segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Beatles em streaming com 50 milhões de execuções em 48 horas



As canções dos Beatles foram ouvidas 50 milhões de vezes nas primeiras 48 horas de streaming no Spotify. A música mais ouvida – 1,8 milhão de vezes - foi Come Together, de John Lennon, do álbum Abbey Road (1969), uma canção que nasceu como lema da campanha alternativa do papa do LSD Timothy Leary ao governo da Califórnia. 

Na lista de execução global do Spotify, o segundo lugar é Let It Be (Paul McCartney), seguido de Hey Jude (Paul), Love Me Do (o primeiro single da banda), Yesterday (Paul), Here Comes The Sun (George Harrison), Help (John), All You Need Is Love, I Want To Hold Your Hand e Twist And Shout, a única que não é de autoria de um Beatle. 





A lista demonstra uma preferência pelos singles dos Beatles. O Spotify informou que  65% de seus usuários ouviram Beatles, com idades de até 34 anos, ou seja, todos nasceram depois do fim dos Beatles em abril de 1970. O Spotify informou ainda que as músicas dos Beatles foram adicionadas a 673 mil playlists de seus usuários. 

Ouvintes dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha coincidiram na preferência dos três primeiros lugares: Come Together, Hey Jude e Here Comes The Sun,  isto é, John, Paul e George, por coincidência a ordem de entrada de cada um na banda. John fundou os Quarrymen em 1956, Paul entrou em 1957 e este trouxe George em 1958. Hey Jude foi composta por Paul para Julian Lennon, primeiro filho de John, que não teve a presença do pai devido aos compromissos da banda. Isto no momento em que John estava deixando Julian e sua mãe, Chyntia, por Yoko Ono. George compôs Here Comes The Sun no jardim de Eric Clapton para saudar um dia de sol, presença rara na Inglaterra.





Os Beatles chegam ao streaming no momento em que há controvérsias sobre estes serviços por pagarem pouco pelas execuções. A cantora country americana Taylor Swift brigou com a Apple Music e a inglesa Adele não liberou streaming de seu último album, 25. Os artistas em geral se queixam da remuneração, que consideram desproporcional. O Spotify, por exemplo, paga US$0.0011 por execução. Os termos do contrato dos Beatles não foram relevados, mas a banda não costuma dar mole para ninguém. Abaixo as listas da América, da Grã-Bretanha e a global. 
Informações dos jornais ingleses Daily On Mail e The Independent.

Global 
1. Come Together 
2. Let It Be 
3. Hey Jude 
4. Love Me Do 
5. Yesterday 
6. Here Comes The Sun 
7. Help! 
8. All You Need Is Love 
9. I Want To Hold Your Hand 
10. Twist And Shout

Estados Unidos
1. Come Together
2. Hey Jude 
3. Here Comes The Sun 
4. Let It Be 
5. Twist And Shout 
6. Blackbird 
7. I Want To Hold Your Hand 
8. In My Life 
9. She Loves You 
10. Help!

Grã Bretanha 
1. Come Together 
2. Hey Jude 
3. Here Comes the Sun 
4. Twist and Shout 
5. Let It Be 
6. I Want To Hold Your Hand 
7. Help! 
8. Love Me Do 
9. I Feel Fine 
10. She Loves You

domingo, 20 de dezembro de 2015

Leoni lota o Imperator com Notícias de Mim

Fotos de Cleber Junior

Fui ao show Notícias de Mim, de Leoni, no Imperator e tive uma grande surpresa ao chegar às 21h09. Tinha começado, estava na segunda música. Pensei que ia estar vazio porque era cedo. Lotado, público sentado em cadeiras, veramente estranho. Muitos jovens, mas não muito jovens e uma coroada que ali estava para recordar seus glory days dos anos 80,  aquela coisa que o Leoni falou no fim, que uma parte do público é preguiçoso, só quer ouvir os hits. 





Ele tocou nove das 12 músicas do novo álbum, Notícias de Mim, financiado por crowdfunding: 853 fãs coçaram o buraco do pano para ajudar a fazer o CD. Ele anunciou que o disco físico só estava à venda nos shows e que ia receber e autografar no saguão. Quando saí tinha uma fila grande à espera dele, não esperei, puxei o beco. 


Andrea Spada


Leoni esteve no palco acompanhado pelos afiados músicos da banda Furacão de Bolso: o virtuose da guitarra Gustavo Corsi, Andrea Spada no baixo e Lourenço Monteiro na bateria. Esta configuração básica faz com que as músicas sejam mais viscerais do que no disco novo, em que há cordas e sopros, e no material do Kid Abelha. Um teclado daria uma amaciada e enriqueceria os arranjos, mas quem sou eu para dar pitaco no som de um músico com mais de 30 anos de estrada. A intenção deve ser essa, Rough and Ready, como no título do álbum do Jeff Beck Group. 


Lourenco Monteiro

Em Garotos II, seu maior sucesso solo, ele foi para a plateia, que cantou com ele. De volta ao palco elogiou o comportamento do público: “Quando vou para a plateia, me agarram, querem tirar selfie comigo e eu dizendo ‘espera, estou tocando. Vocês são muito civilizados, vou descer outras vezes.” 



