segunda-feira, 27 de maio de 2019

Banda Quilomblocada é destaque no Segundo Festival Boto Rock que reuniu 49 bandas em Porto Velho


Quilomboclada - Fotos de Licias Santos

Estive sexta e sábado no 2º Boto Rock, festival com bandas de Porto Velho entre autorais e covers. Com dois palcos de rock, Rosa e Tucuxi, e um de rap, o festival se estendeu do meio da tarde até a madrugada nos dois dias no Parque Circuito, um antigo seringal convertido em espaço público. Vi bandas ainda desgovernadas, cada músico prum lado, bandas que podem muito bem entrar no circuito nacional de festivais, como Quilomboclada, Distopia, Eurritmia, Coveiros, Nitro. E covers, uma delas Perpetual Power, assassinou sem piedade a obra do Deep Purple. Em compensação a Hey Joe’s, cobrindo Charlie Brown Jr, fez um dos melhores shows, devia investir em material próprio.




No geral o que notei nas bandas autorais que assisti (não vi todas) foi falta de prática, muitas com um repertório viável em letras e melodias, mas sem que os músicos tivessem o entrosamento que define a qualidade de uma banda. Keith Richards falou a respeito quando disse que eles eram grandes músicos que faziam algo maior do que eles, The Rolling Stones. A falta de lugar para tocar deve ser um fator que impede a regularidade de muitas dessas bandas.


O Boto é um símbolo local, daí o nome do Festival e dos palcos Boto Rosa e Boto Tucuxi

O rock não tem a devida força em Porto Velho, cidade dominada por sertanejos, pagode e funk. Festivais de rock são comuns no Brasil, mas fazer um deste tamanho aqui é um feito que revitalizará o gênero, aplausos para a Fundação Municipal de Cultura, dirigida por Ocampo Fernandes, que bancou a realização com 49 bandas e 38 apresentações de hip hop num palco alternativo. A Infra funcionou bem, os dois palcos estavam um de frente para o outro a uma pequena distância, quando terminava o show num deles, começava no outro, o que impediu longos intervalos. O festival foi dedicado A Heavy Ney, o pioneiro do rock em Porto Velho, já falecido.


Quilomblocada

O grande destaque para mim foi o coletivo Quilomboclada, uma formação que tem ecos de Planet Hemp, nos três vocalistas frenéticos, e Nação Zumbi na percussão e na guitarra distorcida num timbre quase igual ao de Lúcio Maia da Nação. Mas o que não falta neles é identidade própria e protesto em defesa de negros e indígenas: “Já quebramos a corrente que você me colocou. Paulo Freire me ensinou. Hoje eu sei a diferença do oprimido e do opressor,” dizem versos de Soul Quilomboclada.”



Os habitantes de Porto Velho, bem como do restante da Amazônia que moram à beira de rios, são chamados de Beiradeiros, aqui pelo Rio Madeira, que corta a cidade. Daí a afirmação de uma cultura sobre costumes e crenças da região com população nativa majoritariamente de caboclos, descendentes de brancos com índios. Também incluem valores da religião afro brasileira, falam contra o racismo a homofobia e o machismo. 


Roda de Ciranda no show do Quilomboclada
Um estudo sobre a música Soul Quilomblocada, do Centro Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa do Imaginário Social da Universidade Federal de Rondônia, afirma:
“(...) A letra contagia e convida a juventude amazônica a se rebelar contra o sistema de opressão e a se orgulhar de suas caracteristicas étnico-raciais e multiculturais.(...) Um movimento de negação da invisibilidade social e da marginalização à procura de outras bases identitárias para suas relações com o mundo nesta região amazônica.” 


Homenagem dos Coveiros a um certo presidente, com a boca costurada

Academiquês à parte, o som da banda é contagiante com os rappers Bera Samuel, Bera Ákilas Boca e Daniel metralhando as letras e incendiando a galera que responde à altura. O show incluiu uma roda de ciranda na plateia a pedido da banda que cantou o tema folclórico Escravos de Jó, não sem antes aludir a outra tradição, do boi bumbá, com a presença de uma máscara do dito cujo.


Coveiros
A banda que reuniu uma rapaziada mais engajada foi a Coveiros, seu nome escrito na  parte de baixo do retrato pintado de um certo presidente com a boca costurada, homenageado com as músicas Democracia e Glifosato, um veneno agrícola, alusão à liberação recorde de pesticidas na era Bolsonaro. A banda toca hardcore/thrash no estilo dos Ratos de Porão que o vocalista Giovanni Marini disse serem os ídolos junto com o Sepultura, ecos das duas bandas ouvidas em alguns vocais como em Sua Cara Sua Bunda. Curioso que a pateia aqui não faz roda de pogo, só bate cabeça.

