sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Dado e Bonfá encerram turnê no Circo Voador e continuam a ter problemas com o filho de Renato Russo.

Legião Urbana - Fotos de Cleber Junior

Dado e Marcelo realizaram a melhor turnê pós Renato Russo com o ocal principal a cargo de Andre Frateschi,que segurou bem a onda, além de vocais de Dado e Marcelo. Iniciada em Santos a 23 de outubro de 2015, encerra-se nos dias 16 e 17 de dezembro no Circo Voador, o primeiro palco da banda no Rio de Janeiro. O comunicado abaixo informa que o filho de Renato  Russo, Giuliano Manfredini, continua a tentar impedir Dado e Bonfá de exercer seus legítimos direitos sobre o nome e os rendimentos de seu trabalho junto com Renato. Um absurdo que deve ser repudiado. Abaixo a íntegra do comunicado com uma penteada minha.


Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá

Clique e leia a matéria sobre o ensaio geral em outubro de 2015

DADO VILLA-LOBOS  e  MARCELO BONFÁ
COMUNICADO

Pouco mais de um ano se passou desde aquele momento em que nos encontramos no estúdio para ouvir as fitas e outtakes que a EMI guardou da gravação do nosso primeiro disco, e que acabariam parte de um CD duplo, uma edição comemorativa dos 30 anos do lançamento de nossa estreia no cenário musical brasileiro.
Foi o poder daquelas canções e a atualidade das suas letras que nos despertou a vontade de voltar a tocá-las juntos e ao vivo, e dividir com o público aquela emoção que sentimos. Foi assim que chamamos alguns amigos e embarcamos na aventura de fazer alguns shows para também comemorar, do nosso jeito, os 30 anos do lançamento do nosso primeiro disco, também chamado de "Legião Urbana".

Essa aventura, que de forma totalmente inesperada se estendeu até o ano de 2016, acabou nos levando a dividir essas canções com milhares de pessoas pelo Brasil afora. E é chegada a hora de encerrar este ciclo. Mas não vamos fazê-lo sem antes voltar ao palco do Circo Voador, no Rio de Janeiro, já que foi ali, em 1983, onde - junto com o Renato, quando ainda éramos um trio - nos apresentamos pela primeira vez na cidade que depois viria a ser nossa casa.

Assim como em todas as datas desta turnê, nos dias 16 e 17 de Dezembro vamos tocar - naquele mítico palco - as músicas do nosso primeiro disco, na íntegra e na ordem original.
Além de confirmar o fim desta turnê comemorativa, esta mensagem tem também o objetivo de agradecer a todos que colaboraram para fazer dela um sucesso. Queremos agradecer aos parceiros, contratantes e produtores dos shows que acreditaram na nossa proposta artística. 

Gostaríamos também de agradecer aos jornalistas, à mídia, a toda nossa equipe e aos amigos - músicos e artistas - que compartilharam o palco com a gente. Queremos agradecer, também, de forma muito especial, aos fãs da Legião e ao público que, em todo final de semana, cantou conosco este repertório tão incrível! Temos dedicado nossas vidas à arte e à música, e é graças a esse público tão fiel que tudo faz sentido.

Para aqueles que regularmente nos consultam sobre os problemas jurídicos com o herdeiro do Renato, informamos que, durante os últimos meses da turnê, ele moveu uma ação rescisória com o objetivo de derrubar a decisão judicial que nos deu o direito de utilizar o nome da Legião Urbana nas nossas atividades profissionais, mas, por duas vezes, a justiça o rejeitou.

Paralelamente ele move um novo processo tentando tirar dinheiro desse nosso trabalho por termos usado a "marca" Legião Urbana, sem sequer prestar atenção ao fato de que a nossa não é uma turnê "da" Legião Urbana e sim a nossa forma de comemorar os 30 anos do nosso primeiro disco.

Essas questões estão nas mãos dos nossos advogados, Fábio Pereira e Mauricio Maleck, do Veirano Advogados. O nosso lance é trabalhar, fazer música e tocar ao vivo. Se possível, no volume máximo.

domingo, 30 de outubro de 2016

Moska e Suricato lotam o Circo Voador em estreia de parceria

Fotos de Cleber Junior.

Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. Eu esperei e vi um grande show, Moska e Suricato no Circo Voador. Euforia de casa lotada, espetáculo nos trinques, mas era um sábado especial. Neste domingo o Rio escolheu o novo prefeito. O coro do povo entoado várias vezes não deixou dúvida: Freixo 50. Moska gritou do palco e incluiu uma canção sintomática que não estava prevista no setlist: Último Dia. E realmente foi: O bispo da Universal levou a eleição.


