sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Canto Cego lança 'Valente' em show impecável no Imperator

Roberta e Rodrigo - Fotos de Cleber Junior

Um belo show de uma grande banda. Foi o que vi na noite desta quinta no Imperator, com o lançamento do álbum Valente pela banda carioca, egressa da Comunidade da Maré, Canto Cego. Roberta Dittz (voz), Rodrigo Solidade (guitarra), Magrão (baixo) e Ruth Rosa (bateria) são uma formação coesa que ataca com vigor e peso as composições. Os arranjos são bem variados e as letras caprichadas graças ao talento de Roberta, que é poeta e circulava neste meio antes de ser seduzida pela música, por isso define a banda como a poesia no rock. 


Roberta Dittz

A máquina motora da banda é a baterista Ruth Rosa, que merece o troféu João Barone pela execução precisa, certeira e furiosa das canções. Ela bate pesado na caixa, vira muito, suas levadas estão sempre mais no prato de condução do que no ximbau, gosta de esporro. E tem cara de menina, cheguei até a perguntar sua idade – 25 anos – porque a achei muito nova para tocar bem daquele jeito. Seu kit Tama toma uma surra no show e cheguei a pensar noutro grande baterista, Kadu Menezes, que tem um estilo parecido (Não estou usando seu santo nome em vão Kadu, juro).



Ruth Rosa

Rodrigo se faz digno de empunhar uma Gibson Les Paul. Ele é instrumentista de poucos solos, prefere as levadas distorcidas e poderosas, só faltou fazer o moinho de Pete Townshend porque vi reflexos do guitarrista do Who em alguns momentos. Magrão empunha um Fender Jazz Bass com som seco, quase uma segunda guitarra, que faz pendant com os couros e pratos de Ruth. Além da voz limpa e segura, Roberta Ditzz é uma graça, com longos dreadlocks e roupa de bailarina, com estudos de teatro no currículo, o que reforça sua bela presença de palco.



Ayama Prado e Rachel Araújo nas alfaias

A produção foi caprichada. Um telão com projeções em cor e p&b, cortinas brancas, o palco limpo, sem amplificadores, o que reforça a estética do show, com a bateria no meio. E o som impecável, como quase sempre no Imperator. 

A banda tocou a íntegra do álbum Valente, uma obra que demorou três anos para ficar pronta. Fala Roberta: “Começamos a gravar em janeiro de 2014 com Nuvem Negra. Depois em Outubro de 2014 gravamos 5 faixas, que virariam o EP Valente. Em outubro de 2015, decidimos que Valente viraria um disco e gravamos mais 6 faixas. Não fizemos crowdfunding. Todos os nosso cachês ainda são revertidos completamente pras despesas da banda.”



Roberta e Simone Mazzer

Entraram também canções anteriores a Valente, como conta Roberta: “Acrescentamos músicas do início da banda como Parque das Imagens, Novo Canto, Retorno e Corre Louco. E duas releituras novas, de As Rosas não falam (Cartola) e Admirável Gado Novo (Zé Ramalho).” Aliás duas excelentes recriações. 




O falecido mestre da Mangueira certamente não entenderia nada, mas sua fina poesia recebeu uma roupagem pesada, mas respeitosa, em nada distorceu a bela mensagem. Já Zé Ramalho é do ramo, creio que adoraria seu hino político pela banda com o reforço das alfaias de Ayama Prado e Rachel Araújo, que também brilharam em A Fúria, a ponte entre as duas canções foi feita pelo acorde de introdução de Da Lama ao Caos, da Nação Zumbi.


Sam Shankara

Outro convidado foi Sam Shankara na cítara, primeiro numa introdução sozinho tocando o instrumento meio à brasileira, não exatamente na cartilha indiana, depois colore a levada de Vão. A cantora Simone Mazzer, de timbre mais grave que o de Roberta, reforça os vocais em Imaginário e As Rosas Não Falam. 




O Canto Cego faz parte do coletivo A Cena Vive, uma união de bandas de rock cariocas que batalham por todos os espaços possíveis. É uma geração muito solidária, por isso Roberta em certo momento começou a falar de músicos presentes de outras bandas e foram perto de 20 nomes. O desafio destas bandas é vencer o bloqueio do mainstream, ocupado por música de baixa qualidade. 

Magrão


No show de ontem algumas músicas seriam hits se os canais estivessem abertos. Roberta recita textos poéticos de sua autoria, ao disco ela dedicou um texto fresquinho que tinha como motto Voa Valente, Voa. Que não só ela e esta nova geração de bandas voem alto e furem o bloqueio, porque tem muita coisa boa pra mostrar.

SETLIST
1. Intro
2. Contra-canto
3. Poesia "Valente"
4. Maestrina
5. Nuvem Negra
6. Sublime
7. O Dono da Ordem - Pparceria Roberta Dittz e Marcelo Yuka
8. Parque das Imagens
9. Novo Canto 
10. Imaginário - com Simone Mazzer
11. As Rosas Não Falam - Cartola - com Simone Mazzer
12. Vão - com solo de cítara de Sam Shankara
13. Mundo Voraz
14. Gigante
15. Admirável Gado Novo - de Zé Ramalho - com alfaias - Ayama Prado e Rachel Araújo
16. A Fúria - com alfaias
17. Zé do Caroço – de Leci Brandão
18. Eu não sei dizer – de Marcelo Yuka
BIS
19. Retorno
20. Corre Louco




FICHA TÉCNICA:
Bruno Carvalho e Leandro Cortez - Som
Celso Rocha - Iluminação
Miguel Bandeira, Marco Ribeiro e Flavio Monteiro - Projeção Visual
Roadies - Flavinho e Milton Rock
Wanderley Gomes - Cenário
Gustavo Genton - Produção
Paulo Lopez - Diretor de Produção

domingo, 7 de agosto de 2016

Banda de rock Lenine faz show arrasador no Imperator

Fotos de Cleber Junior

A banda de rock Lenine fez um puta show na noite de sábado num Imperator de lotação esgotada. Como assim? Tá, Lenine é do escaninho da MPB, mas o que vi lá foi um show de rock montado em cima de um processamento dos ritmos do Nordeste. Pesado, pulsante, de esquentar o sangue nas veias. 


