quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Circo Voador A Nave pousa finalmente nos cinemas







Assisti numa cabine no aconchegante cinema do Museu da República ao documentário Circo Voador – A Nave, estreia em cinema de Tainá Menezes, escolhida pela produtora Maria Juçá por ser da geração que curte o momento atual da lona voadora. Juçá contou que o filme levou cinco anos em nome da liberdade de fazê-lo do jeito que desejavam, sem Rouanets de espécie alguma. Trabalhavam, o dinheiro acabava, paravam. Mais adiante voltavam e assim foi até chegar aos finalmente. Dia 23 entra em cartaz em oito salas do Rio, em negociação para o restante do circuito e outros estados.

Achei engraçado ver a efervescência do público agora e nos anos 80, em cenas da Lapa atual e do Arpoador. É a mesma coisa. Jovens serão jovens ad aeternum graças aos deuses. Os que lá se esbaldam são filhos, netos da primeira geração absorvendo uma cultura genuína, orgânica, sem o placebo cultural infecto do mainstream atual. Fiz uma cobertura intensa do Circo Voador para o Jornal do Brasil nos anos 80, apaixonei-me porque ali não estava uma casa de espetáculo para ganhar dinheiro, mas sim uma ideia levada adiante com a cara e a coragem por uma geração que acreditava no que estava fazendo. 


Cartaz do filme. Este "aplacando demônios" e coisa de Tom Zé

Era um ninho irradiador de cultura, o motto era um lugar onde as diferenças dançavam juntas, mesmo que aparentemente antagônicas, como na noite em que Juçá juntou a banda punk Coquetel Molotov com Tim Maia. Juçá levou um esporro monumental do Tim, mas no final da noite todos curtiam juntos. Claro, só havia verdades ali. E verdades se entendem. Algumas, pelo menos.


Circo no Arpoador

Foi uma viagem de 90 e brau minutos pra mim, gargalhei, chorei, lembrei, no final ‘tava com um troço no peito e as pernas bambas. Juçá e Sergio Peo, casados na época, tiveram, a ideia santa de filmar tudo do começo. Em VHS, captação direta de áudio, imagens precárias, mas de um valor imenso, Blitz com Lobão na bateria, Barão Vermelho original com canja de Caetano Veloso em cenas longas, músicas quase inteiras, câmera no palco e no público, Legião Urbana no começo, Planet Hemp com gente pendurada no teto, o que sempre preocupava de algum doidão despencar. Macalé, Luiz Melodia dançando alucinado ao groove de Renato Piau ao violão. 


A diretora Tainá Menezes com Ivo Setta no lançamento do livro da Maria Juçá

Tem muitos depoimentos de gente que passou pelo Circo, tanto os que lá cresceram como os que o adotaram com prazer, como o mestre Gilberto Gil, os que eram duros, pulavam o muro e um dia subiram como atrações, caso de Marcelo D2 e Marcelo Yuka. Os que nos deixaram em sua plenitude, um momento poético da montagem na parte em que o Circo foi arbitrariamente fechado pelo prefeito Cesar Maia em 96. Tainá juntou imagens do fechamento com cenas de Cassia Eller cantando Por Enquanto ao violão nos versos “se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar. Que tudo era pra sempre, Sem saber, que o 'pra sempre', Sempre acaba ...” Ausência do Circo, de Cássia e de Renato Russo, morto no mesmo ano.

Maria Juçá

Mas, como diz o honorável Ivo Setta, o Circo teve vários fins e vários começos. O começo no Arpoador foi no “vamos fazer”, a transferência pra Lapa idem e, quando reabriu em 2004, a mesma coisa. Gaby Morenah, filha da Juçá e atual produtora do Circo, conta de 2004 o mesmo que Ivo conta de 1982. Todos faziam tudo. Gaby era parte de um coletivo de jovens que fez a ocupação do canteiro do Circo demolido e que passou a cuidar da nova lona, sob a direção da Juçá, que reestruturou tudo com uma equipe jovem para o Circo continuar seu voo século 21 a dentro. O espírito é o mesmo, ali se reúnem loucos eternos, como o tropicalista Tom Zé e novos loucos como Otto. Basta ser original e criativo. 

Rita Lee anunciou sua aposentadoria no Circo

Quem demorou a pousar e chegou chegando foi Rita Lee, que anunciou no palco sua aposentadoria, todo mundo surpreso e berrando pra ela não parar, a rainha do rock brasileiro emocionada diante daquela vibração amorosa de uma plateia jovem. 


A estreia foi no 30º Festival Internacional de Cine de Guadalajara, com exibições nos dias 6,7 e 8 de março deste ano. O Festival do Rio não quis exibir.


A história não para. Muita coisa já rolou depois do fechamento do filme, em algum momento deste século haverá um novo documentário, como disse Juçá gargalhando “eles [a nova geração] que o façam.”


Primeiro Circo Voador na Lapa

O Circo não tem idade. Tom Zé fala algo assim, uma bolha atemporal que vaga pelo universo irradiando cultura. Em eterna luta contra a burrice e o obscurantismo. Circo Voador A Nave, filme de Tainá Menezes e livro de Maria Juçá, são documentos imprescindíveis. Espero ter dado uma ideia do filme, desordenadamente é verdade, mas fazer o que, é o Circo Voador cacete. 

Circo Voador hoje

P.S. No Rio, o filme entra em cartaz no próximo dia 23 nos seguintes cinemas: Estação Net Barra Point (Barra), Estação Net Gávea (Gávea), Estação Net Rio (Botafogo), Cine Museu da República (Catete), Cine Santa Teresa (Santa Teresa), Cine Candido Mendes (Ipanema), Ponto Cine (Guadalupe), Cine Odeon - Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro (Cinelândia).

3 comentários:

  1. Jama, assistindo com vc o filme Circo Voador A Nave pude ver como a gente fez merda juntos. Foi muito bom depois da exibição as gargalhadas que demos. Realmente vc é parte dessa hostória. Beijo grande amigo.

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  2. Jamari, alegria por tudo! Por seu texto, testemunho, presença perene, serena, a palavra ágil, fácil, o circo, circunstâncias, lembranças, tantas e acima de tudo, o olhar voador de minha filha, querida Tainá. Um beijo, Cristiano Menezes

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