quinta-feira, 10 de março de 2016

E se os Beatles não tivessem feito sucesso?




Sentado na varanda de sua casa na Menlove Avenue, Liverpool, John Lennon, 80 anos, pensa na vida. Casado há quase 60 anos com Cynthia, pai de quatro filhos já encaminhados na vida, se aposentara de uma editora em Londres, onde trabalhou por 30 anos depois do fim de sua banda,The Beatles. Publicou alguns livros que tiveram aceitação mediana, os críticos disseram que tinha pretensões de ser um novo James Joyce, mas não chegou lá.

Violão nas mãos, ele toca algumas músicas que compôs depois que a banda acabou, nunca gravadas. Gosta especialmente de duas, In My Life e Nowhere Man. Seu amigo e ex-colega de banda, Paul McCartney, também compôs muitas e às vezes tocam juntos para lembrar os velhos tempos.

Rejeitados por todas as gravadoras, os Beatles se cansaram de ficar tocando em lugares pequenos e nas espeluncas de Hamburgo e foram cuidar da vida. George Harrison conheceu a religião hinduísta, foi para a Índia e nunca mais souberam dele. Dizem que é monge num mosteiro. Ringo Starr seguiu sua paixão por música country. Mudou-se para Nashville onde vive como músico e acompanha grandes cantores em turnês. Chegou a gravar dois discos sem grande sucesso.

John se levanta da varanda. Vai tomar banho e sair para um pub onde encontrará Paul e alguns outros amigos da antiga para alguns pints de cerveja e um bom papo. Como sempre falarão sobre os velhos tempos e o que teria acontecido se alguma gravadora os contratasse. Paul sempre cobra de John sua relutância em voltar com a banda depois que várias formações inglesas fizeram sucesso, principalmente a maior delas, The Rolling Stones, que chegaram a conhecer em Londres quando todo mundo lutava por um lugar ao sol.

Paul até tentou a sorte em outra banda, The Moondogs, fez algumas temporadas em Hamburgo, onde conheciam os Beatles, mas acabou desanimando depois que nenhuma gravadora se interessou. Ele foi para a universidade, fez literatura, mestrado e se tornou um professor popular da Universidade de Liverpool.
John e Paul ficaram amargurados quando um dos produtores que rejeitaram os Beatles, George Martin, contratou os Stones. Martin chegou a pedir uma audição, onde gravaram Love Me Do, P.S. I Love You e mais algumas. Ele disse que ia pensar, mas acabou contratando mesmo os Stones, que conquistaram a Europa em 1963 e os Estados Unidos em 1964. Quando souberam que os Stones tinham sido vistos por 73 milhões de pessoas no show de Ed Sullivan, John e Paul sentiram um gosto amargo na boca: podia ter sido com eles.

Julian, filho mais velho de Lennon, tentou a carreira musical com relativo sucesso. Chegou ao nono lugar da parada inglesa com uma música do pai, Day Tripper, mas não foi muito além. John acha que a culpa foi da teimosia de Julian. Ele e Paul ofereceram várias músicas, mas Julian veio com um papo bobo de querer vencer com seu próprio talento e se deu mal. Acabou abrindo uma loja de instrumentos musicais em Londres, bem frequentada pela elite do rock inglês.

John nem tanto, mas Paul acompanhou a evolução do rock inglês. Morreu de rir quando surgiram os Sex Pistols com aquelas músicas sobre anarquia e as encarnações com sua majestade, a rainha Elizabeth II. Paul lembrou que há alguns anos tinha feito uma musiquinha que brincava com a rainha, dizendo que ela era uma boa menina, mas não tinha muito a dizer e que um dia transaria com ela. Paul nem lembrava mais da melodia e da letra irreverente. Ele achava que os Pistols tinham ido longe demais com aquela história de a rainha ser uma débil mental e uma bomba de hidrogênio em potencial.