A escultura de metal simboliza a estrutura de uma molécula

Chama-se Carbono, o metal, nada a ver com carbônico, Lenine tem uma explicação sofisticada para o título do disco lançado em abril do ano passado e para esta turnê, já à beira do ano e meio. O título veio dos alótropos do carbono, substâncias simples e totalmente diferentes originárias de um mesmo elemento (whatever that means).


Jr Tostoi

Lenine tem os pés fincados na cultura nordestina e a mente no cyberspace, é um menestrel cibernético com letras altamente poéticas em meio a um caos sonoro de guitarras, baixo, bateria, teclado, samplers e programações. É a cara da música brasileira do século 21, embora faça isso desde os anos 90. Algumas vezes se despe da vestimenta rocketrônica para cantar belezas com voz e violão como Paciência, lindamente executada sábado numa comunhão palco/plateia, o povo a plenos pulmões, ele nos contracantos. Idem em Hoje Eu Quero Sair Só, podia ter mais, mas não teve. Ele mesmo disse que vários hits ficaram fora do setlist, privilegiou no todo seu trabalho mais recente. 


Bruno Giorgi

Cometeu uma ousadia que poucos artistas arriscam: tocou a íntegra do álbum e o povo respondeu bem, mesmo nas músicas menos conhecidas, porque os arranjos são de tal maneira poderosos e virtuosamente executados, que ganham a plateia.


Guila

Não assistia ao show dele há tempos, daí o vi pela primeira vez empunhando uma guitarra, uma Gibson SG, adequada à persona rock atual, mas também os violões.  Em alguns momentos se despe de instrumentos para cantar e dar seus passos de dança igualmente inspirados na tradição nordestina. Lenine ocupa o palco por inteiro, anda de ponta a ponta, sabe como é importante fazer gestos que o aproximem de quem saiu de casa e pagou um ingresso para vê-lo, coisa que muita gente não faz, no rock, inclusive.


Pantico Rocha

Ele tem uma peça chave em cena, o guitarrista Jr Tostoi, que pilota o instrumento de várias maneiras em programações e na execução propriamente dita, uma sonoridade que domina o show. Lenine é chegado a um ruído como elemento musical, então várias músicas tem efeitos que atravessam as canções como se fossem serras ou lembram de longe gaitas de fole. É um recurso muito usado por JR na pilotagem da guitarra, às vezes senti falta dele tocando normalmente porque é um exímio instrumentista. 

Há uma segunda guitarra por Bruno Giorgi, filho de Lenine, igualmente encarregado de samplers e programações, mais bandolim. A cozinha é de um brado retumbante. Assisti de um cantinho do palco atrás dos subwoofers, daí mais que ouvi, fui vibrado de corpo inteiro pelo poderoso baixo de Guila, também teclado. Pantico Rocha na bateria faz levadas criativas, sabe usar bem os tambores e pratos para dar clima às canções.




Foram 25 canções, da primeira, Carbono, às últimas, A Redee Carbono. Ele foi aos primórdios com Olho de Peixe, do disco gravado com Marcos Suzano em 1993. No show, a primeira antiga, Na Pressão, veio em terceiro, com Lenine só de intérprete e adequada ao show, que vai do começo ao fim quase todo na pressão. 




Tem uns refrescos em calmas como a bela Simples Assim, Universo na Cabeça, Sonhei. Em compensação o couro come em Cupim de Fero, no álbum com a Nação Zumbi, Grafite Diamante, Undo e outras.  Foi a primeira vez de Lenine na minha área, o Meier, que venha outras vezes.




Setlist – Canções não identificadas são de Carbono (2015).
Castanho
O Impossível Vem Pra Ficar
Na pressão - Na Pressão (1999)
Martelo Bigorna - Labiata (2008)
Cupim De Ferro
À Meia-Noite Dos Tambores Silenciosos
Meu Amanhã - Na Pressão (1999)
A Causa E O Pó
Quem Leva A Vida Sou Eu
Simples Assim
O Universo Na Cabeça do Alfinete
Hoje Eu Quero Sair Só - O dia Em Que Faremos Contato (1997)
Sonhei - Falange Canibal (2001)
Quede água
Olho De Peixe - Olho de Peixe com Marcos Suzano (1993)
Magra
Envergo, Mas Não Quebro - Chão (2011)
Se Não For Amor Eu Cegue (com Sol E Chuva, de Alceu Valença) - Chão (2011)
Grafite Diamante
Candeeiro Encantado - O dia em que faremos contato (1997)
Do It - InCité (2004)
Undo
BIS
A Rede – Citou Me Deixa Em Paz (Monsueto), Me Deixa (Rappa), Ouro de Tolo (Raul Seixas) – Na Pressão (1997)
Castanho

P.S. Não assisti à abertura com a banda Vulgo Tostoi, do guitarrista JR Tostoi, porque o show foi de pista e estou com o joelho esquerdo bichado. Não dá pra ficar muito tempo de pé. Sorry

sábado, 6 de agosto de 2016

Helga e Bullet Bane mandam bem no Rio Novo Rock

Helga - Fotos de Cleber Junior

A noite de agosto do Rio Novo Rock rolou nesta quinta com duas boas bandas, Helga (Rio) e Bullet Bane (SumPaulo). Teve pouco menos de meia casa, mas as bandas mereciam mais público, enfim é um ônus de apresentar novas bandas, que o Imperator tem condições de absorver com outras atrações que lotam a casa. Lenine, neste sábado, com lotação esgotada é um deles. 



Bullet Bane: Victor (voz), Rafael (baixo)d

A DJ Eliza Schinner tocou mais bandas novas do que os demais que tocam no Rio Novo Rock, afinando-se com a finalidade do projeto. Não deixou de mandar porradas de Metallica, Judas Priest, AC DC, Rage Against The Machine e outras.



A DJ Eliza Schinner

A Helga é um quarteto bem entrosado, baixo, guitarra, bateria e vocal. O vocalista Vital tem um timbre rouco e só peca na pouca presença de palco, falta mais movimentação, na última música, Ace of Spades, uma homenagem ao eterno Motorhead Lemmy, teve o cuidado de colocar o microfone mais alto que ele como fazia o Homem. 


