sábado, 23 de abril de 2016

Kid Abelha oficializa o que já se sabia: é o fim

Bruno, Paula e George

O Kid Abelha tornou oficial o que se sabia. A banda acabou. Paula já tinha dito isso numa entrevista ano passado, agora é uma Nota de Agradecimento da banda. Vários fãs já me contataram na esperança de que a banda estivesse num hiato e poderia voltar de vez em quando, como acontece com o Barão Vermelho, que não sacramentou seu final. 


Leoni, Paula, Bruno, George

George Israel tem uma banda própria e se apresenta regularmente. Bruno Fortunato é o todo misterioso do grupo, nada fala, quando houve a volta dos 30 anos lhe perguntei porque tinha ficado recluso, sem tocar em público solo ou com outra formação, ele só me disse laconicamente que preferiu cuidar de sua vida particular. Eu ouvi boatos de que ele teve uma briga fuderosa com a Paula, mas sem confirmação. 




Como sempre acontece quando uma banda acaba, os holofotes se concentram sobre o, no caso a, vocalista. Ela fica como herdeira do legado do Kid para o grande público, já que os outros aparecem, se aparecem, bem menos. Nada há de errado nisso porque ela é intérprete e compositora do repertório do Kid, mas meu espírito de roqueiro sempre se incomoda com isso, de toda a exposição ir para quem canta. 


 
No caso do Barão Vermelho a mesma coisa. Frejat, por ser o vocalista, se beneficia de uma posição que conquistou pelo trabalho à frente do Barão, os demais não. Mesmo Rodrigo Santos, que desenvolveu uma sólida carreira solo, está à frente de um trio com dois dos melhores músicos de rock do Brasil, Fernando Magalhães e Kadu Menezes, não consegue o mesmo nível de exposição.

Acompanhei o Kid desde o começo. Vi os primeiros shows deles no Circo Voador em 1983, ainda crus e com repertório para apenas uns 45 minutos de show. Paula, George, Bruno, Leoni, Beni Borja eram a faceta pop de uma geração com rock de várias vertentes. Impliquei com eles por um bom tempo, tivemos um educado arranca rabo uma vez numa entrevista, creio que no Morro da Urca, depois ficamos de boa. O primeiro álbum, Seu Espião (1984) ,era imaturo, mas fez um enorme sucesso por conta do momento de uma nova geração de fãs se identificando com uma nova música feita por seus pares.


Ensaio da turnê Glitter de Principiante - 11 de maio de 2011 - Foto de Licias Santos

O segundo álbum, Educação Sentimental (1985), foi uma grande surpresa. Eles deram um salto de qualidade com um instrumental mais maduro, até uma certa sujeira rock nos arranjos, mas no começo de 1986 sofreram a baixa de Leoni, o que cortou a linha evolutiva da banda, algo parecido ao que aconteceu com o Barão Vermelho na saída de Cazuza. A recuperação levou um  certo tempo, Paula engrenou parceria com George, antes era com Leoni, e a partir do álbum Kid (1989), retomaram o sucesso, já com a voz de Paula bem melhor que no começo. 

Daí seguiram nos altos e baixos normais de uma banda de carreira extensa até o último álbum, Pega Vida (2005). Em 2011 fizeram a turnê Glitter de Principiante, em 2012 o DVD Multishow ao Vivo: Kid Abelha 30 anos, um sucesso estrondoso e em 2013, recesso. Ficou o tal suspense, até que Paula disse à revista Quem há um ano, em abril de 2015, que não sentia mais o espírito da banda e já era. O ato final só aconteceu agora com a nota  abaixo. Quem sabe, um dia, voltem para uma comemoração ou uma turnê para fazer caixa. Acontce muito no rock. Nunca se sabe. Paula já gravou três álbuns solo, Paula Toller (1998), Só Nós (2007), Transbordada (2014) e o CD/DVD ao vivo Nosso (2008) na linha de um pop adulto, sem o mesmo sucesso do Kid Abelha.






