sexta-feira, 20 de maio de 2016

Fernanda Abreu lança Amor Geral, primeiro inédito em 12 anos



Fotos de Gui Paganini  - Arte de Giovanni Bianco



Há dias ouço bastante o novo álbum de Fernanda Abreu Amor Geral, primeiro de inéditas desde 2004. Sonoridade eletrônico-orgânica com um coração pulsante. O órgão que simboliza o amor em beat acelerado ou nem tanto num álbum ouriversado por dois anos e meio que se dá à luz nesta sexta, 20. Quando ouvi o single Outro Sim tive um momento de paralisia pela inspiração e inteligência ali condensados, logo comecei a sacudir na cadeira. Coisa boa poder ouvir algo que faz o cérebro entrar no pulsar dançante e, ao mesmo tempo, se deliciar com jogo de palavras complementares que vão desfiando momentos da vida, do cotidiano, que os neurônios traduzem em imagens – “Outra favela, novela. Outro barraco, buraco. Outra cachaça, manguaça. Em outro bar” é um deles. E que base do caralho!!!! Samplers em pan circulando por dentro dos miolos, synths em fraseados viajantes, vozes dobradas, com delay e  com vocoder, gravão, percussão malemolente. Candidata séria a melhor música do ano em pop rock (desce um Grammy no capricho).

Criou a maior expectativa. O que vem por aí? Veio e arrasou. Fernanda criou sua assinatura musical mergulhando na música negra, da favela carioca aos projects do Bronx. Era a garota carioca sangue bom. Hoje só deixou de ser garota, é adulta, imune ao tempo, formada e informada, saída de um período longo de transformações. Despiu uma pele de 27 anos de casamento, passou pelo calvário que todos enfrentamos, a perda da mãe, a perplexidade com os tempos atuais e as incertezas do mercado da música. Ela diz que não se motivou a fazer um disco até o coração voltar a bater em nova direção, por um novo amor. Lá nos idos de 65, 67, quatro caras de Liverpool cantavam coisas como “say the word and you’ll be free (...) and the word is love” e “All you need is love”, uma voz polêmica dos dias atuais proclamou que “o amor é a única revolução verdadeira.”





É por aí. Fala Fernanda: "Amor Geral é um álbum fortemente autobiográfico em que o tema é o amor. Centrado não em mim, mas no outro. O outro como ponto de partida e o amor como ponto de chegada. Afinal são as pessoas que nos fazem sentir vivos e amados (ou desamados). É um disco sobre a vida em que o amor, que parece um tema banal, se afirma como a força fundamental que não deixa esmorecer a nossa fome de viver.”

E prossegue: “No cenário de indiferença, cinismo, consumismo, intolerância e ódio que marca os nossos dias atuais, o amor é a mais bela e eficiente forma de resistência. A resposta mais poderosa. Num momento em que o mundo parece andar pra trás desprezando e atropelando o respeito às liberdades de expressão sexual e afetiva, às formas alternativas de família, às diferenças culturais e religiosas, à tolerância no convívio social e o no trato pessoal, apresento Amor Geral como uma espécie de antídoto. Love is the new money!”





Discos são acompanhados de releases que nunca chegam ao público. Este tem um do colega Carlos Albuquerque e, também, da própria Fernanda. A introdução reproduzi acima e, abaixo, ela fala de cada faixa, acrescento comentários meus. Tento decupar as bases, mas é difícil, são muitos elementos que entram e saem criados por Sergio Santos, figura central do disco pela participação em seis das 10 faixas, e outros músicos e produtores. A mixagem foi feita por Sergio e Vitor Farias, o que deu uma unidade conceitual ao álbum. Ideal para audição com fones de ouvidos pela citada riqueza sonora e pelos sons que viajam pelos dois lados do stereo.

As faixas:

1 - OUTRO SIM (Fernanda Abreu/Jovi Joviniano/Gabriel Moura) - Produzida por Wladimir Gasper 

“Faixa de abertura que sintetiza o sentimento do álbum. Uma espécie de faixa-manifesto. Convidei Wladimir Gasper (pseudônimo de Pedro Bernardes) de quem sou fã do trabalho há tempos. Passamos muitas noites no seu estúdio na Lapa entre subgraves, vocoders, teclados e bons papos.”
 Já comentei acima.





2 - TAMBOR (Fernanda Abreu/Jovi Joviniano/Gabriel Moura) - Produzida por Sergio Santos 

“’Alô Fernanda, sabe quem está aqui no estúdio? Afrika Bambaataa! Vem pra cá!’ Foi assim que Sergio Santos começou a produzir esta faixa. Em seguida, eu já estava no meu estúdio Pancadão de frente para o pai do Funk Carioca, criador da clássica e emblemática música Planet Rock, o icônico Bambaataa. A faixa é uma homenagem ao Tambor, expressão primeira da cultura negra e da comunicação entre os homens.”
O funk carioca tem mais a ver com o  Miami Bass da Flórida do que com a cultura hip hop criada no Bronx por Mr Bambaataa. Esta faixa é de um balanço irresistível. Começa com um berimbau, o convidado manda seu nome e de Fernanda, um violão conduz no canal direito, o batidão no centro, refrão ao estilo do funk, Mr. Bambaataa soltando seus vocais, tem agogô,o berimbau, percussões outras, um loop entra e sai.  Na letra Fernanda fala da presença do tambor no enredo, no samba de terreiro, na congada, na ciranda, no divino, na passarela, na batucada, no baile funk. Letra inteligente e bem construída.