Johnny Rotten, o garoto que cantava nos Pistols era uma figura, cabelos ruivos espetados, dentes mal cuidados, uma sensação para a imprensa musical, sempre afoita em descobrir novas revelações musicais. Os Beatles não tinham ido muito além da imprensa musical local, o Mersey Beat, mas Paul entendia que era uma questão de sobrevivência para a imprensa especializada essa sede insaciável de encontrar a melhor banda de todos os tempos da última semana.

E o menino Rotten usava uma camiseta que dizia Odeio o Pink Floyd. Paul e John riram dessa provocação com esta banda que apreciavam. John, sempre sarcástico, achou sensacional que metessem a mão na cara do decadente império com aquelas letras ferinas. E entendeu quando eles acabaram por não conseguir lidar com o sucesso inesperado. Surgiram para contestar o establishment musical e este acabou tentando assimilá-los. O Clash, criado sob a mesma premissa, resistiu mais tempo, mas acabou imolando-se nessas contradições.

Os dois entenderam a revolta da Geração Punk, essa de voltar à simplicidade depois que as bandas surgidas nos anos 60 se tornaram grandiosas demais e comerciais demais. John lembrou que sua banda inicial, The Quarrymen, seguia o mesmo princípio que os punks reivindicavam como de sua autoria: do it yourself. John tocava um violão velho com um captador (cristal, se dizia na época) acoplado para amplificar o som, o baixo era uma caixa de chá com um pedaço de madeira como braço e a percussão era uma tábua de lavar roupa. Tocavam skiffle, uma mistureba de jazz, folk e blues, moda na Inglaterra dos anos 60. Foi a esta banda que se agregaram Paul e George. Depois passaram para o rock.

Paul gostou particularmente da música eletrônica que surgiu nos anos 90. Já nos 60 ele apreciava a música eletrônica de clássicos como John Cage e Karlheinz Stockhausen. Nos anos 70 voltou suas atenções para bandas alemãs como a Kraftwerk. John compartilhava esse interesse e os dois chegaram a montar uma peça com auxílio de gravadores caseiros que batizaram de Revolution Nine, mas precária, sem recursos que teriam num estúdio profissional.

John aprecia artes plásticas. Quando morava em Londres, gostava de ir a exposições de grandes mestres como Salvador Dali, por quem tinha especial predileção. Tinha flertado com a arte experimental nos anos 60. Ouvira falar num grupo chamado Fluxus e, um dia, em 1968, foi na Galeria Indica onde uma artista japonesa do Fluxus estava expondo, o nome dela era Yoko Ono. Mesmo acostumado com ousadias que ele mesmo praticava em seus textos, John achou a exposição sem pé nem cabeça, coisas tolas como subir numa escada para ver a palavra Yes colada no teto. Ele desistiu no meio, foi embora e nunca mais quis saber de nada ligado ao Fluxus.

O rock inglês se tornou uma instituição aceita em todo o mundo, desde as bandas antigas até as atuais. Os dois achavam que esses Arctic Monkeys e Kaiser Chiefs da vida reciclavam o som dos anos 60, mas gostavam de várias músicas deles. Sempre acharam que o que vale é ter boas músicas, fosse que gênero fosse.

Quando chegou no pub, John teve uma surpresa. Um amigo lhe disse que George Harrison ia visitar a Inglaterra para algumas palestras que incluíam músicas devocionais gravadas na Índia. E souberam ainda que ele viria à sua cidade natal, Liverpool. Ficaram na dúvida se deviam ir ou não, achavam que George podia ter se tornado um desses pregadores pentelhos que alegam ter exclusividade no acesso ao paraíso e ficavam insistindo para todo mundo segui-los sob pena de fritar para sempre nas churrasqueiras de Satã. Paul lembrou que o inferno era coisa da religião católica e derivadas, não sabia se o hinduísmo batia na mesma tecla.

Anyway, era o velho companheiro de adolescência de Paul, talentoso na guitarra a ponto de John aceitá-lo na banda mesmo sendo um pirralho três anos mais novo que ele. Resolveram ir. Era no auditório de uma Indian Society de Liverpool que eles nem sabiam da existência. Quando chegaram receberam o impacto do cheiro de flores e de incenso. Muita gente se vestia à maneira indiana, havia gente de todas as idades, incluindo grupos de jovens de roupas coloridas que viviam pelas ruas cantando hare krishna.

