quarta-feira, 15 de março de 2017

Rock in Rio veste a cultura da Mama África


Les Tambours, do Congo. Fotos de Cleber Junior

A edição 2017 do Rock in Rio bate cabeça para a raiz de toda a música popular do século 20 para cá na Rock Street Africa apresentada à imprensa na tarde de terça-feira no imenso saguão da Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. Lá estava uma réplica da rua com fachadas de casas de diversas culturas, não necessariamente da África, como Irã e Iemen.  A curadoria está a cargo de Toy Lima, pesquisador e produtor que sabe tudo de música étnica e que deu um apanhado das atrações que atravessarão o Atlântico para representar a Mama África. Uma delas foi importada agora para um pequeno show, Les Tambours de Brazza, do Congo, apenas com sua faceta percussiva, mais tradicional. Toy me explicou que eles misturam tradição e modernidade com o acréscimo de guitarra, teclados e até bateria, o que soa estranho em meio à potência dos ngomas, percutidos de maneira intensa pelos músicos, que arrastam os tambores em coreografias. Antes deles se apresentaram bailarinos da Escola Carioca de Danças Negras que estarão todos os dias no festival.


Escola Carioca de Danças Negras

Les Tambours foi a única atração africana presente. Lá estavam nomes (brancos) no rock nacional, como a Blitz e Rodrigo Santos, este em concorrida carreira solo e agora às voltas com a conciliação de agendas, já que o Barão Vermelho está de volta. Evandro me disse que a Blitz se apresentará com convidados e ele estará com sua banda paralela  Evandro Mesquita e The Fabulous TAB para tocar clássicos do rock ao estilo acampamento.


Evandro Mesquita, Roberta Medina e Roberto Medina

Imprensa presente em peso, muitos convidados e um coquetel movido a comidinhas e long necks da Heineken, a cerveja oficial do festival, estendido até o final da tarde, que estava agradável, o maçarico deu uma trégua.  Senti na Rock Street Africa ecos da Tenda Raízes, da edição de 2001, mais aberta para músicas de outras partes do mundo e também do antológico festival de percussão Percpan, que rolava na Bahia. 


Toy Lima produtor da Rock Street Africa


Como já publiquei no Facebook, conversei com o criador do festival, Roberto Medina, sobre a polêmica The Who – Guns’n’Roses. Rockers puro sangue soltaram mísseis nas redes sociais pelo fato de a lenda inglesa estar, teoricamente, abrindo para o Guns. Ele disse que sempre pensou em trazer o Who mas a conta não fechava. Que era a banda mais pedida, mas pelos formadores de opinião, não tinha público suficiente para bancar sua vinda, pagar cachê e as demais despesas. Desta vez o Who estava na estrada com sua suposta turnê de despedida e se pensou numa solução para trazê-lo. E foi acoplada à popularidade do Guns. Pela importância do Who, num patamar muito acima da banda americana, colocou-se as duas como headliners, mesmo tempo de show,  com o Guns fechando. Achada a saída, saíram ganhando os fãs brasileiros do Who e o festival, que ganhou um upgrade em estatura por trazer o Who pela primeira vez ao Brasil.


(Acima um casal de modelos vestido ao estilo africano) Ainda escreverei muitas linhas sobre o festival. Abaixo as atrações da Rock Street Africa em texto do release da agência Approach, responsável pela divulgação e assessoria de imprensa. Para quem gosta de música étnica um presentão, para quem não gosta, uma oportunidade de conhecer a riqueza de algumas das culturas do grande continente vizinho.

Les Tambours de Brazza
A mais espetacular banda de percussionistas da África Central, o coletivo Les Tambours de Brazza é um ícone da chamada world music. Mesclando a tradição e modernidade dos vários ritmos do Congo em vertiginosas apresentações baseadas no som do Ngoma, tambores de acentos rítmicos variados que dialogam com instrumentos ocidentais como baixo e guitarra o grupo contagia e encanta. Criado em 1991, o Les Tambours, como são mundialmente conhecidos, já se apresentaram nos mais prestigiados festivais de todo o planeta mostrando a graça e pulsação de sua música e dança. São mágicos do ritmo e do corpo e trazem um pouco de sua ancestralidade em suas composições que vão do rap ao reggae.