Vital - Helga

O guitarrista Pedro Nogueira faz levadas pesadas com eficiência, poucos solos. O baixista Dave D’Oliveira toca o baixo seco que funciona também como uma segunda guitarrista e o baterista segura bem a onda, ou seja, um quarteto muito bem amarrado que só precisava variar mais as músicas, muitas parecidas. O repertório foi dos dois EPs, um com o nome da banda e o mais recente, Ninguém sai ileso de ninguém.



Pedro Nogueira - Helga

O paulistano Bullet Bane viaja por várias tendências do rock. No começo fez um número lento, cheio de climas, me remeteu ao rock viajante que o Pink Floyd fazia no começo da carreira, sem comparações, please.  As duas guitarras, Danilo Souza e Fernando Uehara tem papéis definidos, se complementam muito bem, fogem do esquema um faz base o outro sola e vice versa, trocam frases em timbres contrastantes que enriquecem as levadas.



AVictor - Bullet Bane

A banda também ataca com metal pesado, que agrada mais a plateia e leva o povo à loucura com canções hardcore cantadas em inglês com tudo a que o gênero tem direito, invasão do palco para saltar nos braços da turma e rodas de pogo. O vocalista Victor segura bem, mas nada entendi das letras em inglês pelo andamento rápido e o vocal esgarçado. Fizeram uma bela recriação de Jorge da Capadócia, de Jorge Ben, num início lento e com peso mais adiante, apoderando-se da música como devem ser as recriações. Fizeram uma longa jam, lenta com excelente trabalho das duas guitarras. Dois nomes que soma m ao Rock Brasil.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Revolver, o álbum da maturidade dos Beatles, faz 50 anos


Capa de Klaus Voorman

Revolver foi lançado há 50 anos, em cinco de agosto de 1966 na Grã-Bretanha, como o manifesto revolucionário de uma banda já consagrada como a maior do mundo. O LP não tinha precedentes na carreira do Fab Four e muito menos no panorama rock da época. Os Beatles exploraram conceitos sonoros mais surpreendentes ainda por saírem do estúdio de quatro canais de Abbey Road, aquém dos recursos disponíveis na América. Os créditos são da equipe técnica da EMI sob o engenheiro Geoff Emerick e do produtor George Martin. Grandes talentos colocados a serviço da insaciável fome de buscar o novo demonstrada por John, Paul, George e Ringo.

A era psicodélica encontrou em Revolver algumas de suas principais manifestações. Sob a égide do LSD nasceram canções como Tomorrow Never Knows, um assalto aos sentidos com efeitos, vozes fantasmagóricas, batida trovejante e um convite para o ouvinte relaxar e se deixar levar pela corrente.


 

Contracapa

O clima viajandão se estendia ainda por She Said She Said, inspirada numa viagem de ácido, e Got To Get You Into My Life, uma ode à maconha. Taxman protestava contra os altos impostos da Inglaterra, Yellow Submarine uma canção infantil com viés psicodélico. O radiante verão de 1966 era saudado em Good Day Sunshine e a música pop ocidental deu seu primeiro passo significativo para a música e filosofia orientais em Love You To.

Revolver se refere à imagem do disco revolver (rodar) no pickup, mas carrega inevitavelmente uma associação com a arma. Teve vários possíveis nomes antes. Ia ser Abracadabra, mas uma outra banda já usara o título. Daí John sugeriu Four Sides of the Eternal Triangle e Ringo After Geography, uma zoação com o LP dos Rolling Stones Aftermath (math=matemática) daquele ano. Outras sugestões foram Magical Circles, Beatles on Safari e Pendulum.






Com 14 faixas em 35 minutos no Reino Unido, Revolver saiu nos Estados Unidos no dia oito de agosto de 1966. A versão americana tinha apenas 11 faixas. I’m Only Sleeping, Doctor Robert e And Your Bird Can Sing, antecipadas para a Capitol americana, saíram na compilação Yesterday and Today, lançada em 20 de junho. A capa é do artista plástico alemão Klaus Voorman, conhecido dos primeiros dias da banda, que optou por contrastar o psicodelismo do conteúdo com quatro cabeças desenhadas em preto e branco, desenhos e colagens de fotos. Klaus mais tarde viraria baixista e tocaria com John Lennon solo.

O álbum ficou sete semanas em primeiro lugar na Grã-Bretanha e seis semanas na América. Com o passar do tempo ganhou estatura e disputa com Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band o título de melhor disco de rock de todos os tempos. Em 2002, por exemplo, os leitores da Rolling Stone americana assim o elegeram, opinião compartilhada por nada menos que o L’Osservatore Romano, o jornal oficial do Vaticano. Já numa outra eleição da Rolling Stone em 2003 ficou em terceiro na lista de 500 maiores álbuns de todos os tempos, depois de Sgt. Pepper’s e de Pet Sounds, dos Beach Boys.






A gravação rolou de seis de abril a 21 de junho de 1966. Já no dia 12 de agosto iniciaram a última turnê da carreira, com 14 datas na América, a última no dia 29 de agosto no Candlestick Park, de San Francisco. Depois disso nunca mais subiram ao palco juntos. Nenhuma música de Revolver foi tocada na turnê por considerarem difícil simplificar as canções para tocar ao vivo. Dali em diante seriam apenas músicos de estúdio e, já em novembro de 1966, estariam de volta a Abbey Road para começar as gravações da próxima revolução, Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado em 1º de junho de 1967.






A dupla Lennon e McCartney tinha duas formas de trabalho. Canções de um deles e canções em que a ideia partia de um e o outro complementava. No álbum são seis de Paul, cinco de John e três de George. Em sua autobiografia, Paul diz que John pode ter contribuído com algumas palavras em Eleanor Rigby, em I’m Only Sleeping os dois trabalharam na ideia de John , Here There And Everywhere é toda Paul, She Said She Said é quase toda de John, Paul diz que  contribuiu com muito pouco, Tomorrow Never Knows é toda de John e assim  por diante.

