terça-feira, 28 de março de 2017

As gravações de Sgt Pepper's em 28 de março de 1967

Ringo, John,  Paul e George

50 anos de Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band – The Beatles
No dia 28 de março John Lennon colocou voz em Good Morning Good Morning, canção inspirada num comercial de flocos de milho Kellog’s. Ambientada numa fazenda, a letra fala de coisas cotidianas como ir trabalhar na cidade, ficar bodeado e depois se sentir bem, tem a morte de um homem num hospital, o médico diz que nada mais há a  fazer e manda chamar a mulher do moribundo.
É a quarta sessão desta música depois de três anteriores em oito e dezesseis de fevereiro e 13 de março. John colocou a voz no take nove, preenchendo o quarto e último canal de gravação. Uma redução foi feita pra dois canais que receberam solo de Paul McCartney e os vocais de John e Paul com dobra automática  (ADT – Automatic Double Tracking, uma invenção dos engenheiros da EMI). No dia 13 de março já rolara outra redução para acrescentar três saxofones, um trombone, uma trompa.


Rabiscos de John para  a ordem dos animais em Good Morning Good Morning

John decidiu que o cantar de um galo abriria a canção e o som de vários animais seria o final. O engenheiro Geoff Emerick conta que John queria que um animal assustasse ou devorasse o seguinte. Não chegou a ser bem assim, mas foi na sequência que ele pediu: Galo canta, gato mia, cães latem, cavalo relincha, carneiro bale, leão ruge, elefante resfolega, uma caça à raposa com galope de cavalos e uma corneta, uma vaga muge e uma galinha cacareja. A bicharada veio da biblioteca de efeitos da EMI. O volume 35 para Animais e  o 57 para a caça à raposa. A sequência dos animais foi montada, mas só colocada na música no dia seguinte, 29 de março. Nesta mesma sessão trabalharam em Being For The Benefit of Mr Kite, de John Lennon, inspirada num pôster deum circo vitoriano que ele achou num antiquário e descreve as atrações do espetáculo. Para gravar John pediu teclados antigos para dar uma ambiência vitoriana. O produtor George Martin descolou um harmonium, gravações de órgãos a vapor, gaitas e glockenspiel, uma espécie de xilofone. Nessa noite George Harrison, Ringo, Mal Evans (faz tudo da banda) e Neil Aspinall (assessor de imprensa) tocaram gaitas, John órgão e Paul um solo. Não foi finalizada. A sessão, no estúdio dois da EMI, foi de sete da noite às 4 e 45 da madrugada.

No estúdio dois com a máquina de quatro canais


segunda-feira, 20 de março de 2017

Frejat inaugura Paradise Garage com show arrasador

Frejat - Fotos de Luck Veloso

Estive sábado em Teresópolis para a inauguração da casa Paradise Garage, com o som a cargo do DJ Luck Veloso e o show de Frejat. Casa cheia e muita empolgação, o público cantou praticamente o show inteiro na mistura que o ex-Barão Vermelho faz de canções de sua ex-banda, da carreira solo e de outros compositores, algumas adaptadas para o formato rock, nem todas com bom resultado.
O espaço da casa é dividido com uma loja/garagem (Paradise Garage Air Cooled) que vende peças para carros e se dedica à criação de carros customizados. Estavam expostos muitos fuscas de várias séries, o destaque um alemão de 1951 que sofreu transplante de um motor Porsche de potência além do que o veterano carro poderia suportar. Achei curioso várias kombis com as rodas rebaixadas, quase encostando no chão, uma bizarrice para este modelo de uso comercial.


Serginho Serra

O produtor e engenheiro de som Tavinho Albuquerque me explicou que o som da casa tem um nível de Rock In Rio, guardadas as devidas proporções. Potente, estalando de novo, mesas de som e luz de última geração. Sob a direção da produtora executiva Bruna Petit, funcionou de 19h30 às duas e brau da manhã, com o maior tempo a cargo do DJ Luck Veloso, que fez seleções de diversos estilos ao longo da noite: rock, soul, techno, com muita coisa de bandas brasileiras para fazer jus ao artista que tocou pouco depois de 23 horas. Como o palco é pequeno, improvisaram um backstage na loja/garagem cobrindo um painel de rodas metálicas com um pano preto.