Gustavo Corsi

Outro coro do povo foi na homenagem à Legião Urbana, Quase Sem Querer, que linkou com a trágica 50 Receitas, precedida por viradas de bateria, um solo pesado de Corsi que citou o tema de Midnight Cowboy. Leoni vai tornando a interpretação mais dramática até um final de cortar os pulsos. Parte dos presentes cantou junto (claro, os ausentes é que não podiam cantar).




"Fazer amor de madrugada..."

Não via show do Leoni há algum tempo. Ele tocou boa parte do show de guitarra, antes era violão, e solou várias vezes, incluindo em Só Pro Meu Prazer, de sua ex-banda Heróis da Resistência, num arranjo bluesy. Em Herói Que Mata há um acento boogie a la Bo Didley, um solo de baixo, e a íntegra de Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Los Bitles, como dizia Cássia Eller.


Antonio Leoni

Em minha conturbada cabeça entupida por 51 anos de rock’n’roll ouvi  um estilo Paul McCartney em Amor Real e umas frases a la Mark Knopfler em Caved Canem, que emenda com Educação Sentimental, dos Abelhas. Amor Real ele disse que contrapõe ao amor idealizado, à tal metade da laranja, a alma gêmea, que ele acha que não existe, a real é o amor elevador, o nosso do dia a dia, com altos e baixos, que pode enguiçar entre dois andares ou despencar lá de cima. “Woody Allen tem uma boa frase. ‘A realidade é muito chata, mas é o único lugar onde se pode comer um bom bife.”




Na reta final do show, ele serviu o bom bife. Seu filho Antonio Leoni assumiu a guitarra e ele, só na voz, desencadeou quatro hits do Kid Abelha, seu hit com Cazuza e Muito Obrigado, a faixa que encerra o álbum, um agradecimento a quem colaborou para a feitura do disco. O show teve mais uma depois dessa.

Ele começou um funk que não conheço e emendou com Lágrimas e Chuva, que rendeu uma discussão entre ele e eu no Morro da Urca quando o disco saiu. Yesterday’s papers. Notícias de Mim é um grande disco e gerou um belo show. Um ditado alusivo a uma grande banda diz que pedra que rola não cria limo. Aplica-se a Leoni. Ele continua rolando.




segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Há 36 anos, o último dia de vida de John Lennon



Yoko e John diante do Dakota

Neste oito de dezembro, há 36 anos, John Lennon era assassinado pelo fã Mark David Chapman. Um choque imenso para milhões de pessoas no mundo que tinham os Beatles como referência em suas vidas. Neste post recrio em detalhes o último dia de vida de John Lennon. Confesso que me emocionei e até fui às lágrimas na parte do hospital. John era meu Beatle favorito.




Primeiro Ato


John Lennon e Yoko Ono se mudaram em 1973 para o edifício Dakota, um prédio imponente no número um da Rua 72 Oeste, de frente para o Central Park. Inicialmente de aluguel do ator Robert Wagner, mas aos poucos compraram cinco unidades no prédio, moravam no sétimo andar, apartamento número 72 e usavam o vizinho 71 como estúdio e escritório.  A segunda-feira oito de dezembro ia ser agitada, John estava na fase de divulgação de seu primeiro álbum de inéditas desde Walls and Bridges (1974), o Double Fantasy, lançado em 17 de novembro e assinado por ele e Yoko.  Ele costumava tomar o desjejum no Café La Fortuna, a algumas quadras do Dakota na Rua71 Oeste, mas o local não abre às segundas.  Por volta de 10 da manhã saiu para cortar o cabelo numa barbearia próxima, optou por um corte estilo anos 50, com topete, como o da tribo inglesa de Teddy Boys a que os Beatles pertenciam no começo.




De volta ao Dakota, às 11 da manhã recebeu a fotógrafa Annie Leibovitz. Ele conversara longamente com o jornalista da Rolling Stone Jonathan Cott na sexta-feira anterior, dia cinco, e Annie foi fazer as fotos numa sessão que durou 90 minutos. Uma delas ficou mais famosa, ele encolhido nu sobre Yoko totalmente vestida, a capa da edição 335 de 22 de janeiro de 1981. A revista queria fotos só dele, mas John exigiu incluir Yoko porque Double Fantasy era do casal.




O próximo compromisso foi por volta de meio dia e 30, uma entrevista sobre o álbum para os jornalistas Dave Sholin e Laurie Kaye, da RKO Radio Network, a primeira a transmitir via satélite. Entrevistado pela rede britânica ITV em 2010, nos 30 anos de morte de John, Dave Sholin recordou: “O Dakota é um prédio impressionante. (No sétimo andar, apartamento 72) entramos num espaço incrível, uma sala maravilhosa onde tivemos que tirar os sapatos, sentamos em almofadas e Yoko nos saudou. Olhei para cima e vi nuvens brancas lindas pintadas no teto. Yoko conversou conosco por quase meia-hora, aí uma porta abriu, John entrou, deu uma pirueta no ar e disse: ‘Aqui estou pessoal, pronto para começar o show.’ Ele abriu os braços e veio em nossa direção, como se quisesse nos deixar confortáveis e funcionou, em dois ou três minutos conversávamos como se nos conhecêssemos há anos. Nas três horas e meia em que estivemos juntos, ele se mostrou feliz e cheio de entusiasmo com as novas perspectivas familiares e musicais. Ele pretendia fazer uma turnê do novo disco.”  John concluiu a entrevista com uma frase otimista: “Meu trabalho só terminará no dia em que estiver morto e enterrado, o que espero demore muito, muito tempo.”