Moska

"O que você faria se só te restasse um dia? Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria?” O povo cantou junto e se divertiu muito no aconchego típico do Circo que une palco e plateia em comunhão. O entrosamento foi perfeito, Rodrigo Suricato e Moska cantaram sem ler letras das canções do outro,  Moska encorpou o som do Suricato tocando guitarra em algumas canções, violão em outras e nada em muitas. “Olha o que o Rodrigo faz comigo,” brincou Moska ao empunhar uma Strato. Rodrigo: “John Mayer” e Moska rebate: “John Meio”. A alegria que os dois demonstraram no palco contagiou a plateia que cantou músicas deles a plenos pulmões.



O repertório foi bem dividido, 10 músicas de cada um. Depois de duas horas de esquenta com a discotecagem de Luck Veloso e André Luiz Costa da Rádio Cult FM Ponto Com, o start foi à meia noite e oito, com Somente Nela (Moska) acompanhado pela plateia. Quem conhece bem as apresentações de Moska ao vivo (não é o meu caso) achou que ele ganhou muito ao se associar à sonoridade do Suricato, uma banda afiada com muito punch, principalmente pelo virtuosismo da dupla Rodrigo Suricato e Guilherme Schwab. Este último se reveza em guitarra, viola, violão weissenborn, gaita e o poderoso instrumento aborígene australiano didgeridoo. 



DJs Luck Veloso (E) e André Luiz Costa

A segunda canção, Bom Começo (Suricato), teve uma abertura de quatro vozes a capella e mais de mil na plateia, a banda se calou, o povo cantou para eles e foi em frente no restante da música. Estava na cara que a noite ia ser boa. A seguinte, também Suricato, Diante De Qualquer Nariz se destaca pela boa melodia, Rodrigo tem feeling para as melodias, um trunfo em canções populares, além de letras inspiradas. 


Rodrigo Suricato

Efeitos retumbantes abriram Lágrimas de Diamantes, de Moska, outra favorita da plateia com excelente solo de Rodrigo numa Strato. Inseparáveis (S) teve o colorido dos timbres da viola de 10 cordas e do didgeridoo por Guilherme e uma citação de Metamorfose Ambulante, de Raul Seixas. A Seta e o Alvo , outra favorita de Moska, teve um arranjo pesado e mais um solo no capricho de Rodrigo, além do coro da plateia.


Guilherme Schwab

Suricato preencheu um escaninho vazio no Rock Brasil, o da folk music de bandas como Byrds, Tom Petty e Wallflowers com grande aceitação de público desde que se revelou na primeira edição do Superstar. A união com Moska foi uma ideia genial, ele também no mesmo estilo, um projeto que deve encher casas pelo Brasil como aconteceu no Circo. Quantas Vidas Você Tem (M) e Um Tanto (S) tiveram o belo colorido slide  do weissenborn (violão havaiano) pilotado por Guilherme, na segunda com uma citação de Give Me Love (Give Me Peace On Earth), de George Harrison.


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Raphael Romano, atrás Moska e Guilherme e Rodrigo (D)

Bobagens (S) teve levada bem roots com o baterista Pompeo Pelosi na tábua metálica de lavar roupa (washboard), o baixista Raphael Romano na escaleta, Moska na voz, Rodrigo no violão de seis e Guilherme soltando frases na guitarra Les Paul.


JR Moraes (percussão), Moska e Rodrigo

Rodrigo e Moska cantaram sozinhos, com violões, Sem Dizer Adeus com o reforço da plateia e citações de Every Little Thing She Does Is Magic, do Police e de Rapte-me Camaleoa, de Caetano Veloso. Eu Não Amo Todo Dia e Trem, duas bem conhecidas de Suricato, foram uma festa de palco e plateia com direito a citação de Brasil, de Cazuza, George Israel e Nilo Romero, este marcou presença no Circo.

Rodrigo e Moska trocaram gentilezas na hora  de Pra Tudo Acontecer, música de Rodrigo, letra de Moska, falaram de valores como amor, verdade e amizade para uma canção que fala de esperança, recomeço e de apreciar o doce da vida, deixando o amargo para trás.


Guilherme Schwab

Guilherme teve o seu momento quando tocou, ao mesmo tempo, o didgeridoo e o weinssenborn  (uau!) com Baião e Asa Branca em instrumental slide e, com a volta da banda, Quando a Maré Encher, da Nação Zumbi.



Talvez (S) encerrou os trabalhos a 1h22m, aquela manha de sempre do falso final. Na volta para o bis Tudo Novo De Novo e Nada Mudou (M), esta em levada blues emendada com While My Guitar Gently Weeps, de George Harrison nos Beatles, com direito a um solo de Rodrigo que Eric Clapton, autor do solo original, bateria palmas (acho). O grand finale teve Top Top (Mutantes) em ritmo de pulação generalizada. 