DJ Luck Veloso

Frejat tem uma superbanda de músicos cascudos ao seu lado: Billy Brandão (guitarra), Bruno Migliari (baixo), Marcelinho da Costa (bateria) e o tecladista e fundador do Barão Vermelho, Maurício Barros. Frejat toca guitarra e violão. O som é poderoso, a rapaziada toca muito e o público embarca na onda com o repertório de 19 canções conhecidas.


Billy Brandão

Ele posiciona estrategicamente seis canções do Barão. Abre com Maior Abandonado, fecha com Pro Dia Nascer Feliz, a que sempre encerrava os shows do Barão, joga Por Você no meio, acompanhado pela plateia a plenos pulmões, e na reta final os hits Bete Balanço, Por Que A Gente É Assim e Puro Extase. Faz dois medleys, um de Tim Maia e outro de influências do rock com Roberto Carlos, Raul Seixas e Rita Lee.
Setlist. As canções de Tim Maia foram Não Quero Dinheiro, Não Vou Mais Ficar e Réu Confesso. As do Medley Rock Como Vovó Já Dizia, Quando e Agora Só Falta Você. Não tocou Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda


O destaque veio no bis com uma homenagem  improvisada a Mr. Rock’n’Roll, Chuck Berry, falecido no sábado, com Johnny B Goode, seu hino maior. Frejat leu a enorme letra numa dália no chão e chamou o guitarrista Sergio Serra, que foi do Barão, para tocar guitarra. Serginho, morador de Teresópolis, arrasou nos solos, divididos com Billy Brandão. Isso nos livrou de ouvir Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, uma das muitas canções alienígenas que inclui no repertório e que não cabem nele, Frejat. Idem Vambora, da Adriana Calcanhoto. Outras são bem adaptadas, como Você Não Entende Nada (Caetano Veloso). Eu sempre fico com impressão que ele quer negar sua persona rock, mas quando cantou Chuck Berry senti a plenitude rocker do Frejat que acompanho desde 1982 e de quem gosto muito.


Marcelinho Costa

Conversei com alguns locais para saber opiniões sobre como manter uma casa deste nível numa cidade pequena. O ingresso foi 120 reais, elitizante, a long neck a 12 reais. Um deles me disse que neste padrão a casa fica mais pra gente do Rio que tem casa lá ou passa fim de semana e que precisará do público local para se manter. 



Mauricio Barros

Os donos pensam alto, já programaram Erasmo Carlos, Paulo Ricardo e Call The Police para os próximos meses, uma grande atração por mês. às quintas-feiras haverá uma abertura para bandas locais e de fora, nomes menores. A casa funciona como restaurante para almoço no final de semana e é ancorada pela loja/garagem/ exposição de carros. É torcer para dar certo porque Teresópolis precisa de uma casa que leve gente de peso. O problema é que não dá para baixar o ingresso porque a lotação é de 400 e poucas pessoas, ou seja, para bancar artistas caros, tem que dar uma facada na bilheteria.


Frejat e Bruno Migliari

Me hospedei na casa dos amigos Mara Bastos e Ivo Ricardo, ex-Água Brava, que tem alguns chalés na sua imensa casa que até alugam pra gente de fora num esquema alternativo. Foi muito divertido. Sexta à noite assistimos num pub uma banda cover que Ivo e amigos tocam pra se divertir, bons músicos mas embolado,  porque não ensaiam, levam na brincadeira. O público nem aí, pulou e dançou clássicos do rock entornando todas.  