Bate cabeça ao som de Coveiros

Uma banda já mais organizada para entrar em circuito nacional é a Distopia, com um som pop bem estruturado e já com representantes no Rio e São Paulo. Lançaram há pouco o vídeo À Deriva, produzido por Luiz Carlos Maluly (Metrô e RPM). Um diferencial é o vocal com duas vozes, não tão comum no rock, um trabalho comercial de possível inserção radiofônica, especialmente as canções Amor Sem Nexo e À Deriva.



Segue o barco, outras bandas regulares que valem trabalhar mais o som são Eurritmia, Sexy Tape, Vitrola de Ficha e Jowe. Last but not least PVH Blues, uma afiada banda dedicada aos standards do blues. Mandaram, entre outros, Got My Mojo Workin’, Sweet Home Chicago e Roadhouse Blues. Prognoise foi a única banda progressiva que vi no festival, bons músicos, bons arranjos, mas mal executados e com um vocalista sofrível.


PVH Blues

O 2º BotoRock mostrou uma presença forte de rock na cidade e no estado, bem como de rap, que sirva para fortalecer a cena e criar novos lugares para tocar. Porto Velho Rocks!
P.S. Agradeço a Daniel  Duarte das bandas Semaforo 89 e Pilsen Bullets pela ajuda na informação sobre as bandas. Ele tocou cover de Ultraje a Rigor com a Semaforo 89, mas a outra banda é autoral (Video abaixo).




segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Paul McCartney se mantem fiel ao baixo e ao amplificador usados nos tempos do Beatles

Paul usa hoje o baixo Hofner 500/1 1963 com amps Vox de 100 watts
Sempre fiquei intrigado de ver Paul McCartney usar nos shows o baixo Hofner do começo da carreira dos Beatles e os amplificadores Vox, mas nunca me dei ao trabalho de investigar. Agora que estou pesquisando instrumentos e equipamentos da banda consegui as respostas.

Paul diz que o Hofner é o baixo que todos querem vê-lo tocar, tão simbólico quanto a bengala de Carlitos. Apesar de continuar produzindo material inédito, ele se rendeu ao fato de que nunca será maior do que os Beatles. Sempre que lança um novo álbum, como o recente Egypt Station, sabe que boa parte das entrevistas de divulgação serão sobre os Beatles. E sua constante presença na midia é garantia de manter vivo o interesse nos Beatles, junto com um eficiente planejamento de marketing que abastece o mercado periodicamente do mesmo material dos anos 60 reciclado de maneira engenhosa.


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Paul nos Beatles com o Hofner 500/1
Paul entrou para os Beatles como guitarrista, usando modelos baratos da fábrica inglesa Framus, enquanto Chas Newby e depois Stuart Sutcliffe ficavam no baixo. Quando Stuart saiu da banda, a bomba caiu no colo de Paul, já havia dois na guitarra, John Lennon, o líder, e George Harrison, daí precisou comprar um baixo. Foi na loja Steinway Musichaus, Hamburgo, onde os Beatles faziam temporadas, e comprou, pelo equivalente a 30 libras, um baixo com dois captadores da fábrica alemã Hofner, modelo 500/1, o que estava exposto era para músico destro, ele contou que não havia instrumentos para canhotos na época, daí encomendou um com as cordas e controles invertidos. Um atrativo foi o formato simétrico, parecido com um  violino e bem leve se comparado a outros.


Beatles ao vivo com amps Vox AC 50. No canto esquerdo um pedaço do AC 100 de Paul
Foi com ele que se familiarizou e aprendeu a curtir o baixo e com ele gravou vários álbuns dos Beatles. Em 1963 a Hofner lhe deu um baixo do mesmo modelo com alguns aperfeiçoamentos e é este instrumento que ele usa hoje em dia nas turnês. O primeiro 500/1 foi roubado dos estúdios Twickenham nas filmagens de álbum Get Back/Let it Be em janeiro de 1969 e nunca mais reapareceu.

Paul passou a usar o modelo mais novo, com o de 1961 como baixo reserva, já com dois novos captadores e revestimento. As fábricas de instrumentos competiam para que os Beatles usassem seus modelos, todos adotados por eles viravam sucesso de vendas. 


Paul em estúdio com o baixo Rickenbacker 4001 c64
Em fevereiro de 1964, na primeira turnê na América, a Rickenbacker mostrou vários modelos, John e George encomendaram duas guitarras, uma de seis, outra de 12 cordas. A Paul mostraram um baixo 4001 c 64, mas era para destros. Um ano e meio depois, durante a segunda turnê americana, Paul recebeu um baixo vermelho para canhotos, o modelo que vira, 4001 c64, com uma identificação de 1964, o ano anterior, o primeiro baixo para canhotos da empresa. Daí em diante, usou o Rickenbacker nas gravações de Rubber Soul e Revolver, e o Hofner 500/1 1963 ao vivo. No álbum branco e em Let It Be usou o Hofner e um 1966 Fender Jazz Bass . Em Abbey Road usou o Hofner e Rickenbacker 4001 (Outra fonte diz que só voltou a usar o Hofner nas sessões de Let It Be).

