terça-feira, 12 de maio de 2015

Satisfaction, dos Rolling Stones, faz 50 anos

 
Da E, Bill Wyman (baixo), Keith Richards (guitarra), Brian Jones (guitarra), Mick Jagger (voz), Charlie Watts (bateria)


Satisfaction, a canção mais emblemática do rock, chega aos 50 anos no dia seis de junho, quando saiu como compacto na América em 1965 com The Under Assistant West Coast Promotion Man no lado B. Logo se tornou a primeira canção dos Rolling Stones a chegar ao número um na América, com vendas superiores a um milhão de cópias em oito semanas. Em 2004, a revista Rolling Stone colocou-a em segundo lugar entre as 500 mais importantes da história do rock (a primeira foi Like a Rolling Stone, de Bob Dylan).

Mick Jagger: "Foi a canção que nos transformou de uma banda qualquer num enorme monstro musical. Não éramos americanos, a América é um negócio enorme e sempre quisemos vencer lá. Ficamos muito impressionados de como a canção se tornou um fenômeno mundial." Mais impressionados ainda porque Jagger e Keith Richards não queriam lançá-la como single e Keith queria que o riff fosse tocado por metais. "Parecia uma canção folk quando começamos a trabalhar nela, Keith não a achava grande coisa, " diz Jagger.

 


A canção foi composta durante a primeira turnê pela América, de 23 de abril a 29 de maio de 1965. Keith acordou no meio da noite com o riff na cabeça, pegou o violão, registrou num gravador Philips e voltou a dormir. No dia seguinte, ouviu o riff e depois seu ronco até o final da fita, esquecera de desligar o aparelho. Mostrou a Mick, que fez a letra na beira da piscina do Jack Tar Harrison Hotel em Clearwater, Flórida.

Uma primeira versão, acústica com Brian Jones na gaita, foi gravada no dia 10 de maio no lendário estúdio da Chess Records em Chicago, onde gravavam os grandes bluesmen que admiravam. No dia 12 de maio retomaram do zero nos estúdios da RCA em Hollywood com o empresário Andrew Oldham na produção e o engenheiro Dave Hassinger na mesa de oito canais. A ideia original de Keith, ainda vendo a canção como folk, era substituir seu riff por trompas, mas, como a gravação estava mais rápida e bem rock, decidiu-se manter como estava e lançar como single. 



 

Conta o baixista Bill Wyman: "Andrew e Dave foram a favor, Mick e Keith não. Então fizemos uma votação: Andrew, Dave, Brian, Charlie (Watts) e eu votamos a favor. Mick e Keith contra. Acabou sendo o single por maioria de votos."

Na gravação, Keith tentou conseguir mais distorção, aumentou o volume ao máximo para saturar os amps e acabou queimando alguns. Aí o faz tudo e eventual pianista Ian Stewart foi a uma loja de instrumentos, ele acha que foi a Eli Wallach Music City, e voltou com  um pedal Gibson Maestro Fuzz-Tone FZ-1. 





Em sua biografia, Life, Keith disse que tocou muito numa Fender Telecaster nessa época, mas também achei referência à Gibson Les Paul Standard Sunburst (1959) para a gravação da música. Brian Jones tocou violão, Keith teve que gravar com a distorção e o som limpo ao mesmo tempo pela limitação técnica e ouvidos mais apurados escutam o click de desligar e ligar o pedal em 36 segundos e 1m35s. Charlie Watts toca bateria, Bill Wyman baixo e o convidado Jack Nitzsche toca um segundo violão, pandeirola e piano, mas nunca consegui escutar o piano, se alguém conseguir me diz onde. A voz de Mick Jagger foi mixada perto da base a pedido do vocalista e do produtor, contra a vontade do engenheiro. 


O motivo disso foi a letra. Vamos a ela. O tema  é de frustração sexual e crítica ao lado comercial da América que, a princípio, chocou Jagger, mas logo ele aprendeu a se aproveitar dele para encher os bolsos. O refrão se queixa de que não consegue satisfação e diz que tentou várias vezes. Na primeira estrofe o personagem fala que fica insatisfeito quando está ao volante e um locutor no rádio começa a despejar sem parar informações inúteis que, supostamente, deveriam inflamar sua imaginação. Volta o refrão e, na segunda estrofe, ele trata dos valores que a publicidade tenta impor ao consumidor. Está assistindo TV e um homem começa a lhe dizer como deve fazer para suas camisas ficarem mais brancas, mas ele contesta que o cara não é um homem de verdade porque não fuma a mesma marca de cigarros que ele. 