Às cinco da tarde, mais ou menos, ele e Yoko saíram do Dakota, logo depois da equipe da RKO, iam para o estúdio trabalhar. Por algum motivo, o carro deles não apareceu, então John pediu uma carona ao pessoal da RKO. Antes de entrar no carro atendeu vários fãs que pediram autógrafos.Um deles foi seu assassino, Mark Chapman, que rondava o Dakota há alguns dias. Um  fotógrafo amador, Paul Goresh, que estava sempre no Dakota e já conhecia John, registrou o momento. Goresh foi ao Dakota ver se John tinha autografado o livro A Spaniards In The Works que deixara na portaria. Estava autografado e Goresh o resgatou. 


John autografou o álbum Double Fantasy para seu assassino Mark Chapman

Ele falou mais cedo com Mark Chapman, que lhe disse ter vindo do Havaí só para pegar um autógrafo na sua cópia de Double Fantasy. Quando Goresh perguntou onde ele estava hospedado, Chapman lhe deu um fora e se afastou. Goresh contou ainda que cumprimentou John na calçada e este perguntou se ele tinha pego o livro. Foi quando Chapman se aproximou com o LP nas mãos e o estendeu para John sem dizer nada. “Você quer que eu autografe?” Chapman fez que sim com a cabeça, John autografou, perguntou se era só isso que ele queria, Chapman o pegou de volta e se afastou sem dizer uma única palavra. John virou para Goresh com um olhar tipo “que esquisito” e entrou na limusine. 




Dave Sholin contou na entrevista citada acima que no caminho para o estúdio John falou de seu relacionamento com Paul McCartney, com quem brigou nos momentos finais dos Beatles e os dois trocaram farpas em entrevistas e em músicas de seus álbuns solo. “Ele é como um irmão, eu o amo, coisas de família, a gente tem altos e baixos, mas no fim das contas eu faria qualquer coisa por ele e acho que ele faria o mesmo por mim,” disse John, segundo Sholin.


Yoko,  John e Sean

No estúdio Record Plant, no 321 da Rua 44 Oeste, ele finalizou a canção de Yoko Walking On A Thin Ice, lançada como single em seis de janeiro de 1981. Gravou várias partes de guitarra com sua Rickenbacker 325, de 1958, usada nos primeiros tempos dos Beatles. Em seguida mixou a canção com o produtor do disco, Jack Douglas, que lembrou em entrevistas: “John estava nas nuvens. Acabamos a mixagem naquela noite e os acompanhei até o elevador: ‘A gente se vê no Sterling,’ o estúdio de masterização, na manhã seguinte às nove. Ele era só sorrisos, levava fitas cassete com gravações e Yoko também era só sorrisos. E a porta do elevador se fechou.”  Isso foi por volta de 22h30, cogitaram de jantar no restaurante Stage Deli, frequentado por celebridades porque ficava perto do famoso Carnegie Hall, mas decidiram ir para casa dar um beijo de boa noite no filho, Sean Ono Lennon, então com cinco anos.


Quando casaram em 1969 John e Yoko fizeram dois bed ins pela paz, em Amsterdam e Montreal

O porteiro do Dakota, John Hastings, um fã dos Beatles, estava lendo uma revista pouco antes das 11 da noite, quando ouviu tiros do lado de fora e barulho de vidro estilhaçado. John cambaleou para dentro, andou vários passos e caiu, espalhando fitas cassete que tinha nas mãos. Yoko veio logo em seguida gritando, “John foi baleado”. Hastings apertou o alarme que chamava a polícia, correu e se ajoelhou junto a Lennon. Yoko gritava pedindo uma ambulância, depois foi para junto do marido e gritou “Tudo bem John. Você vai ficar bom.” Hastings tirou a gravata para usar como torniquete, mas não havia lugar para aplicá-lo. O sangue jorrava do peito e da boca de Lennon, seus olhos abertos e desfocados, ele tossiu vomitando sangue e pedaços de tecido. Dois carros de polícia chegaram, os policiais Bill Gamble e James Moran entraram no prédio, viram Lennon, viraram-no para avaliar os ferimentos, disseram que não dava para esperar uma ambulância e levaram-no para um dos carros, que saiu em disparada com ele e Yoko dentro. 




Outros dois policiais, Steve Spiro e Peter Collin, prenderam Mark Chapman, que não tentou fugir. Ele sentou na calçada e ficou lendo o livro O Apanhador do Campo de Centeio, de J.D. Salinger, que trata das angústias existenciais e da revolta do adolescente Holden Caulfield diante dos desafios do mundo.