A íntegra do comunicado divulgado neste sábado, 23 de abril.
Nota de Agradecimento
Querido fã:
Temos sido chamados para entrevistas sobre nossos projetos atuais, e claro, sempre há alguma pergunta sobre o Kid Abelha, nossa banda durante mais de 30 anos e que nos trouxe grandes alegrias na vida. Com gentileza, procuramos sempre contar a verdade, mas, surpreendidos por algumas publicações equivocadas, estamos fazendo este esclarecimento.

A vontade de experimentar outras formas de criar e o desgaste natural de tanto tempo juntos nos levaram a essa decisão. Optamos por um soft-ending, um final suave, evitando o sensacionalismo, com a convicção de que nossa trajetória vitoriosa sempre se deveu ao entusiasmo e dedicação sempre renovados a cada disco, cada turnê.

Foram três décadas de sucesso, aventuras, amizade, e também de momentos difíceis, altos e baixos dessa carreira desafiadora que escolhemos. Pela nossa filosofia e pelo amor à música, nunca tivemos o dinheiro como norte, e sim como consequência (ou não) de um trabalho original e bem realizado, que se tornou paradigma de pop-rock brasileiro.

Mas faltou o mais importante: Agradecer em negrito, com letras garrafais, a você!

Ao fã que nos acompanha há tanto tempo, viajando para nos assistir ao vivo, escrevendo cartas, mandando mensagens e comentando nas redes sociais, elogiando, criticando, se preocupando...a esse amigo, que convida seus amigos a nos ouvir, e cuja vida está marcada através das canções que nós fizemos, e cujo carinho e atenção também marcaram nossas vidas, MUITO OBRIGADO!

Saiba que, do fundo do coração, não nos esqueceremos nem dos aplausos, dos gritos e da voz em coro nos grandes eventos, nem de cada voz isolada num quarto, entoando uma melodia também criada num quarto, na solidão, na vontade de vencer o tédio e a tristeza através de uma canção bonita.

Com amor;
Paula, George e Bruno.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Sua Alteza Púrpura, Prince, gênio musical dono de uma sexualidade ambivalente, parte aos 57 anos

Foto de fã do último show no Fox Theatre em Atlanta

Chocado com a morte de Sua Alteza Púrpura, Prince, uma das mentes mais criativas reveladas na década de 70. Em 38 anos de carreira discográfica lançou 39 álbuns, 10 a mais do que bandas como os Rolling Stones, que lançaram 29 em 54 anos.  Se tem igual relevância é um item a se discutir. Vi comentários no Face desmerecendo Prince, pessoas nitidamente equivocadas e mal informadas sobre a estatura artística deste gênio de um metro e 58 de altura que nos deixa aos 57 anos, de causa ainda não revelada. Sabia-se que tinha uma gripe há semanas e chegou a ser atendido de emergência após o pouso forçado de seu avião em Malice, Illinois, há uma semana.


Carro de polícia na entrada da mansão de Prince na manhã desta quinta

Quando ouvi Prince identifiquei uma mistura de todas as vertentes da música negra processadas de maneira inteligente e pessoal. O rock ele trazia numa execução primorosa da guitarra, compararam-no a Jimi Hendrix. Bobagem, Hendrix é único, Prince bebeu nas mesmas raízes de Jimi, os grandes mestres do blues, mas seu estilo ia além disso. As vertentes dançantes da black music, soul e funk, e rhythm’n’blues eram bem fortes em sua obra, bem como a vertente sexual aliada a estes ritmos e ao rock. Sua elegante e provocadora persona de uma sexualidade ambivalente incomodava muita gente. 


