domingo, 26 de junho de 2016

IRA! arrebenta em show pelos 30 anos de Vivendo e Não Aprendendo no Circo Voador

Fotos de Cleber Junior

A nova formação do IRA! Lotou o Circo Voador na noite de sábado para ouvir a íntegra do álbum mais bem sucedido comercialmente, Vivendo E Não Aprendendo, lançado há 30 anos em 25 de agosto de 1986. Uma noite histórica de muita vibração. Fiquei impressionado com a reação da plateia, com muita gente jovem cantando quase toda as músicas, um fenômeno que venho observando na Geração 80 do Rock Brasil, uma transmissão de geração em geração renovando público para formações com mais de 30 anos de estrada. 



Nasi

A noite começou muito bem com outro nome dos 80, Wander Wildner, que mandou ver com seu repertório solo e algumas de sua primeira banda, Os Replicantes, ao lado do guitarrista Jimi Joe e da banda carioca Beach Combers.

Edgar Scandurra e Nazi estavam felizes no camarim recebendo cumprimentos e posando para as inevitáveis fotos. Perguntei a Edgar pela guitarra Giannini Supersonic que ele usava na época do lançamento do disco. “Ela está guardada, há muito tempo não pego nela. Era uma guitarra importante para o dia de hoje.” Ele tocou uma Fender Stratocaster verde com uma pedaleira e um amp Marshall. Sua performance teve a excelência de sempre, ele ganhou vários títulos de melhor guitarrista brasileiro nos anos 80. 



Edgar Scandurra

Tirei uma dúvida minha com os dois. Em Dias de Luta, na hora do riff, a plateia entoa o bordão “Porra, caralho, cadê meu baseado”. Perguntei se lembravam onde começou, Edgar falou Niterói ou no ABC paulista e Nazi cravou São Gonçalo, um município vizinho a Niterói. Scandurra não gosta do bordão. “Isso nos persegue há muito tempo. É uma música séria, aí vem...” Ele me contou que o IRA! Vai lançar um disco de inéditas em 2017, pretendem seguir a turnê e depois dar uma parada. Na hora em que fui me despedir de Nasi ele estava falando com algumas pessoas que não gosta da internet, não quer saber o que está rolando na rede. Aconselhei-o a mudar de ideia e vazei, já duas e 40 da madrugada.





O show durou uma hora e 27 minutos com o Bis, que teve como convidado Wander  Wildner e o guitarrista Jimi Joe, para cantar Bebendo Vinho, de Wander, regravada pelo IRA! Wander disse que foi sua primeira música, que não sabia se lembrava, mas desenrolou bem. Nesse final teve também a bela Girassol e o fechamento dos trabalhos com o primeiro hit, Núcleo Base, do álbum inicial Mudança de Comportamento. Uma de minhas favoritas estava na abertura do setlist, Longe de Tudo, também deste disco de estreia, mas foi trocada por Amor Impossível.

Com a canção prevista originalmente o show teria começado em alta voltagem, em vez disso a plateia só assistiu nas três primeiras músicas, além da citada Flerte Fatal e Sem Saber Pra Onde Ir. A festa começou com Tarde Vazia, parceria de Edgar com o baixista da formação consagrada Ricardo Gaspa. Nas três seguintes fãs mais aplicados seguiram a banda em Eu Quero Sempre mais, Advogado do Diabo e Rubro Zorro. 

Aí começou o aniversariante numa verão turbinada pelas três décadas desde aqueles dias em que o rock fervilhava por toda parte. Não dá pra esquecer que 1986 teve álbuns imorríveis do rock brasileiro como Cabeça Dinossauro (Titãs), Selvagem? (Paralamas do Sucesso), Dois (Legião Urbana), Longe Demais das Capitais (Engenheiros do Hawaii) e o campeão de vendagem da  geração, Rádio Pirata Ao Vivo (RPM).


Daniel Scandurra (baixo)

As canções de Vivendo E Não Aprendendo, em maior ou menor grau, fazem parte do repertório de show do IRA! e foram levadas com pressão e desenvoltura, menos a relegada Casa de Papel, que Nasi disse não tocar há 25 anos e teve que recorrer a uma cola grudada no chão. A maior diferença é a inclusão de teclados, que não existiam na formação clássica, a cargo de Johnny Boy, uma nova adição de timbres que fez diferença em várias músicas.

Envelheço na Cidade é o maior hit do IRA!, o que valeu uma explosão da plateia já na introdução, todo mundo cantando junto num congraçamento que faz a mágica do Circo Voador, chamado por Nasi de “palco histórico” do rock brasileiro, o que foi  atestado por um espectador pra lá de Bagdá que veio ao meu encontro e de Cleber Junior na saída, apertou nossa mão e disse algo como esse lugar tem um astral maravilhoso, algo que sei desde 1982.



Edgar Scandurra

E o couro comendo na explosiva Vitrine Viva, rock funk, com abertura do baixo de  Daniel Scandurra e a porrada nos couros de Evaristo Pádua. Por ter ficado mais de 20 anos vendo a formação anterior senti falta da bateria de Andre Jung e o baixo de Ricardo Gaspa, me parecia mais bem amarrada que a atual. Pena que divergências internas não permitiram a presença deles quando a banda voltou em 2014 após um hiato de sete anos.

A duas últimas do disco e do show são dois hinos da fase inicial do IRA! Gritos na Multidão e Pobre Paulista foram o primeiro single da banda, lançado em 1983, ainda com Charles Gavin na bateria e Dino no baixo. Foram regravadas ao vivo na danceteria paulista Broadway em maio de 86  para entrar em Vivendo e Não Aprendendo. Um show  para ficar na lembrança.

WANDER WILDNER



Wander Wildner 

Representante do punk rock gaúcho como vocalista da banda Replicantes, Wander Wildner mantém-se fiel ao punk, que misturou em seu estilo solo com folk, música brega, nativista, sempre com seu timbre rouco esculachado que vale títulos como o de Tom Waits brasileiro. Acompanhado pelo trio carioca Beach Combers, Wander fez um show energizante e muito bem recebido pelo público que o acompanhou em várias músicas, principalmente no grande hit dos Replicantes, Surfista Calhorda. 



Jimi Joe

Ele tem muitas canções que são otimamente debochadas como Hippie Punk Rajneesh, Amigo Punk e Eu Queria Morar em Beverly Hills. Ele tocou uma hora com alta octanagem e mandou um hardcore na saída com Festa Punk. Foi tão bom que ninguém gritou pela atração principal como acontece com muitas bandas de abertura e ainda pediram bis. Mais um da Geração 80 a vencer a barreira do tempo.


Setlist IRA!

Instagram do Circo - Foto de Felipe Diniz


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