Segundo Ato




Pouco depois de meia-noite, o doutor Stephan Lynn, chefe da emergência do Hospital Roosevelt, no número 1000 da Décima Avenida com a Rua 59 Oeste, saiu para falar com o batalhão de jornalistas aglomerado do lado de fora:

– John Lennon foi trazido num carro de polícia para o pronto socorro do Hospital Roosevelt esta noite, pouco depois das 11 horas. Ele estava morto ao dar entrada. Mesmo assim, extensos esforços para ressuscitá-lo foram feitos mas, a despeito de transfusões e de outras medidas, não foi possível salvá-lo. Ele tinha sete ferimentos a bala no braço esquerdo, no peito e nas costas. Houve danos significativos nos principais vasos do peito que provocaram maciça perda de sangue, o que provavelmente resultou na sua morte. O óbito foi declarado às 23h 07m.






Em entrevistas, o doutor Lynn rememorou aquela noite em que dava plantão na emergência do Hospital Roosevelt: “Dois policiais entraram com o paciente numa maca e mandei que o colocassem na sala de ressuscitação. Havia três perfurações de bala na parte superior do lado esquerdo do peito e uma no braço esquerdo. Não sabíamos quem era ainda, a rotina é colocar o nome numa etiqueta presa na roupa, olhei e dizia 'John Lennon'. Uma enfermeira não acreditou, disse ‘não parece John Lennon, não pode ser.’  De repente ouvi alguém chorando e entrou Yoko Ono, aí tivemos certeza de quem era e algumas pessoas da equipe começaram a chorar." Lynn logo constatou que as  balas [hollow point] tinham destruído todos os vasos sanguíneos que saíam do coração, a aorta e suas ramificações: "Ficou claro que nada mais havia a fazer, mesmo assim eu massageei o coração com  as mãos numa tentativa de fazê-lo bater e fizemos uma transfusão de sangue, mas, com todos os vasos sanguíneos destruídos, de nada adiantou. Restou-nos declarar  o óbito. Ficamos todos em estado de choque e muitos choravam compulsivamente." 

Estas declarações incoerentes do médico refletem a perplexidade e o estado de choque dele e da equipe. Se estava morto, como ressuscitá-lo? Se o sistema circulatório foi destruído, para que massagear o coração e fazer uma transfusão?


Yoko Ono na saída do Hospital Roosevelt

O doutor Lynn saiu da sala para dar a notícia a Yoko. Sua primeira reação foi de negação. ‘Não é verdade. Você está mentindo. Não pode ser. Não acredito,’ disse ela segundo o médico, que prosseguiu: “Ela caiu, coloquei minha mão atrás de sua cabeça para evitar que batesse no chão. Chorava desesperadamente e repetia ‘não, não, não’. Uma enfermeira se aproximou e lhe entregou a aliança de John. Ela se conteve e pediu que não divulgassem nada até ela chegar em casa e contar a Sean, cinco anos, que devia estar assistindo televisão àquela hora.




Não foi possível atender ao pedido porque um jovem jornalista da rede de TV ABC, Alan Weiss, sofrera um acidente de motocicleta e estava sendo atendido na emergência. Quando soube do que se tratava, imediatamente ligou para a redação e a ABC foi a primeira a dar a notícia. Sean não estava vendo TV, já tinha ido dormir. Numa entrevista a Philip Norman, autor da biografia John Lennon, A Vida, lançada aqui pela Companhia das Letras, Sean disse que acordou no dia seguinte sem saber de nada: “Senti uma atmosfera muito estranha na casa, todas aquelas multidões do lado de fora. Minha mãe sentada na cama debaixo do cobertor e eu juro que me lembro de ter visto um jornal, quase entendendo algo da manchete. Lembro de ficar de pé ao lado dela, enquanto me dizia ‘seu pai levou tiros e morreu’. E lembro que a coisa mais importante para mim era que não queria que ela me visse chorar. Lembro-me de dizer: ‘Não se preocupe mamãe. Você ainda é jovem, vai encontrar outra pessoa’. Aos cinco anos de idade achava que aquilo era a coisa mais madura pra dizer.”

Terceiro Ato




Às duas da madrugada, o porta-voz da polícia, James Sullivan, falou com centenas de jornalistas apinhados na sala de imprensa do 20º distrito no nº 120 da Rua 82 Oeste.

– Pedimos que viessem para dar um breve relato do que sabemos até agora sobre o homicídio de John Lennon. Prendemos Mark David Chapman, residente na Rua South Kukui 55, no Havaí, pela morte de John Lennon. É caucasiano, pele bronzeada, um metro e setenta, 80 quilos, cabelos castanhos, olhos azuis, 25 anos de idade. Nascido no dia 10 de maio de 1955, aparentemente está em Nova York há mais ou menos uma semana, tendo se hospedado na Associação Cristã de Moços e no Sheraton Centre. Ele esteve rodeando o prédio Dakota nos últimos dias e conseguiu obter um autógrafo num disco de Mr. Lennon quando este saía para o estúdio. Permaneceu no Dakota de noite esperando que Mr. Lennon voltasse. Pouco antes das 11 horas, John Lennon e sua esposa chegaram de volta ao Dakota numa limusine que parou na frente do edifício. Existe uma entrada de automóvel que podia ter sido usada. Os dois saíram e andaram até a arcada do Dakota. Este indivíduo, Mr. Chapman, veio por trás e chamou “Mr. Lennon”. Em seguida, em posição de combate, esvaziou o revólver Charter Arms calibre 38. O sr. Lennon gritou “Fui baleado”, subiu os degraus, empurrou a porta e caiu.”

