sexta-feira, 9 de outubro de 2015

John Lennon, 75 anos, e o álbum que redefiniu sua vida




Neste nove de outubro John Lennon faria 75 anos. Quando os Beatles acabaram, em 4 de abril de 1970, encerrou-se para ele uma etapa  iniciada em 1956 quando fundou a primeira banda, The Quarrymen. A decolagem para a História começou em cinco de outubro de 1962, quando saiu o primeiro compacto com Love Me Do e P.S. I Love You. O fim da banda o encontrou sob o tiroteio de ter se casado com Yoko Ono, uma japonesa rotulada de feia e esquisita, numa demonstração de racismo e desrespeito a uma artista plástica de vanguarda e ao direito de livre escolha de John. A violência foi uma surpresa para os dois. Yoko: “Estávamos em plena Swinging London e, de repente, a Idade Média desabou sobre nós.” 



Foto de Annie Leibovitz para a Rolling Stone

Nos últimos anos os Beatles implodiram gradualmente em contradições. John disse em 1969 que precisava de mais espaço, os Beatles o aprisionavam. Ele queria se sentir livre para fazer o que quisesse sem que o mundo desabasse em cima dos outros, como aconteceu quando ele disse, em 1966, que os Beatles eram mais famosos do que Jesus. Daí partiu para um misto de arte de vanguarda com militância política a favor da paz. Gravou discos e rodou filmes experimentais como provocação – “As pessoas são gelatinas congeladas. É preciso alguém para desligar a geladeira.” Fez os bed ins com Yoko Ono em Amsterdam e Montreal, quando criou o hino pacifista “All we are saying is give peace a chance”. 

Montreal, maio de 1969: Give peace a chance

Viciou-se em heroína depois de ler Ópio, O Diário De Uma Cura, de Jean Cocteau, que fala da luta do autor contra o vício. Livrou-se da droga na marra, não quis se internar numa clínica porque a imprensa ia cair em cima. Os horrores da cura estão na letra do segundo single solo, Cold Turkey: "36 horas rolando de dor - Rezando para que alguém - Me liberte novamente!" (“Thirty-six hours - Rolling in pain - Praying to someone - Free me again”), de 1969 (o primeiro foi Give Peace A Chance). Apesar do amor de Yoko, estava mergulhado em angústia existencial e, um dia, lhe caiu nas mãos o livro The Primal Scream – Primal Therapy, The Cure For Neurosis, do terapeuta americano Arthur Janov, lido de enfiada. O método tinha um viés freudiano de influência dos traumas de infância na vida adulta, incluindo o desejo do incesto, que John confessou ter experimentado em relação à mãe, Julia Stanley. Ela o entregou com cinco anos para a irmã, Mary Elizabeth (Mimi),  quando casou pela segunda vez, mas reentrou na vida de John quando ele tinha 16 anos e morreu atropelada dois anos depois.




Janov ficou impressionado com o estado de John: “O nível de seu sofrimento era enorme. Ele era quase completamente disfuncional. Não conseguia sair de casa. Não tinha defesas, estava desmoronando, cheio de raiva, hostilidade, cinismo e ceticismo. Era alguém que o mundo inteiro adorava, mas isto não fazia a menor diferença. No centro de toda aquela fama, riqueza e adulação estava apenas um menino solitário.” A terapia incluía fazer o paciente berrar as dores infligidas desde a dor do parto. A princípio John travou mas, com ajuda de Yoko, conseguiu se soltar. 




Um dos temas da terapia foi a religião. John perguntou porque as pessoas se apegavam tanto às religiões. Janov respondeu que a religião era uma busca de consolo para o sofrimento. John: “Oh, então Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor?” Que virou o verso de abertura da música God, em que ele nega religiões, políticos e músicos, incluindo os Beatles: "God is a concept by which we measure our pain." E faz a grande despedida do mito: “O sonho acabou – O que posso dizer – Eu era o artífice do sonho – Mas agora renasci – Eu era a morsa – Mas agora sou John – Então, queridos amigos – Vocês tem que seguir em frente – O sonho acabou.” (“The dream is over - What can I say? (…) I was the dreamweaver - But now I'm reborn - I was the Walrus - But now I'm John- And so dear friends - You'll just have to carry on - The dream is over”). Numa entrevista ele disse: “A gente nasce e vive a maior parte da vida com dor. Quanto mais dor se sente, de mais deuses se precisa.” 




Como Janov tinha uma clínica concorrida na Califórnia, teve que voltar quando terminou a primeira fase, Lennon foi a San Francisco e completou o tratamento sob marcação da imigração por conta de uma condenação por porte de maconha na Inglaterra em 1968. Nesse processo terapêutico foram compostas as 11 canções do álbum, o primeiro solo, batizado de John Lennon/Plastic Ono Band, lançado em 11 de dezembro de 1970.


