quarta-feira, 17 de maio de 2017

Penny Lane e Strawberry Fields Forever - The Beatles - o melhor single de todos os tempos (?)






O single teve uma capa, algo raro na Inglaterra

O single que precedeu o álbum Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, com Penny Lane e Strawberry Fields Forever, mostrou que os Beatles já tinham passado além do álbum Revolver, que tinha dado um choque no mundo rock com  uma audaciosa produção que impôs um nível muito elevado para um ritmo que dois anos antes ainda cantava temas bobos executados sem maestria. Com Revolver parecia que os Beatles tinham chegado ao ponto mais alto de sua carreira. Decidiram não tocar mais ao vivo, o que poderia ser uma decisão fatal para uma banda de rock, houve muitas especulações na imprensa, especializada ou não. 


Filmado em dois dias, 30 e 31  de janeiro de 1967, em Knole Park, Seven Oaks, Kent County. Produção de Tony Bramwell, direção de Peter Goldman


No dia 17 de fevereiro de 1967 os agourentos tomaram novo susto, um single com duas novas e revolucionárias canções, ambas consideradas Lado A e logo chamado de o melhor single da História: Penny Lane e Strawberry Fields Forever. Esta segunda causou maior frisson por conter novas sonoridades e um arranjo climático que mesclava cordas e sopros, além de uma letra viajante através de campos eternos de morangos, a cara de John Lennon. No outro lado Penny Lane era a cara de Paul, produção limpa, canção melódica com reminiscências de Liverpool, a cidade natal da banda. Strawberry Fields também era nostálgica, soube-se mais adiante. Os dois maiores compositores de pop rock do século 20 tinham voltado aos tempos de adolescência, o que gerou especulações de que o novo álbum seria nostálgico, algo que nunca se cogitou, segundo Paul McCartney. Lançado por obrigação contratual, o single desfalcou o álbum de duas excelentes, se não as melhores, canções, já que a EMI não incluía singles em LPs para não fazer o fã comprar a mesma coisa duas vezes.





O single chegou ao primeiro lugar na América, mas ficou só em segundo no Reino Unido, onde um cantor inglês chamado Engelbert Humperdinck ficou seis semanas em primeiro lugar com uma canção country de 1949, Release Me. O produtor George Martin conta em sua autobiografia All You Need Is Ears, que se arrependeu de ter cedido duas canções tão fortes. Ele achou que seria melhor uma delas com When I’m Sixty Four, a outra canção do futuro álbum que estava pronta. Isto preservaria uma delas para o LP.

Strawberry Field

No dia 24 de novembro de 1966 os Beatles entraram no estúdio dois para dar início à gravação do sucessor de Revolver, que tinham finalizado em 21 de junho, cinco meses de intervalo. De 24 de junho a 29 de agosto fizeram a última turnê com datas na Europa, Ásia e América. Dispersaram no começo de setembro. John Lennon estreou como ator em How I Won The War, Paul McCartney  mergulhou na cena psicodélica londrina, George Harrison foi pra Índia estudar cítara com Ravi Shankar e Ringo Starr ficou com a família em casa no condado de Surrey. John apresentou a primeira música, um hino psicodélico composto nas semanas em que rodou o filme em Almeria, Espanha.


Portão do Orfanato pichado por fãs. Um deles acrescentou um "s" no final

O título, Strawberry Fields For Ever, é uma recordação de infância. Strawberry Field era um orfanato do Exército da Salvação para meninos e meninas na Beaconsfield Road, Liverpool L25 6DA, no subúrio de Woolton, onde também ficava a casa de Lennon no 215 da Menlove Avenue. Funcionou de 1934 a 2005. Tinha uma festa anual em que tocava a banda da entidade, que John adorava assistir. Era uma grande propriedade com um jardim mal cuidado que ele e os amigos Ivan Vaughan,  Pete Shotton e Nigel Walley invadiam para brincar. Quando compôs, John Lennon estava na fase drogada, especialmente o LSD, daí usou o orfanato como gancho para contar a história de campos eternos de morangos onde nada é real e onde não há com que se preocupar. Com tiradas pessimistas em “Viver é fácil com os olhos fechados, interpretando tudo errado você vê, está ficando difícil ser alguém, mas tudo se resolve, pouco me importa”. John explicou que o verso “Noone I think is in my tree” significava que ninguém estava na mesma sintonia que ele.