Refrão novamente se queixando de que não consegue "girlie action", agitar uma garota, o que antecipa o "problema" da última estrofe, quando ele diz "trying to make some girl," ou seja, tentando fazer (transar com) uma garota, que lhe diz para voltar semana que vem porque está numa "losing streak", uma linguagem cifrada que significa que ela está menstruada. "Losing streak" é uma expressão que significa uma série de perdas. A estrofe também fala da realidade da banda "correndo mundo afora, fazendo isso e assinando aquilo."  


Quando se apresentaram no Ed Sullivan show, a produção colocou um bip na palavra "make" de "make some girl." Mas o "losing streak" passou. Na Inglaterra também houve reservas à canção pelo "make," mas o sucesso foi tão estrondoso que a restrição caiu. Os fãs ingleses ficaram chateados porque o single saiu na América em seis de junho, mas só em 20 de agosto no Reino Unido, já com 250 mil cópias vendidas. O lado B era diferente do americano, o blues The Spider and The Fly. Os Stones seguraram o lançamento em seu país porque queriam estar presentes para poder promovê-la.

Algumas curiosidades:


- Lançado na América em seis de junho chegou ao primeiro lugar no dia 10 de julho, deslocando I Can't Help Myself, dos 4 Tops, e caiu em sete de agosto diante de I'm Henery The Eighth I Am, dos também ingleses Herman's Hermits (uma cançãozinha de merda). Satisfaction entrou na versão americana do álbum Out of Our Heads em julho de 65, mas não na edição inglesa, lançada em setembro. No Reino Unido,  singles não entravam em LPs.

- Quando compôs o riff, Keith Richard se preocupou porque achou que se parecia com Dancing In The Streets, do trio vocal feminino Martha and the Vandellas. Também guarda alguma semelhança com outro single delas, Nowhere To Run.

- Keith afirma que o riff de Jumpin' Jack Flash é o mesmo de Satisfaction, só que ao contrário. Há ecos dele também no riff de Start Me Up e em Get Off Of My Cloud, o single que sucedeu Satisfaction.

 



- Keith achou que tinha inventado o verso I can't get no satisfaction" mas  este faz parte da canção 30 Days, de Chuck Berry, um dos ídolos de Keith, que diz "I can't get no satisfaction from the judge."

- O soulman Otis Redding gravou a música com sopros no refrão, o que agradou muito Keith, por ser sua ideia inicial. A banda Blue Cheer fez uma versão mais pesada, a cantora Cat Power uma mais suave. A banda Devo fez a regravação mais elogiada, no estilo new wave. Britney Spears assassinou a música em seu álbum OOps! I did it again!, que pode ser interpretado como OOps! Fiz merda de novo.  Com certeza.

- Em 1979 houve um novo interesse por Satisfaction graças ao sucesso do filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Ela toca no rádio de pilha de um soldado vivido por um principiante Laurence Fishburne durante uma viagem de barco pelo Rio Mekong, parte de um grupo de escolta do capitão Willard, encarregado de matar o renegado coronel Walter Kurtz (Marlon Brando). Pra quem não liga o nome à pessoa Laurence Fishburne é o Morpheus de Matrix.

 


- "Posso tocar Satisfaction hoje ou amanhã e achar coisas novas nela. E como tocar com esses caras, o que é importante, porque nunca tocamos igual duas vezes. É difícil  falar de canções porque a gente nunca sabe onde começam. E quando se toca elas por mais de 30 anos, nunca se sabe também onde terminam. Elas sempre mudam pra nós." (Keith Richards - 2003).

11 comentários:

  1. Nas festinhas só rolava a dobradinha "satisfaction & day tripper".
    Um privilégio curtir dois hits fantásticos lançados no mesmo ano.

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  2. E há 50 anos, segue sendo um dos temas que marcou a história do rock n' roll

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  3. Também não escuto o piano.... o pedal sendo ligado sim, mas deveria ter outros dois clicks dele sendo desligado....ou não?

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  4. Jama, meu amigo, obrigado pela aula! Longa vida ao BLOG! Abração do LAM.

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    1. Clássico que faz parte da vida de diferentes gerações, como se fosse lançamento estilo chiclete. Muito legal!

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    2. Clássico que faz parte da vida de diferentes gerações, como se fosse lançamento estilo chiclete. Muito legal!

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  6. Clássico que faz parte da vida de diferentes gerações como se fosse lançamento estilo chiclete! Muito legal! :)

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  9. Amor à primeira vista quando, aos 6 anos, ouvi no rádio (1966), lá me vão 50 mais, sempre rolando pedras.

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