quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Jimi Hendrix, 45 anos de ausência




A abertura do Rock in Rio nesta sexta coincide com o 45º aniversário da morte de Jimi Hendrix, ocorrida em 18 de setembro de 1970. Uma baixa irreparável para a música, um artista de quem sempre se especula o que estaria fazendo hoje em dia. Ele teria a mesma idade de Mick Jagger,72  anos, um a menos que Paul McCartney, um a mais que Keith Richards, artistas na ativa hoje, mas que vivem do seu glorioso passado. Será que Hendrix estaria correndo o mundo apresentando Purple Haze, All Along The Watchtower, Little Wing? Quem sabe, era tão criativamente inquieto quanto seus citados pares na época em que se escreveu a cartilha do rock’n’roll.

Estou lendo Hendrix, Setting The Record Straight, escrito em parceria por John McDermott com o engenheiro de som de Hendrix, Eddie Kramer, mas infelizmente estou um pouco aquém da metade e me vi compelido a escrever pela data histórica. No jornalismo sempre nos pautamos por datas redondas ou por intermediárias como o caso, 45 anos. Não é um livro novo, é de 1992, tive acesso bastante tardio a ele, mas difere de muitas biografias por mostrar a teia contratual em torno de Hendrix por gente como Michael Jefferey, criador da estrutura administrativa da carreira dele na América em troca de uma polpuda comissão de 40%. Jefferey jogou para escanteio o baixista dos Animals, Chas Chandler, que descobriu Hendrix e o levou para a Inglaterra, onde iniciou uma bem sucedida carreira europeia antes de ser reconhecido em seu país natal, a América.


 
The Jimi Hendrix Experience. Da E. Noel Redding (baixo), Hndrix, Mitch Mitchell

Eddie Kramer ajudou Hendrix a formatar sua sonoridade a partir de indicações vagas que o músico lhe dava, incluindo a insistência de criar sons que  alegava ouvir em sonhos, como ter a ambiência do mar. Gravar era uma tarefa complexa para as limitações técnicas dos primeiros discos, de 1967, registrados no Olympic Studios, de Londres, com apenas quatro canais. Depois o Olympic foi o primeiro estúdio inglês a ter oito canais, uma vantagem que até levou os Beatles a gravar algumas coisas lá porque os estúdios da EMI ainda estavam em quatro canais.

Hendrix nunca estava satisfeito com uma canção, o que obrigava a perigosas reduções para abrir canais para mais e mais overdubs, com uma queda progressiva de qualidade. Tanto ali quanto mais tarde na América, nos estúdios Record Plant em Los Angeles e no Electric Lady Studios dele em Nova York, Hendrix exigia que se gravasse tudo enquanto ele estava no estúdio. Uma vez deu uma bronca no engenheiro Tony Bongiovi  porque tinha desligado as máquinas. Bongiovi disse que desligara porque ele não estava fazendo coisa alguma. “Não interessa, bota pra gravar”, gritou. “E lá fui eu botar pra gravar e trocar fita após fita”, disse ele. 





Hendrix tinha problemas para se concentrar numa coisa só, começava a gravar uma base, interrompia, mandava mudar a fita para outra canção e assim ia. Kramer desenvolveu um “método” para lidar com isso: desafiava Hendrix a fazer melhor, o que o estimulava a manter o foco. Kramer conta que muitas vezes ele criava alguma coisa que o engenheiro sentia que podia encaixar em outra música, aí colocava e mostrava para Hendrix, que quase sempre aceitava, os dois tinham excelente sintonia. As jam sessions no estúdio eram uma inspiração para criar muitas músicas, por isso a insistência em que tudo fosse gravado, mesmo com exagero de mandar rodar o gravador quando nada fazia. Talvez achasse que um raio inspirador podia atingi-lo e se dissipar logo em seguida, antes que pudesse pedir para gravar. 




Bongiovi fala ainda que Hendrix sempre demorava a chegar porque estava na farra. Numa sessão reservada para 19h às 7 da manhã, Hendrix apareceu de madrugada com um entourage de amigos. Muitas vezes Bongiovi, sem nada pra fazer, caía no sono e era acordado pela guitarra de Hendrix em volume máximo, uma sacanagem dele com o engenheiro.


Como pode ver, o livro não fica no foco habitual das biografias de Hendrix de falar só sobre o lado sexo e drogas. Até fala, na medida em que o consumo intenso de LSD começou a prejudicar sua criatividade nos estúdios. Isso e a abundância de supostos amigos nas sessões, na verdade hordas de parasitas que gravitavam em torno de rock stars para conseguir drogas, agitos, trepadas, o que fosse. 





Hendrix era um negro que fazia rock’n’roll, algo bem pouco comum na América. Seu público era branco em enorme maioria, os negros preferiam a cultura do soul e do funk. A divulgação do trabalho dele esbarrava na questão racial, uma herança sombria da escravidão. Havia um grande número de estações de música negra que não tocavam as músicas de Hendrix por ser rock’n’roll. E muitas emissoras de pop rock o boicotavam por ser negro, restavam as FMs, um formato ainda incipiente num universo de emissoras em AM. 


Hendrix era um idealista que achava possível fazer uma ponte entre a música negra e o rock, mas isso se mostrava difícil na prática. Ele também se desiludia com o público nos shows, sempre instigando-o a tacar fogo na guitarra como fizera no Festival de Monterey, o evento que lhe abriu as portas na América. Ele não pretendia fazer aquilo, só decidiu quando viu dos bastidores o guitarrista Pete Townshend quebrar sua guitarra e o baterista Keith Moon chutar sua bateria no encerramento do The Who, a banda que o precedeu. Era uma grande oportunidade de ser conhecido na sua terra natal, daí a performance incendiária, literalmente.







Foi uma carreira tumultuada numa era de excessos. Hendrix lançou apenas três discos de estúdio em vida. Após sua morte virou um excelente e mega explorado negócio com 12 álbuns de estúdio, 25 ao vivo e 23 coletâneas, além de singles, EPs e "piratas oficiais", a maioria com sobras que ele não considerou adequadas para lançamento. Uma parte lançada por gravadoras que o tinham sob contrato e depois pela irmã adotiva Janie Hendrix, que após anos de batalhas judiciais, conseguiu ficar com todo o acervo e saiu relançando tudo. É a única beneficiária dos milhões ganhos com este material porque o pai de Hendrix, Al, é morto e o irmão legítimo Leon, foi excluído do testamento do pai, processou Janie várias vezes, mas ela ganhou. 

Coda: Jimi Hendrix morreu de overdose do sedativo  Vesparax na casa de sua namorada Monika Dannemann, em Londres. Ele tomou nove comprimidos, ficou dopado e se afogou no próprio vômito durante o sono.

P.S. Desculpem os intervalos irregulares entre páragrafos e fotos. A ferramenta é muito doida.

2 comentários:

  1. Grande Jama, belo texto para um cara que merece ser lembrado e ouvido diariamente. Sucesso sempre pra ti

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  2. O que mais gosto são as histórias dos músicos da cena inglesa, em especial os guitarristas, que entraram em crise existencial após a chegada de Jimi Hendrix. No primeiro show que ele se apresentou dando uma "canja" no show do CREAM fez Eric Clapton ficar mais perdido que filho de puta em festa do dia dos pais, e resto virou uma linda e deliciosa história de uma força da natureza, que tão inesperadamente teve seu começo se foi como uma sua brisa.

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