O palco do Fox Theatre, local do último show

Prince manteve uma produção fértil na carreira. Vendeu mais de 100 milhões de cópias e ganhou sete Grammy. De 1978 a 2008, deixou de lançar álbuns em apenas cinco anos, mesmo assim na maioria dos casos por ter lançado dois álbuns no ano anterior. Em 1994 lançou três discos, em plena guerra contra a gravadora Warner, que desejava limitar sua produção fonográfica, o que o levou também a trocar seu nome por um símbolo que, para ele, combinava o símbolo masculino com o feminino. Daí passou a ser chamado de O Artista e O Artista Antes Conhecido Como Prince. 





Mesmo gripado, Prince se apresentou no último dia 14 num concerto da turnê Piano and Microphone no Teatro Fox em Atlanta. Um fã não identificado comentou no site da Ticketmaster: “A performance foi mágica. Só piano e microfone e, mesmo assim, senti a música nos ossos. A voz é a mesma de 30 anos atrás, alcança as notas sem esforço.”  Esta apresentação tinha sido remarcada por conta da gripe, mas, nesta noite, ele estava bem com a voz clara e firme.





Quando saiu de volta para seu estado, Minnesota, passou mal e o avião particular fez um pouso de emergência em Moline, Illinois, foi levado para um hospital onde foi atendido durante três horas e liberado. Ficou em casa e não há notícias de que tenha voltado a algum hospital, houve boatos de que não estava bem. Na manhã desta quinta-feira foi encontrado desmaiado no elevador de sua mansão em Paisley Park, Minnesota. Paramédicos tentaram salvá-lo sem sucesso. A hora da morte foi registrada como 10h10.

Seus últimos discos foram Hit and Run Phase One, lançado em sete de setembro de 2015, e Hit and Run Phase 2, de 12 de dezembro do ano passado. Valeu Prince.




P.S. Para biografia veja sites na web.




sábado, 16 de abril de 2016

Fernanda Abreu volta renovada com single que cria ótima expectativa em relação ao álbum Amor Geral


Veja com a tela cheia (letra no final)

Fernanda Abreu volta em grande estilo após 10 anos com o single Outro Sim, prévia do álbum Amor Geral, com lançamento previsto para o próximo seis de maio, um mês excelente de boas vibrações, com seu nome derivado da deusa grega da fertilidade, Maya. E é isso que o single aponta, um momento de fertilidade criativa da Fernanda, musa do Rock Brasil dos anos 80, vocalista da banda que abriu os caminhos para a sua geração, a Blitz.

Outro Sim é uma parceria dela com Jovi Joviniano II e Gabriel Moura. Letra de espertos flagrantes, mil situações na linguagem do cotidiano, recortes da cultura do asfalto e das comunidades. A canção pega de prima, o cérebro manda o corpo balançar, mas também tem material para processar. A letra fala de recomeço, o que Fernanda está fazendo: “Outrora, outra vez, outro lar. Outro lugar, outra mulher, outro homem. O trem vai pra uma outra estação. Um outro inverno e lá vem outro verão.” 

Não sei se numa antecipação de eventuais críticas, ela manda: “Sempre haverá outra esquina. Outra beleza, outro cara, outra mina. Sempre haverá um mané, sem noção, um otário. Querendo atrasar.” Lembro que na época da Blitz ela batia duro nos que criticavam a banda. Outros tempos.

A parte musical é toda eletrônica, entre o reggaeton e o trip hop,  e me bateu a dúvida se esta seria a tônica do disco, já que é o single de apresentação, daí perguntei isso a ela. “O disco tem muitos músicos! Tem uma Valsa do Desejo com cordas e tudo mais, tem uma com pegada mais Rock-Funk Double Love tem ....” e mais não adiantou.





Sobre o single ela me disse: “Essa música foi arranjada por mim e Wladimir Gasper (nome artístico de Pedro Bernardes, ex marido de Marisa Monte e mega talentoso). Ele produziu e tocou tudo. Programação na veia! Subgrave, teclados, vocoders e programação feitos e tocados por ele.”

