sábado, 31 de outubro de 2015

Vespas Mandarinas dão rasante impecável no Imperator

Vespas Mandarinas - Fotos de Thaís Monteiro

Há algum tempo não me empolgo tanto com um show de rock como o do quarteto paulista Vespas Mandarinas, que abriu o final de semana rock do Centro Cultural João Nogueira, o Imperator.  Hoje é a vez do Matanza, com ingressos esgotados, abertura da banda Rats e domingo Dead Fish, com abertura de Nove Zero Nove. Meier Rocks. O Imperator é uma boa opção para quem gosta de rock, tem dado oportunidade para bandas novas através da série Novo Rock, que nesta quinta foi aditivada com a presença das Vespas Mandarinas. Eles lançaram em 2013 o álbum Animal Nacional e já se encontram no estúdio Tambor, aqui no Rio, para gravar o segundo álbum com o produtor Rafael Ramos, o mesmo do primeiro disco.

A banda de abertura, Sound Bullet, ainda não tem um som bem amarrado, acerta em algumas composições, mas no geral se mantém num nível médio. Se assistiram as Vespas devem ter aprendido boas lições sobre pesquisa de timbres, sobre como trabalhar com duas guitarras de maneira criativa e, principalmente, como fazer boas letras.  Mesmo assim contam com um fã clube razoável que dividiu vocais com as bandas.

Além as Vespas, o destaque da noite foi a plateia que pegou fogo certas horas com o som do DJ Marcos Sats em incrementada roda de pogo ao som de Sistem Of A Down, Bad Religion e Rage Against The Machine, entre outras, o que ajudou a passar o tempo na longa espera para o começo dos shows, junto com as projeções do VJ  Didi Moreno.  A apresentação das Vespas teve um começo morno e um final incendiário no bis com Pânico e Solidão, O Inimigo e Um Homem Sem Qualidades.  


Vespas Mandarinas

Guitarras limpas de Nevilton e Chuck Hipolitho a princípio numa parte que incluiu uma homenagem à Cult band Cabine C, de Ciro Pessoa com Neste deserto. Os Paralamas tiveram seu cult álbum Severino (1994) citado em O Vício e o Verso com a inserção do título da canção Navegar Impreciso e o refrão de Cagaço, do mesmo álbum paralâmico, em Um Homem Sem Qualidades: “Tenho cagaço de descer ladeira abaixo. Tenho cagaço de pensar demais."  O link com a Geração 80 do Rock Brasil se completou com a bela Acrilic On Canvas, da Legião Urbana, que a jovem plateia recebeu sem reação. Terá o discurso da Legião ficado para trás numa parcela jovem atual?

Interessante porque as letras das Vespas  demonstram algumas incomodações ao estilo do Renato Russo: “Passa-passatempo. Predileto. Invisível. De esmagar como a um inseto. Incansável, insensível, irascível. Te esvaziar dessa bondade piegas que há muito tempo te emburreceu.” (Um Homem Sem Qualidades). Idem em Distraídos Venceremos: “Sinto muito se é mais triste a verdade, cedo ou tarde se chega a essa conclusão. O herói é o último na fila dos covardes, aquele a quem não restou à outra opção. Cuidado ao matar os seus demônios. O equilíbrio vive entre a virtude e o vício. E a gente nunca sabe qual é o defeito, que sustenta esse nosso edifício.”



Sound Bullet

Rock que puxa pelo pensamento em consistentes embalagens musicais. O baixista e vocalista Thadeu Meneghini, manda bem na voz, intérprete de muitas nuances vocais, tem momentos solo em que mete a mão no instrumento e em algumas canções divide os vocais com Chuck Hipolitho. Gosto de bandas com dois vocalistas, as intervenções de Chuck enriquecem muitas músicas, além dos timbres agudos e farpados de sua guitarra, em contraste com o timbre mais encorpado de Nevilton. Outro lance legal e fugir do esquema de um solar e o outro fazer base. Os dois solam em muitos momentos, o que dá pressão à sonoridade da banda.

Na metade da segunda década do século 21 temos finalmente uma cena rock substancial que preenche o vazio sonoro de novidades dos primeiros anos. Passada a lamentável cena emo, temos um cenário em que egressos fortes dos anos 90 como Matanza e Dead Fish, que ocupam o Imperator sábado e domingo, junto com bandas emergentes do Novo Rock que vicejam no mesmo lugar como Canto Cego, Nove Zero Nove, Facção Caipira, Folks, Drenna e outras com grande potencial de crescimento.

domingo, 25 de outubro de 2015

Paulo Ricardo lança álbum solo em novo surto de estrelismo



Tem um anúncio do Boticário com o Paulo Ricardo que ilustra bem sua carreira. Ele está numa van com seu nome escrito do lado de fora indo para um show, perto tem uma fila enorme que ele acha que é para comprar ingresso, mas é para comprar os produtos do anunciante e o local do show está vazio. Paulo parou o RPM várias vezes para tentar uma carreira solo. Nenhuma delas emplacou. Estive com ele no Projac no dia 20 de setembro, quando fui ajudar em comentários sobre o show dos Paralamas no Rock In Rio. Ele me falou que tinha vetado um disco pronto do RPM porque eram velhos se comportando como adolescentes. Em vez disso estava pronto um álbum solo e disco do RPM só ano que vem. Perguntei se ele ia embarcar de novo no lance romântico. Ele me disse que aquilo tinha sido um  erro, que o disco novo é de rock, prometeu que naquele dia mesmo ia me mandar o link para escutar. Você mandou? Nem ele.

