segunda-feira, 11 de abril de 2016

Rock Nivea Brasil agita Ipanema, mas precisa de ajustes

Rodrigo Suricato (atrás), Paula Toller, Nando Reis e Marjorie Estiano - fotos de Cleber Junior

O Nivea Rock Brasil agitou a tarde de domingo em Ipanema com um elenco estelar que rememorou 60 anos de rock brasileiro desde a pioneira Cely Campello até os dias de hoje com o Suricato. O povo, estimado em 145 mil pessoas, lotou a areia, dançou, agitou, cantou, gritou, esperneou, tudo a que tinha direito durante duas horas e meia e 38 músicas.

Para a massa foi tudo ótimo, para um olhar mais apurado nem tanto. A verdade é que o show foi para a estrada antes de ficar pronto. É tudo fera ali em cima, a maioria com mais de 30 anos de carreira nas costas, mas nem por isso podem prescindir de muito ensaio para se entrosar. O que me deixou mais perplexo foi errarem tanto as letras com um teleprompter no palco, será que o tamanho era reduzido?


Dado Villa-Lobos e Herbert Vianna

Os vocalistas principais Nando Reis, Paula Toller e a convidada Marjorie Estiano, no lugar de Pitty, erraram várias entradas, idem Rodrigo Suricato, Dado Villa Lobos e até o master Herbert Vianna. Um projeto tão grande com alto investimento da Nivea merecia um tempo de ensaio maior. Este show vai ficar nos trinques lá pela quinta apresentação, aí acaba. Anyway o Nivea Rock Brasil foi uma excelente ideia para homenagear o rock brasileiro num momento em que ele está totalmente ausente do mainstream e não é por falta de talentos, os antigos estão atuantes pelo Brasil inteiro e uma nova geração de excelentes formações está aí na internet e nos palcos da vida à espera de uma brecha para entrar com força total. Brecha que a Nívea não deu.

Liminha, produtor, baiixo e guitarra

Pitty, grávida e ausente por ordem médica, foi uma grande baixa, sua voz potente e atitude rock fez falta, porque na linha de frente não tinha ninguém exatamente do rock, Paula Toller é do pop e sua emissão é muito pequena. Marjorie Estiano não é do ramo. No lado masculino faltou uma voz mais roquenrol de um Frejat ou um Paulo Miklos junto com Nando Reis. Se a preparação fosse a contento, este show ficaria na História. Claro que não por causa do produtor Liminha, um dos mais importantes músicos e produtores nacionais, que veio dos Mutantes e ajudou a formatar a Geração 80 do Rock Brasil, em peso no palco com ele no baixo, Maurício Barros nos teclados, João Mega Barone na bateria, Rodrigo Suricato e Dado Villa Lobos nas guitarras e Milton Guedes nos sopros e gaita. No todo Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Titãs, Kid Abelha, Suricato e Legião Urbana.


Paula Toller

O começo foi bem original, um medley de pré e Jovem Guarda com um arranjo que misturava Seven Nation Army da dupla White Stripes com Celly Campelo, a dupla de platina Erasmo e Roberto Carlos mais Eduardo Araújo e o rei da pilantragem Carlos Imperial. Logo em seguida Marjorie fez o possível para se sair bem em Panis et Circenses, um dos manifestos da Tropicália. Música de Caetano Veloso e Gilberto Gil, arranjo no original de Rogério Duprat e gravação dos Mutantes. Peso demais para Marjorie segurar. Flopou. Da mesma banda, Ando Meio Desligado, com o trio Nando, Paula e Marjorie num vocal uníssono, sem floreios.

A seguir duas de Rita Lee solo do disco Fruto Proibido, de 1975. Agora Só Falta Você teve na introdução o riff de Under My Thumb, dos Rolling Stones. A segunda foi Ovelha Negra, com Paula Toller e Rodrigo Suricato fazendo slide num violão havaiano Weissenborn na abertura e, mais adiante ele pegou a guitarra e, junto com Dado, repetiu de maneira respeitosa o antológico solo feito pelo mestre Luiz Carlini no original. Um grande momento.