A base é impecável, montada em diversas camadas com efeitos em pan, percussão eletrônica com diversos beats, a voz dela dobrada com vocoder e com delay, frases de synth também ao fundo e programações voando pelos canais.

Fernanda sempre teve um bom gosto impecável. Daí o visual do disco entregue a Giovanni Bianco, (Anitta e Madonna) e um clipe focado na dança, sua arte primeira antes do canto, dirigido por Mini Kerti (longas Muitos Homens Num Só, Contratempo, A Ostra e o Vento). A produção é da própria Fernanda pelo selo Sangue Bom com distribuição da Sony Music.

Fernanda foi dos artistas de sua geração, o (a) que melhor soube se reinventar. Quando a Blitz acabou, ficou aquela impressão de que só o vocalista ia se dar bem, porque é sempre sobre ele que recaem as atenções, mas foi ela quem achou a saída mais esperta, aproximando-se da cultura dos morros cariocas, de onde tirou um estilo próprio dançante com um repertório bem estruturado por parcerias certeiras e a ajuda fundamental, para se lançar, do mestre Herbert Vianna. Depois se deu bem com as próprias pernas. Subiu, desceu, sumiu e reaparece com um single que cria ótimas expectativas em relação a Amor Geral.

Ficha Técnica do clipe:
Diretora: Mini Kerti
Diretor de Fotografia: Flavio Zangrandi
Coreógrafa: Daniella Lima
Figurinista: Claudia Kopke
Maquiador: Fernando Torquatto
Produtora: Bruna Inácio
Edição: Carol Donati, Edt.
Supervisor de Efeitos: ClaudioPeralta
Direção de arte gráfica: Valerycka Rizzo

Bailarinos: Raul Baldi, Camila Oliveira, Shirlene Paixão, Cristina Amadeo, Hamilton Da Fonseca, Josh, Marcello Taurino, Vanessa Garcia e Danilo D' Alma.

Conspiração
Diretora Executiva: Renata Brandão
Coordenadora Executiva de Projetos: Maíra Donoso
Gerente de Projetos: Vanessa Aragão
Estagiária: Laura Sampaio
Coordenador de Pós-Produção: Luiza Waddington
Finalização: Fernanda Figueira e Gabriella Leme
Marcação de cor: Claudio Peralta e ThiagoPires
Motion Design: Lilian Doring e Valeryka Rizzo
Composição: André Martinez, Fernando Leka e Rafael Crispim

Outro Sim 
Outrora, outra vez, outro lar
Outro lugar, outra mulher, outro homem
O trem vai pra uma outra estação
Um outro inverno e lá vem outro verão

Ao outro tanto a ti quanto a mim
Um outro bem, um outro amor, outrossim
Não é fácil aceitar alguém
E ser aceito pelo outro também

Sempre haverá outra esquina
Outra beleza, outro cara, outra mina
Sempre haverá um mané, sem noção, um otário 
Querendo atrasar

Sempre haverá outro dia
Ensolarado e outra noite vadia
Sempre haverá outra chance
Outra mão ao alcance querendo ajudar

Outra favela, novela
Outro barraco, buraco
Outra cachaça, manguaça em outro bar
Outro marido traído
Outra esposa ansiosa
Outra amante excitante querendo dar 

Outra cabeça, sentença
Outro recanto, encanto
Outra viagem, vertigem em outro mar
Outro sentido ou saída
Outra maneira ou medida
De dar a volta por cima, querendo dar

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Rock Nivea Brasil agita Ipanema, mas precisa de ajustes

Rodrigo Suricato (atrás), Paula Toller, Nando Reis e Marjorie Estiano - fotos de Cleber Junior

O Nivea Rock Brasil agitou a tarde de domingo em Ipanema com um elenco estelar que rememorou 60 anos de rock brasileiro desde a pioneira Cely Campello até os dias de hoje com o Suricato. O povo, estimado em 145 mil pessoas, lotou a areia, dançou, agitou, cantou, gritou, esperneou, tudo a que tinha direito durante duas horas e meia e 38 músicas.

