parece briga mesmo, mas é nada disso, só a rapaziada se divertindo. Cada um com seu cada qual.

Eloy Casagrande

Eu fiquei rindo de a (aparentemente) careta Família Lima estar metida naquele caos todo, tocando furiosamente seus instrumentos, o que a Sandy, acharia daquilo e se ele  começasse a tocar heavy metal em casa (sei lá, de repente são metaleiros na vida particular). Tergiverso.

Andreas falou que iam enfatizar o novo álbum, mas haveria espaço para o “velho Sepultura” numa prova da crença dele na transformação da banda. Confesso que não ouvi o disco com as letras para saber qual é a do Messias Máquina, instrumentalmente senti arranjos mais elaborados ainda que dentro dos mesmos timbres na guitarra de Andreas e ainda em solos virtuosos nas partes aguda, média e grave da guitarra. Não sou muito chegado a solos muito agudos, prefiro ao estilo Tony Iommi, do Black Sabbath.


Andreas Kisser

Claro que o coro da plateia entrou nas conhecidas. Começou com Arise, pulou para Refuse Resist e fechou com duas do disco mais conhecido do “velho” Sepultura Ratamahata, vocal de Paulo Jr, e Roots num arranjo para o festival com os violinos. Saí do  Sunset a caminho da Sala de Imprensa, quando virei a esquina na direção do Palco Mundo reparei que o Offspring já tinha começado. Perto do som do Sepultura, aquilo parecia uma banda brega num P.A. de terceira.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

República estreia show de novo álbum no Rock in Rio

Leo Beling (voz)

A segunda atração da noite Metal Brasil do Palco Sunset foi a paulistana República, banda de exportação com repertório em inglês e penetração até o talo no mercado europeu. Pela terceira vez no Rock in Rio vieram com uma proposta ousada discutida a vera entre eles até bater o martelo. Tocara a íntegra do novo álbum, Brutal & Beautiful, pela gravadora inglesa Rough Trade.

Festival é lugar para tocar sucesso, fazer a massa pular, gritar e cantar junto. Eles preferiram apresentar um show bem produzido e bem tocado, com apurado apelo visual e seja o que os deuses quiserem. Conseguiram uma reação dividida da plateia e minha. Muito legal o começo, com o bebe da capa do álbum falando o conceito do disco, boas imagens no telão central, painéis no palco com mais imagens, esguichos de fumaça e Redemption Day, de Johnny Cash, em áudio no começo.

Luiz Fernando Vieira (guitarra solo)

Começaram com as faixas Black Wings, Time to Pay, o vocalista Leo Beling deu a primeira palha do q rolava, prosseguiram parados no palco, precisos, mas um tanto frios. Pensei logo, é estreia de show novo, os caras já tem estrada, não é para tocar assim. As canções eram boas, bem construídas, ganhei o disco antes do show, olhei as letras no encarte, bem feitas, aí tinha. Mais tarde na sala de imprensa, um amigo comentou que parecia que eles estavam tocando para eles mesmos, de certa forma estavam mesmo, pelo menos na primeira parte.


Jorge Marinhas (guitarra base)

Quando expliquei que era a primeira vez, ele entendeu porque é do ramo.
Encerrados os trabalhos fui falar com eles no camarim para saber qual era. Aí soube a história que contei acima, é o início de um projeto que vai deslanchar com turnê europeia, abertura de shows de Alice Cooper na França e na Bélgica, na Suécia com outro grupo que esqueci. Este desconforto que muita gente do meio sentiu é o preço que pagaram pela ousadia, mas os anos de estrada me permitiram ver que tinha coisa ao ali.

Perguntei se o álbum era conceitual porque as letras que vi rapidamente antes do show remetiam para reflexões sobre uma realidade amarga com toques de otimismo apesar de tudo. Disseram que não chamam de conceitual, mas ao logo da feitura de um ano do disco acabaram pintando estas similaridades que amarraram muitas faixas. No fechamento dos trabalhos, perguntaram a um técnico o que achou do disco, a resposta foi que era Brutal e Belo. Acabaram adotando o nome que tem implicações filosóficas sobre a vida de todos nós, especialmente brasileiros, onde o brutal se mostra de maneira tão amarga, seja pela violência nas ruas, seja pela violência de quem rouba verbas da educação e saúde. A beleza está na esperança dos cidadãos, que precisam tomas rédeas de seu futuro. Tudo isso é sacação minha, eles não falaram isso.


Marco Vieira (baixo)
O show esquentou do meio para o final, se soltaram, começaram a se movimentar e receberam uma resposta melhor do público. Um momento de reflexão foi na música foi em Tears Will Shine, com participação da violinista Iva Giracca, dedicada a músicos falecidos que influenciaram a banda e também a parentes que se foram. Fotos se sucederam no telão durante a canção tributo, um momento emotivo. Alguns deles: Prince, Dio, Elvis Presley, Frank Zappa Freddie Mercury, Renato Russp. George Harrison, John Bonham, Kurt Cobain, Chester Bennington, Jimi Hendrix, Lemmy, David Bowie e outros se sucederam no telão. Me deu até um choque de ver quanta gente de pesos e foi.


Capa de Sergio Gordilho e Bruno Valença

Em resumo, Republica tem um  bom show e um bom disco na rua. Em seis meses o show estará nos trinques. Além de Leo Beling, a banda tem Luiz Feernando Vieira (guitarra solo), Jorge Marinhas (guitarra base), Marco Vieira (baixo) e  Mike Maeda (bateria e imagens). Rock On!

Obs. Não tive foto do baterista Mike Maeda. Sorry.