Ensaio da Dagô Afro Rock'n'Roll

No domingo assisti ao ensaio de um projeto interessante de Mara e Ivo, a Dagô Afro Rock’n’Roll, uma banda que mistura rock com temas afro e pontos de umbanda e candomblé. Vão lançar um EP com cinco músicas. O som está redondinho e estão na fase de finalização. 
Depois de um almoço no Caldo de Piranha, busão de volta pro Rio, felizmente estava mais fresco aqui porque saímos de Tere com 17 graus. 
P.S. Sergio Serra visitou no domingo. Muito bom revê-lo, gente da melhor qualidade, trocamos muitas histórias dos bastidores do Rock Brasil dos 80. Sergio foi da formação inicial do Barão e também do Ultraje a Rigor. 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Rock in Rio veste a cultura da Mama África


Les Tambours, do Congo. Fotos de Cleber Junior

A edição 2017 do Rock in Rio bate cabeça para a raiz de toda a música popular do século 20 para cá na Rock Street Africa apresentada à imprensa na tarde de terça-feira no imenso saguão da Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. Lá estava uma réplica da rua com fachadas de casas de diversas culturas, não necessariamente da África, como Irã e Iemen.  A curadoria está a cargo de Toy Lima, pesquisador e produtor que sabe tudo de música étnica e que deu um apanhado das atrações que atravessarão o Atlântico para representar a Mama África. Uma delas foi importada agora para um pequeno show, Les Tambours de Brazza, do Congo, apenas com sua faceta percussiva, mais tradicional. Toy me explicou que eles misturam tradição e modernidade com o acréscimo de guitarra, teclados e até bateria, o que soa estranho em meio à potência dos ngomas, percutidos de maneira intensa pelos músicos, que arrastam os tambores em coreografias. Antes deles se apresentaram bailarinos da Escola Carioca de Danças Negras que estarão todos os dias no festival.


Escola Carioca de Danças Negras

Les Tambours foi a única atração africana presente. Lá estavam nomes (brancos) no rock nacional, como a Blitz e Rodrigo Santos, este em concorrida carreira solo e agora às voltas com a conciliação de agendas, já que o Barão Vermelho está de volta. Evandro me disse que a Blitz se apresentará com convidados e ele estará com sua banda paralela  Evandro Mesquita e The Fabulous TAB para tocar clássicos do rock ao estilo acampamento.


Evandro Mesquita, Roberta Medina e Roberto Medina

Imprensa presente em peso, muitos convidados e um coquetel movido a comidinhas e long necks da Heineken, a cerveja oficial do festival, estendido até o final da tarde, que estava agradável, o maçarico deu uma trégua.  Senti na Rock Street Africa ecos da Tenda Raízes, da edição de 2001, mais aberta para músicas de outras partes do mundo e também do antológico festival de percussão Percpan, que rolava na Bahia. 


Toy Lima produtor da Rock Street Africa


Como já publiquei no Facebook, conversei com o criador do festival, Roberto Medina, sobre a polêmica The Who – Guns’n’Roses. Rockers puro sangue soltaram mísseis nas redes sociais pelo fato de a lenda inglesa estar, teoricamente, abrindo para o Guns. Ele disse que sempre pensou em trazer o Who mas a conta não fechava. Que era a banda mais pedida, mas pelos formadores de opinião, não tinha público suficiente para bancar sua vinda, pagar cachê e as demais despesas. Desta vez o Who estava na estrada com sua suposta turnê de despedida e se pensou numa solução para trazê-lo. E foi acoplada à popularidade do Guns. Pela importância do Who, num patamar muito acima da banda americana, colocou-se as duas como headliners, mesmo tempo de show,  com o Guns fechando. Achada a saída, saíram ganhando os fãs brasileiros do Who e o festival, que ganhou um upgrade em estatura por trazer o Who pela primeira vez ao Brasil.


(Acima um casal de modelos vestido ao estilo africano) Ainda escreverei muitas linhas sobre o festival. Abaixo as atrações da Rock Street Africa em texto do release da agência Approach, responsável pela divulgação e assessoria de imprensa. Para quem gosta de música étnica um presentão, para quem não gosta, uma oportunidade de conhecer a riqueza de algumas das culturas do grande continente vizinho.