Para a massa foi tudo ótimo, para um olhar mais apurado nem tanto. A verdade é que o show foi para a estrada antes de ficar pronto. É tudo fera ali em cima, a maioria com mais de 30 anos de carreira nas costas, mas nem por isso podem prescindir de muito ensaio para se entrosar. O que me deixou mais perplexo foi errarem tanto as letras com um teleprompter no palco, será que o tamanho era reduzido?


Dado Villa-Lobos e Herbert Vianna

Os vocalistas principais Nando Reis, Paula Toller e a convidada Marjorie Estiano, no lugar de Pitty, erraram várias entradas, idem Rodrigo Suricato, Dado Villa Lobos e até o master Herbert Vianna. Um projeto tão grande com alto investimento da Nivea merecia um tempo de ensaio maior. Este show vai ficar nos trinques lá pela quinta apresentação, aí acaba. Anyway o Nivea Rock Brasil foi uma excelente ideia para homenagear o rock brasileiro num momento em que ele está totalmente ausente do mainstream e não é por falta de talentos, os antigos estão atuantes pelo Brasil inteiro e uma nova geração de excelentes formações está aí na internet e nos palcos da vida à espera de uma brecha para entrar com força total. Brecha que a Nívea não deu.

Liminha, produtor, baiixo e guitarra

Pitty, grávida e ausente por ordem médica, foi uma grande baixa, sua voz potente e atitude rock fez falta, porque na linha de frente não tinha ninguém exatamente do rock, Paula Toller é do pop e sua emissão é muito pequena. Marjorie Estiano não é do ramo. No lado masculino faltou uma voz mais roquenrol de um Frejat ou um Paulo Miklos junto com Nando Reis. Se a preparação fosse a contento, este show ficaria na História. Claro que não por causa do produtor Liminha, um dos mais importantes músicos e produtores nacionais, que veio dos Mutantes e ajudou a formatar a Geração 80 do Rock Brasil, em peso no palco com ele no baixo, Maurício Barros nos teclados, João Mega Barone na bateria, Rodrigo Suricato e Dado Villa Lobos nas guitarras e Milton Guedes nos sopros e gaita. No todo Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Titãs, Kid Abelha, Suricato e Legião Urbana.


Paula Toller

O começo foi bem original, um medley de pré e Jovem Guarda com um arranjo que misturava Seven Nation Army da dupla White Stripes com Celly Campelo, a dupla de platina Erasmo e Roberto Carlos mais Eduardo Araújo e o rei da pilantragem Carlos Imperial. Logo em seguida Marjorie fez o possível para se sair bem em Panis et Circenses, um dos manifestos da Tropicália. Música de Caetano Veloso e Gilberto Gil, arranjo no original de Rogério Duprat e gravação dos Mutantes. Peso demais para Marjorie segurar. Flopou. Da mesma banda, Ando Meio Desligado, com o trio Nando, Paula e Marjorie num vocal uníssono, sem floreios.

A seguir duas de Rita Lee solo do disco Fruto Proibido, de 1975. Agora Só Falta Você teve na introdução o riff de Under My Thumb, dos Rolling Stones. A segunda foi Ovelha Negra, com Paula Toller e Rodrigo Suricato fazendo slide num violão havaiano Weissenborn na abertura e, mais adiante ele pegou a guitarra e, junto com Dado, repetiu de maneira respeitosa o antológico solo feito pelo mestre Luiz Carlini no original. Um grande momento.