Raphael Romano (escaleta), Pompeo Pelosi (washboard), Guilher Schwab (guitarra)

Após mais alguns chamados de amor e paz, o Circo foi transportado para Woodstock com With A Little Help From My Friends, dos Beatles, no arranjo apresentado no festival pelo então iniciante Joe Cocker, um tributo a ele que nos deixou em dezembro de 2014.  Rodrigo até se saiu bem naquele grito rouco e louco do original. Repertório impecável, banda afiada, dois grandes intérpretes, uma grande noite, mais uma sob a lona mágica do Circo Voador.

SETLIST
1- Somente nela – Moska 
2- Bom começo - Suricato
3- Diante de qualquer nariz - Suricato
4- Lágrimas de diamantes – Moska 5- Inseparáveis – Suricato
6- A seta e o alvo – Moska
7- Quantas vidas Você Tem –  Moska
8- Um Tanto - Suricato
9- Pensando em você -  Moska Muito Pouco
10- Bobagens - Suricato
11- Sem dizer adeus – Moska Mobile 2006
12- Eu não amo todo dia - Suricato
13- Trem - Suricato
14- Último Dia - Moska
15- Pra tudo acontecer - Suricato
16- Móbile - Moska
17- Gui Solo/Quando a maré encher
18- Talvez – Suricato
BIS
19- Nada vai mudar isso/ While my guitar  gently weeps- Moska/Beatles
20 - Top Top - Mutantes
21 – With a little help from my friends - Beatles

sábado, 29 de outubro de 2016

Fernanda Abreu estreia Amor Geral com show impecável que sacode a plateia do Vivo Rio

Fotos de Cleber Junior

Fernanda Abreu descobriu o elixir da eterna juventude. Só pode. Cantar e bailar durante hora e meia como fez na deslumbrante estreia de Amor Geral na noite de sexta no Vivo Rio não é pra qualquer um aos 55 anos, a idade cronológica dela. A disposição que via nos shows da Blitz nos anos 80 está lá, não no mesmo pique, claro, mas numa performance impecável, a voz clara, sua emissão está bem melhor e o espetáculo tem um gosto de quero mais. A gente não sente o tempo passar. 



O problema para a maioria da plateia que lotou a casa foi ficar sentada nas mesas. A música emitida por uma banda impecável joga todo mundo no modo dançante, lá pelo meio já tinha gente levantando, nas laterais muitos que abandonaram seus lugares para soltar a franga.



Estreias geralmente são tensas, a primeira vez fora dos estúdios de ensaio dá nos nervos, pode ser impressão minha, senti este clima mas, se  teve algum furo só eles perceberam, a plateia se entregou de bandeja. O setlist teve dezenove músicas de todas as fases da carreira, desde um  medley do primeiro álbum solo, Sla Radical Dance Disco Club (março de 1990) até seis das 10 músicas do recente Amor Geral, que leva agora para a estrada.



O amplo palco do Vivo Rio foi totalmente aproveitado para efeitos em led com formas geométricas com predominância do vermelho e do branco, com moving lights intervindo com outras cores. Tem um efeito de 3D com a colocação de quadros de luz mais à frente do palco, autoria de Luiz Stein. 


Alegria, Victorya, Fernando, Fernanda

Os cinco músicos ficaram bem separados, com Fernando Vidal (guitarra) destacado no lado direito (visão da plateia), Vanderlei Silva (percussão) no fundo, no lado esquerdo Tuto Ferraz (bateria), André Carneiro (baixo) e Donatinho (teclados). A backing vocal e dançarina Alegria Mattos participa, junto com a bailarina Victorya Devin e Fernanda das coreografias, sempre um destaque nos shows porque Fernanda faz dança desde a adolescência.


Tuto Ferraz (bateria) e André Carneiro (baixo)

A dinâmica do show está tinindo, não tem nenhum momento de queda no ritmo. A jovem senhora protagonista mostra uma forma física perfeita, alta, esguia, de modelito preto, leva tudo com segurança e apuro. 



Fernanda abre com um texto sobre as intenções de Amor Geral, que ela diz sintonizar a antiga, mas sempre pertinente verdade sobre a força do amor no sentido gera, que parte desde o romântico ao universal, com respeito no convívio social e tolerância às liberdades individuais. 