3 - DELICIOSAMENTE (Fernanda Abreu/Alexandre Vaz/Jorge Ailton) - Produzida por Liminha

 “A letra saiu de primeira inspirada na delícia de se apaixonar. Fui pro Estúdio Nas Nuvens e Liminha começou a produção gravando o baixo e... pronto! A música já tinha uma cara. Mostrei pro meu amigo e DJ Memê, que por sinal acompanhou todo o processo do disco, e ficamos dançando o resto da noite.”
 Romântica dançante, puxada para o charm, brilna na base um piano Fender Rhodes  flutuando pelos dois canais, marcação de palmas eletrônicas no meio, gravão, frases de synth, efeitos, guitarra. Letra apaixonada como mostra o refrão que fala em “quero sentir aquela chama, religiosamente, cama, quarto e chão.”

4 - SABER CHEGAR (Fernanda Abreu/Donatinho/Tibless/Play) - Produzida por Liminha 

“Donatinho me mostrou essa música no camarim de um show. Da letra original restou o refrão. Gosto da melodia e do arranjo e, apesar da letra falar da imprevisibilidade e da falta de controle quando o assunto é amor, a vibe é positiva, mostrando que tudo pode valer a pena... É só saber chegar!”
Lenta e dançante como a anterior, vocal de Donatinho numa talkbox passeando em pan, batidão mais bateria, um piano viajante no começo, uma guitarra base. Voz de Fernanda com dobras, frases de synths.

5 - ANTÍDOTO (Fernanda Abreu) - Produzida por Rodrigo Campello

 “Numa das madrugadas tristes que passei pensando na condição terrível em que minha mãe se encontrava (num coma há anos), peguei o violão, deitada na cama, e comecei a tocar acordes que já vieram acompanhados de melodia e letra juntos. Nunca tinha me acontecido isso antes. Meio Chico Xavier. Assustada, liguei pro meu irmão, Felipe Abreu, parceiro e fiel escudeiro em todo o processo do disco, pedindo sua opinião. Ele aprovou. :)”
Linda melodia muito bem ambientada sonoramente por piano, percussão leve, frases de synth no canal esquerdo, uma harpa chinesa no canal direito, loops e efeitos em pan.

6 - O QUE FICOU (Fernanda Abreu/Thiago Silva/Qinho) - Produzida por T.R.U.E

 “Thiaguinho Silva, baterista e compositor, me mandou uma melodia no piano que me inspirou de cara. Escrevi a letra pro Luiz Stein, meu marido por 27 anos, pai das minhas duas filhas. Qinho entrou na parceria e de quebra trouxe Gui Marques. Juntos produziram a faixa inaugurando a dupla T.R.U.E.”
Uma espécie de acerto de contas com um amor que se foi, lenta, com levada centrada no piano de Gui Marques, efeitos, delays na voz e instrumentos para embalar os versos ela cantar “O que ficou do nosso amor o que ficou, o que ficou do seu olhar para lembrar.”





7 - DOUBLE LOVE AMOR EM DOSE DUPLA (Fausto Fawcett/Laufer) - Produzida por Sergio Santos

 “Única música do álbum que não é de minha autoria. Quando Fausto e Laufer me mostraram essa música, achei que se encaixava como uma luva na onda do disco. Aliás, é impossível fazer um disco sem meus parceiros mais constantes!”
Fernanda com voz sedutora vai do rap das estrofes ao canto do refrão com a voz multiplicada, uma guitarra solta frases no canal esquerdo e, vocal em pan trocando de canais, seduzindo com “je t’aime, moi nons plus. Déjà vu. Moi nons plus. Deixa vir. Vem meu amor. Sentir o calor. Double Love.” Serge Gainsbourg e Jane Birkin iam gostar desta. 

8 - POR QUEM (Fernanda Abreu/Qinho) - Produzida por Tuto Ferraz

 “Mandei a letra pro Qinho que me devolveu dias depois com a música. Mais uma letra tentando driblar a dureza de uma separação. Digerir, administrar e computar esse momento com amor e leveza é sempre um desafio. Tuto Ferraz, minha dupla na vida, acertou em cheio.”
 Entrada com bateria, a única do disco, pelo amor atual dela, Tuto Ferraz. Talkbox novamente brincando pelos dois canais, em alguns momentos acompanha Fernanda na voz, discretas guitarras funk na levada e frases de teclado.

9 - VALSA DO DESEJO (Fernanda Abreu/Tuto Ferraz) - Produzida por Tuto Ferraz

 “Inspirada no meu momento amoroso e apaixonado, escrevi essa letra e comecei a criar a melodia a cappella, dançando uma valsa em casa. Fui pra São Paulo e pedi ajuda pro Tuto, que sentou ao piano e criou essa harmonia linda e densa que, somada ao arranjo de cordas, criou a atmosfera que eu queria.”
 Esta é a faixa do casal. Combina o orgânico do quarteto de cordas e piano com discretas programações. Lembrou-me um pouco Luisa, do Tom Jobim, que me veio à cabeça ao escutar repetidamente. Muito bem arranjada, na segunda parte momentos de um cello no canal esquerdo, as cordas envolvem a voz dela numa cama romântica e sensível. 