Em sua autobiografia, o produtor George Martin conta que ouviu John tocar a canção ao violão, achou muito bonita e já gravou uma base com Ringo na bateria, Paul no baixo, George e John nas guitarras. Parecia que estava bem encaminhada, mal sabia ele que a indecisão de John lhe daria um trabalho que se estendeu por sete longas sessões que foram até às vésperas do Natal.

O engenheiro Geoff Emerick conta em seu livro, Here There and Everywhere, My Life Recording the Music of The Beatles,  que ouviu uma conversa inicial de John e Paul com George Martin sobre serem, a partir dali, apenas músicos de estúdio que não se apresentariam mais ao vivo. Segundo Emerick, John disse: “Estamos de saco cheio de fazer música suave para pessoas suaves e de tocar para elas também. É um novo começo”. Paul emendou: “A gente não conseguia se ouvir no palco, então que diferença faz? Agora podemos gravar tudo que quisermos e não fará diferença. Queremos elevar o patamar, fazer o melhor álbum de todos os tempos”. Emerick disse que Martin não entendeu a princípio: Como assim fazer um álbum e não ir para a estrada divulgá-lo. John prosseguiu: "O que estamos dizendo é, se não temos mais que fazer turnês,  então podemos gravar músicas que nunca precisaremos tocar ao vivo. Isto significa que podemos criar algo nunca ouvido antes, um novo tipo de disco com novos sons." Martin logo entenderia quando John e Paul começaram a fazer exigências e mais exigências bastante desafiadoras para a tecnologia da época..


Strawberry Fields Forever - Mono mix


A primeira versão da canção tomou três sessões nos dias 24, 28 e 29 de novembro no estúdio dois da EMI, com muitos overdubs – a introdução por Paul num mellotron com o som de flauta, pianos, guitarras, bateria de Ringo em viradas com ênfase nos tom tons, maracas, baixo e a voz de John com dobra automática. Aparentemente pronta, foi deixada de lado para gravarem When I’m Sixty Four, canção de Paul.

No dia oito de dezembro, uma quinta-feira, John disse a Martin que desejava começar tudo de novo e que queria dele um arranjo para sopros e violoncelos. Na primeira sessão, estúdio dois, de 14h30 às 17h30, trabalharam em When I’m Sixty Four. Na segunda sessão, de 19h30 às 3h40 da madrugada, registraram a nova versão em 15 takes. A sessão foi comandada até 23h pelo engenheiro Dave Harries, porque George Martin e Geoff Emerick foram à première do filme Finders Keepers do astro inglês Cliff Richards, um bem sucedido genérico de Elvis Presley. Enquanto isso, George Harrison gravou percussão num tímpano e em bongôs. Os pratos de Ringo foram gravados e inseridos ao contrário, Mal Evans tocou pandeiro, fizeram dobras de guitarras, baixo e mellotron.  Martin e Emerick assumiram o resto da sessão e, ao final, tentaram mixar três quartos do take 15 a um quarto do take 24 para fazer o take 25, mas deixaram pra terminar no dia seguinte.

John Lennon e George Martin

Na sexta, nove de dezembro, numa sessão de 14h30 às 22h terminaram o take 25, reduzido a um canal da máquina de quatro canais. E partiram para mais overdubs. Ringo gravou uma levada vigorosa de bateria, George uma espécie de harpa de mesa indiana, swordmandel, mais dois pratos de Ringo inseridos ao contrário. No dia 15 de dezembro gravação de cordas e trompetes no brilhante arranjo de George Martin. Nos trompetes estavam Tony Fisher, Greg Bowen, Derek Watkins, Stanley Roderick. Nos cellos John Hall, Derek Simpson e Norman James. Ocupados os três canais, nova redução pro take 26 para gravar dois vocais de Lennon.

