domingo, 25 de novembro de 2018

The Beatles final: numberninenumberninenumberninenumbernine






No dia de hoje, 25 de novembro, há 50 anos, era lançado na América The Beatles, o álbum branco, no Reino Unido tinha sido dia 22. Duplo, mais caro, mesmo assim ficou em primeiro lugar por nove semanas nos domínios do Tio Sam. Hoje acumula 19,5 milhões de cópias por lá, o que deve aumentar com a edição de aniversário enriquecida por uma nova mixagem, um CD acústico e dois CDs de takes de estúdio.

Encerro a série sobre o álbum com o lado quatro, dominado por duas canções de John Lennon. Revolution 1 é o início de sua fase política que se estenderá à carreira solo, culminando com o segundo álbum, Sometime In New York City (1972), incluindo uma "guerra" contra o governo de Richard Nixon que o via como subversivo pela militância (Nixon caiu em 1974 pelo escândalo Watergate e John conseguiu o visto em 1976). 

Na segunda, Revolution 9, ele levou a música concreta às massas, oito minutos e 20 segundos de algo nunca ouvido fora do restrito círculo da música experimental em que brilhavam nomes como John Cage e Karlheinz Stockhausen. Os fãs entraram em órbita ouvindo aquilo, ainda mais com os neurônios aditivados por letrinhas mágicas como THC e LSD. 

Neste último lado temos quatro canções de John, uma de Paul e uma de George. Interessante o contraste entre Revolution Nine e Good Night, que fecha o disco, ambas de John, uma muito louca, outra uma canção de ninar com orquestra. A mesma diversidade se repete para os demais Beatles e a grande conclusão, infelizmente saudosista, é que eram bons tempos em que quatro caras de uma banda faziam um disco de 30 músicas diferentes umas das outras.
Let's go.

 Revolution1 (John Lennon)



A primeira manifestação política de John. Ele contou à Rolling Stone que já tinha vontade de criticar a Guerra do Vietnam quando a banda fez a última turnê americana em 1966, mas o empresário, Brian Epstein, proibiu.

Os acontecimentos de 1968, a revolta estudantil na França, protestos na América, o assassinato do líder negro Martin Luther King, a pregação de uma revolução pela militância de esquerda americana, do Youth International Party aos Panteras Negras. Tudo isso o motivou a fazer Revolution.

Foi a primeira música gravada do álbum branco, John a queria para lado A de um single, Paul e George vetaram por ser política, daí ele resolveu gravar uma versão rápida e distorcida que acabou no lado B de Hey Jude com o título de Revolution.



A versão lenta do álbum passou a ser Revolution 1. A letra é um diálogo imaginário de John com um militante que prega a revolução e John responde “We all want to change the world (...) when you talk about destruction. Don’t you know that you can count me out.” Todos queremos mudar o mundo, mas quando você fala em destruição, não conte comigo.” É assim que ele canta no single, mas no álbum sua posição e dúbia porque diz, ao mesmo tempo, “out in.” Mais adiante afirma ao interlocutor imaginário “But if you want money for people with minds that hate. All I can tell is brother you have to wait” (Mas se você quer dinheiro para gente com mentes que odeiam. Tudo que posso lhe dizer é que terá que esperar). Aos que culpam a Constituição, ele manda que mudem suas cabeças. Aos que levam posters do líder chinês Mao Tse-tung, ele rebate que nada vão conseguir. O Take 18 tem 10 minutos e 28 segundos. Os seis minutos finais foram retirados e formam a base de Revolution 9.




John ficou mordido com a recusa de a versão lenta ser lado A do single, embora reconhecesse a qualidade de Hey Jude.
“Os Beatles poderiam muito bem ter lançado a versão lenta como single, fosse ela um disco de ouro ou de madeira. Mas estavam chateados com o lance da Yoko e com o fato de eu estar me tornando tão dominante e criativo como nos primeiros tempos, depois de anos apático. Eu acordei e não ficaram nem um pouco satisfeitos,” disse ele, citado no livro All We Are Saying, de David Sheff.


John colocou a voz deitado no estúdio por se sentir mais confortável

A gravação aconteceu em quatro sessões a 30 e 31 de maio, quatro e 21 de junho: John cantou, tocou violão e guitarra; Paul tocou piano, órgão, baixo e fez vocais; George tocou guitarra e fez vocais e Ringo tocou bateria. Esta versão tem dois trompetes e quatro trombones. 