Abaixo o LP faixa a faixa. Obs. canções não mais disponíveis no You Tube. Clique aqui e ouça a íntegra no Spotify



TAXMAN




Um protesto de George Harrison contra a alíquota de 95% cobrada pelo governo do então primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson. De cada libra, dividida em 20 shillings e 12 pence na época, a receita federal levava 19 shillings e seis pence. "Fiz quando percebi que estávamos felizes por ganhar dinheiro, mas a maioria ficava com o governo," disse ele. George mudou-se para Los Angeles, Ringo para Monte Carlo, no Principado de Mônaco. John foi para Nova York e Paul continuou na Inglaterra. Ele disse que ia “dar um jeito de pagar esses impostos”. No final dos anos 70, as alíquotas suavizaram e George voltou para a Inglaterra, enquanto Ringo ficou em Monte Carlo e John na América.

John ajudou George na letra e foi dele a sugestão de citar, no vocal da segunda parte, Wilson e o líder da oposição conservadora Edward Heath. Antes disso, o refrão dizia "Anybody got a bit of money?" (esta versão está no segundo volume da Antologia). A contagem de "one two three four" no começo é de Paul e uma tosse é do disc jockey americano Ron O’Quinn, que trabalhava na Radio England e se tornou amigo dos Beatles.

A letra parte para a ironia em seu protesto: "If you drive your car, I’ll tax de street. If you try to seat, I’ll tax the seat. If you get too cold, I’ll tax the heat. If you take a walk, I’ll tax your feet”. O solo de guitarra, em parte repetido no final, é de Paul, porque George não conseguiu fazer um que servisse, segundo o engenheiro do disco Geoff Emerick.

A gravação começou dia 20 de abril, quando fizeram quatro takes com George na guitarra, Paul no baixo e Ringo na bateria (John só fez vocal na música). No dia seguinte começaram de novo com 11 takes, 10 instrumentais e o último com voz guia, aproveitado para a versão final. Em cima dele Paul gravou o solo, Ringo um pandeiro, George uma voz definitiva e John e Paul os vocais. No dia 22 colocaram novos vocais de John e Paul citando Wilson e Heath e Ringo gravou uma sineta. Finalizada dia 16 de maio com a inserção da contagem inicial. 

Na mixagem guitarra, baixo e bateria no canal esquerdo, voz e backing vocal no centro, os backing vão pro canal esquerdo na terceira estrofe e voltam pra o centro. Na direita uma sineta (cowbell) e o solo de Paul (meio e final) e um pandeiro a partir da segunda estrofe.

Esta foi a única vez em que uma música de George abriu um álbum dos Beatles.



ELEANOR RIGBY





Paul conta que a inspiração surgiu na sala de música da então namorada Jane Asher em Wimpole Street, Londres. Paul a criou ao piano e começou a improvisar uma melodia. Mostrou o esboço ao amigo cantor Donovan, que conta: “Estava em casa gravando algumas coisas quando a campainha tocou. Era Paul. Tocamos um pouco e ele me mostrou uma canção sobre um cara com um nome estranho: “Ola Na Tungee/ Blowing his mind in the dark/ With a pipe full of clay/ No one can say.” Eram versos aleatórios para preencher o buraco da letra ainda inexistente.

Paul continuou a trabalhar em Wimpole Street e, um dia, lhe veio a imagem de alguém recolhendo o arroz jogado num casamento na porta de uma igreja. “Isso me deu a ideia de falar sobre pessoas solitárias,” conta. Escolheu um nome feminino, Miss Daisy Hawkins, para ser o personagem, mas sua musicalidade não agradou. De uma loja de bebidas, Rigby & Evans Ltd, ele pegou o sobrenome de sua personagem. O primeiro nome veio da atriz Eleanor Bron, com quem contracenou no filme Help!

A escolha ganhou uma aura de fenômeno paranormal quando foi revelado, depois do lançamento do disco, que havia a sepultura de uma Eleanor Rigby no cemitério da igreja de São Pedro em Woolton, Liverpool, onde ele ouviu pela primeira vez a banda Quarrymen, de John Lennon, no dia seis de julho de 1957. Paul andava muito pela área com John, mas não se lembrava da sepultura de Eleanor, morta em 10 de outubro de 1939 aos 44 anos.

Com palpites dos demais Beatles a letra ganhou forma. O padre que enterra Eleanor na segunda parte da canção tinha como primeiro nome McCartney, por sugestão de John, mas Paul rejeitou porque seria uma referência ao seu pai. Pegaram uma lista telefônica para ver os nomes depois de McCartney e encontraram Mackenzie, com boa sonoridade, um personagem igualmente solitário que cerzia meias de madrugada. Pronta a letra com um tema lúgubre de solidão e morte, incomum nas canções de rock da época, chegou a hora de decidir como seria gravada.

O tema não pedia guitarra, baixo e bateria. Inspirado em peças de Vivaldi apresentadas a ele por Jane Asher, Paul decidiu por um arranjo de cordas. Ele passou um esboço para o produtor George Martin, que disse ter escrito uma partitura inspirada na trilha de Bernard Herrmann para o filme Farenheit 451, de François Truffaut. A gravação foi no dia 28 de abril com um octeto de quatro violinos (Tony Gilbert, Sidney Sax, John Sharpe e Jurgen Hess), duas violas (Stephen Shingles e John Underwood) e dois cellos (Derek Simpson e Norman Jones). Cada um recebeu nove libras. Os microfones quase tocavam os instrumentos, o que incomodou os músicos, com um resultado inédito para a época, ideia do engenheiro Geoff Emerick. Sob a regência de Martin, gravaram 14 takes, dois instrumentos por cada canal da mesa de quatro canais. Depois foi feita uma redução para entrar a voz de Paul e os vocais de John e George (Está assim na ficha de gravação, cogita-se do vocal ser todo de Paul).

Eleanor Rigby foi single de Revolver com Yellow Submarine, o contraste de uma canção infantil com outra sobre solidão e morte. Foi lançada como “lado A duplo”, uma maneira de dizer que as duas tinham o mesmo peso. O single ficou quatro semanas em primeiro lugar na Grã-Bretanha. Nos Estados Unidos chegou apenas ao segundo lugar, fato atribuído à declaração de John sobre os Beatles serem mais populares do que Jesus Cristo e à polêmica sobre a capa da coletânea Yesterday And Today, com os Beatles em meio a pedaços de carne crua e bonecas desmembradas (o disco foi recolhido e a capa mudada).

