sábado, 11 de julho de 2015

Biquini Cavadão e Humberto Gessinger arrasam no Circo Voador com lotação esgotada




Bikini Cavadão - Fotos de Andrea Alves

Um Circo Voador de lotação esgotada se esbaldou de maneira irrestrita e desgovernada com os shows do Biquini Cavadão e de Humberto Gessinger na noite deste sábado, numa promoção do programa Pop Rock Brasil da rádio MPB FM. Uma plateia dividida quase igualmente entre os de mais de 30 e os de menos de 30, segundo o critério de Bruno Gouveia, do Biquini, cantou praticamente todas as músicas das duas formações do começo ao fim.

Do poleiro onde sempre assisto aos shows, dava pra esquecer que estamos em 2015. Eram os anos 80 de novo: bandas daquela década no palco e uma galera ensandecida como tantas vezes vi ali sob a lona voadora. Antes do Biquini subir ao palco, rolou um set de 70 minutos de rock brasileiro do DJ Wagnerasta Irie. A plateia cantou em alto som Será (Legião Urbana), Exagerado (Cazuza), Fátima (Capital Inicial), Pintura Íntima (Kid Abelha), Dias de Luta (IRA! - nesta faltou o coro que sempre rola nos shows da banda: "Porra, caralho, cadê meu baseado").

 
Bruno regendo a plateia



As duas formações tem posturas sonoras distintas. O Biquini Cavadão está na euforia dos 30 anos a bordo do DVD comemorativo Me Leve Sem Destino e seu show teve um astral de festa de aniversário, sempre a mil com a total cumplicidade da plateia, um som turbinado em quarteto com adição de um sax tenor e uma segunda guitarra. Já Humberto Gessinger faz a turnê de Insular, o primeiro disco que ele considera solo, apesar de ter sempre liderado e composto o repertório de suas diversas facetas, Engenheiros do Hawaii, Gessinger Trio e Pouca Vogal. Ele apresenta uma variedade de configurações ao tocar baixo, guitarra, acordeon, teclado, pedalboard e vocoder. A seu lado o excelente guitarrista, Esteban Tavares e o baterista Rafael Bisogno, ambos com ele desde 2003, com intervalos. 

 
Humberto Gessinger


A equalização do Biquini estava um pouco desalinhada. A bateria de Alvaro Birita alta demais, a guitarra de Carlos Coelho estava baixa, sem o merecido destaque e o mesmo com os teclados de Miguel Flores da Cunha e a segunda guitarra de Figurótico Pineschi. Já o sax  de Walmer Carvalho estava  alto e o baixo de Marcelo Magal bem audível. Humberto se beneficiou da formação mais enxuta, com os três instrumentos em alto e bom som. Ele divide os vocais com Esteban em várias canções.


Bruno nos braços do povo


A noite começou às 23h15 com a entrada do Biquini, que ficou no palco até 0h54, incluindo o bis. Com a idade beirando os 50 anos (tem 47) Bruno tem uma disposição de adolescente, numa performance eletrizante o show inteiro. Achei legal eles começarem com a primeira música lançada, Tédio, e logo em seguida a que foi o lado B do compacto, No Mundo da Lua. Já que é um show de aniversário, escolhas bem coerentes. Nesta última chamou um jovem ao palco e não deu outra: Bruno entregou o microfone e foi dançar pelo palco. O jovem cantou o restante da música e saiu com um grito certeiro: "Viva o rock nacional." É  isso aí.

 
Carlos Coelho

Nem precisava, mas Bruno deu força para a plateia cantar com ele em uma sucessão de hits: Janaína, Roda Gigante, Livre, Múmias, Impossível. Era a banda mandar a música e o povo se encarregava dos vocais. Bruno: "Sabe por que não tem rock universitário? Porque o rock é pós graduado! Sabe por que não existe rock ostentação? Porque o rock é contestação!" E entrou com Carta aos Missionários, da banda Uns e Outros. Ele também lembrou que a banda completa três décadas sem parar, atravessando ondas de axé, pagode, funk e sertanejo, uma prova de que o público de rock continua firme e forte, apesar de as bandas não estarem presentes como deviam no rádio e na TV.

 
Miguel Flores da Cunha

Houve momentos de um verdadeiro carnaval roqueiro em Chove Chuva e Zé Ninguém, nesta Bruno se jogou nos braços do povo, que o segurou com cuidado e o devolveu ao palco. No bis, Carlos Coelho fez uma homenagem ao Dia Mundial do Rock tocando riffs de alguns standards (ver setlist). No encerramento, Bruno contou que o primeiro show deles foi no Circo Voador, o repertório era pequeno, daí começavam e terminavam com Tédio, "e é assim que vamos terminar este show" e mandou Tédio. 
 
Humberto Gessinger

Daqui a pouco Humberto Gessinger. Não foi bem assim, a mudança de configuração do palco foi complexa. Desmonta bateria, tira amps, rack de efeitos, teclados, desloca um estrado pro meio, instala o equipamento do Humberto, amp de guitarra, amp de baixo, ao lado do microfone dele um rack de efeitos, um vocoder pra distorcer o vocal, no chão pedais vermelhos e brancos do pedalboard, na verdade acionador do sintetizador de baixo Novation Bass Station2. Um roadie testa as guitarras e baixos do Humberto, o tempo vai passando, o povo começa a vaiar, quase duas da amanhã... a 1h51 entra Humberto, para ficar no palco até 03h45. Som bem diferente do Biquini, tudo bem separado e definido.