O novo CD é pleno de hits em potencial, ela abre com um deles, Outrossim, de letra esperta, aliás um destaque no disco, de discurso inspirado: “Sempre haverá outro dia ensolarado e outra noite vadia. Sempre haverá outra chance, outra mão ao alcance querendo ajudar. Outra favela, novela. Outro barraco, buraco. Outra cachaça, manguaça em outro bar. Outro marido traído. Outra esposa ansiosa. Outra amante excitante querendo, dá.”


Victorya (E), Fernanda e Alegria

Como privilegia as coreografias, há sempre generoso espaço nas músicas para a dança e para a banda soltar o groove. Baixo, batera e percussão garantem o ritmo, enquanto Fernando Vidal faz pontuações roqueiras e Donatinho reforça com frases curtas de synth e efeitos. Nas canções ele faz vocal com um vocoder old school modulando no teclado, além de sair dançando e tocando com um teclado pendurado no pescoço (keytar), bem saidinho.


Donatinho

O público de qualquer artista vai ao show para ouvir sucessos, é o eterno dilema dos músicos, querem mostrar novidades e o povo pede as antigas. Fernanda escapou um pouco disso por conta do balanço, mas incendiou mesmo quando partiu para hits como o hino Rio 40 Graus (cada vez mais purgatório da beleza e do caos – já teve tiroteio hoje aqui no Lins), Garota Sangue Bom, Baile da Pesada e outras (ver setlist). Amor Geral, Outrossim, Tambor, Double Love, as novas, tem tudo para se incorporarem ao repertório permanente dela. 


Vanderlei Silva

O grande finale foi Baile Funk, em que faz um medley de canções antigas de carnaval e funks já clássicos como aquele do “Eu só quero é ser feliz...”. No palco dançarinos do grupo Cazu, de Victorya Devin, e do ritmo passinho. Fernanda cantou na lateral do palco e deixou o centro para as evoluções da turma. Apoteose total.



Fernanda mandou algumas mensagens.  Falou do segundo turno, mas apenas para pedir um voto consciente, enquanto gritos de “Freixo” vinham da plateia. Disse que tinha falado com a grande coreógrafa Debora Colker que lhe pediu para dizer que a cultura resiste, que os artistas tem coragem de fazer show, fazer música, fazer teatro, fazer dança. E ainda lamentou que em pleno século 21 ainda se chame negro de macaco e persista a cultura do estupro e que sua intenção é espalhar Amor Geral. Como cantou um antigo quarteto inglês All You (We) Need Is Love. Fernanda faz sua parte lindamente.




SETLIST
Amor Geral - texto
Outrossim – álbum Amor Geral – 2016
Eu Vou Torcer – Na Paz (2004)
Saber Chegar – Amor Geral
Você Pra Mim – Sla Radical Disco Dance  Club  -1990
Bidolibido – Na Paz -2004
Deliciosamente – Amor Geral
Veneno da Lata – Da Lata – 1995
Garota Sangue Bom – Da Lata
Medley – Sla Radical Dance Disco Club - Idem
Kátia Flávia, a Godiva do Irajá – Raio X – 1997
Baile da Pesada – Entidade Urbana -2000
Double Love – Amor Geral
Rio 40 Graus – Sla 2 Be Sampled – 1992
Tambor – Amor Geral
BIS
Jorge da Capadócia – Sla 2 Be Sample
Brasil País do Suingue – Da Lata
Baile Funk -  MTV Ao Vivo (2006)

Obs. A discografia de Fernanda foi toda reeditada.

FICHA TÉCNICA
BATERIA E PROGRAMAÇÃO ELETRÔNICA - TUTO FERRAZ
BAIXO - ANDRE CARNEIRO
GUITARRA - FERNANDO VIDAL
TECLADOS - DONATINHO
PERCUSSÃO  - VANDERLEI SILVA
VOCAIS - ALEGRIA MATTOS
BAILARINA - VICTORYA DÉVIN 
DIREÇÃO GERAL: FERNANDA ABREU
 ASSISTENTE DE DIREÇÃO: CRISTINA AMADEO
 DIREÇÃO MUSICAL: FERNANDA ABREU E BANDA
CENOGRAFIA E VIDEOCENOGRAFIA: LUIZ STEIN 
DESENHO DE LUZ: ARTHUR FARINON
FIGURINOS: ROGERIO S
COREOGRAFIA: FERNANDA ABREU E CRISTINA AMADEO
CENOTÉCNICA - MM CENOGRAFIA
DESENHOS TÉCNICOS - TELLO GEMMAL 
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO: MAITE QUARTUCCI E ALEXANDRE SANTOS
PRODUÇÃO EXECUTIVA: CLARISSA MARTINS E PATRICIA SILVA
ASSESSORIA DIGITAL: KATIA MARQUES
ENGENHARIA DE SOM: RONALDO LIMA ( PA )ALEXANDRE RABAÇO (MONITOR)
ILUMINADOR: CARLOS FIRMINO
DIRETOR DE PALCO: IRAN BERNARDES
 ROADIES: MICHEL HARLEI E JUNIOR
APOIO: Concha y Toro e Casillero del Diablo
REALIZAÇÃO ARTÍSTICA: GAROTA SANGUE BOM PRODUÇÕES, PUBLICAÇÃO PRODUÇÕES e MQT PRODUÇÕES CULTURAIS