A arma do crime. Mark usou balas hollow point

Coda




Centenas de pessoas se aglomeraram em frente ao Dakota, assim que a notícia se espalhou, cantando Give Peace A Chance. Muitos choravam, portavam velas e bastões de incenso. Lá dentro Yoko ligou para Paul McCartney e para Mimi, a tia que criou John. Ela foi acordada e, quando disseram que era Yoko, sua primeira reação, ainda sonolenta, foi dizer: “O que ele aprontou desta vez?” Ringo, que estivera com John dois meses antes, pegou um avião para Nova York nas Bahamas com a noiva Barbara Bach, desembarcou e foi direto para o Dakota. Julian Lennon, filho do primeiro casamento, veio do País de Gales. Paul McCartney, pálido e abatido, falou com a imprensa na saída do Air Studio e pediu todo apoio a Yoko. Em comunicado, emitido mais tarde, Paul disse que as diferenças entre os dois, na reta final dos Beatles, de 1968 a 1970, eram coisa do passado e que se tornavam grandes amigos outra vez. George Harrison estava gravando quando recebeu a notícia. Interrompeu e foi para casa. Mais tarde, num comunicado, disse: “Depois de tudo que passamos juntos eu tinha e ainda tenho um grande amor e respeito por John. Estou atordoado. Roubar uma vida é o roubo mais definitivo.” 

O corpo de Lennon foi cremado dia 10 de dezembro no Ferncliff Cemetery em Hartsdale, Nova York. Não houve velório. Yoko Ono espalhou as cinzas no Central Park, onde cinco anos depois construíram o Strawberry Fields Memorial.


Memorial Strawberry Fields, Central Park


O Assassino


Mark David Chapman, hoje com 61 anos, está confinado desde 15 de maio de 2012 na Wende Correctional Facility em Alden, estado de Nova York. Foi condenado a de 20 anos à prisão perpétua em 24 de agosto de 1981 e levado para a penitenciária de Attica, na cidade homônima do estado de Nova York, onde permaneceu até ser transferido. Pela sentença ele podia requerer liberdade condicional a cada 24 meses após 20 anos de prisão e o fez no ano 2000. Desde então teve o pedido negado nove vezes, a última em 28 de agosto deste ano. A próxima audiência de condicional é em agosto de 2018.

Mark Chapman  em  2013

Na época do processo, Chapman citou argumentos religiosos e acusou John de hipocrisia para justificar seu crime. Ele se mostrou irritado com o primeiro álbum solo John Lennon/Plastic Ono Band (1970) pela música God, em que Lennon proclama descrença em tudo, incluindo Jesus, e diz que Deus é um conceito que usamos para medir nossa dor.  E ainda pela declaração dele em 1966 de que os Beatles eram mais populares do que Jesus. "Eu fiquei com raiva porque ele disse que não acreditava em Deus e não acreditava nos Beatles. Quem ele pensa que é, falando essas coisas contra Deus, o céu e os Beatles. Uma nuvem negra tomou minha alma de tanto ódio e revolta.”

A mulher dele, Gloria, afirmou: "Ele ficou com raiva que Lennon pregasse o amor e a paz e tivesse milhões de dólares.” Chapman ampliou: “Ele nos dizia para imaginar que não tínhamos bens e lá estava ele, com milhões de dólares, iates e mansões no campo, rindo de gente como eu que acreditava nas mentiras dele, comprava os discos e que tinha sua vida influenciada pelas músicas dele.”

Chapman tem bom comportamento, se diz religioso e tem direito a uma visita íntima de 42 horas por ano da mulher Gloria.

Observações


Este é o relato mais fiel que consegui levantar através de pesquisas em livros e na internet. Há várias discrepâncias nas pesquisas, os horários certamente são aproximados, algumas informações contraditórias são absurdas, como os nomes dos quatro policiais que chegaram primeiro ao Dakota. Bastava olhar a ocorrência na delegacia para ver os nomes, mas há vários deles citados na mesma hora e no mesmo lugar. Optei pelos citados mais vezes. 

Um erro comum repetido em vários livros, incluindo em John  Lennon A Vida, de Philip Norman, que citei, é que John  tomou o desjejum no Café La Fortuna, que ficava a um quarteirão do Dakota. Frequentadores do La Fortuna na mesma época disseram a um documentário da BBC que o La Fortuna não abria às segundas, dia de folga do pessoal. Acreditei no depoimento do doutor Stephan Lynn  porque em momentos muito traumáticos a gente costuma lembrar de tudo, daí lhe dei este crédito. 

