domingo, 10 de maio de 2015

Camisa de Venus passa o rolo compressor no Circo Voador



Marcelo Nova e Roberio Santana - foto de Andrea Alves


A turnê de 35 anos do Camisa de Venus começou muito bem noite passada no Circo Voador. Marcelo Nova diz que é a primeira desde 1987, em reuniões anteriores foram apenas alguns shows e Roberio Santana me disse que pode se estender até 2016. A maior parte da plateia nem era espermatozóide ainda quando a banda começou em Salvador no agora distante 1980. Casa cheia, visto das arquibancadas, o tempo não parecia ter passado. Uma galera jovem cantando a maioria das músicas, Marcelo mandava a primeira parte do verso, o povo completava, os refrões ficaram por conta do público, enquanto Marcelo passeava pelo palco ou até se sentava no estrado da bateria só apreciando a colheita das sementes que plantou. Sem contar a roda de pogo que se abriu em canções como Joana D'Arc, a última do show, com os jovens em frenéticas trombadas, exatamente como seus pais nos anos 80.

O Camisa de Venus nunca aliviou ninguém e continua na mesma batida: "Aos que nos acompanham desde o começo Bota pra fude, aos que estão chegando agora bota pra fude," gritou Marcelo. Foi a música de abertura e a palavra de ordem usada o show inteiro, dava uma sumida, de repente lá estava em alto e bom som. Veteranos perto de mim, alguns já de cabelos platinados, voltaram à juventude para encher o peito e gritar a plenos pulmões."Bota pra fude!"

Marcelo Nova saiu pilhado do palco. Energizado pelo feedback monstro da plateia foi arredio com quem tentou lhe falar. Pouco posou pra fotos e saiu batido. Como tive dificuldade para entrar no backstage não o peguei. Roberio também estava meio no ar com a amostra do que os aguarda pelos palcos desses Brasis. A banda ficou no palco uma hora e 24 minutos, um tempo padrão, a plateia merecia mais.

"Quando deixamos Salvador, o primeiro porto em que encostamos nossa nave foi aqui, faz todo sentido começar a turnê pelo Circo Voador," disse Nova, em forma do alto de seus 63 anos, todo de preto, regendo o público com gestos quando não estava cantando.  Plateia adora cantar em shows e teve horas em que virou um karaoke, enquanto Marcelo guardava o fôlego para canções menos conhecidas, como Rostos e Aeroportos e A Ferro e Fogo.

Foram poucas assim. Ele privilegiou o primeiro disco, de 1983 com quatro canções. O libelo sobre a violência contra a mulher em Bete Morreu, uma visão ácida da vida urbana em Passatempo, o amor rejeitado de Negue, samba canção sucesso de Nelson Gonçalves vertido para o rock e, heresia suprema (Oh! faz sinal da cruz, se benze),  O Adventista, em que ele rezou o pai nosso de joelhos enquanto a plateia repetia "não vai haver amor nessa porra nunca mais." Foi o único disco na Som Livre porque eles não aceitaram a exigência de mudar o nome da banda, camisinha ainda não era fashion, quer dizer, até aceitaram para Capa de Pica. Não rolou. 





O Camisa sempre escolheu a dedo (epa!) suas regravações. De Capinan e Macalé, Gotham City, que Macalé apresentou sob vaias estrondosas no 4º Festival Internacional da Canção em 1969.  Arrasador com o verso "há um abismo na porta principal," que cabe bem no Brasil de hoje. Além do "sacrilégio" de O Adventista, a banda atacou a herética Deus Me Dê Grana, que Marcelo disse ser mais relevante hoje em dia. "Deus me dê grana, se não achar meu bolso, seu sacana, bota na minha carteira."

Da banda original só ele e Roberio Santana (baixo) e  os dois estão em litígio com os também originais Karl Hummel  e Gustavo Mullen pelo nome. As demais posições são ocupadas por músicos que acompanham Marcelo em carreira solo: Celio Glouster (bateria), Leandro Delle (guitarra) e Drake Nova, filho de Marcelo e excelente guitarrista, responsável por solos matadores estranhos pela origem punk do Camisa. Novos tempos.

Não ouvi ninguém gritar "Toca Raul," mas ele tocou a primeira parceria dele com Raulzito, Muita Estrela, Pouca Constelação." Marcelo gravou com ele Panela do Diabo, o disco derradeiro de Raul e dividiu com ele sua última turnê. 

Quando cantou Silvia, Marcelo disse que se ele e Robério tivessem feito a canção hoje seriam "crucificados nos Arcos da Lapa": "Hoje tem essa coisa insuportável do politicamente correto, que acabou com o sentido de crítica e ironia no convívio social. Hoje todos tem verdades irrefutáveis na internet." E tome o coro "Ô Silvia, piranha." O rock dos 50 rolou com Simca Chambord, com citações de clássicos como Be Bop a Lula (Gene Vincent and His Blue Caps), Shake Rattle and Rock (Big Joe Turner), Whole Lotta Shaking (Jerry Lee Lewis) e Reeling and Rocking (Chuck Berry).

"Esse negócio de bis é a maior armação. Todo mundo sabe que o  cara vai voltar, tá tudo combinado. Então o cara sai, vai no camarim, cheira uma fileira e vocês ficam aqui pastando. Então vamos pular essa parte, a gente fica logo aqui," disse Marcelo. Daí mandou a já citada Silvia e o incêndio final Joana D'Arc.

Em sua versão de My Way, hit de Frank Sinatra, manteve o sentido de ser um balanço de vida. Num dos versos ele diz "E agora que o tempo passou eu acho chato pra caralho não ter o que prometer e não saber mais o que dizer." Não é o caso. Marcelo sempre fez as coisas ao seu jeito, suas letras cospem fogo pra todo lado e não envelhecem, como ficou provado no Circo. Ele ainda tem muito a dizer.

BotaPraFudê‬ CamisaDeVênus35Anos‬ CircoVoador BlogdoJama   jamarifranca

11 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. VÃO SE FUDER, VOCÊS TERIAM QUE ENTRAREM EM UM COMUM ACORDO, E PARAR COM ESSA MERDA DE BRIGA E SE REUNIREM TODOS PRA ESSA TURNÊ. O CAMISA DE VÊNUS É MARCELO NOVA, ROBÉRIO SANTANA, KARL E GUSTAVO, O ALDO ATÉ PASSA PORQUE VIROU EVANGÉLICO.

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  3. Ótimo texto, Jama! Espero que mais coisas sejam publicadas aqui em seu blog!

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  4. CONCORDO QUEREMOS O CAMISA ORIGINAL , ESTE VERSAO COVER E AMADORA ,,,,,,ABS,,LARANJO DE SP

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  5. Foda só foi seguir o tempo padrão de show, menos de uma hora e meia.... O resto perfeito !!

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  6. Muito boa essa reportagem, parabéns aos meninos que foram lá e deram o recado, aos que ficam lamentando sobre não ser a velha formação, CHUPA!!!

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  7. Jama, camisa e ainda uma baita banda, quem e rock mesmo, o coracao nao envelhece, Digo o cerebro brain

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  8. Só posso dizer uma coisa: Essa eu perdi!!

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