Amplificador Vox AC 30

Depois do fim dos Beatles, quando formou a banda Wings, Paul foi para a estrada com baixos Rickenbacker, havia nele um ressentimento pelo fim dos Beatles que o tempo se encarregou de dissolver. Na turnê de 2002, depois de uma década sem excursionar, voltou a usar o Hofner.


Amplificador Vox AC 100
Paul é fiel até hoje aos amplificadores da Vox, que era uma pequena fábrica até o empresário Brian Epstein fechar um contrato para a banda usar exclusivamente amps Vox, o maior negócio fechado pela fábrica, que representou um estouro de vendas depois dos Beatles passarem a usá-los. Em primeiro lugar o modelo AC 30, preferido de muitos músicos até hoje, com 30 watts e dois falantes de 12 polegadas. 

Les Paul Custom Painted
Quando começaram a tocar para plateias histéricas, pediram amps mais potentes na esperança de serem ouvidos. Inicialmente a Vox deu a Paul o T 60, cabeçote de 60 watts com uma caixa de dois falantes, um de 15 e outro de 12 polegadas. Não funcionou, muito instável, daí veio o AC 100 Super de Luxe com 100 watts e uma caixa com quatro falantes Celestion de 12 polegadas, batizado de Beatles Amp. Para John e George amps de 50 watts com uma caixa de dois falantes de 12 e uma corneta para médios. A intenção foi boa, mas de nada adiantou, a garganta das fãs tinha um milhão de watts e não existia sistema de amplificação para abafá-las.


Gibson Les Paul Standard
Hoje em dia Paul usa dois cabeçotes Vox AC 100, mas as caixas são duas Mesa Boogie Standard Power House com seis falantes de 10 polegadas cada, mais um cabeçote Mesa Boogie Strategy 88 Bass para reforçar os graves. Paul também toca guitarra nos shows, com predominância de uma Gibson Les Paul Standard, uma Les Paul Custom Painted, sua véia de guerra Epiphone Casino, os violões Epiphone Texan FT-79, com que gravou Yesterday e Gibson J-185 de 12 cordas. Ele tem uma infinidade de guitarras e violões, mas estes são os mais usados. Para as guitarras usa dois cabeçotes Vox AC 100 em duas caixas Vox com quatro falantes de 12 polegadas. 

Obs. Matéria feita com pesquisa na internet e no site beatlemania.net de Ricardo Puglialli, com farto e detalhado material sobre a banda.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Camisa de Venus bota pra fude em novo DVD





Dançando em Porto Alegre  é o mais recente lançamento do Camisa de Venus, banda punk baiana que se juntou ao Rock Brasil em 1983, momento de decolagem da Geração 80. Aos 18 anos do século 21, lançou em novembro o DVD Dançando em Porto Alegre, gravado em 2016 na capital gaúcha, onde tem um fã clube engajado. Um CD duplo com a íntegra do DVD também está à venda nas lojas virtuais e onde tiver sobrado alguma loja de discos.


Aos 65 anos de idade na época, Marcelo Nova nada perdeu de sua corrosiva postura de andar na contramão de sua geração. O Camisa hoje é um híbrido com dois da formação original, Ele e Roberio Santana (baixo) e três que acompanham Marcelo na carreira solo: Drake Nova (guitarra solo), Leandro Dalle (guitarra) e Celio Glouster (bateria). Drake, filho de Marcelo, também assina a masterização e a arte gráfica. Seu estilo é rock mainstream e hard, usa até o setup clássico de Les Paul-Marshall-pedaleira, o que altera o status punk da banda,mas não é novidade, em duas voltas anteriores a formação incluiu o mestre Luiz Carlini.



Apesar disso, a essência do Camisa se mantem intacta na apresentação de 17 músicas em uma hora e meia. Base suja, letras ácidas, sem concessões e pela primeira vez, num registro ao vivo, quatro novas do primeiro álbum de inéditas em 20 anos, Dançando na Lua (2016). 

Algumas dos anos 80 se lançadas hoje desencadeariam um linchamento da banda nas redes sociais. Bete Morreu, do álbum de estreia, descreve o estupro e morte dela e ainda um "Bete se fudeu" omitido agora. Silvia fala de uma adultera em termos machistas, com o coro de "piranha" e no final "sua puta."  Ambas não despertaram o furor que desencadeariam hoje em dia.