Cena do filme Help, em que canta You've Got To Hide Your Love Away

Para acompanhá-lo chamou para o baixo seu velho amigo alemão Klaus Voormann, autor da capa de Revolver, Ringo Starr tocou bateria, Billy Preston tocou piano em God, John guitarra e piano e Yoko vento (John diz que ela criou a ambientação). Phil Spector, o inventor da muralha sonora, assinou a produção, mas só entrou na fase final e tocou piano em Love. Depois da complexidade da produção Beatle, de Revolver (1966) a Abbey Road (1969), John optou pela mesma simplicidade e crueza que era a idéia original do álbum Get Back, lançado como Let It Be em oito de maio de 1970 com acréscimos não previstos no projeto original, incluindo massas instrumentais pelo mesmo Phil Spector. Aqui não houve isso, instrumentação econômica e pouco tratamento na voz de John. As gravações foram feitas ao vivo, todos tocando juntos.


Capa do disco fotografada na propriedade de Tittenhurst Park

O disco faixa a faixa:

Mother 





O som de um sino fúnebre simboliza a morte de sua mãe, Julia Stanley, atropelada em 15 de julho de 1958 depois de sair da casa da irmã, Mary 'Mimi' Elizabeth, a caminho de sua residência, onde John a aguardava. Ele já homenageara a mãe em Julia, uma balada do álbum branco, mas aqui reflete a dor da perda e de nunca ter tido Julia como mãe nos anos de crescimento. “Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você – Eu te queria, você não me quis” (“Mother, you had me, but I never had you - I wanted you, you didn't want me”), são os versos iniciais. Também se refere ao pai, Alfred Lennon, com quem mal conviveu, pois era marinheiro e vivia embarcado, até que sumiu no mundo em 1943 para reaparecer só quando John já era famoso. “Pai, você me deixou, mas eu nunca te deixei – Eu precisava de você, mas você não precisava de mim” (Father, you left me, but I never left you - I needed you, you didn't need me”) diz a segunda estrofe. E para os dois ele diz “Então, preciso lhes dizer adeus, adeus - “Mamãe não se vá – Papai volte para casa” (So I, I just got to tell you goodbye, goodbye - Mama don't go - Daddy come home). Levada lenta com piano, baixo e bateria. No final os berros cortantes da terapia.

 Hold On






Uma balada tranquila que se refere às barras que os dois estavam atravessando. Nas duas primeiras estrofes ele pede a si mesmo e a Yoko que tenham calma porque tudo vai ficar bem. Que quando se está sozinho tem que se ter calma para tudo dar certo e finalmente fala “E quando você é um – Realmente um – Você faz as coisas – Como nunca fez antes. (“And when you’re one - Really one – Well you get things done – Like they never been done”). John dobrou a voz com pequenas diferenças, no mix está uma em cada canal do estéreo. John toca uma guitarra com vibrato.

I Found Out 





Um desabafo raivoso com distorção, levada reta, não é grande coisa em termos musicais, mas a letra segura a onda. Berra que ficar sentado com o pau na mão não faz de ninguém um homem, que nenhum Jesus vai cair do céu. Que os Hare Krishna só te deixam louco sem nada para fazer, confessa que foi viciado, que viu a religião de Jesus a Paul (o papa na época era Paulo VI), alerta para não serem enganados com drogas e cocaína, diz que nenhum guru pode enxergar além de seus olhos e manda cada um sentir a própria dor. E que seus pais não o queriam e, por isso, o transformaram num astro (do rock). Porradaço. O DVD da série Classic Rock mostra que John usou um violão National com placa redonda de metal plugado num amplificadorzinho Fender Vibro Champ saturado. 

Working Class Hero 




John  descreve passo a passo a vida de um cidadão comum e suas escassas chances de ser alguém neste mundo. Diz que somos oprimidos desde o nascimento, que a dor que nos infligem chega a um ponto em que nada mais sentimos, que nos dopam com sexo, religião e TV. John dizia que o herói da classe média era ele mesmo, mais um processado pela maquinaria da sociedade para ser alguém, ou não. E ainda: “Você tem que se humilhar totalmente para ser o que os Beatles eram e eu sinto ressentimento disso.” John gravou com voz e violão, depois mudou a última estrofe mas, em vez de gravar tudo de novo, registrou apenas a nova parte.

Isolation 




Levada lenta com piano, órgão, bateria. Na letra John fala algo semelhante ao que Janov disse: “Todo mundo acha que a gente se deu bem, mas não sabem que estamos cheios de medo e isolados.” ("People say we got it made.Don't they know we're so afraid?Isolation". Diz que todo mundo tenta derrubá-los e não culpa quem lhe fez mal porque todos são vítimas da insanidade. Na segunda parte John canta duas vezes, uma em cada canal. 