sábado, 8 de outubro de 2016

Cachorro Grande brilha em noite com De Falla no Imperator

Edu K - Fotos de Cleber Junior

Um público escasso foi ao Imperator ver uma grande noite de rock com as bandas gaúchas Cachorro Grande e De Falla nanoite de sexta. Um tiroteio no Lins por volta de oito e meia da noite deflagrou uma boataria nas redes sociais de que o confronto era no Meier, que a bandidagem decretara toque de recolher e que os choques chegaram ao lado de fora do Imperator. Por volta de meia noite quando acabou estava tudo calmo no Meier, onde nada aconteceu, e tudo calmo no Lins também.


Beto Bruno 

O De Falla fez um show aquém de seu currículo de brilhante banda mutante do Rock Brasil. Nos últimos cinco anos se apresentava com a formação clássica: Edu K (voz), Bibba (bateria), Castor Daudt (guitarra) e Carlo Pianta (baixo). Ontem irrompeu no Imperator apenas com Castor Daudt e outro baterista, Vandinho Carvalho,  na enésima formação da banda, no que Edu K anunciou como um ensaio com público. 


Castor Daudt - De Falla

O setlist se dividiu em quatro blocos com muitos covers, algo estranho para uma banda com nove discos de estúdio desde 1987. Falta de ensaio, talvez. Fato que rolou de Raul Seixas a Faith No More e Red Hot Chili Peppers em levadas confusas, músicas emendadas em cada um dos três blocos que dividiram o show  até um final súbito sem agradecimento e com duas músicas a menos, You Win e Não Me Mande Flores. Definitivamente não empolgou.


Marcelo Grossi - Cachorro Grande


O Cachorro Grande teve uma atitude oposta. Mesmo com apenas umas 100 almas na plateia eles deram o sangue num show que misturaram canções de todas as fases da carreira. A banda anda numa viagem eletrônica nos últimos três discos, daí assistimos uma mistura da sonoridade clássica, inspirada nos anos 60 e 70, e a ronqueira eletrônica marcando presença dentro das canções. 

Rodolfo Krieger - Cachorro Grande

Não abrem mão de cânones clássicos como transformar algumas canções, como Vai T. Q. Dá, em jam sessions com espaço para todos solarem, o baixista Rodolfo Krieger puxou o riff algumas vezes, Marcelo Grossi se esbaldou em longos solos na guitarra, o baterista Gabriel Azambuja pontuava os diversos climas e o tecladista Pedro Pelotas numa das vezes usou o timbre do Vox Continental de Ray Manzarek (Doors), uma banda que também fazia longas jams instrumentais. O vocalista Beto Bruno faz sua parte e sai para deixar seus companheiros à vontade.


Vandinho Carvalho - De Falla

Beto Bruno também se ausenta para que outros tomem o vocal. É o caso de Rodolfo Krieger em Subir É Fácil, Difícil É Descer, que tem um tema pessoal, mas pode ser aplicada de certo ponto à carreira musical. Se bem que nem sempre é fácil subir, mas lá em cima não se tem mais pra onde ir, só pra baixo. O guitarrista Marcelo Grossi com sua voz rouca e frenética manda O Que Você Tem e Dia Perfeito, com muitos solos. 


Pedro Pelotas - Cachorro Grande

Não via show do Cachorro Grande há muito tempo, nem lembro o último,  os vi mil vezes melhores do que da última vez. Uma banda de entrosamento impecavel, todos mandando muito bem em seus instrumentos, com o uso inteligente da eletrônica, sem desfigurar a persona rock clássica da banda. Beto Bruno está seguro, seu timbre dá uns agudos meio exagerados, canta mais lá em cima que nos médios e graves, daí que certos versos soam embolados. 

Gabriel Azambuja

Depois do encerramento com Você Não Sabe O Que Perdeu, com introdução de Dear Prudence (Beatles), um cara na plateia chegou pra mim e falou como era possível que um show do caralho como aquele, com ingressos a 20 reais, estivesse vazio. E arrematou que tinha que botar sertanejo e funk mesmo. Triste realidade, é isso mesmo. A garotada do subúrbio perdeu a apresentação de uma grande banda.