Rodrigo Suricato, Dado Villa-Lobos, Paula Toller e João Barone

Aí foi a vez de Nando Reis flopar em Gita de Raul Seixas e Paulo Coelho. Esta canção é um hino sofisticado de viés místico que pertence exclusivamente ao seu intérprete original. Tem muito sucesso de Raulzito pra apresentar, esta não please. Uma vez o produtor do disco original Marco Mazzola me mostrou esta canção em 5.1 e chorei tanto que quase me afogo em lágrimas (‘tou relendo Nelson Rodrigues, daí a dramaticidade).


Liminha e Herbert Vianna

Logo em seguida melhorou. Entraram Bi Ribeiro e Herbert Viana para cantar duas dos Titãs com Nando, alusão à parceria das duas bandas que gravaram um DVD juntas. Sonífera Ilha, primeiro hit dos Titãs, e Marvin, versão de Patches feita por Nando e Sérgio Britto, animaram bastante a massa. Despues, dois hits dos Paralamas, Óculos e Meu Erro, ambas do álbum O Passo do Lui (1984).

Tudo isso rolando, eu imóvel de olho no palco com muitos filmes passando na cabeça. Cobri a geração 80 do Rock Brasil para o Jornal do Brasil e vi tudo aquilo nascendo, voei pro Circo Voador nas noites memoráveis do Rock Voador, onde rolava efervescência e euforia de ver uma nova geração se revelando num momento em que o Brasil emergia da ditadura. À minha volta uma zona, gente falando, dançando, bebendo, soltaram um monte de bolas na plateia, mais duras que as de encher e comecei a levar boladas de todo jeito, fiquei com ódio por tirar a minha concentração, cortar o meu barato.


Rodrigo, Bi Ribeiro, Herbert, Liminha e Dado

Dado Villa Lobos se juntou aos Paralamas  para duas de sua banda, Urbana Legio Omnia Vincit. Ele disse que estava ali por causa de Herbert, Bi e Barone, ou poderia estar em algum lugar bem longe. Dado se referia ao apadrinhamento da Legião pelos Paralamas, que levaram a banda para a gravadora EMI, tiveram um especial juntas na Globo, lançado em DVD, mas se afastaram quando a Legião começou a se agigantar. Levaram Tempo Perdido, Será e Herbert apresentou a Legião como a maior banda que o Brasil já produziu. Ao que Dado, acanhado com a generosidade, retrucou: “Mais ou menos.”  Ouviu-se o coro de “Legião, Legião.”

‘Tá ficado grande o texto né? Se encher o saco, para de ler.

A última com Herbert e Bi foi Até Quando Esperar, da Plebe Rude, que era para Pitty, mas ficou mesmo com Herbert, que esgarçou a voz, o tom ficou alto, mas saiu e saíram também Bi e Herbert. Neste set com os Paralamas, o som ficou com bastante peso, a cargo de quatro guitarras no palco. Liminha, Herbert, Dado Villa Lobos e Rodrigo Suricato. Foi um momento alto da tarde/noite. 
Paula Toller voltou para cantar duas do Kid Abelha. Ela acabou com a banda e, como vocalista, fica como herdeira do acervo do trio. Delirantemente aplaudida por Como Eu Quero e menos por Nada Sei. A Blitz, que abriu a porteira para que as demais bandas entrassem no mercado, foi representada por apenas uma canção com uma interpretação marromeno de Nando Reis: A Dois Passos do Paraíso. Ele também levou Ciúme, do Ultraje A Rigor.


Nando Reis

Seguiu-se uma saraivada de canções com interpretações medianas: Olhar 43 (Rodrigo Suricato), Fullgás e Me Adora (Marjorie Estiano). A bem da verdade, a falta de tempo de ensaio também implica em os vocalistas não terem tempo de burilar as canções que lhes cabem no setlist. Nando emocionou com O Segundo Sol, canção que fez para Cássia Eller, com participação de Milton Guedes na flauta.

Paula e Nando se esforçaram para transmitir o punch de Vou Deixar, do Skank, Dado mandou bem Anna Julia, de Los Hermanos. Primeiros Erros foi outro momento delirante, uma inspirada balada de Kiko Zambianchi apoderada pelo Capital Inicial. Rodrigo emendou só na voz Talvez, de sua banda Suricato. Dado e Marjorie deram uma animada com Praieira, da Nação Zumbi de Chico Science.  Nando Reis atacou de Proibida Pra Mim, em homenagem ao Charlie Brown Junior. Finalmente duas a cargo de Rodrigo: Mulher de Fases foi bem e Monte Castelo um tropeço gigante, interpretação errante com a banda em outro tempo, é outra canção que é melhor deixar quieta.

