sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Tyler Bryant and The Shakedowns e The Kills, duas bandas de estilos opostos, fazem sucesso no Palco Sunset do Rock in Rio

Tyler Bryant - Fotos de Cleber Junior

Duas bandas de linhas musicais opostas abriram o Palco Sunset nesta quinta, ainda sob a força inclemente do maçarico. O hard rock setentista de Tyler Bryant and The Shakedown contrasta com a linha indie da dupla The Kills, o guitarrista Jamie Hince e a vocalista e eventual guitarrista Alison Mosshart.

Kills me soa como algo novo (acompanho rock desde 1964) em contraste com a mistura Deep Purple/Led Zeppelin e semelhantes do Tyler, um típico guitar hero que me soa deja ouvi. É um bom músico, dedicado e honesto na sua música e encontrou muito boa receptividade da plateia, talvez por ser média jovem e que se entusiasmou muito com a saraivada de solos que ele serviu em uma hora de show.


Jamie Hince e Alison Mosshart - The Kills

Pontos altos do show foram That’s Alright Mama, um dos primeiros hits de Elvis Presley, tocado com fúria e um excelente desempenho dele em slide numa dobro steel guitar: “Vamos levar vocês para o Tennessee, de onde viemos,” disse ele numa alusão a Elvis ser de Memphis, no estado americano, e eles de Nashville. E ainda o blues Got My Mojo Working, standard gravado por Muddy Waters. Tyler Bryant conquistou a plateia e, por extensão, o Brasil, deve pintar aqui agora com frequência depois desta primeira vez.
Kills acho um pouco desconcertante. Alison é maravilhosa, tem uma entrega absurda, ainda mais do jeito que entrou no palco, com febre, mas a energia da música e da plateia lhe deram uma levantada, foi ficando mais elétrica e mais intensa com o desenrolar da apresentação.

Graham Whitford, dos Shakedowns. Filho de Brad Whitford, do Aerosmith. Como o pai prefere Gibson Les Paul

Jamie Hince tem um estilo intrigante e instigante. Ele é one man band, toca guitarra, baixo, bateria e teclados, mas em turnê se restringe a um excelente trabalho de guitarra que vai do sutil ao esporrento com muitos efeitos de puro barulho, apesar da banda não ser considerada de noise rock, mas uma classificação esdrúxula de noisy, dirty garage punk blues e de dark psychedelia, entre outras adjetivações.

Caleb Crosby - The Shakedowns

É aí que está o trunfo dos Kills, ser meio inclassificável, obrigar os colegas gringos a fazer malabarismos para definir sua música. O que interessa é que conseguem soar como novidade num terreno onde é difícil fazer algo novo, o rock parece estar apenas se repetindo com variações. A dupla sabe driblar as redundâncias.  Na saída do Sunset para a Sala de Imprensa encontrei o grande Edgar Scandurra, que tinha tocado com Ana Cañas. Ele ainda não conhecia os Kills e achou a dupla muito boa. Palavra de especialista.

Calvin Webster -  The Shakedowns


SETLISTS

TYLER BRYANT AND THE SHAKEDOWNS
Weak & Wepin’
Criminal Imagination
House on Fire
Easy Target
Last One Leaving
That’s Alright Mama
Don’t Mind the Blood
Got My Mojo Working
Aftershock
Lipstick Wonder Woman
House That Jack Built

THE KILLS
Heart of a Dog
U.R.A. Fever
Kissy Kissy
Hard Habit to Break
Black Balloon
Doing It to Death
Baby Says
Tape Song
Echo Home
Siberian Nights
Pots and Pans/ Monkey 23

Def Leppard faz show com hits e harmonia no palco

ATT. Este ano conto com a força da repórter Thais Monteiro na cobertura do Rock in Rio. Ela é jornalista, é do rock e trabalha na produção do Imperator

Por Thaís Monteiro
Obs. A produção não deixou que fotografássemos o show.

A banda inglesa subiu ao palco do Rock in Rio na noite de quinta e dividiu o público entre aqueles em que viviam o sentimento da palavra Hysteria e aqueles que não conheciam muito o trabalho dos músicos. Para os fãs, Def Leppard fez valer a pena a espera para vê-los no festival, após o cancelamento na saudosa edição de 1985 do festival, na qual foram substituídos pelo Whitesnake.