Marcelo Nova - Divulgação

O som no começo era bem cru, ninguém sabia tocar direito, Marcelo sempre segurou bem na voz e os temas fugiam do lugar comum romântico. E isso não mudou. Raça Mansa, single do último álbum, não alivia: "Quantos senhores, ministros, pastores. Mais de mil palhaços no salão. Convenceram o pobre do seu Zé que a fé substitui a razão." E mais: "Acabou de chegar um cavalheiro lá do Distrito Federal. Com a ganância enfiada no rabo e nesse rabo cabe um arsenal."

A captação de imagens respeitou a iluminação do show, nada de luz chapada, então há muitos momentos sombreados, o que tem a ver com o repertório. Há um telão muito mal aproveitado no DVD, só se vê um pouco quando há imagens do palco inteiro, um material que podia enriquecer o visual através de superposições. A direção é de Andre Sittoni e a fotografia de Mauricio Borges de Medeiros.




O  publico é igualmente mal aproveitado. Há muitas manifestações radicais em shows engajados como este, sem falar que há integração total com a plateia, que canta com Marcelo o show inteiro. E com muita gente jovem, prova de que a mensagem do Camisa passou de geração em geração.

Marcelo disse uma vez que "crítico é igual a eunuco numa suruba: eles vêem fazer, eles gostariam de fazer, mas eles não podem." Eu faço o que gosto, escrever, músicos em geral se acham acima de críticas, acham genial tudo que fazem. Marcelo também disse  que o Camisa é seu autorama, gosta de brincar um pouco e enjoa logo. E mais: "Não vou fazer disto minha carreira, pois é algo no qual eu já virei a página. Eu tenho orgulho, ótimas lembranças daquilo, mas eu não gosto de nostalgia." Pois é, mas esta é a quinta volta do Camisa e já dura desde 2015. O autorama está demorando a voltar pro depósito. Por que $erá?



Roberio Santana e Drake Nova

Observações de eunuco à parte, o que interessa é a música e o DVD mostra um show enérgico de um sessentão que não perdeu o pique. Impossível entrarem todos os sucessos e canções que marcaram a carreira do Camisa, mas lá estão Joana D'Arc no encerramento, Hoje, Deus Me De Grana, Só o Fim, My Way e outras. Garantia de divertimento e reflexão, melhor curtido com o som no talo.

EXTRA EXTRA EXTRA


Nos Extras há um divertido vídeo chamado História do Preservativo. Não é uma biografia, mas o histórico da camisinha, hoje a superstar dos tempos da Aids. Gravado num preto e branco churreado, o cineasta Mauricio Borges de Medeiros encarna um professor que conta, em inglês com legendas, que já na Roma antiga usava-se preservativos feitos com intestino e bexiga de animais. As doenças venéreas eram tidas como um castigo da deusa Vênus, daí o nome de camisa de Vênus.


A brincadeira remete ao choque causado pelo nome da banda quando contratada pela gravadora Som Livre para o primeiro LP. Falar no preservativo era "feio" na época, até o nome da banda era publicado como Camisa de... Daí Marcelo Nova foi chamado para uma reunião na Som Livre quando lhe prometeram acesso a programas da Globo desde que mudasse o nome. Marcelo disse que  tudo bem desde que o novo nome fosse Capa de Pica e mandou a Som Livre para a pqp. Há uma outra versão contada pelo colega ricrado Schott, que cito: "O Reinaldo Barriga, que produziu o Camisa na RGE, me contou uma vez uma história diferente sobre a banda - segundo ele, o João Araújo adorava o Marcelo Nova mas achou melhor tirar o grupo da Som Livre e passá-lo para a RGE, que era uma espécie de 'purgatório' da gravadora por aqueles tempos.'' 



O álbum saiu sem divulgação, mas foi tiro no pé porque em álbuns posteriores passaram da marca de 300 mil cópias vendidas. E a Camisa de Venus caiu na boca do povo como preventivo contra a Aids ou seja a capa de pica venceu.