Herbert e Marjorie

Fim de festa com todos no palco em O Último Romântico, Pro Dia Nascer Feliz e Do Seu Lado – Lulu Santos, Barão Vermelho e Nando Reis. No bis Roberto Carlos de É Preciso Saber Viver e o bis de Agora Só Falta Você. Começou 17h10 e fechou 19h40. Depois de um certo tumulto, caminho da roça, na passagem pelo Maracanã ecos de Coldplay em pleno concerto. Caguei.


Setlist
Medley 
1. Banho de lua (Tintarella Di Luna) (Franco Migliacci e Bruno de Filippi, 1959, em versão em português de Fred Jorge, 1960)
2. É proibido fumar (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1964) 
3. Pode vir quente que eu estou fervendo (Eduardo Araújo e Carlos Imperial, 1967) 
4. Se você Pensa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968)
Fim Medley
5. Panis et circenses (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968) 
6. Ando meio desligado (Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee, 1969) 
7. Agora só falta você (Rita Lee e Luiz Carlini, 1975)
8. Ovelha negra (Rita Lee, 1975)
9. Gita (Raul Seixas e Paulo Coelho, 1974)
10. Sonífera ilha, (Branco Mello, Marcelo Fromer, Tony Bellotto, Carlos Barmack e Ciro Pessoa, 1984)
11. Marvin (Patches) (Ronald Dumbar e General Johnson, 1970, em versão em português de Sergio Britto e Nando Reis, 1984)
12. Óculos (Herbert Vianna, 1984)
13. Meu erro (Herbert Vianna, 1984)
14. Tempo perdido (Renato Russo, 1986)
15. Será (Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo, 1985)
16. Até quando esperar? (Philipe Seabra, André X e Gutje, 1986)
17. Como eu quero (Paula Toller e Leoni, 1984)
18. Nada sei (Apnéia) (Paula Toller e George Israel, 2002)
19. A dois passos do paraíso (Evandro Mesquita e Ricardo Barreto, 1983)
20. Ciúme (Roger Moreira, 1985)
21. Olhar 43 (Luiz Schiavon e Paulo Ricardo, 1985)
22. Fullgás (Marina Lima e Antonio Cícero, 1984)
23. Me adora (Pitty, 2009)
24. O segundo sol (Nando Reis, 1999) - Nando Reis
25. Vou deixar (Samuel Rosa e Chico Amaral, 2003)
26. Anna Julia (Marcelo Camelo, 1999)
27. Primeiros erros (Chove) (Kiko Zambianchi, 1985)
28. Talvez (Rodrigo Suricato, 2011)
29. A praieira (Chico Science, 1994)
30. Me Deixa (Marcelo Yuka, 1999)
31. Proibida pra mim (Chorão, Marcão, Champignon, Pelado e Thiago, 1997)
32. Mulher de fases (Rodolfo Abrantes e Digão, 1999)
33. Monte castelo (Renato Russo, 1989)
34. O último romântico (Lulu Santos, Antônio Cícero e Sérgio Souza, 1984)
35. Pro dia nascer feliz (Cazuza e Frejat, 1983)
36. Do seu lado (Nando Reis, 2003)
Bis
37. É preciso saber viver (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1968)
38. Agora só falta você (Rita Lee e Luiz Carlini, 1975)

6 comentários:

  1. Genial histórico do show. Estava lá

    ResponderExcluir
  2. Meu caro Jamari, o "Riff mais famoso do mundo...." tocado ontem na intro de "Agora só falta você" foi o de "Under my thumb".
    Quem cantou com Marjorie Estiano a canção "Praieira" fui eu e não o Nando Reis..No mais tudo certo e em paz....Aquele abraço Dado

    ResponderExcluir
  3. Muito bom.
    Senti como se tivesse ido, tamanho foram os detalhes.
    Abraço Jama

    ResponderExcluir
  4. O setlist não ter UMA mísera música dos Engenheiros Do Hawaii é lastimável! A banda, odeiem o Gessinger ou não, marcou seu nome na história do BRock.

    ResponderExcluir
  5. Kd Engenheiros? Essa mídia brasileira... sem palavras.

    ResponderExcluir