Fim? Não. No dia 22 de dezembro Lennon surge em Abbey Road pra dizer que gostava das duas versões e sugeriu a Martin e Emerick que juntassem o começo da primeira versão com o final da segunda. Martin respondeu que estavam em tons e tempos diferentes, por isso não dava. John: “Eu sei que você pode dar um jeito George,” e se mandou deixando a banana nas mãos dos dois, que começaram a espremer os neurônios. Ouviram as duas gravações mil  vezes e viram que se aumentassem o tempo da primeira e diminuíssem o da segunda corrigiriam a velocidade e a diferença de um semitom. Acharam o lugar de corte exatamente em 60 segundos da primeira versão, na palavra “going” do refrão “let me take you down cause I’m GOING to Strawberry Fields...”.


Engenheiro Geoff Emerick, George Harrison, George Martin

A edição era na base da gilette, exigia mão firme e precisão. Emerick conta que fez o corte num ângulo de menos de 45 graus para que a música não pulasse. John chegou altas horas e pediu pra escutar. Lá pelo meio perguntou se já tinha passado a emenda. Diante do "sim" de Emerick, disse o equivalente a “mandou bem Geoff”. Ouviu mais vezes exclamando “brilhante, absolutamente brilhante.”
Quer saber? Não acho, a voz dele foi acelerada e perdeu força. Basta ouvir o take 26 com a voz de John na velocidade normal para ver que sua interpretação era bem mais brilhante.

PENNY LANE


Clipe para televisão. Produção de Tony Bramwell, direção de Peter Goldman. Filmado nos dias 5 e 6 de janeiro de 1967. Locações: Stratford (Londres), Knole Park, Seven Oaks (Kent County), Liverpool (em data não revelada)

Paul McCartney conta em sua autobiografia, Many Years From Now,  que se inspirou na nostalgia de John para compor Penny Lane: “A gente estava sempre respondendo à canção do outro, então pode ser a minha versão de uma canção nostálgica. É uma reminiscência da infância. Havia um ponto de ônibus chamado Penny Lane e uma barbearia chamada Bioletti’s, com mostras de cortes na vitrine, então dei um toque artístico para dizer que era uma exposição de fotos de todos os que tinham cortado cabelos lá. Havia um banco na esquina, então imaginei um banqueiro com hábitos estranhos, que não usava uma capa na chuva e as crianças riam dele. O quartel de bombeiros ficava a uns 800 metros, já fora de Penny Lane, mas eu o coloquei ali porque precisava de uma terceira estrofe.” Paul colocou uma ampulheta na mão do bombeiro, disse que ele tinha um retrato da rainha no bolso e que gostava de manter seu caminhão bem limpo.  Havia um abrigo para esperar o ônibus que os locais chamavam de Rotatória Penny Lane, na esquina da Church Road com a Smithdown Road.


Instrumental com final por David Mason

Paul prossegue: “John e eu sempre nos encontrávamos em Penny Lane e era também onde eu trocava de ônibus para ir na casa de John. E onde vendiam papoulas [poppies] no Dia da Lembrança [11 de novembro dedicado aos mortos em guerras], eu e John comprávamos uma cada por um shilling a unidade. Os americanos entenderam que eram bichos de estimação [puppies], fantasiei que era uma enfermeira que vendia”. Paul conta que a contribuição de John foi o verso “Four of  fish and finger pie,” que se refere a uma porção de quatro shillings de peixe com batatas fritas, comida típica inglesa, e finger pie uma gíria de cunho sexual que se referia a tocar o sexo das garotas com a mão e/ou inserir os dedos na vagina. A gravação, em quatro canais, foi quase tão complexa quanto a de Strawberry Fields Forever, zilhões de overdubs e reduções para livrar canais e muitos instrumentos acabaram abafados pelo excesso de superimposições.




