sábado, 10 de setembro de 2016

Camisa de Vênus e Plebe Rude cospem fogo no Circo Voador

Marcelo Nova - Fotos de Cleber Junior

Camisa de Vênus e Plebe Rude fizeram nesta sexta uma daquelas noites famosas do ambiente único do Circo Voador. Plateia lotada que pulou, cantou e se bateu em rodas de pogo, tudo como nos anos 80.  Marcelo Nova, do Camisa, cantou apenas metade do show, o povo se encarregou do restante. Não acho certa esta atitude, o fã vai ao show cantar com a banda e não no lugar dela. Foi o que fez a Plebe Rude, afiada com Clemente animadíssimo aos saltos e Philippe Seabra mandando ver. Ah, e quase ao final do segundo show, o coro: "Fora Temer."



Philippe Seabra

Achei o Camisa frio, foi embalado pela energia da plateia. A banda perdeu a energia bruta do passado e se tornou uma banda virtuosa com dois guitarristas que esbanjam solos, o que provoca uma certa dicotomia com as letras e a postura de Marcelo, que remetem ao contexto musical do punk.  A introdução foi uma instrumental de seis minutos repleta de solos. Será o Camisa mesmo? 



Clemente

As duas bandas estão lançando discos. O Camisa Dançando da Lua, o primeiro em 20 anos. A Plebe Nação Daltônica, que é de 2015, mas Philippe me disse que só agora conseguiram uma data pro Rio de Janeiro. O Camisa tem dois originais, Marcelo e Robério Santana no baixo, a Plebe idem, Philippe e André X no baixo, a entrada, há 12 anos, de Clemente deu um gás na Plebe porque, além de mandar bem no palco, é um dos músicos mais importantes do rock brasileiro, líder dos Inocentes que estava na primeira banda punk do Brasil, a Restos de Nada, formada em 1978 em São Paulo.



Roberio Santana - Camisa de Venus

Antes da entrada do Camisa já se ouvia na plateia o bordão Bota Pra Fudê, que seria a música de abertura, com o comentário, mais adiante, de Marcelo de que, nos 36 anos de Camisa, não teve uma única vez em que saísse de casa sem ouvir isto e se vangloriou de que nenhuma banda do mundo, mesmo as maiores, tinha grito de guerra igual. Verdade e um grito que se espalhou para outras bandas, acabou virando canto de guerra do rock brasileiro.





Depois da abertura, ele metralhou vários hinos que a plateia cantou com ele e pra ele. Hoje, a impiedosa Bete Morreu e a primeira do novo disco, Raça Mansa, que chamou de o novo hino nacional: “Fui apresentado ao novo imbecil que, vejam só, já é celebridade. Então todos ergueram um brinde à nossa própria mediocridade. Seja bem vindo ao nosso paraíso, essa lama que encanta e seduz. Não esqueça sua oração e depois apague a luz. Nós dançamos a dança, nós cancelamos a luta, a nossa raça é mansa, a nossa massa é bruta.” Como se vê, Marcelo continua afiado nas letras. 



André X - Plebe Rude

Do novo álbum rolou ainda Dançando na Lua, Sibilando Como Cascavel, Manhã Manchada de Medo, intercaladas com conhecidas como Gotham City, estendida como sempre com citação de Born Under a Bad Sign, A Ferro e Fogo, Só o Fim. E a sarcástica Muita Estrela Pouca Constelação, parceria com Raul Seixas, deboche de todo mundo numa suposta festa com sobra para a imprensa: "E o jornalista ele quer bajulação. Pois new old é a nova sensação. A burrice é tanta, tá tudo tão a vista. E todo mundo posando de artista."


Drake Nova - Camisa de Venus

Antes da versão de My Way, ele disse que a música nunca tocou no rádio, não teve nenhuma crítica e se tornou um sucesso graças aos fãs. Depois de cantá-la com palavrões e tudo ele disse que Frank Sinatra estava se contorcendo no túmulo. Se for assim não só ele, porque My Way é uma versão feita por Paul Anka da canção francesa Comme d'Habitude, de Claude François e Jacques Reveux, que ninguém conhece. Na reta final  o rockão Simca Chambord com citações de Be Bop A Lula (Gene Vincent) e Whole Lotta Shakin' Goin' On (Jerry Lee Lewis). Delírio, pulação, mais duas, Silvia e Joana D’Arc e a Plebe se vai. 