Há quem acredite que a única razão tenham sido as gravações de um disco, assim como há quem bata o martelo e coloque o acidente com o baterista Rick Allen, quando perdeu seu braço esquerdo, como fator principal. Opiniões divergentes sempre estão presentes entre os fãs, independente do artista. Fãs esses que já estão levando seus filhos adolescentes, e até adultos, para o show.
Foi em meio ao clima familiar, com parte do público afinado, que os ingleses foram recebidos. Hysteria, não é só uma palavra traduzida para dar sentido à emoção vivida pelos roqueiros, mas também é o título do álbum escolhido pelo quinteto para ser o carro chefe do show e também o de maior sucesso da banda. O primeiro hit executado foi Animal e fez com que fosse possível ouvir um coro mais próximo ao palco.

No set também entraram Love Bites, Rocket e Pour some sugar on me. Apesar do desfile de boas músicas, do impactante timbre das guitarras e do show impecável, muitas pessoas ficaram deitadas nas cangas no entorno do palco mundo. Hysteria, seguida por um trecho de Heroes, de David Bowie e Rock of Ages foram momentos altos da apresentação.

Outro ponto que merece destaque é a performance do baterista Rick Allen. O músico, que sofreu um acidente de carro em dezembro de 1984, teve seu braço esquerdo inteiro amputado, ocasionado pelo forte impacto. O kit adotado por ele foi desenvolvido sob medida e combina elementos acústicos e eletrônicos. Observando o instrumento mais a fundo, é possível notar que, no chão, um sistema de pedal triplo funciona como um braço virtual, o que permite que Rick tenha uma segunda opção para a reprodução dos sons da caixa, bumbo e um dos tons.

Def Leppard percorreu diferentes fases da carreira (apesar de focar mais em um único álbum) em pouco mais de uma hora de show e fez jus à capacidade criativa e à musicalidade da banda, que, agora, em sua segunda vinda ao Brasil, volta pra casa sentindo o calor e ainda ouvindo os aplausos de 100 mil pessoas ao fundo, diferente da apresentação que fizeram em 1997, para pouco mais de 100 pessoas, segundo o guitarrista Phil Collen em entrevista para o jornal O Globo, no mês passado.

O saldo da apresentação foi positivo. Quem não conhecia, teve a oportunidade de ver o melhor da banda, reunindo tudo o que havia de melhor dentro do estilo, na década de 80. Com aplausos um pouco mais fortes, a banda se reúne para uma foto no palco com um público ao fundo. A noite valeu a pena para os músicos e para os fãs.

Aerosmith mostra lado mais comercial no Rock in Rio

Obs. A produção do Rock in Rio não permitiu que fizessemos fotos da banda.

O headliner da noite de quinta no Rock in Ro dividiu opiniões. Entre muito bom e mediano. Eu fiquei pelo mediano. Conheço a banda desde o começo como uma banda de hard rock com pé  no blues. Senti muito pouco disso no concerto, o Aerosmith perdeu a alma em sua longa  carreira. Descambaram para baladas bem apelativas, como Crazy e I Don’t Wanna Miss A Thing, as que mais entusiasmaram a plateia, mas não quem gosta do lado rock da banda.

Um dos discos mais representativos  do lado rock da banda é Get Your Wings, de 1974, que não tem uma música sequer no setlist. Eu senti o Aerosmith véio de guerra nas canções  Stop Messin' Round e Oh Well, que são da banda Fleetwood Mac, não a consagrada e diluída, mas a do começo, da fase blues rock capitaneada por Peter Green, autor destas duas canções.

Ali sim, estava a força do Aerosmith, Joe Perry cantou, mandou ver na guitarra, ele e Tyler na gaita fizera um improviso de pergunta e resposta sensacional, tudo com a garra que os levou a formar a banda em 1970 e merecer o título de Maior Banda de Rock da América.

Tudo bem, é notável que toquem duas horas com tanta energia depois das brabeiras que infringiram a si mesmos ao longo de suas existências. Tyler chegou a virar um farrapo humano consumido pelas drogas, a banda inteira passou por clínicas de reabilitação, Que Tyler esteja com a voz em forma e a banda afiada é milagre de subir a escadaria da Penha de joelhos.

