domingo, 6 de maio de 2018

Paralamas voltam a Porto Velho após 18 anos e arrasam

Fotos de Licias Santos

Os Paralamas do Sucesso fizeram seu primeiro show em 18 anos aqui em Porto Velho, Rondônia, na imensa e requintada Talismã 21 na noite deste sábado. Foram tantas emoções a ponto de Herbert dizer que a acolhida fazia valer a pena o deslocamento (cinco horas de vôo, dois aviões).

A banda trouxe o show completo com telão e luzes feéricas, o volume estava satisfatório, mas havia algum embolamento, com a guitarra de Herbert mais alta que o restante. Em algumas partes da casa ficava mais definido. Claro que isso não faz a menor diferença para o público, que ali está para se divertir e celebrar um reencontro que demorou tanto.

A noite não começou bem. Uma banda local de covers assassinou sem piedade sucessos do rock brasileiro dos anos 80 e 90. Zero entrosamento, um frontman de voz potente, mas ruim em afinação e interpretação. Foi uma hora de tortura auditiva que terminou com o massacre de Another Brick In The Wall Part 2 do Pink Floyd.

Herbert Vianna

Uma hora da manhã (duas no Rio) Paralamas no palco. Telão solta imagens, as moving lights bailam, abre com a faixa título do novo álbum Sinais do Sim, seguida da também recente Itaquaquecetuba , com o povo ainda na animação da entrada deles. Há várias maneiras de fazer um setlist. Se o artista entra com um hit, a empolgação de sua entrada emenda com o sucesso e vira delírio.
Os Paralamas entraram com duas novas, curtas, ainda no impacto da entrada e, antes que o entusiasmo esvaísse, mandou Meu Erro e a temperatura subiu novamente.

A banda mantém a mesma formação agregada há décadas, daí o ataque musical devastador. Bidu Cordeiro (trombone), Monteiro Junior (sax tenor) e o mestre João Fera fazem complementos essenciais para as músicas antigas ganharem nova vida e as mais recentes brilharem. Bi Ribeiro manda sua base sólida no baixo e João Barone é o coração do trio com suas levadas precisas e viradas criativas.Se os músicos não se movimentam, o som, como dizem os axezeiros, tira o povo do chão.


João Barone

Daí em diante eles foram regulando a temperatura da “rapaziada”, como Herbert diz, entre sucessos e menos conhecidas. Ele ataca também de MC com apelo para a plateia levantar as mãos, indaga quem era nascido antes das músicas mais antigas, apresenta os músicos com adjetivações extremas. Herbert é gente finíssima, suporta com elegância, resignação e elevado astral o fardo que a vida lhe impôs de ficar numa cadeira de rodas. E até brinca em Vital e Sua Moto ao cantar “em cima dessas rodas também bate um coração.”  Um lance peculiar é que a banda não costuma sorrir no palco, como veem pelas fotos. Todos muito concentrados em dar aos fãs o que vieram buscar. E recebem um forte feedback que, como disse Herbert, vale o deslocamento do Rio com escala em Brasília, num total de quase cinco horas de voo. Por isso ele agradeceu várias vezes a vibração da plateia.


Bi Ribeiro

Em Sempre Assim, Herbert convidou todos a dar um pulo em Jamaica na batida dolente deste reggae do último disco. Falou sobre “a batida do blues que vem do coração,” citou grandes mestres como Jimi Hendrix, Eric Clapton e Led Zeppelin (Jimmy Page) ao dizer que todos foram influenciados pelo blues e que Caleidoscópio ia na mesma vibe. Para fazer jus aos citados, Herbert fez solos inspirados, incluindo o final em que ficou só, mandando ver num solo longo, o que não é habitual. Seus solos sempre servem à música e não o contrário.


João Fera

No meio do show a banda encaixa um set sobre violência com três canções que remetem para a violência urbana, bem menor aqui em Porto Velho do que no Rio. O Calibre se refere às balas perdidas que tanto matam nos versos “Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo, sem saber o calibre do perigo. Eu não sei, da onde vem o tiro. ” Selvagem fala no “grande monstro a se criar”, os garotos que pedem esmola nos sinais e O Beco fala na explosão de violência. Depois de volta ao romântico, incluindo o hino Lanterna dos Afogados, um solo memorável no sax de Monteiro Junior e meu solo favorito de Herbert. Na reta final Ska bota todo mundo pra pular junto com Vital e Sua Moto e Alagados. No bis a instrumental chacoalhante ao estilo afro-baiano Bundalelê e Óculos. Zé fini.

Duas e meia da manhã, o povo sai lentamente. Uma chuva fina cai na madrugada amazônica de Porto Velho, uns enfrentam, outros esperam. Uma bela noite.



Obs. Não tive foto aproveitável de Bidu e Monteiro, estavam sem iluminação alguma. Sorry.


SETLIST
Sinais do Sim
Itaquaquecetuba
Meu Erro
Lourinha Bombril
Capitão de Indústria
Uns Dias
A Outra  Rota
O Calibre
Selvagem – O Beco
Aonde Quer Que Eu Vá
Busca Vida
Sempre Assim
O Amor Não Sabe Esperar
Olha a Gente aí
Lanterna dos Afogados
Cuide Bem do Seu Amor
Caleidoscópio
Uma Brasileira
Ska
Vital e Sua Moto
Alagados
BIS
Bundalelê
Óculos

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