Paulo também me disse que o disco Elektra, lançado na quarta volta da banda, tinha sido um equívoco por ser muito dançante. Não me entusiasmou por causa disso mesmo e estava na expectativa de que o vetado Deus Ex Machina faria o RPM se renovar. Perguntei se a banda ia parar, ele disse que não porque essa coisa dos anos 80 não para (não coloco entre aspas porque não lembro as palavras exatas, mas o sentido é este).  O RPM continua a fazer shows, pelo menos até sair o disco solo do Paulo. O que deduzi foi que ele mais uma vez quer tentar emplacar solo e quer deixar o RPM como uma banda saudosista, já que bloqueia a renovação de repertório.

Em 1989, a banda acabou porque estava corroída por contradições criadas pelo sucesso absurdo que teve com o primeiro disco e seus desdobramentos. Fizeram um disco ao vivo após lançar um único disco por falta de direcionamento, embarcaram numa egotrip sem limites para alegria da gravadora CBS, que tinha a política de sugar ao máximo os artistas novos e depois descartar o bagaço. Das reuniões seguintes, em 1993 a 1994, 2001 a 2003, 2008 só a atual, iniciada em 2011, rendeu um disco de carreira, falta continuidade na banda, sempre atropelada pela vontade de seu vocalista, indo e vindo quando quebra a cara.



Acho que rock é uma questão de banda. Uma unidade maior que suas partes, tanto que músicos egressos de bandas tem dificuldade de emplacar carreira solo. A banda é um corpo coeso, criativo em maior ou menor grau, que exige empenho e até renúncia das partes. Muitos músicos fazem discos solo com canções que não cabem nas bandas ou foram rejeitadas pelo consenso interno. Raramente superam o sucesso dos discos da banda. O dito maior vocalista de rock do mundo, Mick Jagger, é um bom exemplo. Nos anos 80, 90 e 00 lançou quatro álbuns solo, nenhum deles ficou entre os 10 mais na América, o que chegou mais perto foi Wandering Spirit (1993) em 11º lugar e também não emplacou em turnês solo. 

Como Paulo Ricardo me disse que haverá disco novo do RPM ano que vem, parece que está mais prudente agora sobre este novo voo solo. A ver.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Aniversário do Circo Voador em ritmo de rapfieira e rockatu

Hamilton de Holanda, BNegão e Marcelo D2 - foto de Cleber Junior

O Circo Voador teve comemoração dupla na noite desta quinta. Seu 33º aniversário e o lançamento oficial do documentário Circo Voador A Nave, de Tainá Menezes, este num cinema Odeon lotado com uma plateia que reagiu como se estivesse num show: palmas assobios, gargalhadas. Após a projeção, embalada a Heinekens, a grande maioria se deslocou para a lona da Lapa, onde alguns chegaram pra lá de Marte e dois deles, egressos do punk carioca, ficaram berrando em estéreo nos meus ouvidos, um de cada lado. Era o clima da noite,  empolgação total. Pareceu uma noitada dos anos 80: Quatro horas da matina, plateia de baixo lotada pulando ao som de Quando A Maré Encher, da Nação Zumbi. Nas arquibancadas em cima a mesma pulação, mas já meio vazia, alguns da turma do batente puxaram o barco antes e perderam  o grand finale.



Nação Zumbi: Jorge du Peixe (vocal), Tom Rocha e Gustavo da Lua (alfaias). Foto de Nem Queiroz

Foi uma festa bem eclética, sob a vibração esfuziante do mestre de  cerimônias e DJ Lencinho Smith, gente boníssima,  que  mandou  uma discotecagem doida e agitou na  apresentação  da  noite. No telão imagens históricas  do  Circo a cargo do  VJ Montano. Quando o  povo  ainda  estava  chegando  ou a caminho, por volta  de 22h30, os  Beach  Combers mandaram ver no jardim  com sua beat/surf music instrumental. Já vi  show  inteiro  deles,  eficientes, boa comunicação com a plateia, mas não me entusiasmou. 


Nação Zumbi - foto de Nem Queiroz

Por volta de 23h30, Lencinho abriu os trabalhos com uma exortação sobre o aniversário do Circo. Ressalvou que a lona sempre olhou para o futuro, berço e palco de várias gerações de artistas, por isso anunciou que vários nomes novos iam subir ao palco para se revezar em pequenas apresentações sob o título de Combo futurista. E assim foi: Baleia, Biltre, Posada e o Clã, César Lacerda e Duda Brack mostraram pílulas de seus trabalhos. Posada fez um som bem psicodélico, me remeteu às experiências sonoras de 67 na gringa, com um excelente guitarrista canhoto Gabriel Ventura. A Biltre é da linha de humor, vestem-se de amarelo como Minions. Todos tem bom nível, diferentes das novas bandas que tenho escutado da Cena Vive. O novo quadro da música brasileira promete em diversidade e talento.


Banda Biltre

O inusitado é marca do Circo e foi o que aconteceu na apresentação de Hamilton de Holanda, titular do Baile do Almeidinha, que segue a tradição das Domingueiras Voadoras no estilo gafieira, mas com um senhor upgrade, a banda é de virtuosos, a começar por Hamilton, fera no bandolim. Depois de vários números chamaram B Negão, aí fiquei pensando como ele ia fazer rap com aquela formação musical. Ele atacou foi de Juízo Final, de Nelson Cavaquinho, levou bem, menos em alguns versos, com notas baixas demais para seu timbre grave. 


