domingo, 13 de agosto de 2017

Zélia Duncan desvenda a alma no Lado Bom da Solidão

Fotos de Luiz Ferreira

O aconchegante Teatro Municipal de Niterói recebeu na noite de sexta o delicado e hilário show de voz e violão de Zélia Duncan. Hilário? Sim, Zélia é boa de contar causos engraçados de sua vida, dava até pra chamar de stand up acústico, aliás sit down, porque ela canta sentada.

Conto dois já que provoquei curiosidade. Ela é corredora, tira de letra meia maratona, 21 quilômetros, e corre regularmente pelo aterro e adjacências (Rio). Numa delas, uma van parou do lado e o motorista falou: “Ô Zélia, entra aí que eu te levo.” Numa meia maratona, tropeçou num obstáculo e estabacou no chão, um engraçadinho que passava mandou: “Cantar é mais fácil, né Zélia?” O corredor solidário que a ajudou a se levantar, reconheceu e disse que, quando voltasse pro Ceará, ia contar pra todo mundo ajudou-a a se erguer. Conta isso com as devidas pausas e ênfase, já que também é atriz. Isso antes da música Por Isso Eu Corro Demais, dos Carlos, que gravou num arranjo lento e delicado.

O nome do recital é o Lado Bom a Solidão, verso de O Lado Bom, canção de abertura, seguida de uma fala sobre o tema. Ela diz que a solidão é boa quando por opção, que a música nasce em casa na solidão e que um lado bom da solidão também é estar ali no teatro, pede que as pessoas cantem com ela e mais umas coisas que não lembro, da outra vez levo um gravador.




Surpresas: Canta Certas Coisas, de Mr. Luiz Pragana, dito Lulu Santos, ficou bonito na voz dela, “tem certas coisas que eu não sei dizer.” Verso certeiro, há momentos em que as palavras faltam e as emoções jorram. Ela consegue muito disso no recital pela excelência de suas letras. 

Em homenagem a Luiz Melodia ela pescou lá, em 1990, Segredo, música dele gravada em dueto no disco Outra Luz, quando ela ainda assinava Zélia Cristina. Uma pérola guardada neste disco, não negra, mas de igual força, impactante, meio autobiográfica pelo que se sabe da vida do recém partido Negro Gato: “Eu luto sozinho meu Nosso Senhor. Eu quero é mais, muito mais. Ser um calado coração trancado. Eu tenho um recado, um ódio interno marcado. Guardado, fincado, pregado, lacrado.” Forte, não?

Ela tem nove discos de estúdio numa carreira discográfica iniciada em 1994 com Zélia Duncan. De carreira bem mais, começou em 1981, 13 anos de ralação até acertar o caminho, mas começou a existir para o público quando Catedral entrou na trilha da novela A Próxima Vítima, em março de 1995. 

Explicou que uma coisa era entrar na trilha e outra bem diferente tocar na novela. Tocavam instrumental, na hora em que ela devia entrar, vinha um sax. Uma noite tocou inteira e sua vida mudou da noite pro dia. Contou que sempre frequentava uns lugares chamados de loja de discos, o povo riu e ela perguntou se já tinham ouvido falar. Ela estava numa dessas, entrou um jovem atrás de uma música que estava tocando na novela. Ela ouviu e aguçou o ouvido. Ele não sabia o nome, o vendedor foi indagando detalhes, ela ansiosa, quando o balconista perguntou se quem cantava era homem ou mulher e o cliente disse “não sei,” Zélia gritou: “Opa, sou eu!” Acalmados os risos, cantou Catedral, versão de Cathedral Song da cantora inglesa Tanita Tikaram. Quando gravou ela nem desconfiou que seria tão bem aceita.



O repertório teve outras novelescas, a começar por Alma, abertura de Alto Astral, nem é dela, de Arnaldo Antunes e Pepeu Gomes, pinçada de uma visita que Arnaldo lhe fez. Uma favorita minha pela delicadeza de tratar do tema romântico sem recorrer a clichês é Breve Canção de Sonho, que entrou na novela Cheias de Charme (2012).

O recital é uma bela viagem por sentimentos expressos com talento e emoção. Pra não dizer que esta resenha é só uma deslavada babação de útero, não gosto do timbre de violão dela. Deve ser uma marca excelente, mas o som não projeta legal, fica nos médios. Não entendo disso, mas, sei lá, um folk da Gibson talvez soasse melhor. E que tal partir para um 12 cordas? As canções cresceriam bastante.

Enfim, isto é apenas um detalhe, Em nada diminui a força de um grande talento para a música e o teatro com outras opções em aberto, afinal se transformar em outras é com ela mesmo.

P.S. Agradeço a gentileza de Luiz Ferreira por ceder as fotos.


Desculpem as manchas. Uma gota de iodo na folha dobrada


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