Boa parte do material acima é do livro A Balada de John e Yoko, autoria da equipe da revista Rolling Stone, que cobriu extensivamente os Beatles e a carreira solo de John Lennon e fez a última entrevista com ele. Foi editado em 1983 aqui pelo Clube do Livro, da Editora Abril. Há exemplares à venda no Mercado Livre. Recomendo.

domingo, 15 de novembro de 2015

A história de Baby e o choque dos tropicalistas com a MPB nacionalista

Atrás Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Gal Costa. Abaixados Sergio Dias e Arnaldo Baptista

Reli Verdade Tropical  (Companhia das Letras - 1997), o indispensável livro histórico-autobiográfico de Caetano Veloso dos primeiros anos até a década de 90, incluindo a preciosa visão interna da criação da Tropicália. Destaco aqui a origem da canção Baby, o primeiro grande sucesso de Gal Costa e, minha favorita, uma belíssima versão pelos Mutantes. E uma discussão sobre a canção com Geraldo Vandré típica da polarização existente na época dentro da música brasileira pelo que ele chama de “esquerda nacionalista”, que tinha pego em armas contra a Jovem Guarda e naquele momento apontava seus canhões na direção dos tropicalistas. 





A canção foi encomendada a Caetano por sua irmã, Maria Bethânia, que lhe trouxe o título e o que ela disse tinha que ser o verso final: “Leia na minha camisa, baby I love you.” Fala Caetano: “Tratando-se de Bethânia tenho certeza de que havia também uma razão factual e muito pessoal para tão precisas especificações. Fiz a música procurando recriar a cultura de cançonetas e camisetas  e, ao mesmo tempo, o clima pessoal de Bethânia. Julguei o resultado perfeitamente representativo da estética  (e dada a contribuição de Bethania, da história) e combinei que entraria no disco coletivo na sua voz.”




Continua Caetano: “Tropicália ou Panis et Circensis (...), nosso disco manifesto, saiu em 68 com a participação de Nara Leão e Tom Zé além, é claro, do grupo-núcleo formado por Gil, Gal, Mutantes, Duprat e eu, mas sem a presença de Bethania que, por rejeitar intimamente a confusão de sua pessoa com grupos ou movimentos, deixou a canção Baby, que ela própria encomendara, para ser gravada por Gal Costa, o que resultou no primeiro grande sucesso desta. Um sucesso aliás merecidíssimo porque a canção revelou-se, por causa de Gal e do arranjo de Duprat, uma obra prima do tropicalismo. (...)  Minha alegria ao ouvir a adequação do estilo de Gal à canção (sendo a um tempo bossa nova e rock’n’roll, mas sendo algo diferente disso) e sobretudo a graça e a inteligência do arranjo de Duprat, levou a um incidente profundamente desagradável.”




Hora do embate. Caetano: “Saímos do estúdio para o Patachou, o restaurante com nome de cantora que frequentávamos na rua Augusta, para jantar em clima comemorativo. Geraldo Vandré, que estava em outra mesa, veio até a nossa e, ao perceber nosso entusiasmo pela gravação, pediu que Gal lhe cantasse a canção recém gravada. Quando tinha ouvido o suficiente para ter uma ideia do que era, ele a interrompeu bruscamente batendo na mesa e dizendo: ‘Isso é uma merda’. Gal calou-se assustada e eu, indignado, disse a ele que saísse dali. Ele ainda quis argumentar dizendo que estávamos traindo a cultura nacional, mas não permiti que ele concluísse o discurso e, gritando, exigi que nos deixasse, ressaltando que ele ao menos devia ter sido cortês com Gal, cujo canto suave ele interrompera de forma tão grosseira. Isso inaugurou uma inimizade pessoal que traduzia nossa divergência ideológica – mas não houve nenhuma outra discussão agressiva nem a desavença ganhou publicidade.”




Esta polarização, claro, tinha como pano de fundo a ditadura militar instaurada em primeiro de abril de 1964. O que ele chama de esquerda nacionalista via no rock e na mistura feita pela Tropicália uma importação de valores americanos para colonizar a cultura brasileira, levando em conta que o Tio Sam foi parceiro dos militares no golpe. A bossa nova incorporara o jazz, mas eles não consideravam isso uma distorção alienígena por achar que o samba predominara na receita, algo que não se aplicava à Jovem Guarda e nem ao som elétrico que Caetano e Gilberto Gil incorporaram no primeiro momento com recurso à banda argentina Beat Boys (Alegria Alegria)  e aos Mutantes (Domingo no Parque).




Não gosto da bossa nova. Na minha primeira entrevista com Tim Maia, transcrita no livro Circo Voador A Nave, de Maria Juçá, ele disse que a bossa nova era um desvio do samba jazz inventado por Johnny Alf: “O João Gilberto é 22 [maluco], o samba jazz era rápido, tinha o maior suingue, veio o pessoal de Ipanema, todo mundo cansado, e levou tudo para trás, ficou aquele nhém nhém nhém. A escola João Gilberto é péssima na parte vocal, na parte rítmica aproveita até certo ponto.” Ele também disse que, por cantarem coisas como “a tardinha cai” e “o barquinho a deslizar”, tudo em "inho", era mais uma mostra do cansaço dos bossanovistas.

Não tinha como eu, jovem, aceitar uma música dessas e abracei o rock internacional e a Jovem Guarda, com a consequente repulsa a esta MPB sonolenta, mas abracei com entusiasmo a Tropicália, porque ouvi ali uma incorporação do momento psicodélico em que o rock estava lá fora em 1968, que a Jovem Guarda não soube preencher/evoluir. 