AEROSMITH SETLIST
1 - Let the music do the talking
2 - Love in an elevator
3 - Cryin'
4 - Livin' on the edge
5 - Rag doll
6 - Falling in love (Is hard on the knees)
7 - Stop messin' around (cover do Fleetwood Mac)
8 - Oh well (Fleetwood Mac cover)
9 - Crazy
10 - I don't want to miss a thing
11 - Eat the rich
12 - Come together
13 - Sweet emotion
14 - Dude (Looks like a lady)
15 - Dream on
16 - Walk this way


Circo de Alice Cooper agrada mais que atrações do Palco Mundo do Rock in Rio

Atrás de Alice (da E) Chuck Garric, Ryan Roxie e John Perry - Fotos de Cleber Junior

Não teve pra ninguém no Palco Sunset e até no Palco Mundo. Diante do show morno do Def Leppard muita gente achou que Dona Alice faria muito melhor por lá com sua pirotecnia e seus truques de cena.

Dona Alice continua insuperável com seu rock horror show. Quem viu pelo Multishow sabe do que se trata, mas ver de perto aumenta muito o impacto dos mil truques que ele apresentou em uma hora de concerto. Miss Cooper foi eletrocutado e guilhotinado, escorou a voz e o preparo físico que não é mais aquele numa excelente banda que preencheu com competência os momentos em que ele se retira do palco para tomar folego.




Ele teve um convidado mais louco que ele, na verdade seu predecessor, Arthur Brown, que cantou com Alice seu sucesso Fire vestido a caráter (ou sem),  todo de preto com uma roupa glitter por baixo e uma pira pegando fogo na cabeça, retirada por um roadie no meio da música para não torrar os miolos dele.
Halo of Flies, que tem uma longa parte instrumental, cheia de climas, foram bem uns 10 minutos que as três guitarras de Tommy Henriksen, Rian Roxie e da estrelar Nita Strauss se dividiram em solos num arranjo bem feito que deu oportunidade a cada um de brilhar. Em outro trecho foi a vez da cozinha ter sua parte solo. O baixista Chuck Garric e o baterista Glen Sobel dialogaram e Sobel fez o solo que não pode faltar em show de classic rock.

Por ser um show reduzido Alice só apresentou sucessos, especialmente de meu álbum favorito, Killer (1971). A furiosa Under My Wheels, a climática Halo of Flies e a fatídica Killer. Ele foi contra a onda do politicamente correto e massacrou uma boneca de pano, a arrastou pelos cabelos, encheu de porrada e jogou de volta de um grande baú de onde, durante o show, uma mulher emergia para lhe dar casacos, fraque e uma  cartola. Em Only Women Bleed, que começa a cantar sentado numa lata de lixo ensanguentada, ele contracena com uma bailarina e simula dar-lhe uma facada.


Feed my Frankenstein

Se o Iron Maiden tem o monstro Eddie, Alice Cooer tem um enorme Frankenstein que ele pede para ser alimentado em Feed My Frankenstein, bem no clima dos zumbis cenográficos que “enfeitam” o cenário.

Quando o guilhotinaram, sua cabeça foi exibida por um carrasco mascarado e ainda foi fritado numa caixa preta que explodiu em fogos no meio do palco. Será que suas músicas se sustentariam sem isso, Será ele mais teatro do que música? Pode até ser, mas ninguém se importa com isso. Cumpre a função de divertir há décadas. Eu vi seu show no Maracanãzinho nos idos de 1974, um dos primeiros artistas gringos a nos desbravar. Na época seu teatrinho causou reações porque estripava bonecas em Dead Babies com sangue artificial pingando.

Hoje em dia perdeu esta aura de impacto. A tecnologia deu um forte upgrade no terror e reduziu seus truques a mafuá de parque de diversões, uma viagem no trem fantasma. Ele solta fogos, usa fumaça, bolhas de sabão, chamas quer saber, funciona.

 Ele fechou a noite com um grande sucesso, School’s Out, com inclusão de Another Brick In The Wall Pt2, do Pink Floyd, com direito à participação estelar de Joe Perry, guitarrista do Aerosmith. As duas canções tem o mesmo tema,  chega de escola. É o hino certeiro dos inconformados, muitos deles viraram heróis do rock. Como já disse um deles, não lembro agora qual, se não tivesse virado um rock star estaria morto. Alice Cooper simula a própria morte duas vezes em cada show, mas vai muito bem, obrigado.
Setlist
Brutal Planet
No More Mr. Nice Guy
Under My Wheels
Solo de Nita Strauss
Poison
Halo of Flies
Feed My Frankenstein
Cold Ethyl
Only Women Bleed
I Love The Dead/Killer