Na mixagem as cordas estão à esquerda, voz na direita, vocais na esquerda. No refrão a voz vai pro centro com dobra.

I’M ONLY SLEEPING




Uma ode à preguiça composta por John, um fervoroso praticante do esporte de dormir horas e horas e de ficar na cama para ler, ouvir música e tocar violão (não à toa seu famoso protesto pela paz com Yoko Ono em 1969 foi na cama). Muitas vezes quando compunha de tarde com Paul, John sempre tirava uma soneca enquanto Paul continuava trabalhando.

O refrão diz tudo: “Please don't wake me, no don't shake me. Leave me were I am, I'm only sleeping”. Ele ainda faz gozação aos que criticam sua preguiça: “Everybody seems to think I'm lazy. I don't mind, I think they're crazy. Running everywhere at such a speed. Till they find there's no need.” Ele canta com uma voz cansada e manipulada tecnicamente com variações de velocidade para parecer preguiçosa.

Destaque é o solo invertido de George Harrison. John descobriu a inversão ao acaso quando colocou uma fita ao contrário e eles ficaram fascinados com a sonoridade. O engenheiro Geoff Emerick confirma que foi John, mas o produtor George Martin também reivindica o feito. Paul afirma que foi um técnico que colocou uma fita ao contrário e eles se amarraram no som.

No final de Rain (lado B de Paperback Writer, single gravado nas sessões de Revolver), a inversão foi feita tocando a canção ao contrário (truque inédito até então). Aqui foi mais sofisticado. Numa sessão noturna solitária de cinco horas no dia cinco de maio, George criou o solo, escreveu as notas, inverteu-as e gravou duas vezes, uma com distorção e a outra limpa.

A gravação começou no dia 27 de abril com John na guitarra, Paul no baixo e Ringo na bateria em 11 takes. Dois dias depois, John colocou a voz. Dia seis de maio finalizaram com vocais de John, Paul e George. Na mixagem a voz de John está nos dois canais (soa como se fossem gravadas em separado), baixo, bateria e violão à esquerda, baixo e vocal no centro, solo à direita, final centro.



LOVE YOU TO




Primeira canção dos Beatles em estilo indiano via George, com uma letra que mistura pinceladas de filosofia indiana com declaração de amor à mulher, Pattie Boyd, com quem casara em janeiro. George convidou músicos do Círculo Musical Asiático de Londres para tocar cítara, tambura e tabla (esta por Anil Bhagwat, único identificado).

A base foi gravada no dia 11 de abril com os indianos mais Paul no baixo e George no violão, guitarra, cítara e vocal. Finalizada no dia 13, quando Ringo tocou pandeiro, George e Paul gravaram vocais e Harrison uma guitarra distorcida. O nome provisório da canção era Granny Smith, uma marca de maçã.

George compôs na cítara porque estava se envolvendo cada vez mais com a música indiana e seu professor era o lendário Ravi Shankar (foto). O percussionista Bhagwat contou que um amigo telefonou para perguntar se ele podia participar de uma gravação: “Só soube que era com os Beatles quando um Rolls Royce veio me buscar. Quando cheguei em Abbey Road havia muitas meninas com garrafas térmicas, bolos e sanduíches acampadas à espera da saída dos Beatles. George pediu que eu tocasse no estilo de Shankar e me deixou improvisar, o que foi muito bom, porque a música indiana é baseada em improvisos. Tive muita sorte, eles colocaram meu nome nos créditos. Tenho muito orgulho, eles eram os maiores. Foi um dos melhores momentos de minha vida.” John Lennon não tocou nesta música.


Na mixagem, a voz com dobra esquerda-direita, vocais no centro ao fim de cada estrofe e os instrumentos indianos nos dois canais.


HERE THERE AND EVERYWHERE



Paul tinha o esboço desta canção num gravador durante as filmagens de Help em março de 1965 e John a considerou melhor do que as dele na época. Quando foi gravá-la, Paul se inspirou na voz suave e pequena da cantora Marianne Faithfull, a namorada de Mick Jagger. “Eu cantei meio que num falsete e fiz uma dobra. Minha encarnação de Marianne Faithfull.” Uma bela canção de amor inspirada na namorada, Jane Asher, uma das melhores de um grande compositor de baladas. Gravada em três dias, com especial atenção aos vocais de John, Paul e George, sobrepostos em várias camadas. No dia 14 de junho eles gravaram quatro takes com Paul no violão, George na guitarra e Ringo na bateria. No dia 16 mais nove takes, com o 13º aproveitado para finalização. Paul gravou baixo e voz e os três fizeram novos vocais. No dia 17 Paul gravou um novo vocal um pouco diferente do anterior. Na mixagem, ficou a voz com dobra nos dois canais, com guitarra solo e vocais à esquerda, baixo e bateria e guitarra base na direita. Houve uma ligeira acelerada na voz de Paul. 

P.S. Marianne Faithfull tinha ascendência nobre austríaca. Quando começou a circular pela cena rock inglesa, o empresário dos Rolling Stones, Andrew Oldham, fascinado por sua beleza deslumbrante, resolveu torná-la cantora. Com uma voz pequena, ela gravou As Tears Go By, de Jagger e Richards e fez sucesso. Foi namorada de Mick Jagger de 1966 a 1970. Não saiu ilesa do meio rock, viciou-se em drogas pesadas e quase foi pro buraco. 


YELLOW SUBMARINE




Paul estava quase dormindo quando lhe veio a ideia de um submarino amarelo e o verso “We all live in a yellow submarine”. Daí pensou em fazer uma canção infantil:

“Gosto de coisas infantis, da imaginação das crianças, então não me pareceu estranho pensar que aquilo era a ideia de uma criança. Pensei logo no Ringo com aquele tipo de tiozão. Decidi fazer sem que precisasse de um vocal mais complicado porque Ringo não gostava de cantar. Daí criei a história de um velho marinheiro contando casos de sua vida, de morar num submarino amarelo.”