Arnaldo, Rita e Sérgio - Mutantes, a maior banda de rock brasileira de todos os tempos

Verdade Tropical, lançado em 1997, é um livro indispensável para quem se interessa por música popular. Além da gênese do Tropicalismo, contém uma narração vívida da repressão à cultura depois do Ato Institucional Número 5, de 13 de dezembro de 1968. Caetano relata com detalhes todo o período kafkiano em que ficou preso sem acusação alguma, sua soltura e a de Gil com a condição de irem para o exílio e a volta com os desdobramentos até o fechamento da edição. O livro está esgotado nas livrarias, mas accessível no Mercado Livre por até 10 reais. Não me passa pela cabeça que alguém se disponha a passar adiante uma obra desta importância por tão pouco. Azar dele e sorte de quem comprar.








sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Robertinho solta raios e trovões de heavy metal no Rival

Robertinho de Recife, Raphael Sampaio (bateria), Fhorggio (teclados - Fotos de Cleber Junior

O equivalente a uma orquestra sinfônica de mosquitos zumbe nos meus ouvidos e a culpa é de Mr. Robertinho de Recife, que atacou em show estrondoso no Teatro Rival nesta quinta a noite com potência para uma casa 10 vezes maior. Claro que valeu a pena, o cara é fodaço na guitarra e vários guitarristas de bandas de metal foram lá bater cabeça pro baixinho gigante. Com a guitarra plugada num amp Marshall ele fica com 10 metros de altura.


Com Lucky Leminski (vocal)

Sim, tem ecos de Joe Satriani, Eddie Van Halen e outros gigantes da guitarra, mas o estilo é totalmente dele, aqui e ali ouve-se ecos do master Sabbath Tony Iommi, já que ele gosta de atacar nos graves e também nos médios e menos nos agudos, estes também encorpados. Interessante que, mesmo tocando umas cinco guitarras, ele varia pouco o timbre, distorcido não muito sujo, só numa Flying V de design alongado e meio torto nas pontas com pintura de fogo, a distorção foi mais saturada.


Junior Mauro (baixo)

O nome do show e da banda que o acompanha é Metal Mania, o nome usado por ele nos anos 80 antes de encher o saco de tocar metal sem ganhar dinheiro e pular pro oposto extremo, a banda baba Yahoo, embora suavizasse com a abordagem de fazer versões de músicas de metal. Foi isso que me disse na época. O baixista e vocalista  do Yahoo Zé Henrique fez participação e contou do sufoco que a banda passava em vários concertos. Ele disse que entrava numa plateia cheia de metaleiros, sabia que ia dar merda: “Um show na Bahia só tinha metaleiros e nós estourados na novela, a primeira coisa que cantei veio o berro: Cala a boca Menudo!” Além dos gritos pro Robertinho voltar pro metal. E realmente o Yahoo era a treva, uma baba grossa como a lama de Mariana, ilustrada no show pelos hits Mordida de Amor, da novela Bebe a Bordo, e Pra Você Voltar, compensada pelas  líricas frases na guitarra de Robertinho.



Yahoos a parte, o show foi uma porrada metaleira entremeada por falas de Robertinho. Ele tocou sete dos nove temas de seu novo álbum Back For More, lançado apenas em formato digital, sete instrumentais e a vocoderlizada faixa título, levada pelo vocalista original do Metal Mania Lucky Leminski.
Depois de tocar Pole Position, homenagem a Ayrton Senna, mandou: “Ayrton Senna do Brasil. Eu falei pra ele que ia tentar ser tão rápido quanto ele, não sei se vou conseguir.” Claro que conseguiu e ainda disse que passou um final de ano com  Ayrton e Xuxa, não sei se foi uma insinuação, se nosso campeão tinha algo, ou alguém, em comum com Pelé. 




Robertinho falou que nos anos 80 fazia coisas como ligar pruma rádio e mandar uma tipo “tira esses caras, são muito chatos.” Teve problemas de drogas, ficou muitos anos na América e passou por um infarto. Fui cumprimentá-lo antes do show no camarim, ele me disse que agora está entre o Brasil e o estado do Mississippi, berço do blues, e produziu há pouco um álbum com 12 cantoras negras de blues. Lamentou que a música do Mississippi não chegasse aqui como a de Chicago, berço do blues elétrico.

Lucy Leminski

A banda tinha um músico nos teclados e programações vestido como Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, a dupla eletrônica francesa Daft Punk. É Fhorggio, filho de 17 anos dele que solta efeitos e vozes metálicas ao longo do show para criar os climas de várias canções. Os dois outros músicos são os irmãos Junior Mauro (baixo) e Raphael Sampaio (mega baterista). 

Fhorgio

Robertinho gosta de fazer citações em seus temas instrumentais. Num deles de tema ligados aos westerns teve The Good, The Bad and The Ugly e Ghost Riders In The Sky junto com um toque de Bicho de Sete Cabeças, referência ao seu passado de colaboração com Fagner e Zé Ramalho. Em Fantasy Rhapsody Medley atacou com a Rhapsody In Blue, de George Gershwin com a fluência de sempre. 