10 - AMOR GERAL (Fernanda Abreu/Fausto Fawcett/Pedro Bernardes) - Produzida por Sergio Santos

 “Vinheta final, espécie de epílogo. Sintetiza a onda musical do disco misturando eletrônica com timbres e sons orgânicos. Como não podia deixar de ser, o samba aparece aqui, nas entrelinhas como parte do meu DNA. Samba urbano.” 
Começa com efeitos que me lembraram história infantil veio na minha cabeça “era uma vez...” depois frases de synth viajam pelos canais. Fernanda recita a letra com efeitos de delay, com Sergio Santos falando um verso ou outro. Falam do entrelaçamento do amor e do ódio, das brigas do amor, dos encontros e desencontros para concluir: “O que importa é parar numa esquina e perceber o gigantesco coração do planeta batendo. Do Amor Geral.”





PROJETO GRÁFICO 


Direção de arte: Giovanni Bianco. Foto: Gui Paganini
Fernanda Abreu: “Eu estava na pista de dança quando Giovanni Bianco passou por mim e, brincando, falou: ‘Agora que você se separou de Luiz Stein quando iremos trabalhar juntos?’ Uau!, pensei. Dali em diante foi só alegria! Quanto talento, inteligência e generosidade numa única pessoa. Essa capa, lindamente criada por ele, traz uma imagem que, pra mim, simboliza a eterna procura do ser humano. Uma espécie de esfinge sugerindo que o amor entre os homens é um eterno enigma a ser decifrado, num olhar que traduz um misto de apreensão e esperança, somado à ideia do texto impresso na pele da mão, lembrando que escrevemos o mundo ao mesmo tempo que somos escritos por ele. Eu-Coletivo.”

RELEASE POR CARLOS ALBUQUERQUE

Rio, 30 graus. É noite de outono. De cabelos presos, camiseta e calça jeans, Fernanda Abreu está sentada numa cadeira em seu estúdio, apropriadamente batizado como Pancadão, numa casa no Horto, sossegado bairro da Zona Sul da cidade. Ela se aproxima da mesa de som, aperta alguns botões e bota para tocar "Outro sim", estrondosa faixa de abertura de seu novo álbum, "Amor geral".  Quase imediatamente, a batida programada por Wladimir Gasper (nome artístico de Pedro Bernardes) explode nas caixas, frequências graves se enroscam na cintura do ouvinte como serpentes imaginárias e samples, picotados, abrem caminho até a voz de Fernanda, que rima e canta: "Outra cabeça, sentença/Outro recanto, encanto/Outra viagem, vertigem em outro mar/Outro sentido ou saída/Outra maneira ou medida/De dar a volta por cima, querendo dá".

- Nos últimos tempos, aprendi muito com (os produtores) Tuto Ferraz no estúdio dele em SP e Sérgio Santos no meu estúdio no Rio, sobre  áudio, equalização, compressão, frequências e tal. E queria um disco que soasse bem, do subgrave ao agudo – explica ela, que assina a direção musical e produção executiva do disco.

Mais do que detalhes técnicos, "Amor geral" – que tem projeto visual de Giovanni Bianco – gira em torno desses últimos tempos mencionados por Fernanda. Afinal, é o  seu primeiro trabalho em dez anos, desde que lançou o álbum "MTV Ao Vivo". Foi um tempo em que Fernanda trocou manchetes pop por linhas bastante pessoais.

- Nesses dez anos, a vida me apresentou algumas situações difíceis e precisei priorizar minha vida pessoal. Tive um processo de luto muito estranho da minha mãe, que ficou em coma por seis anos, somado ao sofrimento do meu pai que passou a vida ao seu lado, vivi um longo processo de separação do meu casamento de 27 anos, minhas (duas) filhas precisando de mim e eu delas. Senti que tinha que administrar esses desafios da forma mais amorosa possível. Segurei uma onda gigante e nem pensava em criar um material novo, até porque o cenário da música estava numa transformação violenta – confessa ela. – Trabalhei direto, criei um novo show Eletro-Acústico, participei de projetos especiais de outros artistas, continuei fazendo meus shows do MTV ao Vivo, mas não me sentia inspirada nem instigada para fazer um álbum de inéditas. Como outros artistas, vivi um compasso de espera, observando as mudanças da indústria e do mercado. Era como o samba-enredo da União da Ilha, "o que será, o amanhã? Responda quem puder...".

O amanhã desse retiro começou a chegar quando entrou em cena o sentimento que dá título ao disco e sua hipnótica faixa de encerramento (de letra "E sabendo que vamos morrer, sentimos fome de viver/Não é essa a função do amor?/É não deixar esmorecer essa fome de viver/De sobreviver em meio à pancadaria da infelicidade à granel").