Repertório

01. Introdução
02. Bota Pra Fudê (álbum Plugado - 1995)
03. Hoje (Batalhões de Estranhos - 1984)
04. Bete Morreu (Camisa de Vênus - 1983)
05. Dançando na Lua (Faixa título - 2016)
06. Manhã Manchada de Medo (Dançando na Lua - 2016)
07. Quem É Você? / Cidade Fantasma / Gotham City (Quem É Você - 1996/ Batalhões de Estranhos - 1984)
08. Eu Vi o Futuro (Quem É Você - 1996)
09. Vento Insensato (Dançando na Lua - 2016)
10. Deus Me Dê Grana (Correndo Risco - 1986)
11. A Ferro e Fogo (Correndo Risco - 1986)
12. A Raça Mansa (Dançando na Lua - 2016)
13. Só o Fim (Correndo Risco - 1986)
14. My Way (Camisa de Venus Viva - 1986)
15. Silvia (Camisa de Venus Viva - 1986)
16. Simca Chambord / O Ponteiro Tá Subindo (Correndo Risco - 1986)
17. Eu Não Matei Joana D’Arc (Batalhões de Estranhos - 1984)

sábado, 8 de dezembro de 2018

Há 38 anos, o último dia de John Lennon

John e Yoko em frente ao  Dakota
Neste oito de dezembro, há 38 anos, John Lennon era assassinado pelo fã Mark David Chapman. Um choque imenso para milhões de pessoas no mundo que tinham os Beatles como referência em suas vidas. Neste post recrio em detalhes o último dia de vida de John Lennon. 




Primeiro Ato

John Lennon e Yoko Ono se mudaram em 1973 para o edifício Dakota, um prédio imponente no número um da Rua 72 Oeste, de frente para o Central Park. Inicialmente de aluguel do ator Robert Wagner, mas aos poucos compraram cinco unidades no prédio, moravam no sétimo andar, apartamento número 72 e usavam o vizinho 71 como estúdio e escritório.  A segunda-feira oito de dezembro ia ser agitada, John estava na fase de divulgação de seu primeiro álbum de inéditas desde Walls and Bridges (1974), o Double Fantasy, lançado em 17 de novembro e assinado por ele e Yoko.  Ele costumava tomar o desjejum no Café La Fortuna, a algumas quadras do Dakota na Rua71 Oeste, mas o local não abre às segundas.  Por volta de 10 da manhã saiu para cortar o cabelo numa barbearia próxima, optou por um corte estilo anos 50, com topete, como o da tribo inglesa de Teddy Boys a que os Beatles pertenciam no começo.




De volta ao Dakota, às 11 da manhã recebeu a fotógrafa Annie Leibovitz. Ele conversara longamente com o jornalista da Rolling Stone Jonathan Cott na sexta-feira anterior, dia cinco, e Annie foi fazer as fotos numa sessão que durou 90 minutos. Uma delas ficou mais famosa, ele encolhido nu sobre Yoko totalmente vestida, a capa da edição 335 de 22 de janeiro de 1981. A revista queria fotos só dele, mas John exigiu incluir Yoko porque Double Fantasy era do casal.




O próximo compromisso foi por volta de meio dia e 30, uma entrevista sobre o álbum para os jornalistas Dave Sholin e Laurie Kaye, da RKO Radio Network, a primeira a transmitir via satélite. Entrevistado pela rede britânica ITV em 2010, nos 30 anos de morte de John, Dave Sholin recordou: “O Dakota é um prédio impressionante. (No sétimo andar, apartamento 72) entramos num espaço incrível, uma sala maravilhosa onde tivemos que tirar os sapatos, sentamos em almofadas e Yoko nos saudou. Olhei para cima e vi nuvens brancas lindas pintadas no teto. Yoko conversou conosco por quase meia-hora, aí uma porta abriu, John entrou, deu uma pirueta no ar e disse: ‘Aqui estou pessoal, pronto para começar o show.’ Ele abriu os braços e veio em nossa direção, como se quisesse nos deixar confortáveis. E funcionou, em dois ou três minutos conversávamos como se nos conhecêssemos há anos. Nas três horas e meia em que estivemos juntos, ele se mostrou feliz e cheio de entusiasmo com as novas perspectivas familiares e musicais. Ele pretendia fazer uma turnê do novo disco.”  John concluiu a entrevista com uma frase otimista: “Meu trabalho só terminará no dia em que estiver morto e enterrado, o que espero demore muito, muito tempo.”


Foto de Annie Leibovitz para a Rolling Stone

Às cinco da tarde, mais ou menos, ele e Yoko saíram do Dakota, logo depois da equipe da RKO, iam para o estúdio trabalhar. Por algum motivo, o carro deles não apareceu, então John pediu uma carona ao pessoal da RKO. Antes de entrar no carro atendeu vários fãs que pediram autógrafos.  Um deles foi seu assassino, Mark Chapman, que rondava o Dakota há alguns dias. Um  fotógrafo amador, Paul Goresh, que estava sempre no Dakota e já conhecia John, registrou o momento. Goresh foi ao Dakota ver se John tinha autografado o livro A Spaniards In The Works que deixara na portaria. Estava autografado e Goresh o resgatou. 