Nação Zumbi - Foto de Nem Queroz

Aí entrou Marcelo D2, cultuador da velha guarda do samba, que mandou, com B Negão, Sorriso Aberto, de Jovelina Pérola Negra, louvada por ele como “a maior partideira do Brasil.” Até aí tudo nos conforme com a banda. De repente: “Quem é que joga fumaça pro alto?” E a plateia num berro uníssono: “Planet Hemp.” “Chega na cena e toma de assalto”, “Planet Hemp”, “Conexão entre o morro e o asfalto.” “Planet Hemp.” E rolou Marcelo D2 e B Negão levando Contexto acompanhados por uma banda de gafieira. 



Nação Zumbi - Foto de Nem Queiroz

Tudo a ver com o slogan fundador do Circo que dizia que a lona era o lugar onde todas as tendências dançam juntas. O rap gafieira botou todo mundo pra pular. Impressionante a popularidade do Planet Hemp, banda formada dentro do Circo por uma rapaziada que era da turma dos puladores de cerca nos anos 90. BNegão contou que em 93 ou 94 ele ia entrar no palco quando recebeu o recado que um amigo, o Skunk,  estava chamando ele na cerca do lado de fora. Deu um pulo lá rapidinho e Skunk o apresentou a um chapa dele: “Este aqui é o Marcelo.” Deu liga, os três fundaram o Planet Hemp.


Gabriel Ventura - Posada e o Clã

Encerrada a rapfieira com um frevo arretado, troca de palco para entrar a Nação Zumbi, que estreou no Rio sob a lona voadora. Duas e algo a artilharia de duas alfaias (Tom Rocha e Gustavo da Lua) bateria (Pupilo) e percussão (Toca Ogan) troveja: “Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antônio Conselheiro! Todos os panteras negras. Lampião, sua imagem e semelhança. Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia.” Nação no palco com Monólogo ao Pé do Ouvido. Chico Science se foi, mas sua palavra ecoa no ar. E tome duas horas de rockatu (rock maracatu) alto e poderoso com a junção dos tambores e do baixo (Dengue) com a guitarra vibrante e virtuosa de Lúcio Maia. Jorge du Peixe tem limitações como vocalista, mas funciona perfeitamente no todo, uma poderosa máquina musical que interconectou o mangue ao bit hi tech, daí Mangue Bit.


Baleia

A Nação recebeu convidados. Tulipa (voz) e Gustavo Ruiz (guitarra) se incorporaram em duas canções, Bossa Nostra e Novas Auroras. Mais adiante um convidado da casa, Otto, ex-percussão da Nação e do Mundo Livre S.A., agitou com sua Janaína e Banditismo Por Questão de Classe. A plateia, como é normal, se incendiou com as mais conhecidas do repertório: Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada, Maracatu Atômico, Da Lama Ao Caos, Manguetown, Quando A Maré Encher e a mais recente Cicatriz, do álbum lançado ano passado com o nome da banda via financiamento da Natura.

Beach Combers - foto de Alexandre Matos

Quatro da manhã fim. Há muito tempo não saía a esta hora do Circo. Fui no camarim ver se achava a Maria Juçá, a diretora do Circo, hoje detentora desse nome pomposo, mas continua a mesma guerrilheira cultural que conheci em 1982. Ela já tinha puxado o barco. Falei com alguns conhecidos, entre eles Ivo Setta, da turma original, e fui, atravessei a cidade deserta rumo ao Lins. Sexta é dia comum de trampo, aquela multidão que ficou até o fim não deve trabalhar cedo, os que trabalham, digo. Mas deve ter gente que pega cedo, embalou até o fim (haja Heinekens),  e está no trampo meio zumbi de sono. Valeu a pena.

P.S. Fui credenciado para o Muse, puta banda e puta show, mas o Circo faz parte do meu DNA.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Lançamentos na gringa: Caixas em vinil de Amy Winehouse e Neil Young. Litografias dos Rolling Stones


Fãs de Amy Winehouse podem pedir ou até se presentear no Natal com a caixa The Collection, a ser lançada em 11 de dezembro com oito LPs de 180 gramas, uma litografia e uma série de fotos inéditas das sessões para os discos dela. Vi o preço em duas lojas americanas online. Na Music Direct está a 150 dólares e na Amazon a 199 dólares.  A caixa contém três álbuns de estúdio Frank (dois volumes num total de 14 faixas), Back To Black e Lioness - Hidden Treasures, que inclui The Girl From Ipanema, em dois volumes num total de 11 canções. Outros dois volumes contem o concerto gravado ao vivo no Shepherd's Bush Empire, Londres, em 2007, lançado antes em DVD. O último contém músicas das BBC Sessions, do iTunes Festival e uma acústica, You Know I’m No Good, gravada para o Napster.

Rolling Stones para pendurar na parede



Os Rolling Stones lançaram três litografias de capas de seus álbuns com autógrafos na moldura acompanhadas por uma edição do álbum em vinil branco. Apenas 2500 cópias de cada a 255 dólares. A primeira é do álbum Get Yer Ya-Ya’s Out, de 1970, ao vivo na turnê de 1969 que gerou o filme Gimme Shelter e contém a melhor performance dos Stones lançada. Tem Mick Taylor em grande forma, com o upgrade que ele deu no som da banda. É considerado um dos melhores álbuns ao vivo da história do rock, mas teve muita coisa regravada em estúdio.