- Quando conheci o Tuto Ferraz e me apaixonei, uma energia nova, muito inspiradora e potente me fez naturalmente começar a compor e produzir novas músicas – revela. - Um dos motivos desse disco se chamar "Amor geral" foi a percepção de que em todos esses momentos pelos quais passei, o amor foi o sentimento mais forte que senti tanto nos momentos de alegria como de tristeza. A letra dessa vinheta "Amor Geral" pode parecer um papo entre um casal, mas o pano de fundo está no coletivo e na simbólica relação entre amor e ódio, dois poderosos sentimentos que movem a humanidade.





Com "Amor geral", Fernanda retoma uma linha evolutiva que atravessou discos fundamentais dos anos 90, como "SLA Radical dance disco club" (90), SLA 2 – Be sample" (92) e "Da lata" (95), nos quais ela se firmou como pioneira no uso de samplers como instrumento, entusiasta de primeira ordem do funk carioca, sambista de verso e dança e porta-bandeira da disco music. É exemplar, por exemplo, a grooveada faixa "Tambor", que tem a participação, quase surpresa, de Afrika Bambaataa, grande mestre do hip-hop e de suas fusões com os batidões dos bailes do Rio, sintonizado com a percussão de Jovi e Pretinho da Serrinha. É trap com samba, é funk com balanço verde-amarelo, é beatbox com berimbau. ("E quanto toca o tambor/É festa, eu canto, eu danço/E quando toca o tambor/Acende a esperança", celebra Fernanda).

Conduzindo parceiros antigos (Liminha, Meme, Laufer e Fausto Fawcett) e novos (Qinho, Wladimir Gasper, Sergio, Tuto e Donatinho), Fernanda desfila, ao longo das 10 faixas do álbum, por diversas levadas, sem perder o suingue jamais. "Double love" é um balanço-funk estilo batuque digital, metralhadora musical. "Valsa do desejo" é uma balada com ares cinematográficos. "Por quem" (na qual canta "Computar a dor/É dureza/Computar a flor/É beleza") e "Deliciosamente" são refrescantes mergulhos nas pistas disco-houseiras. "O que ficou" é uma delicada pintura de tons ambientais. E a faixa-título resume o disco com suas roupagens futuristas e texto cortante como um sabre de luz ("Toneladas de 'I love you' desabam a todo instante nesse mundo/Toneladas de 'Eu te odeio'  desabam a todo instante nesse mundo...). Mesmo depois dessa ausência, Fernanda não perdeu a habilidade de ouvir "o coração do mundo batendo".

- Acho que cada artista procura seu som e me orgulho de ter uma assinatura. Gosto de trabalhar com a estética musical que os arranjos e a produção em estúdio me permitem. Por isso, além de cantora e compositora, me sinto como uma espécie de artesã de sons – diz ela, que comemora também a chegada de todo seu catálogo (7 álbuns) às plataformas digitais na sequência do lançamento de "Amor Geral". 

– Num primeiro momento, fiquei um pouco receosa de lançar qualquer trabalho artístico nesse momento em que a intolerância, o cinismo, a falta de escuta parecem imperar. Mas percebi que é exatamente esse o momento propício pra vir com "Amor geral". Então, quando vozes conservadoras gritam contra o aborto, contra o direito das mulheres, contra os negros, contra a diversidade sexual e religiosa, venho chegando, gentilmente, com o meu antídoto.
 Carlos Albuquerque - www.calbuque.com







FICHA TÉCNICA

Direção musical e produção executiva – Fernanda Abreu
Produtores – Ver nas faixas
Produtor vocal – Felipe Abreu
Mixagem – Vitor Farias e Sergio Santos, exceto Por Quem (Tuto Ferraz), Tambor e Double Love  (Sergio Santos)
Masterização – Tom Coyne (Sterling Sound – New York)
Capa e Direção de Arte – Giovanni Bianco (GB65)
Fotógrafo – Gui Paganini
Mak e Hair – Daniel Hernandez
Styling – Giovanna Refatti
Estúdio Távola 42 
Produção Executiva – Fernanda Sá
Engenheiros de Gravação e Edição – Sergio Santos (Estúdio Pancadão), Wladimir Gasper e Jonas Chagas (Estúdio WG), Tuto Ferraz (Estúdio do Tuto/Grooveria), Rodrigo Campello (Ministereo), Liminha e Daniel Alcoforado (Nas Nuvens), Fabiano França (Edições Digitais), Gui Marques ((Estúdio Frigideira) e Donatinho (Synthlove).
Assistente de Produção: Clarissa Martins
Assessoria de Imprensa: Bebel Prates
Lançamento – Garota Sangue Bom com Distribuição pela Sony Music

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Cães da Vinícola levam Imperator lotado a uma viagem de hard rock setentista

Fotos de Cleber Junior


O power trio americano The Winery Dogs transformou o Imperator com lotação esgotada na noite desta terça numa máquina do tempo num concerto de uma hora e 38 minutos com um estilo musical de hard rock setentista. Volume no talo, muitos solos disparados por Richie Kotzen na sua Telecaster personalizada, linhas de baixo over and over por Billy Sheehan  num Fender Precision envenenado e uma porradaria de Mike Portnoy no seu kit Tama com dois bumbos e pratos Sabian.


