domingo, 7 de maio de 2017

Barão Vermelho passa o rolo compressor no Circo Voador


Fotos de Cleber Junior

Circo Voador, noite de sábado, grande expectativa. O povo esgotou os ingressos numa prova de confiança no Barão Vermelho, estreando novo vocalista, Rodrigo Suricato. A banda deu várias amostras do que ia rolar com músicas na Globo e numa transmissão direto do Estúdio 41, onde formataram a terceira encarnação da banda que estreou uma turnê chamada Barão Pra Sempre. Foi uma noite mágica, típica do Circo Voador, a lona onde a banda começou ainda no Arpoador. Uma plateia compacta e apaixonada pelo Barão, que cantou praticamente todo o setlist de 25 canções em uma hora e 48 minutos de encantamento. A energia que rolou ali dentro iluminaria uma pequena cidade, uma troca forte, espontânea, energizante, que fez todos saírem de lá – palco e plateia – diferentes de como entraram.


Rodrigo Santos, Rodrigo Suricato, Fernando Magalhães

Manda o manual que o crítico seja  implacável. Este nunca foi meu parâmetro desde que vi um sonho ser realizado nos anos 80: o rock ocupar o mainstream com uma geração consistente em que se destacava o Barão Vermelho, que vi novinhos, cheios de tesão, no mesmo Circo Voador. Era outra formação, mas o espírito é o mesmo. Rodrigo Suricato foi um Barão antes de sê-lo. Virtuoso na guitarra, fez solos lindos, seguro no vocal, se encaixou bem como caçula de uma banda de músicos cascudos com mais de 30 anos de estrada, contra seus “meros” 17. Ele e Fernando Magalhães se entrosaram muito bem, solando juntos e dividindo solos em várias músicas. Foi muito bom ouvir de novo o antológico solo do Fernando em O Poeta Está Vivo, um dos mais bonitos do Rock Brasil.


Guto Goffi

O concerto foi caprichado, com um apelo visual de belas projeções, algumas conceituais sempre nas cores, preta, vermelha e branca, que às vezes se projetavam em painéis laterais. Incluíram imagens das várias fases da banda, incluindo os que subiram ao plano espiritual, a quem o concerto foi dedicado: Cazuza, Ezequiel Neves e Peninha, o percussionista que teve seu nome lembrado também pela plateia e uma percussão sua incluída na abertura de Puro Êxtase. E Roberto Frejat, que deixou a banda seguir seu caminho e se dedica a carreira solo. No Facebook, Suricato dedicou o show a ele: “Não seria metade do artista que sou hoje se não fosse por ele.”


Ezequiel Neves e Cazuza (In  memorian)

A banda foi bastante criteriosa na elaboração do setlist. Todos os discos estão representados. Muita coisa ficou de fora ou o concerto seria a la Bruce Springsteen, mais de três horas de duração. E é bom ter cartas na manga porque é o recomeço de uma longa estrada com todas as opções em aberto, como me disse Guto Goffi. O Barão é uma banda que tem seus líderes na parte de trás do palco, Guto na bateria e Maurício Barros nos teclados. Foram eles que, em 1981, direto do Catumbi, recrutaram músicos para formar a banda. É bom que colegas fora da imprensa musical tomem conhecimento disso para não atribuir a liderança a quem canta, como sempre fazem.


Maurício Barros

Portões abertos às 22h, uma longa fila na porta, algo raro em concertos de rock no Circo. O povo vai chegando aos poucos porque sabe que os trabalhos começam na hora grande, meia-noite. A espera de duas horas passou rápido graças à maestria do DJ Marcelinho da Lua, um dos grandes do Brasil, que botou a plateia para dançar e até cantar com muitos sucessos, nacionais e internacionais. Quando se toca para um grupo de amantes de rock, mas de gosto eclético, como no Circo, esta é a fórmula certa. Muitos DJs por lá tocam como se estivessem numa Fosfobox da vida, com músicas para um público dirigido. Marcelinho acertou em cheio e não vi reclamações de que estava demorando a começar.