Rodrigo Suricato, Dado Villa-Lobos, Paula Toller e João Barone

Aí foi a vez de Nando Reis flopar em Gita de Raul Seixas e Paulo Coelho. Esta canção é um hino sofisticado de viés místico que pertence exclusivamente ao seu intérprete original. Tem muito sucesso de Raulzito pra apresentar, esta não please. Uma vez o produtor do disco original Marco Mazzola me mostrou esta canção em 5.1 e chorei tanto que quase me afogo em lágrimas (‘tou relendo Nelson Rodrigues, daí a dramaticidade).


Liminha e Herbert Vianna

Logo em seguida melhorou. Entraram Bi Ribeiro e Herbert Viana para cantar duas dos Titãs com Nando, alusão à parceria das duas bandas que gravaram um DVD juntas. Sonífera Ilha, primeiro hit dos Titãs, e Marvin, versão de Patches feita por Nando e Sérgio Britto, animaram bastante a massa. Despues, dois hits dos Paralamas, Óculos e Meu Erro, ambas do álbum O Passo do Lui (1984).

Tudo isso rolando, eu imóvel de olho no palco com muitos filmes passando na cabeça. Cobri a geração 80 do Rock Brasil para o Jornal do Brasil e vi tudo aquilo nascendo, voei pro Circo Voador nas noites memoráveis do Rock Voador, onde rolava efervescência e euforia de ver uma nova geração se revelando num momento em que o Brasil emergia da ditadura. À minha volta uma zona, gente falando, dançando, bebendo, soltaram um monte de bolas na plateia, mais duras que as de encher e comecei a levar boladas de todo jeito, fiquei com ódio por tirar a minha concentração, cortar o meu barato.


Rodrigo, Bi Ribeiro, Herbert, Liminha e Dado

Dado Villa Lobos se juntou aos Paralamas  para duas de sua banda, Urbana Legio Omnia Vincit. Ele disse que estava ali por causa de Herbert, Bi e Barone, ou poderia estar em algum lugar bem longe. Dado se referia ao apadrinhamento da Legião pelos Paralamas, que levaram a banda para a gravadora EMI, tiveram um especial juntas na Globo, lançado em DVD, mas se afastaram quando a Legião começou a se agigantar. Levaram Tempo Perdido, Será e Herbert apresentou a Legião como a maior banda que o Brasil já produziu. Ao que Dado, acanhado com a generosidade, retrucou: “Mais ou menos.”  Ouviu-se o coro de “Legião, Legião.”

‘Tá ficado grande o texto né? Se encher o saco, para de ler.

A última com Herbert e Bi foi Até Quando Esperar, da Plebe Rude, que era para Pitty, mas ficou mesmo com Herbert, que esgarçou a voz, o tom ficou alto, mas saiu e saíram também Bi e Herbert. Neste set com os Paralamas, o som ficou com bastante peso, a cargo de quatro guitarras no palco. Liminha, Herbert, Dado Villa Lobos e Rodrigo Suricato. Foi um momento alto da tarde/noite. 
Paula Toller voltou para cantar duas do Kid Abelha. Ela acabou com a banda e, como vocalista, fica como herdeira do acervo do trio. Delirantemente aplaudida por Como Eu Quero e menos por Nada Sei. A Blitz, que abriu a porteira para que as demais bandas entrassem no mercado, foi representada por apenas uma canção com uma interpretação marromeno de Nando Reis: A Dois Passos do Paraíso. Ele também levou Ciúme, do Ultraje A Rigor.


Nando Reis

Seguiu-se uma saraivada de canções com interpretações medianas: Olhar 43 (Rodrigo Suricato), Fullgás e Me Adora (Marjorie Estiano). A bem da verdade, a falta de tempo de ensaio também implica em os vocalistas não terem tempo de burilar as canções que lhes cabem no setlist. Nando emocionou com O Segundo Sol, canção que fez para Cássia Eller, com participação de Milton Guedes na flauta.