A segunda é do álbum 12 x 5, lançado apenas na América. A gravadora London, subsidiária americana da Decca britânica, misturava singles com faixas tiradas dos álbuns britânicos de 14 faixas para fazer outros LPs e faturar algum, muito algum. A base do disco é um EP britânico chamado Five By Five, esticado com outros singles e faixas do álbum britânico The Rolling Stones Nº 2 para 12 faixas, tocadas pelos cinco Stones, daí o título 12 x(por) 5.




A terceira litografia é do álbum Let It Bleed, de 1969, a despedida do fundador Brian Jones, demitido por estar inoperante devido ao excesso de drogas, e a entrada de Mick Taylor. É um álbum de sonoridade limpa e refinada, ao contrário de Beggar’s Banquet (1968) que o antecedeu e de Sticky Fingers (1971) e Exile On Main Street (1972) que o sucederam.

Caixa de Neil Young





O grande Neil Young vem levando seus fãs à loucura – e à falência – com os lançamentos de seus arquivos. Já saíram cinco caixas, 12 volumes da Performance Series e 13 volumes da Ofical Release Series. Agora é a vez de um volume da série Performance com 4 vinis previstos para novembro. A caixa  Bluenote Café traz 23 performances da turnê do álbum This Note’s For You, incluindo sete inéditas: Soul of a Woman, Bad News Comes to Town, Ain't it the Truth, I'm Goin', Crime of the Heart, Doghouse, Fool for Your Love, mais uma versão de 19 minutos de Tonight's the Night. Vendida a 90 dólares nas lojas online da América.

sábado, 17 de outubro de 2015

Legião Urbana cai na estrada nesta sexta em Santos. Saiba tudo sobre o show

Dado Villa-Lobos - Fotos de Cleber Junior

Estive na noite de sexta passada no ensaio geral da Legião Urbana para a turnê de 30 anos do primeiro disco deles, lançado em 1985. A primeira parada será dia 23, nesta sexta, no Mendes Convention Center, em Santos. O show é dividido em duas partes. Na inicial tocam o primeiro disco inteiro na ordem original. Na segunda fazem um apanhado da carreira.

Marcelo Bonfá

André Frateschi, o vocalista escolhido para a turnê, dá conta do recado, é do ramo. É ator também, mas não é como um ator anterior que não segurou a onda. Canta com convicção e faz justiça às letras do gênio que as criou. Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, The Originals, cantam algumas e fazem vocais em interpretações corretas.


André Frateschi


Pra mim que vi  muitos shows com o Renato é difícil aceitar outros intérpretes, dá uma travada nos ouvidos, várias vezes lembrei dele, aquela figuraça com um timbre potente, a dança maluca, aqueles discursos doidos, os papos nos camarins e no Baixo Leblon. Enfim, vida que segue.




O que trava o show é que Dado Villa-Lobos convocou, como convidados, três jovens, um cara e duas meninas, para cantar na segunda parte, os três claudicantes (nem vou dizer os nomes) e aí vira um karaokê de luxo. 



Uma das meninas maltratou um dos grandes hinos da banda, Monte Castelo, tive vontade de sair porta a fora. A segunda  acabou com Meninos e Meninas e Dezesseis. O garoto cantou Fábrica e 1965 (Duas Tribos) e imitou a dança maluca do Renato, mas não convenceu. Paulo Miklos, dos Titãs, é o único convidado que salva, mas ele estava rendido, não tinha ensaiado, me disse no camarim que mudaram as músicas dele e agora tem uma semana para decorar e ensaiar. Quando André voltou ao palco, o povo aplaudiu, sinal de que o karaokê não agradou.


O show, aliás ensaio geral, começou morno, na hora pensei que era o normal em começo de turnê, ainda mais de uma banda com novos integrantes, mas lá pela quarta música, Ainda é cedo, começou a melhorar e foi num crescendo até Teorema. A última do disco, a suave Por Enquanto, começou soft com a tecladaria, vocal de André sem Dado no palco, baixo e batera entraram, Dado voltou e comandou um final pesado, diferente do disco. A primeira parte durou 41 minutos, o disco tem 37 minutos. Poucos improvisos.



A segunda parte começa com uma fala do Renato sobre a banda ser de Brasília e pouco aparecer lá, acho. Fui pego de surpresa, liguei o gravador pra pegar, mas é novo, não acostumei, me enrolei. A segunda parte mistura sucessos com lados B tudo no maior pique até a brochada depois de Há Tempos com o karaokê de Luxo, que que toma muito tempo, no meio Bonfá canta Pais e Filhos junto com o público e André volta aplaudido para o fim do ensaio/show com Perfeição, em que divide o vocal com Dado (mas devia ser só André, a música pede porrada). 

O bis teve quatro canções. André mandou muito bem Faroeste Caboclo, Bonfá canta Teatro dos Vampiros, Dado Índios e todos Que País É Esse, com a devida resposta da plateia “é a porra do Brasil.” Este é o show que vai correr o Brasil. Se tivesse como convidado apenas Paulo Miklos iria num crescendo até a explosão final, mas trava no meio com os “convidados”. A segunda parte teve 91 minutos.




