segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A grandeza na simplicidade do recital de Zélia Duncan no Espaço Furnas

Divulgação

O rock corre nas minhas veias e na minha alma, mas uma pausa após três dias pesados no Rock in  Rio é tão refrescante quanto  uma garrafa de água gelada num dia escaldante. Pois é, depois de vocalistas que não cantam, urram, e falam fuckers e motherfuckers a cada três palavras, adentrar o belo Espaço Furnas para ouvir um recital de voz e violão de Zélia Duncan foi um belo descarrego. O tom é a grandeza na simplicidade, Zélia é principalmente letrista de versos de uma beleza e consistência que nada devem aos grandes da música brasileira.




A meu pedido ela cantou Coração na Boca, uma canção de Intimidade, seu segundo álbum, pra mim a melhor e mais delicada tradução poética do amor na cama: “Adoro o silêncio antes do grito. Adoro o infinito de um momento rápido, o instrumento gasto, o ator aflito. O coração na boca, antes da palavra louca que eu não digo. Adoro te imaginar mesmo sem ter te visto.” Uma bela melodia de Lucina, da dupla Luhli e Lucina, dedilhada ao violão. 


Tudo Esclarecido

O Lado Bom da Solidão é um dos  quatro formatos que ela performa atualmente: este, o show do último disco, Tudo Esclarecido, com banda, mais um com Zeca Baleiro e o teatral Totatiando. E ainda tem o recital com Jaques Morelenbaum em tributo a Milton Nascimento, realizado em maio no Projeto Inusitado, a ser repetido no próximo três de outubro no Instituto Inhotim em Brumadinho, Minas Geraes. Os mais de 30 anos de estrada permitem que ela encarne todas essas personas com desenvoltura. 

Nos dois últimos meses sua rotina foi se transformar em cada uma dessas Zélias numa agenda concorrida e bem vinda em tempos de crise. Ela disse ter desenvolvido uma capacidade de adaptação a cada espaço desses Brasis, desde uma praça numa pequena ou grande cidade ao ambiente aconchegante do Espaço Furnas. Também se disse alegre por estar perto de casa, coisa rara ultimamente, e uma preocupação: “Vocês todos aqui, achei que o Rock in Rio ia ficar vazio (risos) O lado bom da solidão é encontrar vocês”. 

Totatiando

Pois é, enquanto na Cidade do Rock milhares de pessoas esperavam o pop oco megaproduzido de Katy Perry sob raios e trovões, a turminha bem abrigada ali em Furnas ouviu 28 belas canções e algumas historinhas de vida. Uma delas: “Eu não sabia que era compositora, sempre pensei em ser cantora, é só ao que me dedicava e dedico até hoje. Pensei que o que fazia no escuro do quarto fosse só meu, mas não, é de todo mundo, minha dor é a sua dor, minha emoção é a emoção de alguém, vai mudando de endereço, é de todo mundo. Um dia uma moça chegou no camarim e disse emocionada ‘Você fez essa música para mim’ e eu respondi ‘Claro!’” Era Não Vá Ainda, tocada ao bandolim.






Outra muito bela, O Tom do Amor, foi inspirada na conversa que uma mãe teve com o filho pequeno sobre o tema. Zélia fez a letra e o pai do menino, Moska, fez a música: “O amor nasce pequeno, cresce, fica estupendo. Às vezes o amor está ali, você nem tá sabendo. O amor tem formas, fôrmas, aromas, vozes, causas, sintomas. O amor...” Carne e Osso, outra parceria com Moska, é uma letra em que ela, de maneira indireta, critica esse fanatismo religioso: “a alegria do pecado tomou conta de mim e é tão bom não ser divina,” e mais adiante “Perfeição demais me agita os instintos. Quem se diz muito perfeito, na certa encontrou um jeito insosso, pra não ser de carne e osso.”


Foto de Paty Costa

Cito essas letras como exemplos dos temas que ela aborda nas músicas com talento e sensibilidade. ZD também sabe pinçar canções alheias que lhe digam alguma coisa. Telhados de Paris, do gaúcho Nei Lisboa, que disse tocar pra si mesma desde nova e acabou gravando no álbum Pelo Sabor do Gesto. E Mãos Atadas, da amiga Simone Saback, de Brasília, do começo da carreira dela nos anos 80, uma canção que esperava gravar com a amiga Cássia Eller mas “esperamos demais,” como ela diz. Ontem apenas tocou, não contou a história, acompanhei a gravação pro álbum Pré Pós Tudo Bossa Band e foram momentos emotivos que sempre me vem à mente quando ouço. Zélia tem um monte de músicas que deviam ter sido sucessos, mas o muro anticultural do mainstream embarreira o bom gosto.


No bis  Pelo Sabor do Gesto, Código de Acesso


Outra canção alheia, Quem mandou?, parceria do ídolo dela Itamar Assumpção com a poeta Alice Ruiz, a quem desfiou elogios, é outra bem forte registrada no álbum Tudo Esclarecido, só com o repertório de Itamar. Ela disse que Alice fala muito da posição da mulher no mundo e ela acha que todos os homens deviam ser feministas para ver a mulher em termos iguais. A canção trata do amor sem clichês, de maneira inteligente: “Você já veio com contraindicação, altos riscos de contaminação. Não dei bola, joguei a bula fora. Quem mandou?”



É isso, Zélia, cantora e compositora, é essa menestrel da vida, dos sentimentos, das contradições e dilemas destes ser humanos que somos. Em Benditas, uma linda letra que Martinália musicou, favorita de sua mãe Loise, ela abençoa a eterna busca nossa de cada dia. “Benditas coisas que eu não sei, os lugares onde não fui. Os gostos que não provei, meus verdes ainda não maduros. Os espaços que ainda procuro, os amores que eu nunca encontrei. Benditas coisas que não sejam benditas.” Na minha cabeça o último verso é benditas as coisas que não sejam bem ditas. É por aí. Ou não.

2 comentários:

  1. Zélia se apresentando é simplesmente sensacional! Adoro ela!
    Acho muito legal você postar para os leitores o set list! Muito bom mesmo! Obrigada! :)

    ResponderExcluir
  2. Adorei o texto. Zélia é isso. Um oásis. Beijo, Jama!

    ResponderExcluir