 

 
Esteban Tavares

Setlist na mão, vejo que no bis tem uma sequência de hits dos Engenheiros: Refrão de Bolero, Toda Forma de Poder e Infinita Highway. A última antes do bis Exército de um Homem Só. Tudo isso tocado em arranjos novos, uma reciclagem de hits com quase 30 anos de vida. A plateia se confundiu um pouco ao cantar Infinita Highway porque o andamento é mais rápido. Outros hits da época foram rearranjados. Somos Quem Podemos ser ficou muito bonita com Humberto no acordeon e Terra de Gigantes virou folk com gaita e tudo. Em Somos Quem Podemos Ser, o verso "garotos inventam um novo inglês" foi substituído por "garotos não sabem mais português", uma "homenagem" aos 524 mil zeros em redação no Enem.

Humberto igualmente tem vibe de adolescente do alto de seus 51 anos. No papo com ele depois da passagem de som, me disse que ficava incomodado quando o tratavam de senhor, como que a mostrar que ele está velho. No palco fica claro que não é nada disso. Ele não é metaleiro, mas bate cabeça o tempo todo com sua cabeleira loura lisa um pouco abaixo dos ombros. 


 
Na bateria Rafael Bisogno

Humberto é muito bom de melodia, suas canções são envolventes. Comentei que tinha muita coisa de rock progressivo, ele respondeu que adora, que é dos últimos progressivos (força de expressão), mas isto cabe muito bem em suas letras de viés existencial e filosófico. 

Fiquei olhando uns jovens que estavam  perto de mim. Cantavam com uma expressão de enlevo, abriam os braços, botavam a mão no peito, uma reação diferente do show do Biquini, quando a expressão era de alegria, de extravasamento, reações diversas para artistas que apelam a lados distintos de cada um. Como diria o "rei", "são tantas emoções, bicho". Foi uma noite especial. Do alto do meu poleiro vi mais de 2 mil pessoas num ritual catártico que deve render comentários por um bom tempo. Muito acertado unir Biquini Cavadão e Humberto Gessinger.

 

 Setlist Humberto Gessinger - Saiu Voo de Besouro, entrou O Sonho É Popular



Setlist Biquini Cavadão
Tédio
No Mundo da Lua
Janaina
Roda Gigante
Livre
Múmias
Impossível
Quando Eu Te Encontrar
Dani - Uma Brasileira
No Mesmo Lugar
Vento Ventania
Quanto Tempo Demora Um Mês
Carta aos Missionários
Chove Chuva
Timidez

Bis
Set Coelho (guitarra) Satisfaction, Smoke on the Water, Pantera Cor de Rosa, Seven Nation Army, Black in Black, Enter Sandman
Zé Ninguém
Meu Reino
Tédio



P.S. O Humberto me mandou uma ilustração de seu equipamentos. Isto é mais para quem toca e/ou gosta desse tipo de informação. Sua explicação: "A pedalboard não tem sons próprios, é o que chamam um "controler". Ela aciona os sons do mesmo Bass Station. No baixo de 6, eu uso 4 cordas de baixo e 2 de guitarra. Nos solos do Tavares (guitarrista), vou pra região aguda e compenso fazendo os baixos com os pés. É a mesma estratégia que uso com a doubleneck (bss / gtr). O teclado em cima do vermelho é um synth de bass: Novation Bass Station."







11 comentários:

  1. O show foi fantástico! Me senti de volta aos anos 80 com toda a sua musicalidade questionadora. Simplesmente amei.

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  2. O show do HG foi maravilhoso. Ele ainda mandou a música "Não É Sempre" do disco Várias Variáveis(1991), antes de Exército. Gostei do comentário sobre as melodias dele. Além da habilidade do alemão no contrabaixo, isso também é uma das coisas que mais admiro nele. Saudações.

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  3. HG é Mestre e Gênio. Uma lenda ♡ Dia especial!

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  4. O show foi ótimo! A equalização do Biquini atrapalhou um pouco, mas o show foi muito bom. O Humberto foi excelente. Pra mim, que fui adolescente nos anos 80 e cresci ouvindo esses caras, foi uma viagem no tempo. Valeu demais!

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  5. Grande noite!!! Biquíni foi ótimo, mas Humberto Gessinger é gênio, poeta, multi instrumentista, tem um amplo repertório, montou um excelente setlist, inesquecível, maravilhoso!! Hipnotizante...foi de arrepiar!! Ainda está na mente...

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  6. Humberto é uma mescla de tempestade e calmaria!!!!

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Ótima critica Jamari França,
    Vc me convenceu a ir nesse show 2x1 pelo que vc descreveu do Biquini e Humberto. Tinha desistido pela formula "show 2x1"
    No mesmo dia desse show descrito, ocorreu em Brasilia, o show de Nando Reis e Ira!
    Me decepcionei pois desde 2005 aguardava um show do Ira! e 10 anos depois deu tudo certo para ir.
    Ele tocaram no Ginásio Nilson e Nelson (por ser um ginásio acústica não ajuda muito)
    Nando Reis com guitarras em ultimo volume sem sicronia com os demais instrumentos.
    Depois de uma hora para troca de instrumentos (essa formula show 2 em 1 pode perder força), vem IRA! com saída de som péssimo. Tudo "oco". Scandurra com guitarra em baixo som. Uma decepçao e falta de respeitos com os que estavam ali assistindo.
    Tinha prometido que não ia mais em shows 2 em 1, mas vc, Jamari, fez uma boa observação do show do Biquini e Humberto. Vou no show deles previsto para 12/09 aqui em Brasília. Depois te conto como foi. Abraços Natalia

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  9. Estive lá e foi sensacional, depois de mais de 20 anos como fã consegui ir à um show do Humberto, emocionante!

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  10. Estive lá e foi sensacional, depois de mais de 20 anos como fã consegui ir à um show do Humberto, emocionante!

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  11. Estive lá e foi sensacional, depois de mais de 20 anos como fã consegui ir à um show do Humberto, emocionante!

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