terça-feira, 19 de maio de 2015

Trilhas de novelas, prós e contras para música brasileira








A trilha sonora das novelas globais vem melhorando gradualmente com músicas como essa A Noite, de Tiê, tema da Mari de Bruna Marquezine em I Love Paraisópolis. Em Sete Vidas tem regravações de What A Wonderful World (Louis Armstrong), esta como abertura, e Blowin In The Wind (Bob Dylan) e ainda Ligia (Tom Jobim), Pais e Filhos (Legião Urbana), Cássia Eller (All Star). Muitas vezes já rolavam boas músicas, mas pouco expostas e as piores muito expostas. Tem esse jogo também. Em Alto Astral, Tudo Sobre Você, uma pérola  pop de Zelia Duncan apareceu pouco por ser tema de uma personagem secundária, Bia Martins (Raquel Fabbri). Zelia teve a abertura de Alto Astral com Alma, de 2001, uma fase superada no trabalho dela, já bem mais adiantado. É o tal negócio, é uma boa divulgação, mas quebra a linha atual de trabalho do artista.

Tanto em Babilônia quanto em Paraisópolis tem Caetano Veloso, Maria Bethania, Cazuza, Zizi Possi, Nana Caymmi na das nove. Como não estou acompanhando não sei a exposição, mas a dupla de frente Camila Pitanga (Regina) e Thiago Fragoso (Vinicius) tem dois bons temas de MPB Sabe Você (Leila Pinheiro) e Sonhos (Caetano Veloso).




Trilhas de novelas continuam sendo a maior divulgação para um artista e há uma longa história em torno disso que rendia polêmicas. As gravadoras cediam as músicas para as trilhas das novelas, eram inseridas nos discos lançados pela gravadora da Globo, a Som Livre, que vendia  milhares e milhares de cópias. Daí os discos originais dos artistas ficavam em segundo plano, uma  divulgação que funcionava às avessas em muitos casos para os discos originais.

Nem sempre, porque as gravadoras cediam músicas de suas prioridades, que seus vendedores ofereciam prioritariamente às lojas,  em detrimentos de outros artistas não prioritários. Podia render shows se fossem suficientemente expostas na novela, nem tanto ou nada se ficassem escondidas. Os direitos autorais também eram menores do que o que o artista recebia no disco de carreira.

A grande popularidade das novelas no tempo em que  não havia a diluição de audiência para a internet e emissoras a cabo fazia com que o mercado girasse em torno das trilhas. Expostas nas novelas, as músicas se popularizavam, as rádios iam atrás e as vendagens idem. 




A poderosa máquina de divulgação da Globo direcionava a divulgação nacional nas rádios e o gosto dos telespectadores. Isso causou um grande prejuízo artístico para a música brasileira, com as portas da radiodifusão e dos programas musicais da TV fechadas para um trabalho mais sofisticado. Houve casos em que qualidade e divulgação andaram juntas, como, por exemplo, quando o trabalho de bandas de rock como Paralamas do Sucesso e Legião Urbana estiveram na trilha das novelas.

Depois que adotaram o critério da música popularesca em nome da ascensão do poder de compra das classes C e D, a qualidade desandou de vez. A maioria silenciosa não tem um aparato intelectual para filtrar seu consumo cultural. As más condições do ensino público e de condições econômicas restringem a presença nas escolas e a leva ao mercado de trabalho de baixa qualificação. O resultado é aceitação de uma música com alto grau de redundância, daí gravadoras e artistas popularescos fizeram a festa. E continuam fazendo, mas já com sinais de brechas para a ascensão de uma música de melhor qualidade. A ver.

3 comentários:

  1. Olá Jama! Muito pertinente o texto. Será que não há uma forma do pessoal que cuida das trilhas, em especial o Mariozinho Rocha, entrar em acordo com os artistas antes de inseri-los em novelas? Nesse caso deve alterar até o show do artista, pois imagine um show da Zélia hoje em dia sem tocar ´Alma´? Quanto às músicas popularescas acrescento ainda mais. Não há interesse por parte da galera ´de cima´ em que o povo acesse a cultura com C maiúsculo. Caso houvesse, melhorariam inclusive o transporte, para que o trabalhador conseguisse chegar cedo em casa e tivesse tempo (e disposição) de buscar/ouvir algo mais elaborado do que o que lhe é oferecido. Realmente, a ver...

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  2. Houve um tempo em que os autores encomendavam as canções de acordo com seus personagens. Isso sim me soa como algo interessante para ambas as partes. De uns anos para cá a tendência é resgatar antigos sucessos. Se antes as novelas lançavam novas músicas, hoje elas revisitam aqueles sons que quase ninguém lembra mais.

    Mas, para mim, nem tudo são trevas musicais. Percebo que o novo modelo de fazer (e vender) produtos televisivos está influenciando a música também. As produções realizadas fora dos grandes canais incluem no pacote deliciosas novidades e algumas ousadias sonoras. As séries nacionais exibidas na Globo já me renderam risos e lágrimas por conta de suas trilhas. A excelente "A Mulher do Prefeito", apesar de contemporânea, abusou dos sucessos dos anos 70 inseridos de maneira impecável durante as cômicas cenas, "O Caçador" trazendo Secos e Molhados logo na abertura, "A Teia" e sua sucessão de rocks memoráveis. Um exemplo recente é "Amorteamo" com novas vozes (Juliano Holanda, Jam da Silva e Marion Lemonnier na música tema de Malvina e Gabriel) e sons no ar.

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  3. Hummmm, não assisto novela pois alem de abominar, não tenho tempo pra acompanhar, mas confesso que zapeando um tempo atrás eu deparei com "As empreguetes" e morri de rir e sempre que eu podia eu assistia. Foi bom, pois ouvi uma música muito linda e a partir dai conheci o trabalho de Tulipa Ruiz que hoje em dia eu curto muito! Pesquisei adorei demais e só sou frustrada por ter perdido 3 shows dela pois eu tinha compromissos marcados! Então vendo por este ângulo, eu digo: viva o trilha sonora das novelas!

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