quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Lobão chama de redenção seu álbum tributo à sua geração e fala do veto a Surfista Calhorda

Divulgação

Conversei com Lobão por telefone sobre sua Antologia politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock que deu polêmica na terça-feira com o veto da música Surfista Calhorda pelos autores Carlos Gerbase e Heron Heinz.Foi o primeiro veto, talvez não por acaso de uma banda punk, e ainda aguarda a liberação de Leve Desespero, do Capital Inicial, e de Eu Sei, que é só de Renato Russo. A que ele mais temia em termos de licença teve um final feliz ontem, Rita Lee liberou Orra Meu, faixa de abertura do CD e álbum duplo de vinil que sai no final de ano financiado por crowdfunding, que só será iniciado depois do repertório pronto e autorizado com 24 em vez de 25 músicas.

Apesar de se intitular politicamente incorreta, a coletânea traz só sucessos de sua geração (fora a Rita) o que a torna bem correta. Lobão não faz mistério, ele coloca no Facebook pessoal e oficial amostras das músicas com sua visão pessoal.

Ele diz que um critério para escolher foi que pudesse sentir como se fossem dele. Tentou algumas, mas não conseguiu incorporá-las, como Índios (Legião Urbana) e Menina Veneno (Ritchie) nesta engasgou no “abajur cor de carne.”

Nos anos 80 Lobão não poupou seus contemporâneos, especialmente Os Paralamas do Sucesso, com sua língua ferina, agora deu uma guinada de 180 graus em sua postura: “Este disco pra mim é uma redenção. Estou tentando ressaltar a grandeza do trabalho dos anos 80, de mostrar ao público atual como são belas, de dar uma paisagem sonora bonita para elas. Tem um ponto na tua existência que exige que a gente seja legal, que a gente mostre que tem uma essência legal e estou comovido que a maioria esmagadora dos envolvidos tem mostrado isso,” disse-me.

Contou que os Paralamas aprovaram Lanterna dos Afogados e Quase um segundo: “Em Quase Um Segundo tive quase uma síncope, estou tendo isso com todas as músicas, me sinto tomado. Eu nunca fui intérprete, para mim é uma experiência nova, quase como se eu tivesse um encefalograma da alma do cara que fez a música.”

A bronca com Surfista Calhorda foi que Lobão mudou o verso “Vai pra Nova Iorque estudar advocacia” para “vai se matricular na UFRGS pra estudar sociologia.”  Ele achou a piada datada e acredita que a mudança ficou atual: “Hoje o filho é um universotário, com 45 anos ainda está na faculdade e mora com a mãe, é um arquétipo dos dias de hoje.” Ele acha que sua mudança faz mais sentido atualmente com o verso precedente “Vive da herança milionária de uma tia.”

“Eu procuro atualizar coisas que acho datadas. Em O Tempo Não Para troquei ‘museu de grandes novidades’ por ‘museu de velhas novidades,’ Em Pânico em SP quando diz que o medo da população está estampado nos meios de comunicação, entrou

“os meios de comunicação não querem mostrar o pavor da população.”
Perguntei se tinha alguma do Kid Abelha, ele disse que não se via cantando “tira essa bermuda que eu quero você sério.” Explica: Tem que ser uma música que eu possa considerar minha. O tempo está exíguo, não tive tempo. Queria fazer Finis Africa, Picassos Falsos, Hojerizah, Zero, Voluntários da Pátria, Cólera.”
Quem sabe num volume 2, música boa é que não falta.

O Repertório

Blitz – Vítima do Amor
Camisa de Venus – Eu Não matei Joana D’Arc
Capital Inicial – Leve Desespero
Cazuza, Lobão e Cartola - Azul e amarelo
Cazuza – O tempo Não Para
Engenheiros do Hawaii – Toda Forma de Poder e Somos Quem Podemos Ser
Gang 90 & Absurdetes – Nosso Louco Amor
Guilherme Arantes - Planeta Água
Inocentes – Pânico em SP
IRA! - Dias de Luta e Núcleo Base
Kiko Zambianchi – Primeiros Erros
Legião Urbana – Eu Sei e Geração Coca Cola
Lulu Santos – Certas Coisas
Marina Lima - Virgem
Paralamas do Sucesso  - Quase Um Segundo e Lanterna dos Afogados
Plebe Rude – Até Quando Esperar
Rita Lee – Orra Meu
RPM – Louras Geladas

10 comentários:

  1. Apesar de pendengas parecidas, continuo fã do Lobão. Roqueiro de raiz, continua falando aquilo que muito pouca gente se abstêm de falar. Por serem politicamente corretos ou, simplesmente, não terem coragem de expressar. Rock on!

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  2. Sinceramente... Para quem viu o Lobão dos anos 1980 e até no começo dos 2000, esse trabalho tem cheiro de embuste. Depois de massacrar sua geração, apela para ela como tentativa de resgate de uma carreira perdida (não deixa de ser irônico que ele grave duas músicas dos Paralamas, a quem sempre sacaneou, enquanto o PDS aí está com um belo e revigorado álbum novo. A história da troca do verso de "Surfista Calhorda" é deprimente. Mas, ao contrário do que ele sempre fez com os outros, torço para que tenha sucesso com este álbum.

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  3. Lobão sempre será um dos maiores da música nacional, gostem do posicionamento dele ou não. Bela matéria Jama, no momento certo para tirar a dúvida que ficava no ar, sobre a questão das liberações. Sucesso a todos.

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  4. Lobão é um gigante artisticamente falando. Como pessoa, fala o pensa, o que sente, e isso causa desconforto à alguns. Vivemos num país cujo ser original é perigoso! Sobre a visita e releitura ao passado de seus colegas de profissão, acho que é um belo exemplo de humanidade, afinal, quem não mudou a opinião que tinha aos trinta, quando chegou nos 50? O contrário é sinal que o cara não evoluiu. Portanto, parabéns Lobão! Continue falando e fazendo o que você sente, alguns vão odiar (como sempre), outros continuarão a te seguir e respeitar. Bela matéria Jamari França!

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  5. Não há um rockeiro com atitude e papas na língua como Lobão. Acompanho o trabalho dele há muito tempo ja. Creio que essa "releitura" dos anos 80 está, além de, apenas comprovando o PUTA músico que é, mostrando a nova geração que Rock bom e brasileiro, a gente só ouve com o Lobão!

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  6. Parabéns pela matéria Jamari, o livro do Lobão mexeu com conceitos e muita gente, pelo excelente a talentoso músico que é, sem falar na língua sem papas.
    Vejo nele uma honestidade artística sem precedentes, e há muito merecemos no Brasil um bom disco de puro Rock !
    Azar de Gerbase e Heinz, que deixarão de ver bombar nas redes uma versão pesada do Surfista...
    Não vejo a hora de comprar o disco !!!

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  7. Arriba Grande Lobo e Pé na bunda da Mi mi mi generation

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  8. Eu tenho um pé atrás com regravações. Acho que música tem uma identidade e raramente alguém consegue regravar um clássico à altura do original. O Acústico MTV que o lobão lançou achei fraco. Não gostei dos novos arranjos de seus clássicos. Mas gostei da seleção de músicas que o Lobão fez para este disco novo.

    Espero que consiga honrar a obra de seus colegas de geração. Gosto do lobão. Vida Bandida foi o primeiro disco de rock que eu comprei, se não me engano numa loja da Mesbla. Na verdade, meu primeiro disco foi uma coletânea chamada Rock Total, mas de um artista específico, foi o disco do lobão.

    A seleção é boa e o rock nacional precisa mesmo de uma sacodida. Que tenha sorte e sucesso.

    Rock on !

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