     John autografou o álbum Double Fantasy para seu assassino Mark Chapman

Ele falou mais cedo com Mark Chapman, que lhe disse ter vindo do Havaí só para pegar um autógrafo na sua cópia de Double Fantasy. Quando Goresh perguntou onde ele estava hospedado, Chapman lhe deu um fora e se afastou. Goresh contou ainda que cumprimentou John na calçada e este perguntou se ele tinha pego o livro. Foi quando Chapman se aproximou com o LP nas mãos e o estendeu para John sem dizer nada. “Você quer que eu autografe?” Chapman fez que sim com a cabeça, John autografou, perguntou se era só isso que ele queria, Chapman o pegou de volta e se afastou sem dizer uma única palavra. John virou para Goresh com um olhar tipo “que esquisito” e entrou na limusine. 




Dave Sholin contou na entrevista citada acima que no caminho para o estúdio John falou de seu relacionamento com Paul McCartney, com quem brigou nos momentos finais dos Beatles e os dois trocaram farpas em entrevistas e em músicas de seus álbuns solo. “Ele é como um irmão, eu o amo, coisas de família, a gente tem altos e baixos, mas no fim das contas eu faria qualquer coisa por ele e acho que ele faria o mesmo por mim,” disse John, segundo Sholin.


John, Yoko e Sean


No estúdio Record Plant, no 321 da Rua 44 Oeste, ele finalizou a canção de Yoko Walking On A Thin Ice, lançada como single em seis de janeiro de 1981. Gravou várias partes de guitarra com sua Rickenbacker 325, de 1958, usada nos primeiros tempos dos Beatles. Em seguida mixou a canção com o produtor do disco, Jack Douglas, que lembrou em entrevistas: “John estava nas nuvens. Acabamos a mixagem naquela noite e os acompanhei até o elevador: ‘A gente se vê no Sterling,’ o estúdio de masterização, na manhã seguinte às nove. Ele era só sorrisos, levava fitas cassete com gravações e Yoko também era só sorrisos. E a porta do elevador se fechou.”  Isso foi por volta de 22h30, cogitaram de jantar no restaurante Stage Deli, frequentado por celebridades porque ficava perto do famoso Carnegie Hall, mas decidiram ir para casa dar um beijo de boa noite no filho, Sean Ono Lennon, então com cinco anos.




O porteiro do Dakota, John Hastings, um fã dos Beatles, estava lendo uma revista pouco antes das 11 da noite, quando ouviu tiros do lado de fora e barulho de vidro estilhaçado. John cambaleou para dentro, andou vários passos e caiu, espalhando fitas cassete que tinha nas mãos. Yoko veio logo em seguida gritando, “John foi baleado”. Hastings apertou o alarme que chamava a polícia, correu e se ajoelhou junto a Lennon. Yoko gritava pedindo uma ambulância, depois foi para junto do marido e gritou “Tudo bem John. Você vai ficar bom.” Hastings tirou a gravata para usar como torniquete, mas não havia lugar para aplicá-lo. O sangue jorrava do peito e da boca de Lennon, seus olhos abertos e desfocados, ele tossiu vomitando sangue e pedaços de tecido. Dois carros de polícia chegaram, os policiais Bill Gamble e James Moran entraram no prédio, viram Lennon, viraram-no para avaliar os ferimentos, disseram que não dava para esperar uma ambulância e levaram-no para um dos carros, que saiu em disparada com ele e Yoko dentro. 




Outros dois policiais, Steve Spiro e Peter Collin, prenderam Mark Chapman, que não tentou fugir. Ele sentou na calçada e ficou lendo o livro O Apanhador do Campo de Centeio, de J.D. Salinger, que trata das angústias existenciais e da revolta do adolescente Holden Caulfield diante dos desafios do mundo.

Segundo Ato



Pouco depois de meia-noite, o doutor Stephan Lynn, chefe da emergência do Hospital Roosevelt, no número 1000 da Décima Avenida com a Rua 59 Oeste, saiu para falar com o batalhão de jornalistas aglomerado do lado de fora:

– John Lennon foi trazido num carro de polícia para o pronto socorro do Hospital Roosevelt esta noite, pouco depois das 11 horas. Ele estava morto ao dar entrada. Mesmo assim, extensos esforços para ressuscitá-lo foram feitos mas, a despeito de transfusões e de outras medidas, não foi possível salvá-lo. Ele tinha sete ferimentos a bala no braço esquerdo, no peito e nas costas. Houve danos significativos nos principais vasos do peito que provocaram maciça perda de sangue, o que provavelmente resultou na sua morte. O óbito foi declarado às 23h 07m.