A 11 foi  Bom Brasileiro. Antes de Dia Perfeito foi Deixa Fudê. Antes de Sinceramente O Que Você Tem e  Vai T. Q. Dá. Nop bis Você Não Sabe O Que Perdeu.

P.S. Uma historinha. Uma vez nos anos 80, Edu K foi ao Jornal do Brasil vestido de bebê: fralda branca, chupeta e touquinha branca. Foi um rebuliço para deixar ele subir e entregar o release e foto de um show seu. A segurança firmou pé que não podia subir, ligaram pra redação, recorreu-se ao comando da redação que deixou, mas ponderaram que a segurança não respondia à redação e, afinal, autorizaram. Ele causou um frisson na redação, falou comigo, cumprimentei na seriedade enquanto todo mundo ria. Ele veio escoltado por dois seguranças. Devem ter achado que ele tinha uma mamadeira bomba dentro da fralda. Cada uma.


Setlist De Falla. Não tocou as duas últimas








sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Posada e o Clã e Selvagens à Procura de Lei , a melhor dupla de bandas do ano no Rio Novo Rock

Posada e o Clã - Fotos de Cleber Junior

Tive uma boa surpresa na noite desta quinta na edição de outubro do Rio Novo Rock no Imperator, a banda Posada e o Clã,  aqui do Rio. Letras fortes com um intérprete de voz segura e pronúncia impecável e um trabalho musical cheio de sutilezas, muitas vezes bem suave ou quase a capella para deixar o recado das letras alto e claro. 


Selvagens à Procura de Lei

A segunda banda veio de Fortaleza, Selvagens à Procura de Lei, nome comprido demais, logo deve virar só Selvagens. É uma formação redonda, com um som de pop rock com apelo comercial, sem demérito, porque são músicas bem feitas, assimiláveis de uma banda com jogo de cintura em que todos fazem vocal. E já tem popularidade no Rio, o público cantou e se esbaldou com o som deles em várias canções que seriam hits radiofônicos se o mainstream não estivesse bloqueado.


Carlos Posada

Isso claramente não acontece com Posada e o Clã, com um perfil claramente alternativo e experimental. O vocalista Carlos Posada é um poeta urbano com letras bem construídas, um timbre que parece com o de Jorge du Peixe, da Nação Zumbi, mas com um timbre mais aberto e dicção perfeita. No som ouvi ecos de Nação Zumbi, que ficariam mais evidentes se a banda tivesse um percussionista porque várias levadas remetem ao Mangue Bit. E ao rock repente de Alceu Valença, ecos do sempre tropicalista Tom Zé e inté ecos da então vanguarda da Lira Paulistana. A plateia jovem recebeu bem, mas sem a entrega com os Selvagens, é mais um apelo à massa encefálica do que ao sacudir rítmico.

Gabriel Aragão - Selvagens à Procura de Lei

Muitas bandas não variam muito os timbres e o ritmo das levadas. Já Posada e o  Clã tem uma sonoridade original bem diversa do que tenho visto mensalmente no Rio Novo Rock. Muitas canções tem títulos de uma só palavra como se fossem verbetes. Doce, Tijolo, Terraço, Pulmão, Faxina, Lamento. Tijolo, por exemplo, começa a capella, depois intervenções esparsas dos instrumentos e, mais adiante, rápido peso a la Sabbath: “Mas tijolo tu já lê. Já entende. Até semente pende. Até sem dente morde. Até no amor a gente se agride,” manda Posada. Pá Virada vai pro oposto, pesada com citação de Rappa em Lado B Lado A: “De farda ou a paisana. De terno ou de havaiana eis o mal. Então eu canto,canto,canto. Mas não se enganam em cada verso há um contra-ataque. Então eu danço, danço, danço. Mas não se enganem em cada passo a um contra-ataque. (...) Eu fui criado na fronteira. Meu sangue é de arara. Pense numa disposição. Eu sou do clã da pá virada.”


Gabriel Ventura - guitarra - Posada e o Clã

Intervalo para reinarem o DJ Pantoja e as vídeo projeções do VJ Miguel Bandeira e chegam  os Selvagens À Procura de Lei. Clima diferente do Posada e os Clãs. Time to celebrate. Atacam  com músicas de seu disco lançado este ano, Praieiro em execuções curtas sem grande improvisos. Som muito bem amarrado com aquele entrosamento que a gente sente quando uma banda está pronta para decolar.  Começam com Brasileiro, uma crítica bem humorada de quem somos nestes dias atuais: “Porque eu sou brasileiro. Meu ano só começa quando passa fevereiro. Pobre, rico ou classe média. Levante a mão de quem já sentiu puxar a sua rédea. O Brasil é medroso. Você também é. Música não pra cabeça, mas feita pro pé. Já que é assim, então segura mais essa: 17 milhões vivem nessa miséria.” 