Decidiram falar com George só depois da apresentação para não distraí-lo dos preparativos. Uma música indiana tocou durante uma meia hora, com os dois trocando olhares que diziam “que saco!” As luzes se apagaram, ele entrou e sentou-se em almofadas no centro do palco. Estava magro, longos cabelos platinados e longa barba idem, um olhar tranquilo. Olhou para a plateia calado durante alguns minutos:

– Hare Krishna. Sejam bem vindos, agradeço a presença, mas estar aqui não é a coisa mais importante. Não existe passado nem futuro, o tempo é uma ilusão, devemos aprender do passado e nos concentrar no presente para se construir o futuro. Todas as religiões são galhos de uma grande árvore, não importa como você O chama, desde que faça o chamado. As imagens do cinema parecem reais, mas são apenas ilusões. As esferas planetárias, com suas incontáveis formas de vida, são apenas figuras de um filme cósmico. Os valores de cada um mudam profundamente quando se entende que a criação é apenas um grande filme e que a verdadeira realidade não está ali, mas além dali. Só assim chegamos ao Nirvana.

John cutuca Paul: “Nirvana não é a banda daquele menino que se matou? Será que ele era hinduísta? Se for, será que achou que um tiro na cabeça seria um atalho para a iluminação?” Paul só fez um gesto pedindo silêncio. Em seguida, entraram alguns músicos com instrumentos típicos. Fizeram uma introdução e George começou a cantar uma canção que falava em fazer tudo sem fazer, ver tudo sem olhar, que se a gente enxergar além de você mesmo encontrará a paz de espírito. Ele a anunciou como Within You Without You.

Depois de mais algumas canções no mesmo tom, ele encerrou a apresentação. John e Paul foram ao camarim, ele estava cercado, mas quando os viu, um brilho de reconhecimento em seus olhos, um sorriso e foi até eles para um abraço. “Hare Krishna”, saudou-os, trocaram algumas palavras, mas George estava muito solicitado e pediu para encontrá-los depois. Ele ficaria alguns dias para rever a família. De repente um “hi boys” atrás deles por uma voz familiar fez com que se virassem com ar de surpresa: “Ringo!!!”.

Aí foram momentos de grande emoção. A banda reunida depois de séculos de separação. Ringo estava na turnê de uma sensação nova no country, Taylor Swift, e resolveu passar na cidade natal no intervalo de dois shows. Marcaram um encontro para o dia seguinte no pub que John e Paul frequentavam.

John chegou em casa cheio de alegria e vibração com o reencontro. Contou a nova para Cynthia, conversaram um pouco e ele foi dormir. Queria estar bem disposto para as emoções do dia seguinte. Quando amanheceu, Cynthia se levantou fez o desjejum e foi ler o jornal. Como John não aparecia, foi até o quarto chamá-lo. John não respondeu, Cynthia tocou nele, estava frio. Deu um grito de dor. John estava morto. As emoções do dia anterior foram demais para seu coração.

O que seria um dia de reencontro, foi um dia de dor. Paul, George e Ringo assistiram ao funeral. A última reunião dos Beatles se transformou num réquiem pra seu fundador. No enterro, George entoou um cântico:

Sunrise doesn’t last all morning
A cloudburst doesn’t last all day
Seems my love is up and has left you with no warning
It’s not always going to be this grey

All things must pass
None of life’s strings can last
So, I must be on my way
And face another day

2 comentários:

  1. Excelente texto. Mas ainda bem que fizeram este sucesso todo para deleite de seus milhões de fãs. Abraços.

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  2. Muito triste o final. Não é justo nem na ficção ficam juntos.
    Achei a fan fica muito boa. Mas o George Martin dificilmente aceitaria os Stones, seria mais fácil aceitar The Hollies, gente que tinha harmonia vocal como trunfo, assim como os Beatles. Gosto de Stones mas... Acho que por outro lado, eles não iriam ter ideia para compor coisas assim sem o dedo de Martin. Gostei do John continuar com a Cynthia kkk.

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