No camarim muitos contemporâneos da Legião. Além do citado Miklos, Paula Toller, que comentou comigo sobre a passagem rápida destes 30 anos, acho incrível também como passa e a gente nem sente. Engatei um  papo sobre mixagem 5.1 com o grande produtor Liminha, que me deu ótimas dicas sobre o assunto. Dei parabéns ao André Frateschi e ele me deu seu disco solo, falei rápido com Dado e Bonfá, muito solicitados, Fausto Fawcett passou sem me dar papo e falei com a musa da geração, Fernanda Abreu, que me disse estar nos finalmente de seu primeiro disco de inéditas desde 2004 e puxou o barco antes que lembrasse de perguntar o nome do álbum. Roubei o setlist da parede, tomei dois copos do precioso líquido bem gelado e me mandei.



Parte um – Primeiro disco na íntegra
Será – Vocal – André e Dado
A Dança – André canta Dado faz vocal
Ainda é Cedo – Bonfá canta, André e Dado vocal
Perdidos no Espaço – Bonfá voz
Geração Coca Cola – André canta, Dado e Bonfá vocais
O Reggae – André canta
Baader Meinhoff Blues – André canta com Dado e Bonfá
Soldados – André voz, versão pesada, Bonfá arrasa na bateria.
Teorema – André canta, banda já no maior pique.
Por Enquanto – André canta
Fim do primeiro disco, intervalo curto
Parte 2
Tempo Perdido – Dado e Bonfá voz
Daniel Na Cova Dos Leões – André canta
Quase Sem Querer – André canta, Dado faz solo arrasador
Há Tempos – André canta
Fábrica – Convidado um voz 
1965 – Idem Dado e Bonfá vocais
Eu Sei – Convidada um voz, Dado voz no final
Monte Castelo – Convidada um voz
Mais Do mesmo – Paulo Miklos voz
Conexão Amazônica – Idem
Pais e Filhos – Bonfá canta
Meninos e Meninas - Convidada dois canta
Dezesseis – Convidada dois mais Convidado um cantam
Perfeição – Dado e André cantam
FIM
Bis
Faroeste Caboclo – André arrasa na voz
Teatro dos Vampiros – Bonfá canta
Índios – Dado canta
Que País É Esse – André e todos no vocal.

Banda: 
Dado Villa-Lobos - guitarra, voz e vocal
Marcelo Bonfá - bateria, voz e vocal
André Frateschi - voz, vocal e bateria em Pais e Filhos.
Lucas Vasconcellos - guitarra
Mauro Berman - baixo 
Roberto Pollo - teclados


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Circo Voador A Nave pousa finalmente nos cinemas







Assisti numa cabine no aconchegante cinema do Museu da República ao documentário Circo Voador – A Nave, estreia em cinema de Tainá Menezes, escolhida pela produtora Maria Juçá por ser da geração que curte o momento atual da lona voadora. Juçá contou que o filme levou cinco anos em nome da liberdade de fazê-lo do jeito que desejavam, sem Rouanets de espécie alguma. Trabalhavam, o dinheiro acabava, paravam. Mais adiante voltavam e assim foi até chegar aos finalmente. Dia 23 entra em cartaz em oito salas do Rio, em negociação para o restante do circuito e outros estados.

Achei engraçado ver a efervescência do público agora e nos anos 80, em cenas da Lapa atual e do Arpoador. É a mesma coisa. Jovens serão jovens ad aeternum graças aos deuses. Os que lá se esbaldam são filhos, netos da primeira geração absorvendo uma cultura genuína, orgânica, sem o placebo cultural infecto do mainstream atual. Fiz uma cobertura intensa do Circo Voador para o Jornal do Brasil nos anos 80, apaixonei-me porque ali não estava uma casa de espetáculo para ganhar dinheiro, mas sim uma ideia levada adiante com a cara e a coragem por uma geração que acreditava no que estava fazendo. 


Cartaz do filme. Este "aplacando demônios" e coisa de Tom Zé

Era um ninho irradiador de cultura, o motto era um lugar onde as diferenças dançavam juntas, mesmo que aparentemente antagônicas, como na noite em que Juçá juntou a banda punk Coquetel Molotov com Tim Maia. Juçá levou um esporro monumental do Tim, mas no final da noite todos curtiam juntos. Claro, só havia verdades ali. E verdades se entendem. Algumas, pelo menos.


Circo no Arpoador

Foi uma viagem de 90 e brau minutos pra mim, gargalhei, chorei, lembrei, no final ‘tava com um troço no peito e as pernas bambas. Juçá e Sergio Peo, casados na época, tiveram, a ideia santa de filmar tudo do começo. Em VHS, captação direta de áudio, imagens precárias, mas de um valor imenso, Blitz com Lobão na bateria, Barão Vermelho original com canja de Caetano Veloso em cenas longas, músicas quase inteiras, câmera no palco e no público, Legião Urbana no começo, Planet Hemp com gente pendurada no teto, o que sempre preocupava de algum doidão despencar. Macalé, Luiz Melodia dançando alucinado ao groove de Renato Piau ao violão. 


A diretora Tainá Menezes com Ivo Setta no lançamento do livro da Maria Juçá

Tem muitos depoimentos de gente que passou pelo Circo, tanto os que lá cresceram como os que o adotaram com prazer, como o mestre Gilberto Gil, os que eram duros, pulavam o muro e um dia subiram como atrações, caso de Marcelo D2 e Marcelo Yuka. Os que nos deixaram em sua plenitude, um momento poético da montagem na parte em que o Circo foi arbitrariamente fechado pelo prefeito Cesar Maia em 96. Tainá juntou imagens do fechamento com cenas de Cassia Eller cantando Por Enquanto ao violão nos versos “se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar. Que tudo era pra sempre, Sem saber, que o 'pra sempre', Sempre acaba ...” Ausência do Circo, de Cássia e de Renato Russo, morto no mesmo ano.