O cantor Donovan colaborou com um verso sem receber crédito ou parceria: “Paul foi na minha casa, disse que estava fazendo uma canção sobre um submarino amarelo e que lhe faltava um verso. Ele não teria alguma sugestão?” Donovan alega ter contribuído com “Sky of blue and sea of green, in our Yellow Submarine".

As imagens da canção, ainda que com inspiração infantil, cabem perfeitamente no cenário psicodélico da época. O destaque são os ruídos de submarino feitos no meio da canção, onde seria o solo, com todos contribuindo com alguma coisa graças à sala de efeitos da EMI, que tinha todo tipo de bugiganga. John encheu um balde de água e fez borbulhas com um canudo, uma banheira antiga de metal foi enchida de água e correntes arrastadas no fundo, o Rolling Stone Brian Jones quebrou vidros e tocou uma ocarina. Dois funcionários, John Skinner e Terry Condon, fizeram sons estranhos, tocaram dois sinos de navio, um apito para avisar de nevoeiro, moedas espalhadas, etc

Os vocais foram feitos com um monte de gente: Mal Evans (faz tudo da banda) que tocou bumbo, Neil Aspinall (assessor dos Beatles), George Martin (produtor), Geoff Emerick (engenheiro), Pattie Harrison (mulher de George), Brian Jones, Marianne Faithfull e Alf Bicknell (motorista da banda). Finalizadas as gravações, Mal pendurou o bumbo nos ombros e saiu pelo estúdio batendo e cantando o refrão com os demais atrás dele em fila. Tudo isso aconteceu no dia primeiro de junho.

Antes disso, no dia 26 de maio, depois de três horas de ensaio, gravaram as bases com John no violão, Paul no baixo, George no pandeiro e Ringo na bateria. O quarto take foi considerado o melhor e recebeu a voz de Ringo e os vocais de John, Paul e George. No dia primeiro de junho John, direto da sala de eco, gravou o vocal distorcido de resposta da segunda parte e, junto com Paul, algumas vozes inseridas no meio como ordens de comando (“Full speed ahead mr. captain” etc). Ringo também gravou uma:  "Cut the cable! Drop the cable!" O sopro que aparece no final da segunda estrofe é da marcha  Le Rêve Passe, de 1906, tirada de um 78 rotações.


Na mixagem os efeitos ficaram à direita, bateria, violão, baixo e maracas à esquerda, voz e vocais à direita. Vocais passam para a esquerda no último refrão.


SHE SAID SHE SAID




She Said She Said, de John, surgiu de uma noite de viagens de LSD em Los Angeles no verão de 1965, durante uma turnê dos Beatles, numa casa alugada para a banda em Mulholland Drive. Eles receberam a visita de Roger McGuinn e David Crosby, da banda The Byrds. O ator Peter Fonda, também chapado de ácido, chegou e começou a perturbar. George estava numa bad trip, achava que ia morrer. Peter Fonda o consolou:

“Eu lhe disse que não devia ter medo, que só precisava relaxar. Falei que sabia como era estar morto porque, quando tinha 10 anos, dei um tiro no estômago e meu coração parou três vezes na mesa de cirurgia porque perdi muito sangue. John estava passando e me ouviu dizer “I know what it’s like to be dead”, virou para mim e disse ‘You’re making me feel like I’ve never been born. Who put all those shit in your head?,” conta Peter Fonda.

A versão de John é diferente: Ele conta que Peter Fonda ficou enchendo o saco pela casa repetindo “I know what it’s like to be dead”: “A gente não estava a fim de ouvir aquilo, é assustador quando se está voando alto. Eu não sabia quem ele era, não tinha feito Easy Rider ainda, era só um chato de óculos escuros falando aquilo pela casa.”

Chato ou não, John aproveitou a fala para a letra, só trocou o ele por ela: “She said, ‘I know what it's like to be dead. I know what it is to be sad.’ And she's making me feel like I've never been born. I said, ‘Who put all those things in your head? Things that make me feel that I'm mad’. And you're making me feel like I've never been born.”

Esta entrou de última hora porque se tocaram que faltava uma para as 14, número convencional de faixas na Inglaterra da época. Daí foi gravada no último dia, 21 de junho, numa sessão de nove horas que incluiu finalização técnica em várias faixas do álbum.

John, George e Ringo ensaiaram 25 vezes e gravaram três takes da base. Sobre a terceira John gravou a voz e o vocal com George. Depois o baixo, tocado por George e um órgão por John. Paul não participou da gravação. “Acho que a gente tinha brigado, eu soltei um ‘fuck you’ e fui embora.”


Na mixagem as guitarras estão à direita, baixo e bateria à esquerda. Voz e vocais (só Lennon) no centro. No final John e George intercalam versos.


GOOD DAY SUNSHINE




O ensolarado verão de 1966 junto com um sucesso da época, Daydream, do grupo americano Lovin Spoonful, inspiraram Paul a fazer esta canção. Ele e John trabalharam na mansão de Lennon em Kenwood. A letra é pura exaltação de um inglês deslumbrado com o sol, que pouco aparece por lá: “I need to laugh, and when the sun is out. I've got something I can laugh about. I feel good, in a special way, I'm in love and it's a sunny day.”

Em oito de junho gravaram três takes da base com Paul ao piano e Ringo na bateria. Sobre o primeiro colocaram a voz de Paul, os vocais de John, Paul e George e o baixo de Paul. No dia seguinte, Ringo gravou pratos, algumas levadas, George Martin o solo de piano. Na mixagem, o piano de Paul, baixo e bateria estão à esquerda, o piano tocado pelo produtor George Martin e uma segunda bateria que só aparece no refrão do lado direito. Voz e vocais no centro. No final o andamento é acelerado e os vocais ficam em pan (direita-esquerda-direita).



AND YOUR BIRD CAN SING   




Canção de John Lennon com uma letra estranha que ele nunca explicou. Para quem estaria falando em versos como “You say you've seen the seven wonders, And you bird is green. But you can't see me”. E que pássaro seria esse. Há uma especulação de que se trata da suposta rivalidade entre Beatles e Rolling Stones. John os consideraria copiadores de sua banda e a Bird, gíria inglesa para mulher, seria Marianne Faithfull.

