domingo, 29 de outubro de 2017

Paralamas do Sucesso arrasadores no Vivo Rio

Fotos de Cleber Junior

Estive na noite de sábado num Vivo Rio lotado para o lançamento no Rio do concerto Sinais do Sim, dos Paralamas do Sucesso. Noite abençoada pelos deuses da música, uma banda impecável com um setlist diferenciado em que alguns sucessos foram trocados por canções significativas de um mesmo álbum. Exemplo? Viernes 3 AM, de Hey Na Na, em vez de Ela Disse Adeus. Uma escolha que nos permitiu curtir lindas canções fora do óbvio. O artista pode ficar preso nas músicas consagradas, deixar de lado um material rico que não chegou às paradas. O publlco martela para ouvir o óbvio, mas, se é realmente fã do artista, deve entrar em sintonia com o que ele lhe apresenta ao vivo, deve ir, ver e ouvir.

Herbert Vianna

Destaco no setlist um bloco dedicado ao medo nosso de cada dia nos grandes centros urbanos, especialmente no nosso conflagrado Rio de Janeiro o que, felizmente, não nos abate, se não o Vivo Rio estaria vazio. “Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo. Sem saber o calibre do perigo. Eu não sei d'aonde vem o tiro,” dizem os versos de abertura de O Calibre, palavras que batem no peito dos cariocas, o poeta Herbert Vianna como cronista de seu tempo, numa levada pesada que traduz o perigo que denuncia. Emenda com Selvagem, que aponta uma realidade cotidiana: “”A cidade apresenta suas armas. Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos. E o espanto está nos olhos de quem vê o grande monstro a se criar.” É de 1986. O monstro cresceu e aterroriza a população. Uma guitarra distorcida marca a levada e João Barone dá umas porradas na bateria que soam como tiros, especialmente quando uma luz forte acende a cada porrada.

Tem mais. “No beco escuro explode a violência,” começa O Beco, com descrição de atos violentos e, ao final “nada mais me deixa chocado, nada.”  Finalmente, Medo do Medo, da rapper portuguesa Capicua que alinha todos os nossos temores, da policia, da justiça, do desemprego, “de morrer mais cedo que a prestação.”

Bi Ribeiro

O restante do repertório nos permite viajar por sentimentos mais lúdicos, tudo muito bem embalado numa produção magnífica. Um show de luzes em movimento envolve o palco em cores múltiplas, incluindo luzes amarelas fortes na cara da plateia – Os designers adoram cegar o publico. Um telão mostra imagens muito bem transadas que ilustram as músicas e mostram diversas fases ao longo de 34 anos. Como sempre me acontece, lá fui de volta aos primeiros shows que vi, no bar Western e sob a lona mágica do Circo Voador, quando a banda só tinha repertório para 45 minutos de show e, num deles, tocou tudo de novo para uma “galera” entusiasmada. Realmente um longo caminho.

João Barone

A banda abriu com duas novas, Sinais do Sim e Itaquaquecetuba (imagino o que Herbert ensaiou pra pronunciar isso), duas boas amostras do novo lançamento, seguidas de dois sucessos, Meu Erro e Lourinha Bombril. Ótima qualidade de som, a bateria bem microfonada com o bumbo audível, Herbert com uma Les Paul. Setlist montado com alternância de sucessos e menos conhecidas, mais palatável para o público.  Não me lembro de ter ouvido Capitão de Indústria, devem ter tocado no tour de Hey Na Na no distante 1996, belo arranjo.


Mestre João Fera

Arranjos são um forte na banda. O trio conta com reforço do estre João Fera (desde 1986) e com os sopros de Bidu Cordeiro (trombone) e José Monteiro Junior (sax tenor). Falta um trompete para completar o naipe, enriqueceria bastante, em Lanterna dos Afogados, o solo original é de trompete e Monteiro faz um timbre aproximado, que não soa da mesma maneira. O solo é maravilhoso, o povo aplaudiu e é seguido por um dos mais belos solos de Herbert, que tinha a voz limpa sem a rouquidão de alguns shows que vi e, felizmente, abandonou um vibrato que passou a usar depois do acidente.

Bidu Cordeiro (trombone), Monteiro Junior (sax tenor)

Herbert não gosta de grandes solos, ele não veste a camisa de guitar hero, dá o recado curto e virtuoso, só se espalhou ao final de Caleidoscópio num pegada que delirou o povo. João Barone é um show à parte, parece que tem dois bateristas tocando, prefere viradas curtas de efeito, explorando os timbres de cada tambor e prato. Bi Ribeiro, como já disse Liminha, é um chão absurdo, a banda repousa sobre sua base trovejante, só não gostei de ele ficar no escuro a maior parte do tempo. Ele não se movimenta, fácil era botar uma luz em cima.




