sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Aniversário do Circo Voador em ritmo de rapfieira e rockatu

Hamilton de Holanda, BNegão e Marcelo D2 - foto de Cleber Junior

O Circo Voador teve comemoração dupla na noite desta quinta. Seu 33º aniversário e o lançamento oficial do documentário Circo Voador A Nave, de Tainá Menezes, este num cinema Odeon lotado com uma plateia que reagiu como se estivesse num show: palmas assobios, gargalhadas. Após a projeção, embalada a Heinekens, a grande maioria se deslocou para a lona da Lapa, onde alguns chegaram pra lá de Marte e dois deles, egressos do punk carioca, ficaram berrando em estéreo nos meus ouvidos, um de cada lado. Era o clima da noite,  empolgação total. Pareceu uma noitada dos anos 80: Quatro horas da matina, plateia de baixo lotada pulando ao som de Quando A Maré Encher, da Nação Zumbi. Nas arquibancadas em cima a mesma pulação, mas já meio vazia, alguns da turma do batente puxaram o barco antes e perderam  o grand finale.



Nação Zumbi: Jorge du Peixe (vocal), Tom Rocha e Gustavo da Lua (alfaias). Foto de Nem Queiroz

Foi uma festa bem eclética, sob a vibração esfuziante do mestre de  cerimônias e DJ Lencinho Smith, gente boníssima,  que  mandou  uma discotecagem doida e agitou na  apresentação  da  noite. No telão imagens históricas  do  Circo a cargo do  VJ Montano. Quando o  povo  ainda  estava  chegando  ou a caminho, por volta  de 22h30, os  Beach  Combers mandaram ver no jardim  com sua beat/surf music instrumental. Já vi  show  inteiro  deles,  eficientes, boa comunicação com a plateia, mas não me entusiasmou. 


Nação Zumbi - foto de Nem Queiroz

Por volta de 23h30, Lencinho abriu os trabalhos com uma exortação sobre o aniversário do Circo. Ressalvou que a lona sempre olhou para o futuro, berço e palco de várias gerações de artistas, por isso anunciou que vários nomes novos iam subir ao palco para se revezar em pequenas apresentações sob o título de Combo futurista. E assim foi: Baleia, Biltre, Posada e o Clã, César Lacerda e Duda Brack mostraram pílulas de seus trabalhos. Posada fez um som bem psicodélico, me remeteu às experiências sonoras de 67 na gringa, com um excelente guitarrista canhoto Gabriel Ventura. A Biltre é da linha de humor, vestem-se de amarelo como Minions. Todos tem bom nível, diferentes das novas bandas que tenho escutado da Cena Vive. O novo quadro da música brasileira promete em diversidade e talento.


Banda Biltre

O inusitado é marca do Circo e foi o que aconteceu na apresentação de Hamilton de Holanda, titular do Baile do Almeidinha, que segue a tradição das Domingueiras Voadoras no estilo gafieira, mas com um senhor upgrade, a banda é de virtuosos, a começar por Hamilton, fera no bandolim. Depois de vários números chamaram B Negão, aí fiquei pensando como ele ia fazer rap com aquela formação musical. Ele atacou foi de Juízo Final, de Nelson Cavaquinho, levou bem, menos em alguns versos, com notas baixas demais para seu timbre grave. 


Nação Zumbi - Foto de Nem Queroz

Aí entrou Marcelo D2, cultuador da velha guarda do samba, que mandou, com B Negão, Sorriso Aberto, de Jovelina Pérola Negra, louvada por ele como “a maior partideira do Brasil.” Até aí tudo nos conforme com a banda. De repente: “Quem é que joga fumaça pro alto?” E a plateia num berro uníssono: “Planet Hemp.” “Chega na cena e toma de assalto”, “Planet Hemp”, “Conexão entre o morro e o asfalto.” “Planet Hemp.” E rolou Marcelo D2 e B Negão levando Contexto acompanhados por uma banda de gafieira. 



Nação Zumbi - Foto de Nem Queiroz

Tudo a ver com o slogan fundador do Circo que dizia que a lona era o lugar onde todas as tendências dançam juntas. O rap gafieira botou todo mundo pra pular. Impressionante a popularidade do Planet Hemp, banda formada dentro do Circo por uma rapaziada que era da turma dos puladores de cerca nos anos 90. BNegão contou que em 93 ou 94 ele ia entrar no palco quando recebeu o recado que um amigo, o Skunk,  estava chamando ele na cerca do lado de fora. Deu um pulo lá rapidinho e Skunk o apresentou a um chapa dele: “Este aqui é o Marcelo.” Deu liga, os três fundaram o Planet Hemp.


Gabriel Ventura - Posada e o Clã

Encerrada a rapfieira com um frevo arretado, troca de palco para entrar a Nação Zumbi, que estreou no Rio sob a lona voadora. Duas e algo a artilharia de duas alfaias (Tom Rocha e Gustavo da Lua) bateria (Pupilo) e percussão (Toca Ogan) troveja: “Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antônio Conselheiro! Todos os panteras negras. Lampião, sua imagem e semelhança. Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia.” Nação no palco com Monólogo ao Pé do Ouvido. Chico Science se foi, mas sua palavra ecoa no ar. E tome duas horas de rockatu (rock maracatu) alto e poderoso com a junção dos tambores e do baixo (Dengue) com a guitarra vibrante e virtuosa de Lúcio Maia. Jorge du Peixe tem limitações como vocalista, mas funciona perfeitamente no todo, uma poderosa máquina musical que interconectou o mangue ao bit hi tech, daí Mangue Bit.


Baleia

A Nação recebeu convidados. Tulipa (voz) e Gustavo Ruiz (guitarra) se incorporaram em duas canções, Bossa Nostra e Novas Auroras. Mais adiante um convidado da casa, Otto, ex-percussão da Nação e do Mundo Livre S.A., agitou com sua Janaína e Banditismo Por Questão de Classe. A plateia, como é normal, se incendiou com as mais conhecidas do repertório: Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada, Maracatu Atômico, Da Lama Ao Caos, Manguetown, Quando A Maré Encher e a mais recente Cicatriz, do álbum lançado ano passado com o nome da banda via financiamento da Natura.

Beach Combers - foto de Alexandre Matos

Quatro da manhã fim. Há muito tempo não saía a esta hora do Circo. Fui no camarim ver se achava a Maria Juçá, a diretora do Circo, hoje detentora desse nome pomposo, mas continua a mesma guerrilheira cultural que conheci em 1982. Ela já tinha puxado o barco. Falei com alguns conhecidos, entre eles Ivo Setta, da turma original, e fui, atravessei a cidade deserta rumo ao Lins. Sexta é dia comum de trampo, aquela multidão que ficou até o fim não deve trabalhar cedo, os que trabalham, digo. Mas deve ter gente que pega cedo, embalou até o fim (haja Heinekens),  e está no trampo meio zumbi de sono. Valeu a pena.

P.S. Fui credenciado para o Muse, puta banda e puta show, mas o Circo faz parte do meu DNA.

Um comentário:

  1. Fala Jama! Com todo respeito e antes de tudo, peço licença para comentar em seu espaço. Discordo da parte do Otto e NZ. Não precisava ser especialista do ramo pra ver o apagão em "janaina". Desentrosados, falta de ensaio, caça acordes na hora do show e nada de empolgação. NZ maior bandão, show foda, mas essa parte foi decepcionante, nunca vi isso com profissionais desse calibre. Assim como a cutucada no beach combers, para ser justo, se você realmente assistiu ao show do Otto e NZ, faço uma análise que reflita a realidade. Forte abraço

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