Rodrigo  Suricato

A banda deu maior ênfase aos três discos iniciais, de 1982 a 1984, com oito canções.  Entre elas o hino Down Em Mim, com inspirada introdução de Mauricio ao piano, Suricato soltou a alma e fez um belíssimo solo, mas faltou a parte final de piano, um grande  destaque do primeiro disco. Ponto Fraco, também do primeiro LP (ainda era vinil) veio depois de Pense e Dance, já da segunda formação, em 1988.


Rodrigo Santos

Soltei um "caralho!" Quando começaram Billy Negão, do primeiro álbum, uma de minhas favoritas, me jogou naquele começo. Num dos shows iniciais, que vi do palco no Circo (tinha um poleiro “vip”), cantei a música inteira e depois Guto disse que se admirou de eu saber a letra toda. É um puta rock. O início foi com Pedra Flor E Espinho, com Suricato mandando ver numa pedal steel guitar (sem pedal) com a banda entrando logo no modo máximo bem ao estilo clássico de sair emendando as músicas , como faziam nos Hollywood Rock, abertura dos Rolling Stones (1995) etc.


Fernando Magalhães

Maurício Barros cantou o blues Eu Não Amo Ninguém, algo que não fazia antes, e Rodrigo Santos interpretou Cuidado, uma boa diversificação de vocais que devia ser melhor aproveitada. Além do baixo, Rodrigo também foi MC, pedindo para bater palmas e atiçando a plateia, como se precisasse, 'tava todo mundo eufórico. Rodrigo apresentou o xará Suricato como novo integrante, que se emocionou.


Peninha (In memorian)

Gostei do resgate de Dignidade, de Rock’n’Geral (1987), um disco de transição com Frejat ainda se formatando como vocalista, é uma canção forte que foi pouco percebida. Na introdução, por Suricato, senti uma citação a Jimi Hendrix. Outro destaque é Menina Mimada, do segundo álbum, em que o Barão deu um salto de qualidade em relação ao disco de estreia e que também me valeu um embate com Cazuza por conta de um título infeliz da crítica que fiz do show pro Jornal do Brasil. E a homenagem a Cazuza com duas canções de sua carreira solo.  Um arranjo pesado fodaço para Brasil e O Tempo Não Para, que o Barão registrou no especial Balada MTV (1999). E que veio depois de O Poeta Está Vivo, do álbum Na Calada da Noite, lançado no mesmo mês, ou quase ou logo depois (não há registro exato), em que Cazuza fez a passagem em sete de julho de 1990. Onde estiver, com certeza recebeu boas vibrações desta extraordinária noite do Circo Voador. Barão Pra Sempre.



SETLIST - Zero hora
Pedra Flor E Espinho – Supermercados da Vida (1992)
Pense E Dance – Carnaval (1988)
Ponto Fraco – Barão Vermelho (1982)
Carne de Pescoço - Barão Vermelho 2 (1983)
Bete Balanço – Maior Abandonado (1986)
Dignidade – Rock’n’Geral (1987)
BIlly Negão - Barão Vermelho (1982)
Eu Queria Ter Uma Bomba – Balada MTV (1999)
Down Em Mim - Barão Vermelho (1982)
Enquanto Ela Não Chegar – Balada MTV (1999)
Meus Bons Amigos – Carne Crua (1994)
Quem Me Olha Só - Rock’n’Geral (1987)
Não Amo Ninguém – Maior Abandonado (1984)
Tão Longe De Tudo – Na Calada Da Noite (1990)
Por Você - Puro êxtase (1990)
Por Que A Gente É Assim - Maior Abandonado (1984)
Cuidado – Faixa Título (2004)
Menina Mimada – Barão Vermelho 2 (1983)
Declare Guerra – Faixa título (1985)
Brasil – Ideologia, álbum solo de Cazuza (1988)
Puro Êxtase - Faixa Título (1998)
Maior Abandonado -  Faixa Título (1984)
1h30
Bis 1h33
O Poeta Está Vivo - Na Calada Da Noite (1990)
O Tempo Não Para - Balada MTV (1999)
Pro Dia Nascer Feliz - Barão Vermelho 2 (1983)
1h48

Um comentário:

  1. O rock se levantou, e agora que esta de pé , vai começar a ocupar o Lugar que nunca devia ter perdido.

    ResponderExcluir