Maria Juçá

Mas, como diz o honorável Ivo Setta, o Circo teve vários fins e vários começos. O começo no Arpoador foi no “vamos fazer”, a transferência pra Lapa idem e, quando reabriu em 2004, a mesma coisa. Gaby Morenah, filha da Juçá e atual produtora do Circo, conta de 2004 o mesmo que Ivo conta de 1982. Todos faziam tudo. Gaby era parte de um coletivo de jovens que fez a ocupação do canteiro do Circo demolido e que passou a cuidar da nova lona, sob a direção da Juçá, que reestruturou tudo com uma equipe jovem para o Circo continuar seu voo século 21 a dentro. O espírito é o mesmo, ali se reúnem loucos eternos, como o tropicalista Tom Zé e novos loucos como Otto. Basta ser original e criativo. 

Rita Lee anunciou sua aposentadoria no Circo

Quem demorou a pousar e chegou chegando foi Rita Lee, que anunciou no palco sua aposentadoria, todo mundo surpreso e berrando pra ela não parar, a rainha do rock brasileiro emocionada diante daquela vibração amorosa de uma plateia jovem. 


A estreia foi no 30º Festival Internacional de Cine de Guadalajara, com exibições nos dias 6,7 e 8 de março deste ano. O Festival do Rio não quis exibir.


A história não para. Muita coisa já rolou depois do fechamento do filme, em algum momento deste século haverá um novo documentário, como disse Juçá gargalhando “eles [a nova geração] que o façam.”


Primeiro Circo Voador na Lapa

O Circo não tem idade. Tom Zé fala algo assim, uma bolha atemporal que vaga pelo universo irradiando cultura. Em eterna luta contra a burrice e o obscurantismo. Circo Voador A Nave, filme de Tainá Menezes e livro de Maria Juçá, são documentos imprescindíveis. Espero ter dado uma ideia do filme, desordenadamente é verdade, mas fazer o que, é o Circo Voador cacete. 

Circo Voador hoje

P.S. No Rio, o filme entra em cartaz no próximo dia 23 nos seguintes cinemas: Estação Net Barra Point (Barra), Estação Net Gávea (Gávea), Estação Net Rio (Botafogo), Cine Museu da República (Catete), Cine Santa Teresa (Santa Teresa), Cine Candido Mendes (Ipanema), Ponto Cine (Guadalupe), Cine Odeon - Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro (Cinelândia).

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

John Lennon, 75 anos, e o álbum que redefiniu sua vida




Neste nove de outubro John Lennon faria 75 anos. Quando os Beatles acabaram, em 4 de abril de 1970, encerrou-se para ele uma etapa  iniciada em 1956 quando fundou a primeira banda, The Quarrymen. A decolagem para a História começou em cinco de outubro de 1962, quando saiu o primeiro compacto com Love Me Do e P.S. I Love You. O fim da banda o encontrou sob o tiroteio de ter se casado com Yoko Ono, uma japonesa rotulada de feia e esquisita, numa demonstração de racismo e desrespeito a uma artista plástica de vanguarda e ao direito de livre escolha de John. A violência foi uma surpresa para os dois. Yoko: “Estávamos em plena Swinging London e, de repente, a Idade Média desabou sobre nós.” 



Foto de Annie Leibovitz para a Rolling Stone

Nos últimos anos os Beatles implodiram gradualmente em contradições. John disse em 1969 que precisava de mais espaço, os Beatles o aprisionavam. Ele queria se sentir livre para fazer o que quisesse sem que o mundo desabasse em cima dos outros, como aconteceu quando ele disse, em 1966, que os Beatles eram mais famosos do que Jesus. Daí partiu para um misto de arte de vanguarda com militância política a favor da paz. Gravou discos e rodou filmes experimentais como provocação – “As pessoas são gelatinas congeladas. É preciso alguém para desligar a geladeira.” Fez os bed ins com Yoko Ono em Amsterdam e Montreal, quando criou o hino pacifista “All we are saying is give peace a chance”. 

Montreal, maio de 1969: Give peace a chance

Viciou-se em heroína depois de ler Ópio, O Diário De Uma Cura, de Jean Cocteau, que fala da luta do autor contra o vício. Livrou-se da droga na marra, não quis se internar numa clínica porque a imprensa ia cair em cima. Os horrores da cura estão na letra do segundo single solo, Cold Turkey: "36 horas rolando de dor - Rezando para que alguém - Me liberte novamente!" (“Thirty-six hours - Rolling in pain - Praying to someone - Free me again”), de 1969 (o primeiro foi Give Peace A Chance). Apesar do amor de Yoko, estava mergulhado em angústia existencial e, um dia, lhe caiu nas mãos o livro The Primal Scream – Primal Therapy, The Cure For Neurosis, do terapeuta americano Arthur Janov, lido de enfiada. O método tinha um viés freudiano de influência dos traumas de infância na vida adulta, incluindo o desejo do incesto, que John confessou ter experimentado em relação à mãe, Julia Stanley. Ela o entregou com cinco anos para a irmã, Mary Elizabeth (Mimi),  quando casou pela segunda vez, mas reentrou na vida de John quando ele tinha 16 anos e morreu atropelada dois anos depois.