Dois takes foram gravados no dia 20 de abril com Paul e George tocando o mesmo riff simultaneamente, John na base e Ringo na bateria, mais vocais por John, Paul e George e baixo por Paul. Esta versão foi descartada e entrou no segundo volume da Antologia.No dia 26 de abril recomeçaram com 10 takes, de três a 13, com o último escolhido para a versão final, com os mesmos acréscimos mais vocais, palmas e pandeiro. O encerramento veio do take seis.


Na mixagem as guitarras solo de John e George estão no centro, a guita base no canal esquerdo com a bateria,o baixo no centro com palmas eventuais, um contratempo e baixo na direita.


FOR NOONE 




Balada de Paul sobre um fim de romance quando estava com a namorada, Jane Asher (foto), em Klosters, Suíça, para esquiar. Uma das melhores canções dele, o arranjo tem um acento barroco, provável influência das audições de música clássica apresentadas por Jane. Paul tinha brigado com Jane, nada definitivo porque só se separaram em 1968, daí versos como “Your day breaks, your mind aches, you find that all the words of kindness just linger on when she no longer needs you.(…) And in her eyes you see nothing. No sign of love behind the tears. Cried for noone, a love that should have lasted years”.

Paul estava fascinado pela trompa na época, instrumento que cabia perfeitamente num arranjo que tinha piano, cravo e baixo tocados por ele, com Ringo na bateria e pandeiro (John e George ficaram de fora nessa). Daí Paul pediu ajuda a George Martin, que contratou um dos melhores do país, Alan Civil, da Orquestra Sinfônica da BBC.

Civil contou: “George [Martin] me convidou num telefonema para fazer um solo numa música dos Beatles. Pensei que o nome da canção fosse “For Number One”, porque estava escrito “For No One”. A gravação estava num tom estranho, nem si bemol nem si maior, o que representou uma certa dificuldade para afinar meu instrumento. Não consegui entender o que Paul queria, então inventei algo num registro médio ao estilo barroco e toquei várias vezes.”

George Martin conta que Paul não entendeu a maravilha que Alan fizera: “Quando alcançamos a versão definitiva, Paul perguntou se ele não conseguiria fazer melhor e Alan perdeu a paciência com ele,” conta Martin. O músico recebeu 52,50 libras e o crédito que lhe valeu muitos outros trabalhos. Alan morreu em 1989 por problemas renais.

A gravação começou no dia nove de maio em 10 takes com Paul ao piano e Ringo na bateria. Ao take 10 Paul acrescentou o cravo e Ringo bateria. No dia 16 de maio Paul colocou a voz e Alan Civil gravou o solo no dia 19.


Na mixagem cravo e piano no canal direito, voz no centro, baixo, pandeiro e bateria abafada (muted drums) no canal esquerdo.


DR ROBERT




Canção inspirada no médico alemão Robert Freymann, radicado em Nova York, conhecido entre os famosos por aplicar injeções de vitamina B-12 misturadas com estimulantes e pela generosidade em passar receitas para remédios tarja preta. John: “A ideia foi minha, fala basicamente de mim. Eu era o cara que carregava as pílulas nas turnês nos primeiros tempos. Depois ficou a cargo dos roadies. Quando as tínhamos no bolso ficavam soltas para a gente poder descartá-las se desse problema.”

(Parêntese: Os Beatles começaram a tomar pílulas estimulantes em Hamburgo, na Alemanha, para aguentar as jornadas de oito horas no palco dos bares Indra e Kaiserkeller, numa região barra pesada de prostituição e bandidagem. Estas temporadas foram de 1960 a 1962 e foi lá que eles se formataram para dominar o mundo.)

Paul: “Achamos engraçada essa ideia. Um médico que te deixava aplicado. Nunca fomos ao médico para isso, mas existia uma espécie de moda em torno dessas coisas, de tomar vitaminas e de trocar o sangue.”

Gravada em duas sessões nos dias 17 e 19 de abril. No primeiro, sete takes da base com John na guitarra e harmônio, Paul no baixo, George na guitarra e maracas e Ringo na bateria. No dia 19, sobre o take sete, gravaram os vocais e mixaram em mono. A voz de John e a guitarra de George tiveram o efeito de ADT, Automatic Double Tracking, uma invenção dos engenheiros da EMI que permite fazer uma dobra sem que o músico precise gravar outra vez. O sinal passa por um segundo gravador e volta para o primeiro com um atraso de alguns pentelésimos de segundo. 

O doutor Freymann morreu em 1987.
Na mixagem a voz, vocais e duas guitarras nos dois canais, maracas e bateria no centro, baixo e órgão à direita.


I WANT TO TELL YOU




Canção de George que ele disse ser “sobre a avalanche de pensamentos difíceis de escrever, falar ou transmitir.” Diz a letra: “I want to tell you, my head is filled with things to say. When you're here, all those words they seem to slip away,” na verdade uma manifestação de timidez. Incluía reflexos de filosofia oriental ao dizer coisas como “it’s only me it’s not my mind that is confusing things.”
George sempre demorava a dar um título para suas músicas, daí John encarnou que esta seria Granny Smith Part Friggin' Two, já que Love You To tinha sido chamada de Granny Smith. Emerick sugeriu Laxton’s Superb, outra marca de maçã, até que virou I Don’t Know, quando George Martin perguntou de novo o título e George respondeu que não sabia (indecisão curiosa porque o título óbvio é o verso repetido várias vezes).

No dia dois de junho gravaram cinco takes da base com George na guitarra, Paul no piano e Ringo na bateria. Sobre o take três, escolhido como melhor, gravaram a voz de George com dobra, os vocais de John e Paul, maracas de Ringo e palmas de todos. No dia seguinte, Paul gravou o baixo.

Na mixagem guitarra, bateria, piano e maracas à esquerda, voz com dobra, vocais e palmas à direita. A voz de George muda para o centro na última estrofe.