Gabriel Barbosa - Posada e o Clã

Outra na mesma linha veio quase no final, Bem Vindo ao Brasil: “O Brasil também tem high society. A gente é bom de bola, bom de cama, bom de porre. E quando assunto é orgulho nacional. A gente escreve até Brasil com Z só pra levantar o astral. Bem vindo ao Brasil! Welcome to Brazil! Aquela antiga mistura de censura e quadril.” E não faltou o “Fora Temer” da plateia. Ah, Posada pediu voto para Marcelo Freixo, com boa recepção do povo.


Rafael Martins - guitarra - Selvagens à Procura da Lei

Apresentaram a versão de Geração Coca Cola que fizeram para um tributo a Renato Russo, com as estrofes lentas e o refrão pesado. Dedicaram a Raul Seixas, Tom Zé e Arnaldo Baptista a canção O Amor É Um Rock 2, que tem citações na letra de canções deles. Foi o melhor encontro de bandas da série que vi este ano.


Hugo Noguchi - baixo - Posada e o Clã


Caio Evangelista -- baixo - Selvagens à Procura de Lei

Nicholas Magalhães - Selvagens  à Procura de Lei


sábado, 10 de setembro de 2016

Camisa de Vênus e Plebe Rude cospem fogo no Circo Voador

Marcelo Nova - Fotos de Cleber Junior

Camisa de Vênus e Plebe Rude fizeram nesta sexta uma daquelas noites famosas do ambiente único do Circo Voador. Plateia lotada que pulou, cantou e se bateu em rodas de pogo, tudo como nos anos 80.  Marcelo Nova, do Camisa, cantou apenas metade do show, o povo se encarregou do restante. Não acho certa esta atitude, o fã vai ao show cantar com a banda e não no lugar dela. Foi o que fez a Plebe Rude, afiada com Clemente animadíssimo aos saltos e Philippe Seabra mandando ver. Ah, e quase ao final do segundo show, o coro: "Fora Temer."



Philippe Seabra

Achei o Camisa frio, foi embalado pela energia da plateia. A banda perdeu a energia bruta do passado e se tornou uma banda virtuosa com dois guitarristas que esbanjam solos, o que provoca uma certa dicotomia com as letras e a postura de Marcelo, que remetem ao contexto musical do punk.  A introdução foi uma instrumental de seis minutos repleta de solos. Será o Camisa mesmo? 



Clemente

As duas bandas estão lançando discos. O Camisa Dançando da Lua, o primeiro em 20 anos. A Plebe Nação Daltônica, que é de 2015, mas Philippe me disse que só agora conseguiram uma data pro Rio de Janeiro. O Camisa tem dois originais, Marcelo e Robério Santana no baixo, a Plebe idem, Philippe e André X no baixo, a entrada, há 12 anos, de Clemente deu um gás na Plebe porque, além de mandar bem no palco, é um dos músicos mais importantes do rock brasileiro, líder dos Inocentes que estava na primeira banda punk do Brasil, a Restos de Nada, formada em 1978 em São Paulo.



Roberio Santana - Camisa de Venus

Antes da entrada do Camisa já se ouvia na plateia o bordão Bota Pra Fudê, que seria a música de abertura, com o comentário, mais adiante, de Marcelo de que, nos 36 anos de Camisa, não teve uma única vez em que saísse de casa sem ouvir isto e se vangloriou de que nenhuma banda do mundo, mesmo as maiores, tinha grito de guerra igual. Verdade e um grito que se espalhou para outras bandas, acabou virando canto de guerra do rock brasileiro.





Depois da abertura, ele metralhou vários hinos que a plateia cantou com ele e pra ele. Hoje, a impiedosa Bete Morreu e a primeira do novo disco, Raça Mansa, que chamou de o novo hino nacional: “Fui apresentado ao novo imbecil que, vejam só, já é celebridade. Então todos ergueram um brinde à nossa própria mediocridade. Seja bem vindo ao nosso paraíso, essa lama que encanta e seduz. Não esqueça sua oração e depois apague a luz. Nós dançamos a dança, nós cancelamos a luta, a nossa raça é mansa, a nossa massa é bruta.” Como se vê, Marcelo continua afiado nas letras. 