Janov ficou impressionado com o estado de John: “O nível de seu sofrimento era enorme. Ele era quase completamente disfuncional. Não conseguia sair de casa. Não tinha defesas, estava desmoronando, cheio de raiva, hostilidade, cinismo e ceticismo. Era alguém que o mundo inteiro adorava, mas isto não fazia a menor diferença. No centro de toda aquela fama, riqueza e adulação estava apenas um menino solitário.” A terapia incluía fazer o paciente berrar as dores infligidas desde a dor do parto. A princípio John travou mas, com ajuda de Yoko, conseguiu se soltar. 




Um dos temas da terapia foi a religião. John perguntou porque as pessoas se apegavam tanto às religiões. Janov respondeu que a religião era uma busca de consolo para o sofrimento. John: “Oh, então Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor?” Que virou o verso de abertura da música God, em que ele nega religiões, políticos e músicos, incluindo os Beatles: "God is a concept by which we measure our pain." E faz a grande despedida do mito: “O sonho acabou – O que posso dizer – Eu era o artífice do sonho – Mas agora renasci – Eu era a morsa – Mas agora sou John – Então, queridos amigos – Vocês tem que seguir em frente – O sonho acabou.” (“The dream is over - What can I say? (…) I was the dreamweaver - But now I'm reborn - I was the Walrus - But now I'm John- And so dear friends - You'll just have to carry on - The dream is over”). Numa entrevista ele disse: “A gente nasce e vive a maior parte da vida com dor. Quanto mais dor se sente, de mais deuses se precisa.” 




Como Janov tinha uma clínica concorrida na Califórnia, teve que voltar quando terminou a primeira fase, Lennon foi a San Francisco e completou o tratamento sob marcação da imigração por conta de uma condenação por porte de maconha na Inglaterra em 1968. Nesse processo terapêutico foram compostas as 11 canções do álbum, o primeiro solo, batizado de John Lennon/Plastic Ono Band, lançado em 11 de dezembro de 1970.


Cena do filme Help, em que canta You've Got To Hide Your Love Away

Para acompanhá-lo chamou para o baixo seu velho amigo alemão Klaus Voormann, autor da capa de Revolver, Ringo Starr tocou bateria, Billy Preston tocou piano em God, John guitarra e piano e Yoko vento (John diz que ela criou a ambientação). Phil Spector, o inventor da muralha sonora, assinou a produção, mas só entrou na fase final e tocou piano em Love. Depois da complexidade da produção Beatle, de Revolver (1966) a Abbey Road (1969), John optou pela mesma simplicidade e crueza que era a idéia original do álbum Get Back, lançado como Let It Be em oito de maio de 1970 com acréscimos não previstos no projeto original, incluindo massas instrumentais pelo mesmo Phil Spector. Aqui não houve isso, instrumentação econômica e pouco tratamento na voz de John. As gravações foram feitas ao vivo, todos tocando juntos.


Capa do disco fotografada na propriedade de Tittenhurst Park

O disco faixa a faixa:

Mother 





O som de um sino fúnebre simboliza a morte de sua mãe, Julia Stanley, atropelada em 15 de julho de 1958 depois de sair da casa da irmã, Mary 'Mimi' Elizabeth, a caminho de sua residência, onde John a aguardava. Ele já homenageara a mãe em Julia, uma balada do álbum branco, mas aqui reflete a dor da perda e de nunca ter tido Julia como mãe nos anos de crescimento. “Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você – Eu te queria, você não me quis” (“Mother, you had me, but I never had you - I wanted you, you didn't want me”), são os versos iniciais. Também se refere ao pai, Alfred Lennon, com quem mal conviveu, pois era marinheiro e vivia embarcado, até que sumiu no mundo em 1943 para reaparecer só quando John já era famoso. “Pai, você me deixou, mas eu nunca te deixei – Eu precisava de você, mas você não precisava de mim” (Father, you left me, but I never left you - I needed you, you didn't need me”) diz a segunda estrofe. E para os dois ele diz “Então, preciso lhes dizer adeus, adeus - “Mamãe não se vá – Papai volte para casa” (So I, I just got to tell you goodbye, goodbye - Mama don't go - Daddy come home). Levada lenta com piano, baixo e bateria. No final os berros cortantes da terapia.

 Hold On






Uma balada tranquila que se refere às barras que os dois estavam atravessando. Nas duas primeiras estrofes ele pede a si mesmo e a Yoko que tenham calma porque tudo vai ficar bem. Que quando se está sozinho tem que se ter calma para tudo dar certo e finalmente fala “E quando você é um – Realmente um – Você faz as coisas – Como nunca fez antes. (“And when you’re one - Really one – Well you get things done – Like they never been done”). John dobrou a voz com pequenas diferenças, no mix está uma em cada canal do estéreo. John toca uma guitarra com vibrato.

I Found Out 





Um desabafo raivoso com distorção, levada reta, não é grande coisa em termos musicais, mas a letra segura a onda. Berra que ficar sentado com o pau na mão não faz de ninguém um homem, que nenhum Jesus vai cair do céu. Que os Hare Krishna só te deixam louco sem nada para fazer, confessa que foi viciado, que viu a religião de Jesus a Paul (o papa na época era Paulo VI), alerta para não serem enganados com drogas e cocaína, diz que nenhum guru pode enxergar além de seus olhos e manda cada um sentir a própria dor. E que seus pais não o queriam e, por isso, o transformaram num astro (do rock). Porradaço. O DVD da série Classic Rock mostra que John usou um violão National com placa redonda de metal plugado num amplificadorzinho Fender Vibro Champ saturado. 

