sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Canto Cego lança 'Valente' em show impecável no Imperator

Roberta e Rodrigo - Fotos de Cleber Junior

Um belo show de uma grande banda. Foi o que vi na noite desta quinta no Imperator, com o lançamento do álbum Valente pela banda carioca, egressa da Comunidade da Maré, Canto Cego. Roberta Dittz (voz), Rodrigo Solidade (guitarra), Magrão (baixo) e Ruth Rosa (bateria) são uma formação coesa que ataca com vigor e peso as composições. Os arranjos são bem variados e as letras caprichadas graças ao talento de Roberta, que é poeta e circulava neste meio antes de ser seduzida pela música, por isso define a banda como a poesia no rock. 


Roberta Dittz

A máquina motora da banda é a baterista Ruth Rosa, que merece o troféu João Barone pela execução precisa, certeira e furiosa das canções. Ela bate pesado na caixa, vira muito, suas levadas estão sempre mais no prato de condução do que no ximbau, gosta de esporro. E tem cara de menina, cheguei até a perguntar sua idade – 25 anos – porque a achei muito nova para tocar bem daquele jeito. Seu kit Tama toma uma surra no show e cheguei a pensar noutro grande baterista, Kadu Menezes, que tem um estilo parecido (Não estou usando seu santo nome em vão Kadu, juro).



Ruth Rosa

Rodrigo se faz digno de empunhar uma Gibson Les Paul. Ele é instrumentista de poucos solos, prefere as levadas distorcidas e poderosas, só faltou fazer o moinho de Pete Townshend porque vi reflexos do guitarrista do Who em alguns momentos. Magrão empunha um Fender Jazz Bass com som seco, quase uma segunda guitarra, que faz pendant com os couros e pratos de Ruth. Além da voz limpa e segura, Roberta Ditzz é uma graça, com longos dreadlocks e roupa de bailarina, com estudos de teatro no currículo, o que reforça sua bela presença de palco.



Ayama Prado e Rachel Araújo nas alfaias

A produção foi caprichada. Um telão com projeções em cor e p&b, cortinas brancas, o palco limpo, sem amplificadores, o que reforça a estética do show, com a bateria no meio. E o som impecável, como quase sempre no Imperator. 

A banda tocou a íntegra do álbum Valente, uma obra que demorou três anos para ficar pronta. Fala Roberta: “Começamos a gravar em janeiro de 2014 com Nuvem Negra. Depois em Outubro de 2014 gravamos 5 faixas, que virariam o EP Valente. Em outubro de 2015, decidimos que Valente viraria um disco e gravamos mais 6 faixas. Não fizemos crowdfunding. Todos os nosso cachês ainda são revertidos completamente pras despesas da banda.”



Roberta e Simone Mazzer

Entraram também canções anteriores a Valente, como conta Roberta: “Acrescentamos músicas do início da banda como Parque das Imagens, Novo Canto, Retorno e Corre Louco. E duas releituras novas, de As Rosas não falam (Cartola) e Admirável Gado Novo (Zé Ramalho).” Aliás duas excelentes recriações. 




O falecido mestre da Mangueira certamente não entenderia nada, mas sua fina poesia recebeu uma roupagem pesada, mas respeitosa, em nada distorceu a bela mensagem. Já Zé Ramalho é do ramo, creio que adoraria seu hino político pela banda com o reforço das alfaias de Ayama Prado e Rachel Araújo, que também brilharam em A Fúria, a ponte entre as duas canções foi feita pelo acorde de introdução de Da Lama ao Caos, da Nação Zumbi.


Sam Shankara

Outro convidado foi Sam Shankara na cítara, primeiro numa introdução sozinho tocando o instrumento meio à brasileira, não exatamente na cartilha indiana, depois colore a levada de Vão. A cantora Simone Mazzer, de timbre mais grave que o de Roberta, reforça os vocais em Imaginário e As Rosas Não Falam. 




O Canto Cego faz parte do coletivo A Cena Vive, uma união de bandas de rock cariocas que batalham por todos os espaços possíveis. É uma geração muito solidária, por isso Roberta em certo momento começou a falar de músicos presentes de outras bandas e foram perto de 20 nomes. O desafio destas bandas é vencer o bloqueio do mainstream, ocupado por música de baixa qualidade. 

Magrão


No show de ontem algumas músicas seriam hits se os canais estivessem abertos. Roberta recita textos poéticos de sua autoria, ao disco ela dedicou um texto fresquinho que tinha como motto Voa Valente, Voa. Que não só ela e esta nova geração de bandas voem alto e furem o bloqueio, porque tem muita coisa boa pra mostrar.

SETLIST
1. Intro
2. Contra-canto
3. Poesia "Valente"
4. Maestrina
5. Nuvem Negra
6. Sublime
7. O Dono da Ordem - Pparceria Roberta Dittz e Marcelo Yuka
8. Parque das Imagens
9. Novo Canto 
10. Imaginário - com Simone Mazzer
11. As Rosas Não Falam - Cartola - com Simone Mazzer
12. Vão - com solo de cítara de Sam Shankara
13. Mundo Voraz
14. Gigante
15. Admirável Gado Novo - de Zé Ramalho - com alfaias - Ayama Prado e Rachel Araújo
16. A Fúria - com alfaias
17. Zé do Caroço – de Leci Brandão
18. Eu não sei dizer – de Marcelo Yuka
BIS
19. Retorno
20. Corre Louco




FICHA TÉCNICA:
Bruno Carvalho e Leandro Cortez - Som
Celso Rocha - Iluminação
Miguel Bandeira, Marco Ribeiro e Flavio Monteiro - Projeção Visual
Roadies - Flavinho e Milton Rock
Wanderley Gomes - Cenário
Gustavo Genton - Produção
Paulo Lopez - Diretor de Produção

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