Em entrevistas, o doutor Lynn rememorou aquela noite em que dava plantão na emergência do Hospital Roosevelt: “Dois policiais entraram com o paciente numa maca e mandei que o colocassem na sala de ressuscitação. Havia três perfurações de bala na parte superior do lado esquerdo do peito e uma no braço esquerdo. Não sabíamos quem era ainda, a rotina é colocar o nome numa etiqueta presa na roupa, olhei e dizia 'John Lennon'. Uma enfermeira não acreditou, disse ‘não parece John Lennon, não pode ser.’  De repente ouvi alguém chorando e entrou Yoko Ono, aí tivemos certeza de quem era e algumas pessoas da equipe começaram a chorar." Lynn logo constatou que as  balas [hollow point] tinham destruído todos os vasos sanguíneos que saíam do coração, a aorta e suas ramificações: "Ficou claro que nada mais havia a fazer, mesmo assim eu massageei o coração com  as mãos numa tentativa de fazê-lo bater e fizemos uma transfusão de sangue, mas, com todos os vasos sanguíneos destruídos, de nada adiantou. Restou-nos declarar o óbito. Ficamos todos em estado de choque e muitos choravam compulsivamente." 

Estas declarações incoerentes do médico refletem a perplexidade e o estado de choque dele e da equipe. Se estava morto, como ressuscitá-lo? Se o sistema circulatório foi destruído, para que massagear o coração e fazer uma transfusão?


Yoko Ono na saída do Hospital Roosevelt

O doutor Lynn saiu da sala para dar a notícia a Yoko. Sua primeira reação foi de negação. ‘Não é verdade. Você está mentindo. Não pode ser. Não acredito,’ disse ela, segundo o médico, que prosseguiu: “Ela caiu, coloquei minha mão atrás de sua cabeça para evitar que batesse no chão. Chorava desesperadamente e repetia ‘não, não, não’. Uma enfermeira se aproximou e lhe entregou a aliança de John. Ela se conteve e pediu que não divulgassem nada até ela chegar em casa e contar a Sean, cinco anos, que devia estar assistindo televisão àquela hora.




Não foi possível atender ao pedido porque um jovem jornalista da rede de TV ABC, Alan Weiss, sofrera um acidente de motocicleta e estava sendo atendido na emergência. Quando soube do que se tratava, imediatamente ligou para a redação e a ABC foi a primeira a dar a notícia. Sean não estava vendo TV, já tinha ido dormir. Numa entrevista a Philip Norman, autor da biografia John Lennon, A Vida, lançada aqui pela Companhia das Letras, Sean disse que acordou no dia seguinte sem saber de nada: “Senti uma atmosfera muito estranha na casa, todas aquelas multidões do lado de fora. Minha mãe sentada na cama debaixo do cobertor e eu juro que me lembro de ter visto um jornal, quase entendendo algo da manchete. Lembro de ficar de pé ao lado dela, enquanto me dizia ‘seu pai levou tiros e morreu’. E lembro que a coisa mais importante para mim era que não queria que ela me visse chorar. Lembro-me de dizer: ‘Não se preocupe mamãe. Você ainda é jovem, vai encontrar outra pessoa’. Aos cinco anos de idade achava que aquilo era a coisa mais madura pra dizer.”

Terceiro Ato



Às duas da madrugada, o porta-voz da polícia, James Sullivan, falou com centenas de jornalistas apinhados na sala de imprensa do 20º distrito no nº 120 da Rua 82 Oeste.

– Pedimos que viessem para dar um breve relato do que sabemos até agora sobre o homicídio de John Lennon. Prendemos Mark David Chapman, residente na Rua South Kukui 55, no Havaí, pela morte de John Lennon. É caucasiano, pele bronzeada, um metro e setenta, 80 quilos, cabelos castanhos, olhos azuis, 25 anos de idade. Nascido no dia 10 de maio de 1955, aparentemente está em Nova York há mais ou menos uma semana, tendo se hospedado na Associação Cristã de Moços e no Sheraton Centre. Ele esteve rodeando o prédio Dakota nos últimos dias e conseguiu obter um autógrafo num disco de Mr. Lennon quando este saía para o estúdio. Permaneceu no Dakota de noite esperando que Mr. Lennon voltasse. Pouco antes das 11 horas, John Lennon e sua esposa chegaram de volta ao Dakota numa limusine que parou na frente do edifício. Existe uma entrada de automóvel que podia ter sido usada. Os dois saíram e andaram até a arcada do Dakota. Este indivíduo, Mr. Chapman, veio por trás e chamou “Mr. Lennon”. Em seguida, em posição de combate, esvaziou o revólver Charter Arms calibre 38. O sr. Lennon gritou “Fui baleado”, subiu os degraus, empurrou a porta e caiu.”