Foram 15 canções dos dois álbuns lançados, o de estreia que leva o nome da banda, de 2013, e Hot Streak, lançado em dois de outubro de 2015, com vendas modestas, ambos não chegaram nem ao disco de ouro (500 mil cópias), como constatei no site da Recording Industry Association of America, que confere estas certificações. Mas o trio tem um público que viabiliza sua  existência em casas de médio porte como o Imperator, com lotação de mil cabeças em pé. Teve um número pequeno de fãs que não conseguiu ingresso.


Richie Kotzen

Ao show. O que me chamou atenção logo foi Billy Sheehan, googlando vi que chama seu estilo de lead bass, baixo solo. Toca como se fosse o solista da banda, mas gasta nota demais, devia economizar pro futuro, nem Kotzen esbanja tanto quanto ele. Ex-Poison e ex-Mr Big, entre outras credenciais, Kotzen canta com um timbre típico dos anos 70, ecos de Ian Gillan  e Paul Rodgers aqui e ali. Solos rápidos na região mais aguda do braço da guitarra, algumas vezes com sustain, pouco trabalho solo nas regiões média e grave. Cita entre suas influências Jimi Hendrix (mas não usa alavanca nem feedback) e Stevie Ray Vaughan. E Eddie Van Halen, mas não vi usar a técnica de tapping, embora solasse uma vez ou outra no braço. E ainda guitarristas da fusão jazz rock, o que aparece em frases rapidíssimas com ecos de John McLaughlin e Al Di Meola.


MIke Portnoy

Mike Portnoy tem uma levada pesada num estilo desenvolvido as partir de seus favoritos Ringo Starr, Neil Peart, John Bonham e Keith Moon. Billy Sheehan cita desde Paul McCartney a Stanley Clarke e está mais próximo deste último pelo estilo rápido de tocar. A banda é muito bem entrosada e há momentos em que os três tocam em uníssono, em outros Kotzen e Billy metralham notas iguais, e Billy cobre viradas de Portnoy.



Billy Sheehan

Sou um veterano – dinossauro, se preferirem – dos anos 60 e 70 e tive minha overdose do tipo de som dos cachorros da vinícola quando o estilo estava no auge através de Led Zeppelin, Cream, Eric Clapton, Deep Purple e outros, por isso este estilo me soa dejaouvi. Não tenho mais saco pra solos de bateria, em que pese o virtuosismo de Mike Portnoy, que até deu um toque diferente, ao descer e batucar na frente do set, depois no chão do palco, no piano. Billy ficou uma eternidade punhetando seu baixo, ao estilo “olha como eu toco pra caralho”. Tá, toca sim, mas podia ser mais criativo, talvez melódico em vez de ficar num pastiche semigrave – ele suprimiu graves, ficou meio seco ao estilo de Stanley Clarke, em que se inspirou para fazer o lead bass.





Kotzen foi até comedido nos virtuosos solos. Como acontece com guitarristas que cantam, deixou de tocar guitarra em trechos de várias canções, ele só se espalhou mesmo com tudo que tinha direito na última canção do bis, Desire. Em Elevate, a última do show, antes do bis, ele citou o hino Wanna Take You Higher, de Sly and Family Stone, em cima dos versos “Elevate/ Take me higher” da canção. Em vez de solar sozinho como seus companheiros, Kotzen preferiu um momento melódico com duas lentas, Fire, sozinho ao violão com o coro da plateia, e  a power ballad Think It Over, ao piano Rhodes e, mais adiante, na guitarra.




Falei pouco das canções, reflexo do meu afastamento deste estilo, mas espero ter dado uma ideia do que vi.  E também porque não vejo grandes canções na banda, só médias e muitas parecidas. Teve uma banda de abertura, Soto, que não vi, sorry. 





Abaixo o setlist
Oblivion
Captain Love
We Are One
Hot Streak
How Long
Time Machine
Empire
Fire
Think it Over
Drum Solo
The Other Side
Bass Solo
Ghost Town
I'm No Angel
Elevate
Bis
Regret
Desire

P.S. Para uma crítica que fala mais das canções recomendo a do amigo Marcos Bragatto em www.rockemgeral.com.br A minha e a dele se complementam. 

domingo, 8 de maio de 2016

Suricato faz show arrasador no Imperator


Fotos de Cleber Junior

A Suricato lotou o Imperator na noite de sábado num show vibrante e bem amarrado para um público cúmplice que cantou várias músicas com a banda. Revelada nacionalmente há dois anos via Superstar, foi a que conseguiu maior aceitação com um repertório de qualidade. Rodrigo Suricato tem o dom da melodia, aquela que desce redondo e letras inspiradas, uma boa prova de como ser popular sem ser rasteiro.

Rodrigo e Guilherme Schwab são a linha de frente da banda, tranquilos para voar à vontade porque tem uma retaguarda poderosa com o baixo de Raphael Romano, a bateria de Pompeo Pelosi e a percussão de Junior Moraes. A diversidade de estilos torna o show do Suricato o mais original da cena do Rock Brasil. Folk, rock, country, hillbilly, blues e world music se sucedem em hora e meia de concerto com a mesma pulsação e uma pegada que ganha o público até em canções menos conhecidas. É o tipo de show que deixa um gosto de quero mais e que faz o povo ir para casa ou para a esticada da noite em bom astral.