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Lobão chama de redenção seu álbum tributo à sua geração e fala do veto a Surfista Calhorda

Divulgação

Conversei com Lobão por telefone sobre sua Antologia politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock que deu polêmica na terça-feira com o veto da música Surfista Calhorda pelos autores Carlos Gerbase e Heron Heinz.Foi o primeiro veto, talvez não por acaso de uma banda punk, e ainda aguarda a liberação de Leve Desespero, do Capital Inicial, e de Eu Sei, que é só de Renato Russo. A que ele mais temia em termos de licença teve um final feliz ontem, Rita Lee liberou Orra Meu, faixa de abertura do CD e álbum duplo de vinil que sai no final de ano financiado por crowdfunding, que só será iniciado depois do repertório pronto e autorizado com 24 em vez de 25 músicas.

Apesar de se intitular politicamente incorreta, a coletânea traz só sucessos de sua geração (fora a Rita) o que a torna bem correta. Lobão não faz mistério, ele coloca no Facebook pessoal e oficial amostras das músicas com sua visão pessoal.

Ele diz que um critério para escolher foi que pudesse sentir como se fossem dele. Tentou algumas, mas não conseguiu incorporá-las, como Índios (Legião Urbana) e Menina Veneno (Ritchie) nesta engasgou no “abajur cor de carne.”

Nos anos 80 Lobão não poupou seus contemporâneos, especialmente Os Paralamas do Sucesso, com sua língua ferina, agora deu uma guinada de 180 graus em sua postura: “Este disco pra mim é uma redenção. Estou tentando ressaltar a grandeza do trabalho dos anos 80, de mostrar ao público atual como são belas, de dar uma paisagem sonora bonita para elas. Tem um ponto na tua existência que exige que a gente seja legal, que a gente mostre que tem uma essência legal e estou comovido que a maioria esmagadora dos envolvidos tem mostrado isso,” disse-me.

Contou que os Paralamas aprovaram Lanterna dos Afogados e Quase um segundo: “Em Quase Um Segundo tive quase uma síncope, estou tendo isso com todas as músicas, me sinto tomado. Eu nunca fui intérprete, para mim é uma experiência nova, quase como se eu tivesse um encefalograma da alma do cara que fez a música.”

A bronca com Surfista Calhorda foi que Lobão mudou o verso “Vai pra Nova Iorque estudar advocacia” para “vai se matricular na UFRGS pra estudar sociologia.”  Ele achou a piada datada e acredita que a mudança ficou atual: “Hoje o filho é um universotário, com 45 anos ainda está na faculdade e mora com a mãe, é um arquétipo dos dias de hoje.” Ele acha que sua mudança faz mais sentido atualmente com o verso precedente “Vive da herança milionária de uma tia.”

“Eu procuro atualizar coisas que acho datadas. Em O Tempo Não Para troquei ‘museu de grandes novidades’ por ‘museu de velhas novidades,’ Em Pânico em SP quando diz que o medo da população está estampado nos meios de comunicação, entrou

“os meios de comunicação não querem mostrar o pavor da população.”
Perguntei se tinha alguma do Kid Abelha, ele disse que não se via cantando “tira essa bermuda que eu quero você sério.” Explica: Tem que ser uma música que eu possa considerar minha. O tempo está exíguo, não tive tempo. Queria fazer Finis Africa, Picassos Falsos, Hojerizah, Zero, Voluntários da Pátria, Cólera.”
Quem sabe num volume 2, música boa é que não falta.

O Repertório

Blitz – Vítima do Amor
Camisa de Venus – Eu Não matei Joana D’Arc
Capital Inicial – Leve Desespero
Cazuza, Lobão e Cartola - Azul e amarelo
Cazuza – O tempo Não Para
Engenheiros do Hawaii – Toda Forma de Poder e Somos Quem Podemos Ser
Gang 90 & Absurdetes – Nosso Louco Amor
Guilherme Arantes - Planeta Água
Inocentes – Pânico em SP
IRA! - Dias de Luta e Núcleo Base
Kiko Zambianchi – Primeiros Erros
Legião Urbana – Eu Sei e Geração Coca Cola
Lulu Santos – Certas Coisas
Marina Lima - Virgem
Paralamas do Sucesso  - Quase Um Segundo e Lanterna dos Afogados
Plebe Rude – Até Quando Esperar
Rita Lee – Orra Meu
RPM – Louras Geladas