Les Tambours

Ba Cissoko
Com muita energia no palco Ba Cissoko é um dos mais conceituados músicos de origem griot. Ele reinventa em suas composições a tradição Mandingue mostrando como multi-instrumentista o seu afro-beat pontuado por instrumentos como a Kora, o D´Gouni, guitarra, baixo e tomani - tambor falante usado em toda a África do oeste em países como Senegal, Gâmbia e Nigéria.
Seu último trabalho gravado, Nimissa de 2012 foi recebido com grande sucesso de público e crítica e atualmente Cissoko é um nome referência nos line-ups de muitos festivais descolados da Europa. Criado em 1999, o grupo de Ba Cissoko é uma das atrações mais esperadas da Street África.


Escola Carioca de Danças Negras

Mamani Keïta
O Mali, país de riqueza musical intensa, não poderia estar de fora dessa celebração africana no Rock in Rio. A cantora e compositora Mamani Keïta que onde quer que se apresente sua calorosa música leva a verdade musical de sua origem foi a escolhida. Artista engajada na divulgação da música africana em todo o mundo Mamani Keïta vem pela primeira vez ao Brasil com seu grupo que eletrifica suas canções com o suingue e a doçura das mulheres malineses. A sintonia dela com seu grupo é única e admirável tendo colhido os mais belos elogios e é executada nas rádios destacadas em todo o mundo.


Blitz: Juba, Andrea Coutinho, Evandro Mesquita, Nicole Cyne e William Forghieri

Alfred et Bernard
Os primos Alfred e Bernard são nascidos e criados em uma grande família musical do Burundi, pequeno país central da África onde nasce o rio Nilo e ritmos bastante singulares. Seu instrumento original é o Umuduri, ancestral e bastante parecido com o berimbau usado no Brasil. Desde seu primeiro álbum de 2010 o Alfred et Bernard vem se utilizando da mixagem de instrumentos tradicionais e modernos em suas apresentações que lhe valeram o principal prêmio da música africana em 2011, o L’East African Music Awards na categoria Folk/Musique Traditionenelle em Nairobi. Seu último trabalho de 2015, La vois des collines figura hoje como um dos mais representativos da música de sua região em todo o mundo.


Les Tambours

Fredy Massamba
Uma das mais belas vozes da África, Fredy Massamba é de Pointe-Noire (Congo) e já rodou o mundo com suas canções que sob a base rítmica africana junta elementos que vão do soul ao funk em performances que costumam deixar o público maravilhado. Sua inacreditável voz, potente e gutural, dá toda a beleza às línguas originais de seu canto, o Kingongo e Lingala e lhe renderam convites para gravações com músicos como Mos Def and the Roots entre tantos. Também pela primeira vez no Brasil, Fredy Massamba é o próprio canto africano original e se apresentou nos mais prestigiados festivais de todo o mundo com uma formação que reúne guitarra, baixo, teclados e uma incrível percussão corporal.



Les Tambours

Tyous Gnaoua
O Tyous Gnaoua é um grupo que se formou nos anos 90, liderado pelo Maâlem (mestre do ritmo) Abdeslam Allikane na cidade de Essaouira, antiga Mogador no Marrocos. Essaouira e a música Gnaoua sempre fascinaram os músicos do planeta inteiro. Jimi Hendrix esteve lá duas vezes, e em 1999, o Maâlem Allikane fundou o festival Gnaoua de Essaouira que atrai músicos de todo o mundo como Sting e Pat Metheny entre tantos. No Brasil, o grupo vai apresentar sua música fascinante sempre pontuada pelo contrabaixo "Guemberi", um dos instrumentos mais antigos da civilização. Já seu canto é um amálgama das línguas árabes e do Bambara, típica dos povos nômades do deserto.

Um comentário:

  1. Faltaram Bons Artistas Brasileiros e Negros nesse Cocktail ,mas vale a intenção de prestigiar a África, o verdadeiro berço do Rock & Roll

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