Rodrigo Suricato

Rodrigo canta muito bem, voz poderosa e bem modulada. Ele e Guilherme na maior parte do tempo se revezam em violão e guitarra, quando Guilherme está na guitarra (Les Paul e Strato), Rodrigo está no violão e vice versa. Quando os dois pegam guitarras, o bicho pega. Foi o caso do gospel/blues In My Time of Dying (Jesus Is Gonna Make My Dying Bed), da década de 20 do século passado, conhecido na versão do Led Zeppelin. Rodrigo começa solando Brasileirinho, um standard com que se destacou num concurso da Gibson em 2007 como melhor guitarrista brasileiro, a seguir uma levada blues e daí Rodrigo e Guilherme partem para solos de pergunta e resposta que descambam num diálogo furioso que rolou no meio da plateia para delírio dos presentes (claro, dos ausentes é que não podia ser), com citação de Roadhouse Blues (The Doors) e um rápido momento de duckwalk, a dança marca registrada do mestre Chuck Berry. Foi o momento alto da parte rock'n’roll do concerto. 



Raphael Romano (baixo) e Pompeo Pelosi (bateria e wasboard)

O momento world music teve Guilherme numa  execução instrumental de Asa Branca em que, ao mesmo tempo, toca slide no violão weinssenborn e sopra o didjeridoo, instrumento dos aborígenes australianos. Coisa de virtuoso mesmo. E emenda com Quando A Maré Encher, da Nação Zumbi. Na roqueira Conceitos e Nomes, podiam inserir alguns versos de Dear Prudence (Beatles) porque a levada é parecida em certos trechos.



Rodrigo cantou para sua musa Paula Costa  Eu Não Amo Todo Dia

O repertório teve quase inteiro o album Sol-Te, de 2014, mais My Babe Macumba e Conceitos e Nomes, do álbum anterior ao Superstar e algumas  alheias. Além das citadas, o belo hino de Almir Sater e Renato Teixeira Tocando Em Frente, gravado por muitos nomes da MPB, aqui em versão rock com Guilherme na voz. E Um Certo Alguém, no arranjo hillbilly que a banda fez e Lulu Santos, autor, adorou. Nesta o baterista Pompeo Pelosi toca washboard, tábua de lavar, usada na música caipira americana (hillbilly) e nos primórdios dos Beatles no skiffle, um ritmo que dominou a Inglaterra nos anos 50 e começo dos 60. O fechamento foi com Pro Dia Nascer Feliz, a mesma com que o saudoso Barão Vermelho encerrava suas apresentações. 



Rodrigo e Guilherme mandaram ver nas guitarras no meio do povo em In My Time Of Dying

O inusitado do show no momento em que o setlist dizia Rodrigo Solo foi que o espectador Tiago Serrano subiu ao palco para pedir a mão (e o resto) de sua noiva Carolina, todo sem jeito e sem ter preparado nada pro momento histórico da vida dele. A plateia compareceu com gritos, palmas e “beija, beija”, daí Rodrigo cantou para eles Monte Castelo (Legião Urbana) que dançaram desajeitadamente (não era dançante mesmo). Na despedida, Rodrigo deu uma zoada de leve: “Boa sorte, vocês vão precisar.”


Rodrigo cantou Monte Castelo para o casal Tiago e Carolina

Teve outro momento romântico, quando Rodrigo chamou sua mulher, Paula Costa, os dois sentaram na maleta percussiva e cantou para ela Eu Não Amo Todo Dia, com direito a beijo caliente no final da canção. Muito fofinho. O Suricato já está na boca do povo, que cantou com  a banda as canções Um Tanto (citação de Give Me Love, de George Harrison), Bom Começo, Trem (citação de I'm Free, dos Rolling Stones), Talvez, Not Yesterday e O Sanfoneiro Só Tocava Isso, original de Dircinha Batista (1949) que teve um trecho tocado antes de eles começarem. Tema de abertura da novela Eta Mundo Bom! Animou bastante a plateia.



Guilherme Schwab em Asa Branca

Uma grande noite que Rodrigo agradeceu aos fãs dizendo que a presença deles “dignifica nosso trabalho e a nossa existência.” Salvo algum tropeço inesperado, a estrada da Suricato promete ser longa e proveitosa. Na abertura tocou a Michael Band que não assisti, sorry. No post abaixo uma entrevista com Rodrigo Suricato.




Depois de Bom Começo entrou Um Certo Alguém


sábado, 7 de maio de 2016

Suricato leva temporada de Sol-Te ao Imperator



Cleber Junior

A banda Suricato, revelada há dois anos no Superstar, apresenta esta noite, no Imperator, o show do disco Sol-te, o primeiro após receber projeção nacional. Com uma assinatura musical própria na linha de folk rock blues, a banda apresenta belas melodias e sonoridades diferentes por conta dos instrumentos tocados por Rodrigo Suricato e por Guilherme Schwab, este no potente e inusitado Didgeridoo, instrumento da tradição aborígene australiana. Nesta entrevista Rodrigo fala do direcionamento e dos planos da Suricato. Já vi o show duas vezes, é uma banda que vale a pena ver ao vivo. A Suricato também tem como tema de abertura da novela Eta Mundo Bom, o forrock O Sanfoneiro Só Tocava Isso.