Com Zé Henrique

No medley Monsters of Rock teve citações de Deep Purple (o solo de Highway Star), Black Sabbath (o riff de Iron man), Iron Maiden (The Trooper), Crazy Train, da carreira solo de Ozzy com o vocalista Lucky Leminski mandando o grito de guerra de Ozzy “Go Fucking Crazy”.  Leminsky, vocalista original do Metal Mania, ficou encarregado do repertório da época e está com as cordas vocais nos trinques em canções que só pecam por letras fracas, mesmo considerando que ali estão só para justificar a performance virtuosa de Robertinho.




O final foi apoteótico com Cum On Feel The Noize, da esquecida banda inglesa Slade, que ainda vaga por aí, e Metal Daze, da banda Manowar, com quem ele tocou no Monsters of Rock em abril em São Paulo. No final ele chamou vários guitarristas que estavam na plateia para tocar um pouco com sua guitarra de fogo. 



ALucky Leminski guitarras do cenário

Nesse momento ficou evidente o que o difere de outros instrumentistas. Solaram em frases bem rápidas num estilo técnico padrão do metal, o contrário de Robertinho, que sabe dosar técnica e emoção. Por isso mesmo todos bateram cabeça para o mestre e um deles mandou um recado pro Rock in Rio que Robertinho devia estar lá. Concordo. A despedida foi com Vou-Me Embora, de Paulo Diniz, conterrâneo de Robertinho. Vá, mas volte mestre.


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Festa da radiocultfm.com tem as bandas La Guerra, Kapitu e a alma de Jimi Hendrix


Fotos de Cleber Junior

A banda de Niterói Kapitu foi a grande atração da noite na festa que lançou a nova programação da nossa radiocultfm.com. A chuva forte prejudicou o movimento, mas quem foi teve rock do bom na pista com os DJs Luck Veloso e André Luiz Costa e dois shows, o primeiro com o trio pesado La Guerra e o segundo com a Kapitu.  Por ser no meio da semana, respeitou-se o horário de quem trabalha no dia seguinte, então a festa foi de 20h à 0h30. Nos primeiros 150 minutos, Andre e Luck mostraram a sonzeira da nova programação, rock visceral de todas as épocas, de Rolling Stones a Kaiser Chiefs, de Chuck Berry a Sex Pistols, mestres como Jimi Hendrix, bandas atemporais como Led Zeppelin.

Andrea Andion, titular do programa Andion On Stage, de entrevistas com bandas, fez as honras de Mestre de Cerimônias. Deu uma rápido histórico da rádio, já em seu sexto ano e anunciou o power trio La Guerra formado por Juliano De La Guerra (guitarra e vocal), Ed Helderson (baixo) e Carlos Salles (bateria) que abriu os trabalhos com uma homenagem ao maior dos mestres do rock, Jimi Hendrix, com Foxy Lady. 


La Guerra

A seguir o trio apresentou o repertório autoral do álbum que estão gravando. Abanda faz um som pesado de qualidade, Juliano usa timbres de hard rock que remetem ao Grand Funk Railroad, mas a banda ainda precisa de ajustes no entrosamento. São bons músicos, trata-se apenas de tempo de estrada e ensaios para que se torne uma unidade coesa.

Yuri tomado por Hendrix

A banda seguinte, a Power Niteroiense Kapitu, está mais do que pronta. Afinal são oito anos com a mesma formação, o que é um grande trunfo. O guitarrista Jhaba me disse brincando que se conhecem tão bem quem quando erram, erram juntos. Mas erros, se aconteceram, só eles mesmos perceberam, porque a plateia se empolgou com a alta qualidade do som. Na semana passada tocaram em Niterói com outra nova banda forte, a Facção Caipira. A Kapitu já tem dois álbuns, o mais recente se chama Vermelho. Os dois estão disponíveis para download no site da banda em kapitu.com.br. É mais uma nova banda do Rio que vale a pena conhecer, numa cena que cresce a cada dia para desmentir os que dizem que o rock brasileiro morreu. O rock está botando os watts para fora de alto a baixo dos Brasis.

Juliano La Guerra em momento Hendrix, de olho no telão

Yuri Corbal (guitarra e vocal), Jahba (guitarra), Irlan Guimarães (baixo) e Rafael Marcolino (bateria) tocam um repertório é de qualidade com letras feitas por Benito Corbal, o quinto Kapitu, pai de Yuri. O repertório foi basicamente do novo álbum, Vermelho, com muito gás e altos solos de Yuri, bastante aplaudidos e assoviados. A noite terminou num delírio Hendrixiano com as duas bandas juntas em Foxy Lady. Baixou o Jimi no Yuri e o Hendrix no Juliano e os dois quase fazem as guitarras pegar fogo. Por pouco não corro pra pegar um extintor. Não podia ser um final mais roquenrol.


A equipe da Cult e as bandas - Foto de Nem Queiroz

Foi a primeira festa da nova fase da CultFM.Com e outras virão quase certamente no Odisseia que, por suas características meio CBGB meio Marquee, tem tudo a ver com o physique du role rock da Cult. A noite teve a produção competente de Liliana de la Torre, nova e marcante aquisição da Cult, que vem somando talentos e se fortalecendo a cada dia.