Les Tambours de Brazza
A mais espetacular banda de percussionistas da África Central, o coletivo Les Tambours de Brazza é um ícone da chamada world music. Mesclando a tradição e modernidade dos vários ritmos do Congo em vertiginosas apresentações baseadas no som do Ngoma, tambores de acentos rítmicos variados que dialogam com instrumentos ocidentais como baixo e guitarra o grupo contagia e encanta. Criado em 1991, o Les Tambours, como são mundialmente conhecidos, já se apresentaram nos mais prestigiados festivais de todo o planeta mostrando a graça e pulsação de sua música e dança. São mágicos do ritmo e do corpo e trazem um pouco de sua ancestralidade em suas composições que vão do rap ao reggae.


Les Tambours

Ba Cissoko
Com muita energia no palco Ba Cissoko é um dos mais conceituados músicos de origem griot. Ele reinventa em suas composições a tradição Mandingue mostrando como multi-instrumentista o seu afro-beat pontuado por instrumentos como a Kora, o D´Gouni, guitarra, baixo e tomani - tambor falante usado em toda a África do oeste em países como Senegal, Gâmbia e Nigéria.
Seu último trabalho gravado, Nimissa de 2012 foi recebido com grande sucesso de público e crítica e atualmente Cissoko é um nome referência nos line-ups de muitos festivais descolados da Europa. Criado em 1999, o grupo de Ba Cissoko é uma das atrações mais esperadas da Street África.


Escola Carioca de Danças Negras

Mamani Keïta
O Mali, país de riqueza musical intensa, não poderia estar de fora dessa celebração africana no Rock in Rio. A cantora e compositora Mamani Keïta que onde quer que se apresente sua calorosa música leva a verdade musical de sua origem foi a escolhida. Artista engajada na divulgação da música africana em todo o mundo Mamani Keïta vem pela primeira vez ao Brasil com seu grupo que eletrifica suas canções com o suingue e a doçura das mulheres malineses. A sintonia dela com seu grupo é única e admirável tendo colhido os mais belos elogios e é executada nas rádios destacadas em todo o mundo.


Blitz: Juba, Andrea Coutinho, Evandro Mesquita, Nicole Cyne e William Forghieri

Alfred et Bernard
Os primos Alfred e Bernard são nascidos e criados em uma grande família musical do Burundi, pequeno país central da África onde nasce o rio Nilo e ritmos bastante singulares. Seu instrumento original é o Umuduri, ancestral e bastante parecido com o berimbau usado no Brasil. Desde seu primeiro álbum de 2010 o Alfred et Bernard vem se utilizando da mixagem de instrumentos tradicionais e modernos em suas apresentações que lhe valeram o principal prêmio da música africana em 2011, o L’East African Music Awards na categoria Folk/Musique Traditionenelle em Nairobi. Seu último trabalho de 2015, La vois des collines figura hoje como um dos mais representativos da música de sua região em todo o mundo.


Les Tambours

Fredy Massamba
Uma das mais belas vozes da África, Fredy Massamba é de Pointe-Noire (Congo) e já rodou o mundo com suas canções que sob a base rítmica africana junta elementos que vão do soul ao funk em performances que costumam deixar o público maravilhado. Sua inacreditável voz, potente e gutural, dá toda a beleza às línguas originais de seu canto, o Kingongo e Lingala e lhe renderam convites para gravações com músicos como Mos Def and the Roots entre tantos. Também pela primeira vez no Brasil, Fredy Massamba é o próprio canto africano original e se apresentou nos mais prestigiados festivais de todo o mundo com uma formação que reúne guitarra, baixo, teclados e uma incrível percussão corporal.



Les Tambours

Tyous Gnaoua
O Tyous Gnaoua é um grupo que se formou nos anos 90, liderado pelo Maâlem (mestre do ritmo) Abdeslam Allikane na cidade de Essaouira, antiga Mogador no Marrocos. Essaouira e a música Gnaoua sempre fascinaram os músicos do planeta inteiro. Jimi Hendrix esteve lá duas vezes, e em 1999, o Maâlem Allikane fundou o festival Gnaoua de Essaouira que atrai músicos de todo o mundo como Sting e Pat Metheny entre tantos. No Brasil, o grupo vai apresentar sua música fascinante sempre pontuada pelo contrabaixo "Guemberi", um dos instrumentos mais antigos da civilização. Já seu canto é um amálgama das línguas árabes e do Bambara, típica dos povos nômades do deserto.