A entrevista:

O show ainda  é do primeiro disco depois que foram revelados, de 2014, até onde você vai esticar a temporada. Tem músicas novas no setlist? Você falou uma vez que as bandas não tem tempo de maturar as canções, é o que vocês estão fazendo? Bandas novas no mercado sempre lançam um disco por ano numa fase de conquista de público, você não segue este princípio.

- Nossa prioridade é fazer um DVD, pois acredito que a Suricato tem uma história visual que precisa ser contada. Como é um projeto bem ambicioso num ano de crise, pode ser que venhamos com um EP antes de tira-gosto. Gosto de gravar discos quando se tem algo a dizer. Entendo a necessidade do mercado de consumir coisas novas o tempo todo, mas as pessoas mal escutam discos hoje em dia. Você se mata pra gravar, compor e o cara escuta só duas faixas do disco. Tenho umas 25 canções novas, mas, mesmo assim, queria esperar. Só vou entrar em estúdio com a Suricato para fazer um disco se tivermos 50 canções pra escolher 12. É minha aposta na longevidade.







O primeiro disco, que lhe valeu um Grammy, foi folk, o segundo vai seguir a mesma linha ou sua orientação de carreira vai ser na linha AC DC, de ir aperfeiçoando a mesma direção musical, ou Radiohead, pulando de estilos e experimentando sempre.

- Gosto de experimentar dentro do mesmo estilo. Não vejo a Suricato vindo com um álbum eletrônico, por exemplo. Temos um DNA rock/pop/blues/folk que sempre estará presente independente das mudanças.

Você tem uma trajetória musical muito rica e longa, acompanhou muita gente, você fez isso em paralelo a um trabalho de banda, não tentou uma banda desde o começo, foi para se sustentar? Você já tinha composições próprias?

 - Tudo que eu queria pra minha vida antes de começar a cantar e compor era acompanhar artistas. Fiz isso por muito tempo, foi muito importante pra minha formação e era meu principal sustento. Mas lutei muito pra não morrer fazendo aquilo. Essa transição do sideman para o artista vi poucos colegas conseguirem. Quando se acha a própria voz, o próprio jeito, é um caminho irreversível. Demorei muito para exercitar meu canto nos bares e minhas composições. Demorei a me sentir seguro e mostrar minhas músicas. Até hoje é assim. 








O que você anda ouvindo ultimamente e quais são os artistas que te ajudaram a encontrar sua direção?

-  Adoro um cara chamado Doyle Bramhall ll. Escuto James Blake, Jeff Buckley, Ray Lamontagne, Paralamas, Radiohead e tudo que pinta de novo. Mas meu centro gravitacional é Led Zeppelin, Beatles e Stones.

Qual foi o momento em q você escolheu que queria ser guitarrista de rock. Muitos tem um disco que deu o click, você tem um ou vários?

- Tive o momento guitarrista e depois o momento compositor. O Van Halen I foi decisivo. Barão Vermelho ao vivo foi um dos que mais toquei junto na vida. Jimmy Page me ensinou afinações e riffs. Steve Ray me levou pro blues que eu gostava e o Clapton me levou a cantar, buscar tocar de maneira mais elegante. Acho o Clapton o melhor de todos os tempos pois sua música tem uma utilidade que vai além da comunidade roqueira. Por falar em Rock: acho o Exile on Main Street, dos Rolling Stones, o melhor disco de Rock de todos os tempos. O Wandering Spirit, álbum solo do Mick Jagger é um primor de guitarras.

Guilherme  Schwab é um grande diferencial na tua banda, fala dele um pouco.

- Conheço o Gui da época em que tocávamos com o Ritchie. Pude acompanhar muito o seu crescimento e pesquisa musical, que na época estava no início. Fomos muito influenciados por blues e classic rock e somos apaixonados por instrumentos e slide guitar. Cada dia ele toca melhor e foi um parceiro fundamental para o lugar que queria levar a Suricato. Mesmo sendo sons muito específicos, como o Didgeridoo, temos a sorte dele se expressar em quase todos os instrumentos que toca dentro da mesma banda, algo que não consigo fazer pois estou cantando. É importante ressaltar também que não conheço nenhum baterista que toque no estilo do Pompeo, que o Raphael é um dos baixistas mais elegantes que toquei e que nosso percussionista Jr. Moraes levou nosso som ao vivo para um lugar que não tínhamos alcançado. Essa formação nova é muito boa. 





Como funciona internamente o Suricato, o repertório é votado, entram só as músicas que todos aprovam, os arranjos são feitos em grupo ou o autor já traz a direção?

- Começamos a distribuir algumas tarefas. É mais saudável e dá menos problemas. Cuido do repertório dos shows e da direção artística da banda há sete anos. Em relação à composição eu costumo trazer as coisas mais prontas. Ainda estamos nos conhecendo, por incrível que pareça. O processo que passamos foi completamente surreal e atípico. Raphael entrou na banda já assinando o contrato com o Superstar e o Gui entrou já na audição para o programa. Escolhi a dedo as pessoas da nova formação e acertei em cheio.

Você pensa em carreira solo, se bem que que o Suricato me parece seguir o modelo Paralamas, em que você é o líder e dita o formato sonoro da banda?