                                             A arma do crime. Mark usou balas hollow point

Coda


Comoção coletiva com a notícia do crime

Centenas de pessoas se aglomeraram em frente ao Dakota, assim que a notícia se espalhou, cantando Give Peace A Chance. Muitos choravam, portavam velas e bastões de incenso. Lá dentro Yoko ligou para Paul McCartney e para Mimi, a tia que criou John. Ela foi acordada e, quando disseram que era Yoko, sua primeira reação, ainda sonolenta, foi dizer: “O que ele aprontou desta vez?” Ringo, que estivera com John dois meses antes, pegou um avião para Nova York nas Bahamas com a noiva Barbara Bach, desembarcou e foi direto para o Dakota.

Julian Lennon, filho do primeiro casamento, veio do País de Gales. Paul McCartney, pálido e abatido, falou com a imprensa na saída do Air Studio e pediu todo apoio a Yoko. Em comunicado, emitido mais tarde, Paul disse que as diferenças entre os dois, na reta final dos Beatles, de 1968 a 1970, eram coisa do passado e que se tornavam grandes amigos outra vez. George Harrison estava gravando quando recebeu a notícia. Interrompeu e foi para casa. Mais tarde, num comunicado, disse: “Depois de tudo que passamos juntos eu tinha e ainda tenho um grande amor e respeito por John. Estou atordoado. Roubar uma vida é o roubo mais definitivo.” 

O corpo de Lennon foi cremado dia 10 de dezembro no Ferncliff Cemetery em Hartsdale, Nova York. Não houve velório. Yoko Ono espalhou as cinzas no Central Park, onde cinco anos depois construíram o Strawberry Fields Memorial.


Memorial Strawberry Fields

O Assassino

Mark David Chapman, hoje com 63 anos, está confinado desde 15 de maio de 2012 na Wende Correctional Facility em Alden, estado de Nova York. Foi condenado a de 20 anos à prisão perpétua em 24 de agosto de 1981 e levado para a penitenciária de Attica, na cidade homônima do estado de Nova York, onde permaneceu até ser transferido. Pela sentença ele podia requerer liberdade condicional a cada 24 meses após 20 anos de prisão e o fez no ano 2000. Desde então teve o pedido negado 10 vezes, a última em 23 de agosto deste ano. A próxima audiência de condicional é em agosto de 2020.

Mark Chapman  em  2013

Na época do processo, Chapman citou argumentos religiosos e acusou John de hipocrisia para justificar seu crime. Ele se mostrou irritado com o primeiro álbum solo John Lennon/Plastic Ono Band (1970) pela música God, em que Lennon proclama descrença em tudo, incluindo Jesus, e diz que Deus é um conceito que usamos para medir nossa dor.  E ainda pela declaração dele em 1966 de que os Beatles eram mais populares do que Jesus. "Eu fiquei com raiva porque ele disse que não acreditava em Deus e não acreditava nos Beatles. Quem ele pensa que é, falando essas coisas contra Deus, o céu e os Beatles. Uma nuvem negra tomou minha alma de tanto ódio e revolta.”


A mulher dele, Gloria, afirmou: "Ele ficou com raiva que Lennon pregasse o amor e a paz e tivesse milhões de dolares.” Chapman ampliou: “Ele nos dizia para imaginar que não tínhamos bens e lá estava ele, com milhões de dolares, iates e mansões no campo, rindo de gente como eu que acreditava nas mentiras dele, comprava os discos e que tinha sua vida influenciada pelas músicas dele.”

Chapman tem bom comportamento, se diz religioso e tem direito a uma visita íntima de 42 horas por ano da mulher Gloria.

Observações

Este é o relato mais fiel que consegui levantar através de pesquisas em livros e na internet. Há várias discrepâncias nas pesquisas, os horários certamente são aproximados, algumas informações contraditórias são absurdas, como os nomes dos quatro policiais que chegaram primeiro ao Dakota. Bastava olhar a ocorrência na delegacia para ver os nomes, mas há vários deles citados na mesma hora e no mesmo lugar. Optei pelos citados mais vezes. 

Um erro comum repetido em vários livros, incluindo em John  Lennon A Vida, de Philip Norman, que citei, é que John  tomou o desjejum no Café La Fortuna, que ficava a um quarteirão do Dakota. Frequentadores do La Fortuna na mesma época disseram a um documentário da BBC que o La Fortuna não abria às segundas, dia de folga do pessoal. Acreditei no depoimento do doutor Stephan Lynn  porque em momentos muito traumáticos a gente costuma lembrar de tudo, daí lhe dei este crédito. 

Boa parte do material acima é do livro A Balada de John e Yoko, autoria da equipe da revista Rolling Stone, que cobriu extensivamente os Beatles e a carreira solo de John Lennon e fez a última entrevista com ele. Foi editado em 1983 aqui pelo Clube do Livro, da Editora Abril. Há exemplares à venda no Mercado Livre. Recomendo.