Ufa! ‘Tou falando demais. Gosto dos Paralamas, não à toa escrevi a biografia deles, Vamo Batê Lata, à venda nos sebos virtuais tipo Mercado Livre. Se deixar faço um tratado. Ah, João Fera, que músico maravilhoso, suas barbas brancas lhe dão um ar de mestre (e é), enriquece de maneira magistral as canções, seja na abertura de Lanterna dos Afogados e em A Outra Rota, um resgate do incompreendido álbum Os Grãos (1991). Uma que gosto muito é Viernes 3 AM, original de Charly Garcia, versão de Herbert Vianna, tema pesado, o narrador se mata no final, em versos de grande força poética: “Então levanta o cano outra vez e aperta contra a testa. E fecha os olhos e vê um céu de primavera. Bang! Bang! Bang! Folhas mortas que caem. Sempre igual. Os que não podem mais se vão.” Claro que os três tiros são ima licença poética, ninguém se mata com três tiros.

Quer saber. Um puta show de uma formação impecável, que, espero, ainda passe algumas vezes pelo Rio. Vale vários repetecos. Não tenho feito outra coisa desde 1982.

SETLIST
22h03
1. SINAIS DO  SIM – Faixa título (2017)
2. ITAQUAQUECETUBA – Sinais do Sim (2017)
3. MEU ERRO – O Passo do Lui (1984)
4. LOURINHA BOMBRIL (Parate y Mira - D.Blanco e Bahiano. Versão \herbert Vianna) – Nove Luas (1996)
5. CAPITÃO DE INDÚSTRIA (Marcos e Paulo Sergio Valle) – Nove Luas (1996)
6. UNS DIAS – Bora Bora (1988)
7. A OUTRA ROTA - Os Grãos (1991).
8. SOLDADO DA PAZ – Longo Caminho (2002)
9. VIERNES 3AM (Charly Garcia e Herbert Vianna) – Hey Na Na (1998)
10. O CALIBRE – Longo Caminho  ( 2002)
11. SELVAGEM – Faixa título (1986)
12 . O BECO – Bora Bora (1988)
13. MEDO DO MEDO (rapper portuguesa Capicua e João Ruas) – Sinais do Sim (2017)
14. SABER AMAR – Vamo Batê Lata (1995)
15. BUSCA VIDA – Nove Luas (1996)
16. AONDE QUER QUE EU VÁ (Herbert Viana – Paulo Sergio Valle) – Arquivo II (2000)
17. O AMOR NÃO SABE ESPERAR – Hey Na Na (1998)
18. SEMPRE ASSIM – Sinais do Sim (2017)
19. LANTERNA DOS AFOGADOS -  Big Bang – (1989)
20. CALEIDOSCÓPIO – Arquivo (1990)
21. OLHA A GENTE AÍ – Sinais do Sim (2017)
22. A LHE ESPERAR (Arnaldo Antunes – Liminha) – Brasil Afora (2009)
23. UMA BRASILEIRA (Herbert Vianna – Carlinhos Brown) Vamo Batê Lata (1995)
24. SKA – O Passo do Lui (1984)
25. VITAL E SUA MOTO – Cinema Mudo (1983)
26. ALAGADOS - Selvagem? (1986)
23h34
BIS
23h36
27. BUNDALELÊ  - Bora Bora (1987)
28. TEU OLHAR – Sinais do Sim (2017)
29. CUIDE BEM DO SEU AMOR – Longo Caminho (2002)
30. ÓCULOS – O Passo do Lui (1984)
23h49

FICHA TÉCNICA
Direção de arte e projeções: Batman Zavareze
Design de Iluminação: Cristiano Vaz e Marcos Olívio
Concepção artística: José Fortes e Paralamas
Roadie de Herbert - Helder Vianna
Roadie de Barone - Pedro Antunes
Roadie de Bi - Alexandre Duayer
P.A. (som para a plateia) - Leo Garrido
Monitor: Adriano Siuza
Produção: Orbilo Rosa e Robson Gonçalves



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Folks lança single que busca aproximação com identidade brasileira e trata da intolerância nas redes sociais

A turma toda que foi à audição - Foto de Daniel Santos

Estive quinta à noite na lendária Toca do Bandido, o estúdio criado pelo músico e produtor Tom Capone (1966-2004), para ouvir Sobre Viver, novo single da banda carioca Folks, uma prévia do álbum a ser lançado em 2018. Um trabalho primoroso de execução da banda com a produção de Felipe Rodarte, Folks honorário e principal produtor do Novo Rock. O single vai para as plataformas de streaming nesta sexta, 27 de outubro, mas a prévia reuniu integrantes das bandas Detonautas, Nove Zero Nove, Verbara, Pessoal da Nasa e Drenna, além de fãs que ganharam uma promoção para lá estar.