Working Class Hero 




John  descreve passo a passo a vida de um cidadão comum e suas escassas chances de ser alguém neste mundo. Diz que somos oprimidos desde o nascimento, que a dor que nos infligem chega a um ponto em que nada mais sentimos, que nos dopam com sexo, religião e TV. John dizia que o herói da classe média era ele mesmo, mais um processado pela maquinaria da sociedade para ser alguém, ou não. E ainda: “Você tem que se humilhar totalmente para ser o que os Beatles eram e eu sinto ressentimento disso.” John gravou com voz e violão, depois mudou a última estrofe mas, em vez de gravar tudo de novo, registrou apenas a nova parte.

Isolation 




Levada lenta com piano, órgão, bateria. Na letra John fala algo semelhante ao que Janov disse: “Todo mundo acha que a gente se deu bem, mas não sabem que estamos cheios de medo e isolados.” ("People say we got it made.Don't they know we're so afraid?Isolation". Diz que todo mundo tenta derrubá-los e não culpa quem lhe fez mal porque todos são vítimas da insanidade. Na segunda parte John canta duas vezes, uma em cada canal. 

Remember 






Remember é um alerta contra os reveses da vida em perguntas: "Lembra quando você era jovem e os heróis nunca eram enforcados, sempre se safavam? Lembra quando você era pequeno e todos pareciam tão altos e tudo tinha que ser do jeito deles? Lembra que seu pai e sua mãe pareciam querer ser astros do cinema, sempre representando seus papéis?" ("Remember when you were young? - How the hero was never hung –(…) Just remember when you were small - How people seemed so tall - Always had their way - Do you remember your Ma and Pa - Just wishing for movie stardom - Always, always playing a part"). No final ele diz “Remember the fifth of november” e uma bomba explode. É uma referência à Conspiração da Pólvora, uma tentativa frustrada de explodir o Parlamento em 1605 por ativistas católicos revoltados com a repressão à sua crença. 

Love 




Aqui está mais uma prova de que John não era ruim em baladas. Uma declaração de amor a Yoko com piano e violão. A canção começa em fade in e só é audível lá pelo oitavo/décimo segundo. A letra é bobinha, mas o todo funciona bem. John foi mais um que se apaixonou e ficou babacão. “O amor é real – Real é o amor – O amor é querer ser amado – O amor é você e eu” ("Love is real - Real is love - Love is wanting to be loved - Love is you and me") e por aí vai. 

Well Well Well 




Gravado em trio - John na guitarra, Ringo na bateria e Klaus no baixo -, conta cenas do cotidiano do casal. "Levei minha amada para um campo grande – para vermos o céu inglês (...) – sentamos e falamos de revolução – Como dois liberais ao sol – Falamos da liberação feminina – E de como poderíamos resolver as coisas "("I took my loved one to a big field - So we could watch the english sky – We sat and talked of revolution - Just like two liberals in the sun - We talked of women's liberation - And how the hell we could get things done"). 

Look At Me




 Uma canção lenta em voz e violão com uma bela melodia sobre a redefinição pessoal com muitas dúvidas. “Quem eu devo ser? – O que devo fazer? – Aqui estou – Olhe para mim – Quem sou eu? – Ninguém sabe, só eu – Ninguém mais pode ver – Só você e eu.” (Who Am I supposed to be? – What Am I supposed to do – Here I am – Look at me - Who am I? - Nobody knows but me - Nobody else can see - Just you and me.”)


God




Esta, já citada acima, conta com Billy Preston ao piano. Num gesto de ironia afetiva, John lhe pediu um tom gospel porque Billy era religioso. A canção, entre outras coisas, nega Jesus e a Bíblia. E os políticos Hitler e Kennedy. E misticismo oriental Buda, Gita, Yoga, Mantra, I-Ching, Tarô. E músicos, Elvis Presley, Zimmerman (Bob Dylan) e Beatles.

My Mummy’s Dead 




O disco acaba como começou, uma referência à mãe, Julia. Em Mother o tom era de revolta, aqui um canto lamentoso de tristeza só com guitarra. "Minha mãe morreu – Não consigo aceitar – Já fazem muitos anos – É difícil explicar tanta dor – Nunca pude mostrar – Minha mãe morreu" ("My Mummy's dead - I can't get it through my head - Though it's been so many years - It's hard to explain - So much pain - I could never show it - My Mummy's dead").


CODA: John  lançaria cinco discos solo até 1975, quando se recolheu para criar o filho, Sean Ono Lennon. Voltou em 1980, quando lançou Double Fantasy com Yoko Ono. Foi assassinado em oito de dezembro de 1980 por Mark Chapman, um fã dos Beatles, que cumpre pena de prisão perpétua. Em 1984 foi lançado o disco póstumo Milk And Honey.                              



Fontes: Libreto da caixa The John Lennon Anthology (1998) 
John Lennon A Vida - Philip Norman – Tradução de Roberto Muggiati (Companhia das Letras – 2008) 
A Balada de John e Yoko – Pelos editores da Rolling Stone (Círculo do Livro – 1983) 
DVD Classic Albuns John Lennon Plastic Ono Band (ST2) 
Internet

Obs. O post acima é adaptado de um que publiquei em 24 de novembro de 2010 quando saiu no Brasil a discografia remasterizada de John Lennon. Como ele hoje, 9 de outubro, faria 75 anos, aproveitei para republicá-la por se tratar de um período crucial na vida dele.