André X - Plebe Rude

Do novo álbum rolou ainda Dançando na Lua, Sibilando Como Cascavel, Manhã Manchada de Medo, intercaladas com conhecidas como Gotham City, estendida como sempre com citação de Born Under a Bad Sign, A Ferro e Fogo, Só o Fim. E a sarcástica Muita Estrela Pouca Constelação, parceria com Raul Seixas, deboche de todo mundo numa suposta festa com sobra para a imprensa: "E o jornalista ele quer bajulação. Pois new old é a nova sensação. A burrice é tanta, tá tudo tão a vista. E todo mundo posando de artista."


Drake Nova - Camisa de Venus

Antes da versão de My Way, ele disse que a música nunca tocou no rádio, não teve nenhuma crítica e se tornou um sucesso graças aos fãs. Depois de cantá-la com palavrões e tudo ele disse que Frank Sinatra estava se contorcendo no túmulo. Se for assim não só ele, porque My Way é uma versão feita por Paul Anka da canção francesa Comme d'Habitude, de Claude François e Jacques Reveux, que ninguém conhece. Na reta final  o rockão Simca Chambord com citações de Be Bop A Lula (Gene Vincent) e Whole Lotta Shakin' Goin' On (Jerry Lee Lewis). Delírio, pulação, mais duas, Silvia e Joana D’Arc e a Plebe se vai. 



Leandro Dalle

Entrou 23h34, saiu 1h16. Não sei se é por conhecer a banda desde o princípio que acho estranho o contraste das letras e da performance do Marcelo, junto com a sonoridade da banda, com duelos de solos e tudo, sem nenhum desmerecimento pros excelentes Roberio Santana (baixo), Drake Nova (guitarra), Leandro Dalle (guitarra), Célio Glouster (bateria). O povo e amarrou, eu também, com esta ressalva.



Célio Glouster - Camisa de Vênus

Troca de palco.... 1h53 Plebe Rude em cena (é tradição no Circo banda entrar duas da manhã). Uma introdução classuda com orquestra e Dom Clemente entra no vocal com Philippe em Brasília, do disco de estreia O Concreto Já Rachou, 30 anos neste 2016. Do alto de seu meio século, Clemente pula e corre pelo palco cheio de energia como se o tempo não passasse pra ele, muitas vezes agachado para ficar mais perto da turma do gargarejo e estendeu o microfone várias vezes para os fãs cantarem. 



Clemente e André X - Plebe Rude

Philippe insistiu na coerência da banda ao longo de sua história, ele falou muito nisso num papo que tivemos na quinta de tarde ali mesmo no Circo. É a palavra valor maior do trabalho da Plebe. Philippe é americano, podia fazer o que muitos brasileiros sonham, dar as costas ao Brasil, mas diz que adora seu país de adoção e colabora, com sua música, para o aperfeiçoamento político e social daqui. 



Clemente - Plebe Rude

Ele pediu desculpas pelo que chama de hipocrisia de artistas que só começaram a se politizar depois que viram povo na rua. Isso antes de tocar Censura, do segundo disco Nunca Fomos Tão Brasileiros (1987), que ainda chegou a pegar a Geração 80 do Rock Brasil. Do disco novo, Anos de Luta, título alusivo a Dias de Luta, do IRA! “É pedir demais, me diga, coerência da própria geração? Mas se você não vê a diferença. É daltônico como o resto da Nação. Os anos de luta, será que foram em vão? (entretenimento no final). O desperdício de toda a geração (entretenimento no final). Renato Russo em Parque de Exposição (entretenimento no final).”





Teve uma bela homenagem a Redson, líder do Cólera, um dos maiores expoentes do rock brasileiro, morto em 2011, com dois hinos dele, Medo, sobre um mundo em que se dá mão só pra empurrar e Pela Paz Em Todo Mundo, sobre o pacifismo que ele defendia, junto com uma preocupação pela ecologia. A banda cult de Brasília Escola de Escândalos foi homenageada com sua música mais conhecida, Luzes (tem no you tube) e outro ícone punk The Clash teve  seu Rock The Casbah em delirante união palco-plateia.





Ufa! Tou escrevendo muito. A Plebe preparou um setlist impecável. Fez um medley do já citado segundo disco com Nunca Fomos Tão Brasileiros – 48 – Consumo - Nova Era Techno. E um segundo medley com Proteção que teve Clemente cantando o hino Pátria Amada, dos Inocentes, citação de Selvagem?, dos Paralamas, e Censura novamente. Eles tocaram todas as faixas do aniversariante O Concreto Já Rachou, com Minha Renda anunciada em áudio pelo Chacrinha e a faixa de abertura encerrou a noite, às 3:16, Até Quando Esperar. Os cinquentões do Rock Brasil continuam a cuspir fogo.