A canção é do vocalista Kauan Calazans com o guitarrista Paulinho Barros e o baterista PV. O tema é bem atual. Kauan conta que se incomoda muito com a agressividade, a descarga de coisas ruins e a intolerância nas redes sociais. Ele ficou pensando nesses assuntos, um dia o baterista PV disse-lhe uma frase, “Hoje eu sou mais, entendo o que faz bem.” Que lhe serviu como um gatilho e aí a letra saiu rapidinho. O refrão é poderoso, a banda ataca com intensidade para sublinhar versos que exaltam a liberdade para se misturar, outro tema em discussão constante nas redes sociais diante das mudanças que a sociedade vive atualmente. Em meio ao caos político e econômico há um novo pacto social em construção, novos termos de convivência, de aceitação, de compreensão que independem da podridão que emana de todas as esferas de governo. E a letra mostra isso também no título Sobre Viver, novas formas de conviver e sobre viver.

Viajei, mas acho que é por aí.


Da E - Felipe Rodarte (produtor), Paulinho Barros (guitarra), Sergio S (guitarra),  PV (bateria, atrás), Kauan Calazans (voz) e Guilherme Figa (baixo) 

A banda contou com participações do veterano percussionista  Edinho Souza, que passa a acompanhar a banda em shows, os teclados do colíder do Barão Vermelho Maurício Barros e, nos vocais, Drenna, líder da banda que leva seu nome e Nicole Cyrne vocalista da Blitz. A voz de Kauan ganhou uma textura mais grave, o trabalho do guitarrista Sergio S. é primoroso nos solos e comentários, brilha na canção inteira. Ele usou uma Gibson Les Paul 59 num amp Marshall Plexi Super Lead vintage que usa válvulas antigas, mesmo modelo que Jimi Hendrix usava. A canção pode ser um hit se devidamente divulgada em rádio e televisão, a mídia que projeta artistas. Publico a letra, mas não posso divulgar a canção antes do dia 27. Estará no meu programa Jam Sessions de domingo, 29.

Felipe Rodarte está a caminho de Las Vegas porque uma produção sua, o álbum Brutown, da dupla sergipana The Baggios, concorre ao Grammy Latino de melhor disco de rock na seção brasileira do prêmio. Ele é o principal produtor do novo rock e um pensador dos rumos desta geração. Fez uma exposição muito interessante antes de me mostrar a nova música. Aliás um tema que sempre abordei nas minhas matérias ao longo destes 35 anos em que cubro o rock brasileiro. Ele disse que a Folks busca agora uma identidade brasileira para sua música. Como rolou na Geração 80, começou com tinturas gringas, mas dissociada da nossa cultura. Hora de ir por caminho semelhante ao dos Paralamas, que começaram influenciados pelo Police e depois acharam um caminho na ponte África-Jamaica-Bahia ou o Barão Vermelho, inicialmente na linha Rolling Stones e depois num hard rock suingado.

Ele chamou a atenção para algo que eu já tinha sentido. Esta geração começou num nível bem mais alto do que a geração 80, basta comparar os primeiros discos de Paralamas etc com os atuais. No começo dos anos 00 eu não entendi porque a evolução demonstrada nos 80 e 90 se quebrou e apareceram formações medíocres. A maturação de uma geração mais consistente levou tempo.

Hoje aí estão com excelentes formações sem conseguir ainda conquistar espaço num mercado tomado pela mediocridade sertaneja e funkeira, com algumas exceções. Felipe Rodarte acredita que em algum momento a barreira vai se romper, eu espero que sim e faço minha parte, como sempre fiz.


Folks mais Fábio Brasil (segundo da esquerda p direita) e Renato Rocha (segundo da direita p esquerda) os Detonautas. E eu de enxerido. Foto de Felipe Rodarte

A falta de um suporte financeiro prejudica a evolução das bandas, tocam em lugares pequenos que pouco rendem. Num papo do lado de fora do estúdio, a querida Eliza Schinner, baixista da Nove Zero Nove, dizia que não se sentia incentivada a gravar um novo álbum porque tinham lançado um e nada aconteceu por conta do bloqueio. Argumentei e ela concordou que deve lançar singles periodicamente, um por semestre pelo menos, para criar ou renovar interesse. As bandas estão num trabalho lento de formação de público e elogiei a persistência desta geração, que batalha duro, toca onde der pra tocar, não importa o tamanho do lugar.

Enfim, espero ver esta geração vencer, como vi as anteriores vencerem.

Sobre Viver
(Kauan Calazans / Paulinho Barros / Pv)
Na busca pra não se sentir refém
A calma faz o instinto ir além
Hoje eu sou mais
Entendo o que faz bem

O brilho que é a arte de viver
Sabendo que a mente cria o ser
Hoje eu sou mais
Entendo o que faz bem

(Refrão)
Viva a liberdade
Viva a liberdade
Pra se misturar
Viva a liberdade
Ascender a confiança e se deixar levar
Que eu sou mais

A gente vive pelo mundo
A cada esquina pulando muro eu vou
Estar disposto e admirar
A perfeição de ser quem voce é

Refrão