Leandro Dalle

Entrou 23h34, saiu 1h16. Não sei se é por conhecer a banda desde o princípio que acho estranho o contraste das letras e da performance do Marcelo, junto com a sonoridade da banda, com duelos de solos e tudo, sem nenhum desmerecimento pros excelentes Roberio Santana (baixo), Drake Nova (guitarra), Leandro Dalle (guitarra), Célio Glouster (bateria). O povo e amarrou, eu também, com esta ressalva.



Célio Glouster - Camisa de Vênus

Troca de palco.... 1h53 Plebe Rude em cena (é tradição no Circo banda entrar duas da manhã). Uma introdução classuda com orquestra e Dom Clemente entra no vocal com Philippe em Brasília, do disco de estreia O Concreto Já Rachou, 30 anos neste 2016. Do alto de seu meio século, Clemente pula e corre pelo palco cheio de energia como se o tempo não passasse pra ele, muitas vezes agachado para ficar mais perto da turma do gargarejo e estendeu o microfone várias vezes para os fãs cantarem. 



Clemente e André X - Plebe Rude

Philippe insistiu na coerência da banda ao longo de sua história, ele falou muito nisso num papo que tivemos na quinta de tarde ali mesmo no Circo. É a palavra valor maior do trabalho da Plebe. Philippe é americano, podia fazer o que muitos brasileiros sonham, dar as costas ao Brasil, mas diz que adora seu país de adoção e colabora, com sua música, para o aperfeiçoamento político e social daqui. 



Clemente - Plebe Rude

Ele pediu desculpas pelo que chama de hipocrisia de artistas que só começaram a se politizar depois que viram povo na rua. Isso antes de tocar Censura, do segundo disco Nunca Fomos Tão Brasileiros (1987), que ainda chegou a pegar a Geração 80 do Rock Brasil. Do disco novo, Anos de Luta, título alusivo a Dias de Luta, do IRA! “É pedir demais, me diga, coerência da própria geração? Mas se você não vê a diferença. É daltônico como o resto da Nação. Os anos de luta, será que foram em vão? (entretenimento no final). O desperdício de toda a geração (entretenimento no final). Renato Russo em Parque de Exposição (entretenimento no final).”





Teve uma bela homenagem a Redson, líder do Cólera, um dos maiores expoentes do rock brasileiro, morto em 2011, com dois hinos dele, Medo, sobre um mundo em que se dá mão só pra empurrar e Pela Paz Em Todo Mundo, sobre o pacifismo que ele defendia, junto com uma preocupação pela ecologia. A banda cult de Brasília Escola de Escândalos foi homenageada com sua música mais conhecida, Luzes (tem no you tube) e outro ícone punk The Clash teve  seu Rock The Casbah em delirante união palco-plateia.





Ufa! Tou escrevendo muito. A Plebe preparou um setlist impecável. Fez um medley do já citado segundo disco com Nunca Fomos Tão Brasileiros – 48 – Consumo - Nova Era Techno. E um segundo medley com Proteção que teve Clemente cantando o hino Pátria Amada, dos Inocentes, citação de Selvagem?, dos Paralamas, e Censura novamente. Eles tocaram todas as faixas do aniversariante O Concreto Já Rachou, com Minha Renda anunciada em áudio pelo Chacrinha e a faixa de abertura encerrou a noite, às 3:16, Até Quando Esperar. Os cinquentões do Rock Brasil continuam a cuspir fogo.

Um comentário:

  1. O álbum aniversariante é o concreto já rachou. Sobre o camisa, a galera cantar é algo comum nos shows desde a turnê do Viva quando ganharam mais espaço e hits, nada de perder energia, talvez sentado pense assim mas no meio da galera ambos os shows foram perfeitos. De resto boa resenha.

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