GOT TO GET YOU INTO MY LIFE




Influenciada pelos discos da gravadora de música negra Stax, com uma seção quente de sopros. O autor, Paul McCartney, revelou que a letra não se refere a uma mulher como os versos parecem indicar (“Ooh then I suddenly see you, Ooh did I tell you I need you Ev'ry single day of my life?”): “Compus depois de ter sido apresentado à maconha. Até então eu era um careta, mas quando experimentei a erva senti uma expansão mental. É uma ode à maconha,” explicou Paul.

A gravação se estendeu por seis sessões, de sete de abril a 20 de junho. No primeiro dia gravaram uma base, colocada no segundo volume da Antologia. No dia seguinte, mudaram o arranjo e gravaram a base com Paul no baixo, John na guitarra, George na guitarra solo e Ringo na bateria. No dia 11 de abril gravaram uma guitarra e a deixaram de lado até 18 de maio quando gravaram os sopros. Foram três trompetes (Eddie Thornton, Ian Hamer, Les Condon) e dois sax tenor (Alan Branscombe e Peter Coe). Eddie e Peter eram da banda Blue Flames, acompanhante do cantor Georgie Fame, os demais músicos de estúdio.

Coe contou que não houve partitura. Paul sentou ao piano e mostrou o que queria, daí fizeram vários takes com a base nos fones até que John, sentado no controle, levantou o polegar num gesto de aprovação e Paul concordou. Ele disse que George também assistiu à gravação enquanto Ringo ficou num canto jogando dama.No dia 17 de junho, George gravou mais uma guitarra e a canção foi finalizada tecnicamente no dia 20.


Na mixagem os sopros estão no canal direito, baixo, bateria e guitarra à esquerda, o solo de guitarra no centro, voz no centro com dobra no refrão.


TOMORROW NEVER KNOWS




John Lennon ficou fascinado com o LSD e toda a psicodelia associada a ele. Como uma espécie de guia recorreu ao livro The Psychedelic Experience, do professor Ph.D. de Harvard que virou guru do psicodelismo, Timothy Leary, com alguns colegas, baseado no Livro Tibetano dos Mortos. Ele falava na droga como uma ferramenta para libertar o homem do domínio do ego e lhe dar uma vida plena e integrada ao todo. Pura balela, como o próprio Lennon constatou depois de dois anos ingerindo doses constantes de LSD que o deixaram um caco. Por pouco ele não teve a piração permanente de muitos que foram a fundo no ácido lisérgico.

Tomorrow Never Knows nasceu dessa empolgação dos primeiros tempos da era psicodélica. John gravou algumas frases do livro tibetano num gravador:

“You must try to maintain faith and trust in the potentiality of your own brain and the billion-year-old life process. With your ego left behind you, the brain can't go wrong.

Trust your divinity, trust your brain, trust your companions.

Whenever in doubt, turn off your mind, relax, float downstream."

Quando ouviu a gravação sob efeito do LSD, Lennon teve a ideia de fazer uma tradução musical do conceito. Com apenas um acorde, nasceu a canção com título provisório de Mark 1 ou The Void. Só ganharia o título definitivo quando John ouviu uma frase nonsense de Ringo, a segunda que ele batizou com uma de suas tiradas: a outra foi A Hard Day’s Night.

O livro que inspirou Tomorrow Never Knows

Foi a primeira canção registrada para o álbum. No dia seis de abril Paul e George gravaram guitarras, Paul tocou baixo e Ringo a impressionante levada em três takes (a boa foi o terceiro). Tecnicamente era a primeira vez que se ouvia um som de percussão tão potente. O engenheiro Geoff Emerick colocou um casaco de lã dentro do tom tom de Ringo para abafar o som, posicionou um microfone bem perto e gravou com muita compressão e eco. O resultado foi trovejante.

Paul na época descobriu que se tirasse a cabeça de apagar do seu gravador – Grundig ou Brennell, segundo fontes discrepantes – poderia sobrepor sons. Com isso foram feitos cinco loops gravados simultaneamente, no dia sete, num único canal no estúdio dois com os sinais vindos de diferentes partes do prédio, com o uso de lápis para segurar alguns grandes demais. Uma risada processada e invertida de Paul faz o som que se ouve na faixa como uma espécie de canto indígena. Dois outros foram feitos com um mellotron (precursor do sintetizador) com sons de flauta e cordas distorcidas, um acorde orquestral e uma frase ascendente de cítara por Harrison (abre a música).

A canção foi terminada no dia 22 de abril com gravação de vocais, órgão por John, pandeiro por Ringo e um solo invertido de guitarra por Paul. Há versões conflitantes de que esse solo seria um trecho do feito por ele em Taxman ou seria um outro solo.

Na hora de botar a voz, Lennon pirou completamente. Queria que sua voz soasse como o Dalai Lama pregando do alto de uma montanha no Tibete. E ainda pediu um vocal como o de mil monges. George Martin ponderou que ir ao Tibete seria caro demais e resolveu por ali mesmo. Na primeira parte o vocal de John é feito com dobra via ADT.

A partir do verso “That love is all and love is everyone”, a voz está passando por uma caixa rotativa Leslie, um modulador do órgão Hammond. Os engenheiros fizeram uma alteração no circuito para passar a voz por ela, que adquiriu um timbre fantasmagórico que assombrou todo mundo no estúdio. Emerick conta que a partir dali os Beatles ficaram insistindo para tudo passar pela Leslie. John queria fazer outra experiência: ser amarrado de cabeça para baixo para cantar nessa posição. Ele chegou a pedir a Emerick para providenciar uma corda, o engenheiro fingiu que não ouviu e John esqueceu o lance.

Na mixagem baixo, bateria e voz no centro, lops de fita à esquerda, pratos, órgão, efeitos, guitarra invertida, vocal com dobra à direita.

That’s all folks. See you.



Fontes: Many Years From Now - Paul McCartney
The Beatles Anthology - Livro
The Complete Beatles Recording Sessions- Mark Lewinsohn
The Complete Beatles Chronicle - Mark Lewisohn
Revolution In The Head - Ian McDonald
Here There And Everywhere - My Life Recording The Music Of The Beatles - Geoff Emerick

The Beatles Through Headphones - Ted Montgomery
The Beatles Bible - web
John Lennon - Philip Norman (edição brasileira)
Shout! The Beatles In Their Generation - Philip Norman.