Remember 






Remember é um alerta contra os reveses da vida em perguntas: "Lembra quando você era jovem e os heróis nunca eram enforcados, sempre se safavam? Lembra quando você era pequeno e todos pareciam tão altos e tudo tinha que ser do jeito deles? Lembra que seu pai e sua mãe pareciam querer ser astros do cinema, sempre representando seus papéis?" ("Remember when you were young? - How the hero was never hung –(…) Just remember when you were small - How people seemed so tall - Always had their way - Do you remember your Ma and Pa - Just wishing for movie stardom - Always, always playing a part"). No final ele diz “Remember the fifth of november” e uma bomba explode. É uma referência à Conspiração da Pólvora, uma tentativa frustrada de explodir o Parlamento em 1605 por ativistas católicos revoltados com a repressão à sua crença. 

Love 




Aqui está mais uma prova de que John não era ruim em baladas. Uma declaração de amor a Yoko com piano e violão. A canção começa em fade in e só é audível lá pelo oitavo/décimo segundo. A letra é bobinha, mas o todo funciona bem. John foi mais um que se apaixonou e ficou babacão. “O amor é real – Real é o amor – O amor é querer ser amado – O amor é você e eu” ("Love is real - Real is love - Love is wanting to be loved - Love is you and me") e por aí vai. 

Well Well Well 




Gravado em trio - John na guitarra, Ringo na bateria e Klaus no baixo -, conta cenas do cotidiano do casal. "Levei minha amada para um campo grande – para vermos o céu inglês (...) – sentamos e falamos de revolução – Como dois liberais ao sol – Falamos da liberação feminina – E de como poderíamos resolver as coisas "("I took my loved one to a big field - So we could watch the english sky – We sat and talked of revolution - Just like two liberals in the sun - We talked of women's liberation - And how the hell we could get things done"). 

Look At Me




 Uma canção lenta em voz e violão com uma bela melodia sobre a redefinição pessoal com muitas dúvidas. “Quem eu devo ser? – O que devo fazer? – Aqui estou – Olhe para mim – Quem sou eu? – Ninguém sabe, só eu – Ninguém mais pode ver – Só você e eu.” (Who Am I supposed to be? – What Am I supposed to do – Here I am – Look at me - Who am I? - Nobody knows but me - Nobody else can see - Just you and me.”)


God




Esta, já citada acima, conta com Billy Preston ao piano. Num gesto de ironia afetiva, John lhe pediu um tom gospel porque Billy era religioso. A canção, entre outras coisas, nega Jesus e a Bíblia. E os políticos Hitler e Kennedy. E misticismo oriental Buda, Gita, Yoga, Mantra, I-Ching, Tarô. E músicos, Elvis Presley, Zimmerman (Bob Dylan) e Beatles.

My Mummy’s Dead 




O disco acaba como começou, uma referência à mãe, Julia. Em Mother o tom era de revolta, aqui um canto lamentoso de tristeza só com guitarra. "Minha mãe morreu – Não consigo aceitar – Já fazem muitos anos – É difícil explicar tanta dor – Nunca pude mostrar – Minha mãe morreu" ("My Mummy's dead - I can't get it through my head - Though it's been so many years - It's hard to explain - So much pain - I could never show it - My Mummy's dead").


CODA: John  lançaria cinco discos solo até 1975, quando se recolheu para criar o filho, Sean Ono Lennon. Voltou em 1980, quando lançou Double Fantasy com Yoko Ono. Foi assassinado em oito de dezembro de 1980 por Mark Chapman, um fã dos Beatles, que cumpre pena de prisão perpétua. Em 1984 foi lançado o disco póstumo Milk And Honey.                              



Fontes: Libreto da caixa The John Lennon Anthology (1998) 
John Lennon A Vida - Philip Norman – Tradução de Roberto Muggiati (Companhia das Letras – 2008) 
A Balada de John e Yoko – Pelos editores da Rolling Stone (Círculo do Livro – 1983) 
DVD Classic Albuns John Lennon Plastic Ono Band (ST2) 
Internet

Obs. O post acima é adaptado de um que publiquei em 24 de novembro de 2010 quando saiu no Brasil a discografia remasterizada de John Lennon. Como ele hoje, 9 de outubro, faria 75 anos, aproveitei para republicá-la por se tratar de um período crucial na vida dele.

2 comentários:

  1. Parabéns, Jama. Um brilhante trabalho de pesquisa. Já guardei. Abraço, LAM

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  2. Sempre digo que dá para sentir as entranhas de Lennon neste disco, onde ele purga todas suas dores e fantasmas. O incrível é ver como o dor e atribulações agem na cabeça de um gênio como John Lennon, e mais incrível é como ele a colocar para fora colando como um quebra-cabeça. Seguindo a sequencia depois de ler a biografia dele você consegue vagar pela linha lógica dele, e deste modo entender sua visão de artista ao que está a sua volta e como ele chegou onde estava em 1970. Definitivamente ele tinha que estar fora dos Beatles para conceber este trabalho. Um dos meus discos preferidos. Valeu pela ótima leitura, mestre! Forte abraço!!

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