Vamos lá:

Estúdio dois – 29 de dezembro de 1966 – 19h às 02h15 – Só Paul MacCartney presente, ocupou três canais com piano, o primeiro normal, o segundo num amp Vox com reverber, o terceiro em velocidade reduzida. No quarto canal, harmonium.
Estúdio dois – dia 30 de novembro –  19h – 3h – Redução das gravações da véspera para um canal. Vocal de Paul, vocais de John com velocidade reduzida.
Estúdio dois -  4 de janeiro de 1967 – 19h - 2h45 – Piano (John) e solo de guitarra (George) num canal. Vocal de Paul noutro canal.
Estúdio dois – 5 de janeiro – 19h – 0h15 – Novo vocal de Paul substitui o do dia anterior. O restante da sessão na peça psicodélica Carnival of Light, de que falarei no post do álbum.
Estúdio dois – Seis de janeiro -  19h - 1h – Gravação de Paul (baixo), John (guitarra base e congas), Ringo (bateria) Nova redução com dois canais disponíveis. John e George Martin gravaram pianos e palmas. John, Paul e George vocais imitando instrumentos para indicar onde deviam entrar os sopros. Nova redução para livrar dois canais.
Estúdio dois – nove de janeiro – 19h - 21h45 – Gravação de quatro flautas, dois trompetes, dois piccolos, um flugelhorn. Músicos – Flautas - Ray Swinfield, P. Goody, Manny Winter e Dennis Walton. Nos trompetes Leon Calvert, Freddy Clayton. O escritor Mark Lewinsohn diz que os mesmos músicos tocaram os demais instrumentos, sem especificar quem tocou o que.




Estúdio dois – 10 de janeiro – 19h – 1h40 -  Gravação de efeitos e uma sineta tocada quando a letra menciona o bombeiro.
Estúdio três -  12 de janeiro – 14h30 – 23h – Gravação de dois trompetes, dois cornes ingleses e um baixo acústico. Trompetes por Bert Courtley e Duncan Campbell, oboés e cornes ingleses por Dick Morgan e Mike Winfield, baixo por Frank Clarke.
Estúdio dois – 17 de janeiro – 19h - 0h30 – Finalização com a cereja do bolo. Paul assistiu ao programa da BBC Masterworks com a Orquestra Inglesa de Câmara executando o Concerto de Brandenburgo Número Dois, de Johann Sebastian Bach,  se amarrou no trompete piccolo tocado por David Mason. Daí pediu a George Martin que contratasse Mason para fazer um solo na canção. Mr. Mason com a palavra: “Recebi um telefonema e fui ao estúdio com nove trompetes para escolher o mais adequado. O escolhido foi o piccolo em si bemol. Não havia partitura, então ficamos eu, Martin e Paul trabalhando, Paul fazia o que queria com a boca, Martin anotava e, finalmente, tivemos uma partitura. Gravei em dois takes.” Além do solo, David gravou umas frases no final, que acabaram entrando na primeira tiragem do single, enviada para divulgação em rádios. Depois este final foi cortado (pode ser ouvido no volume dois da coleção Beatles Anthology,  lançado em 18 de março de 1996).

That’s all folks.Bye.





Bibliografia
The Complete Beatles Recording Sessions e The Beatles Chronicle – Mark Lewisohn.
Here There and Everywhere – My Life Recording the Music of The Beatles – Geoff Emerick (foi lançado em português).
Many Years From Now – Paul McCartney with Barry Miles.
Revolution In the Head – The Beatles Records and the Sixties - Ian McDonald.
Penny Lane e Strawberry Fields For Ever – site The Beatles Bible – Tem boas informações sobre tudo dos Beatles, leio pra ter uma orientação geral do que devo incluir, mas prefiro usar os livros, já que os tenho. Pego dados sobre colocação nas paradas.
Lembranças de Lennon – Jan S. Wenner.
Tenho outros livros sobre a banda, mas usei só estes.

Um comentário:

  1. A não inclusão de Penny Lane e Strawberry Fields Forever no SGT Peppers, acabou favorecendo a História Musical dos Beatles... pois tanto o Single ,quanto o Álbum são perfeitos.

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