- A propósito: Herbert Vianna fez solo um dos discos mais lindos de todos os tempos, chamado Santorini. Cazuza fez bem em sair e com isso ganhamos o Frejat cantando pra cacete. Eu sou um pouco promíscuo musicalmente. Gosto de tocar com todo mundo. Tenho o Jack White e o Damon Albarn como um grande exemplo. Sempre estão produzindo algo novo, vários projetos, mas com prioridades. Queria ter essa organização, mas ainda não é possível. Acho que a gente só começa a olhar para os lados quando não se sente à vontade para fluir artisticamente num lugar ou quando existem dificuldades de relacionamento, por exemplo. Montei a Suricato há sete anos com o propósito de ser um lugar onde pudesse me expressar com plenitude. Estou há dois anos com essa galera e espero do fundo do coração que a gente passe muito tempo juntos.



quinta-feira, 5 de maio de 2016

Versalle lança seu grande álbum Distante de Algum Lugar no Rio Novo Rock do Imperator



O Rio Novo Rock deste maio rola nesta quinta, dia cinco, no Imperator, com as bandas Memora, Versalle, o DJ Jairo Venancio e o VJ Chico Abreu. Peço desculpas ao Memora, mas vou me concentrar no Versalle, terceiro lugar no Superstar de 2015. Eles são de Porto Velho, Rondônia, de onde passei a ter laços em 2013, quando assisti o festival Casarão. 





Na época me disseram lá que a cena de bandas autorais era pequena, cheguei a ver uma banda eletrônica muito boa, a Wari, mas me falaram que a maior parte era de bandas cover. Bati um papo rápido com o guitarrista e vocalista Criston Lucas numa ligação picotada por conta do mau serviço de nossas operadoras. Ele me disse que falta lugar em Porto Velho para as bandas autorais tocarem, que a banda era um hobby para eles por falta de condições.





A banda existe desde 2009 e lançou dois EPs e dois singles independentes antes de ser apresentada ao Brasil, o que lhes valeu a participação no último Lollapalooza. Entre suas influências citam Weezer, Queens of the Stone Age, Placebo, Blur e Strokes. Entraram no Superstar por gestos de ousadia. Se inscreveram na base do vamos ver no que dá e deu. Foram aprovados a uma seletiva da Região Norte que não aconteceu por falta de inscritos, se quisessem tentar uma vaga tinham que ir até Recife, se viraram, foram e ganharam acesso ao programa. Para uma banda de Rondônia uma grande conquista, o trampolim pra cena nacional.





Ganharam contrato com o selo Slap da Som Livre e lançaram em dezembro último o álbum Distante Em Algum Lugar, um disco bem amarrado com um repertório consistente e destaque para o trabalho de guitarras de Criston e do guitarrista Romulo Pacífico. Uma bela pesquisa de timbres, de saber casar as duas guitarras em sonoridades contrastantes, um resultado que Criston me disse dividir com os produtores André Valle e Aurélio Kauffmann, dois músicos experientes. Na faixa de encerramento Dúvidas, por exemplo, abre-se um amplo espaço para as duas guitarras , uma distorcida, a outra limpa, só lamento que não estejam uma em cada canal para melhor apreciação.



Sobre as letras perguntei a Criston se ele e Romulo eram existencialistas. Ele admitiu que sim, algo nessa linha, que ouvia queixas de as letras serem muito tristes, mas que era a deles irem nessa direção de perplexidade diante dos dilemas da vida, dos valores, da visão do indivíduo frente à realidade. Em Não Consigo Mudar, ele diz que “tudo flutua sem causa e sem nexo...opiniões controvertidas, assuntos superficiais... Corda bamba de autoflagelação. O que foi que fiz dessa vez? Eu não consigo mudar.” Guitarras distorcidas criam um clima sufocante, tudo carregado nos graves e um vocal dramático.





Variações aparecem em outras canções como Avante (“Vai fluindo devagar, o fluxo da vida vai te levar”), Dúvidas (Utopia, ilusão, sair da contramão. Esquecer a solução, que sejam dúvidas, dívidas / dádivas”) e Marte (“Somos estrelas somos pó buscando o divino a evolução. Será que somos deuses como dizem os ancestrais. Ou pura diversão de outros seres como nós”).

 Modelo Adequado critica o mainstream musical e suas exigências de diluição. “Conduta estereotipada é a garantia da aceitação. Ações e atitudes rotuladas, produto da alienação... Eu sou de plástico, e você? Condescendente, conveniente, articulado. O modelo adequado.”Levada mais leve, com muitas frases de uma guitarra suja na primeira parte e um refrão fácil, bem no espírito da letra.

Criston tem uma voz grave, modulada, com uma guitarra que entrosa com a de Romulo Pacífico, ambos muito bem calçados pelo baixo de Miguel Pacheco e a bateria de Igor Jordir. Mais uma vez peço desculpas ao Memora, mas acompanho a Versalle há algum tempo e não tinha ainda escrito sobre os meninos que colocaram no mapa do Rock Brasil um belo estado desconhecido da maioria dos brasileiros.

O Imperator ou Centro Cultural João Nogueira, fica na Rua Dias da Cruz nº  170. O horário é a partir das 20h e o ingresso custa R$20 e R$10. Paga meia quem levar um quilo de alimento não perecível. Sábado, lá mesmo às 21h toca a banda Suricato, outra revelação do Superstar.