Paula e Nando se esforçaram para transmitir o punch de Vou Deixar, do Skank, Dado mandou bem Anna Julia, de Los Hermanos. Primeiros Erros foi outro momento delirante, uma inspirada balada de Kiko Zambianchi apoderada pelo Capital Inicial. Rodrigo emendou só na voz Talvez, de sua banda Suricato. Dado e Marjorie deram uma animada com Praieira, da Nação Zumbi de Chico Science.  Nando Reis atacou de Proibida Pra Mim, em homenagem ao Charlie Brown Junior. Finalmente duas a cargo de Rodrigo: Mulher de Fases foi bem e Monte Castelo um tropeço gigante, interpretação errante com a banda em outro tempo, é outra canção que é melhor deixar quieta.

Herbert e Marjorie

Fim de festa com todos no palco em O Último Romântico, Pro Dia Nascer Feliz e Do Seu Lado – Lulu Santos, Barão Vermelho e Nando Reis. No bis Roberto Carlos de É Preciso Saber Viver e o bis de Agora Só Falta Você. Começou 17h10 e fechou 19h40. Depois de um certo tumulto, caminho da roça, na passagem pelo Maracanã ecos de Coldplay em pleno concerto. Caguei.


Setlist
Medley 
1. Banho de lua (Tintarella Di Luna) (Franco Migliacci e Bruno de Filippi, 1959, em versão em português de Fred Jorge, 1960)
2. É proibido fumar (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1964) 
3. Pode vir quente que eu estou fervendo (Eduardo Araújo e Carlos Imperial, 1967) 
4. Se você Pensa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968)
Fim Medley
5. Panis et circenses (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968) 
6. Ando meio desligado (Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee, 1969) 
7. Agora só falta você (Rita Lee e Luiz Carlini, 1975)
8. Ovelha negra (Rita Lee, 1975)
9. Gita (Raul Seixas e Paulo Coelho, 1974)
10. Sonífera ilha, (Branco Mello, Marcelo Fromer, Tony Bellotto, Carlos Barmack e Ciro Pessoa, 1984)
11. Marvin (Patches) (Ronald Dumbar e General Johnson, 1970, em versão em português de Sergio Britto e Nando Reis, 1984)
12. Óculos (Herbert Vianna, 1984)
13. Meu erro (Herbert Vianna, 1984)
14. Tempo perdido (Renato Russo, 1986)
15. Será (Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo, 1985)
16. Até quando esperar? (Philipe Seabra, André X e Gutje, 1986)
17. Como eu quero (Paula Toller e Leoni, 1984)
18. Nada sei (Apnéia) (Paula Toller e George Israel, 2002)
19. A dois passos do paraíso (Evandro Mesquita e Ricardo Barreto, 1983)
20. Ciúme (Roger Moreira, 1985)
21. Olhar 43 (Luiz Schiavon e Paulo Ricardo, 1985)
22. Fullgás (Marina Lima e Antonio Cícero, 1984)
23. Me adora (Pitty, 2009)
24. O segundo sol (Nando Reis, 1999) - Nando Reis
25. Vou deixar (Samuel Rosa e Chico Amaral, 2003)
26. Anna Julia (Marcelo Camelo, 1999)
27. Primeiros erros (Chove) (Kiko Zambianchi, 1985)
28. Talvez (Rodrigo Suricato, 2011)
29. A praieira (Chico Science, 1994)
30. Me Deixa (Marcelo Yuka, 1999)
31. Proibida pra mim (Chorão, Marcão, Champignon, Pelado e Thiago, 1997)
32. Mulher de fases (Rodolfo Abrantes e Digão, 1999)
33. Monte castelo (Renato Russo, 1989)
34. O último romântico (Lulu Santos, Antônio Cícero e Sérgio Souza, 1984)
35. Pro dia nascer feliz (Cazuza e Frejat, 1983)
36. Do seu lado (Nando Reis, 2003)
Bis
37. É preciso saber viver (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968)
38. Agora só falta você (Rita Lee e Luiz Carlini, 1975)