Honey Pie (Paul McCartney)




Canção ao estilo das bandas de vaudeville dos anos 20, com sopros manipulados tecnicamente para soarem como as antigas gravações em 78 rotações. A história de uma garota pobre do norte da Inglaterra que faz sucesso na América e seu apaixonado a chama de volta. 

Paul ouvia muito jazz tradicional em casa. Seu pai James “Jim” McCartney tocava numa banda e tinha muitos discos. “Gosto das melodias e das letras dessas canções antigas, coisas que não se ouve hoje em dia. Eu até gostaria de ser um escritor dos anos 20, saca, cartola e fraque. Então nesta sou eu fingindo que vivo em 1925,” disse Paul em 1968. 

Ele falou que John também gostava de vaudeville, apesar de chamar canções de Paul como esta e When I’m Sixty Four de “Canções de vovozinha.”

Gravado nos estúdios Trident nos dias 1, 2 e 4 de outubro, com Paul na voz, piano e guitarra; John na guitarra; George no baixo e Ringo na bateria. Os sopros são cinco saxofones e dois clarinetes. Um verso “now she’s hit the big time”, no princípio, recebeu forte compressão e chiados para soar como num disco antigo.

Savoy Truffle (George Harrison)




Brincadeira com o guitarrista Eric Clapton, grande amigo de Harrison, que devorava caixas de bombons Good News com sabores como Savoy Truffle, Montelimart, Gingersling, Cream Tangerine e Coffee Dessert, todos citados na letra. 

George conta na autobiografia I Me Mine que Clapton tinha cáries pela grande quantidade de chocolates que ingeria. Na época da composição, depois de voltar da Índia, ele tinha consertado os dentes, mas viu na casa de George uma caixa de Good News e atacou. George contou que o verso “you have to have them all puled out...” significava que Clapton tinha que parar de comer doces. 



O verso “You know that what you eat you are” é do assessor de imprensa da banda Derek Taylor. Faltava um verso, George perguntou se tinha alguma ideia e Derek lembro do filme You Are What You Eat, do amigo dele Alan Pariser. Ele deu um twist e sugeriu a George “You know that what you eat you are” que o autor rimou com “we all know Obladi Bla da”, a canção de Paul que tinha torrado o saco do resto da banda por ter exigido zilhões de takes.

Gravada no Trident e em Abbey Road nos dias 3, 5, 11 e 14 de outubro, teve George no vocal com dobra e guitarra, Paul no baixo e Ringo na bateria e pandeiro. Os sopros são seis saxofones – dois barítonos e quatro tenores – que tocaram lindamente o arranjo do assistente de George Martin, Chris Thomas. Quando estava pronto, George pediu ao engenheiro Ken Scott que distorcesse o som, o que foi feito injetando os sopros em dois amplificadores que foram saturados e sujaram tudo. 

Antes de os músicos ouvirem, George pediu desculpas pelo que tinha feito, mas explicou que era assim que queria. Eles não gostaram nem um pouquinho, mas estavam ali para fazer o que o autor desejava.

Cry Baby Cry (John Lennon)



Canção inspirada num comercial que mandava as crianças chorarem para as mães comprarem uma marca de flocos de milho ("Cry baby cry\ Make your mother buy). Em Sgt Pepper’s John também tinha feito uma inspirada em comercial de flocos de milho, Good Morning Good Morning (ele deixava a TV ligada).



Letra inspirada em histórias de fantasia  que John conhecia da infância. A segunda estrofe de Sing a Song for Sixpence é uma das influências:
“The king was in his counting house counting out his money
The queen was in the parlor eating bread and honey
The maid was in the garden hanging out the clothes
When down came a blackbird and pecked off her nose”
John escreveu: “The king of Marigold was in the kitchen cooking breakfast for the queen. The queen was in the parlour playing piano for the children of the king.” Mais adiante ele coloca o rei colhendo flores no jardim e a rainha pintando retratos para as férias das crianças. E a duquesa de Kircaldy [cidade escocesa] sempre atrasada para o chá e por aí vai.

Gravada nos dias 15, 16 e 18 de julho, com John na voz, violão, piano e órgão, Paul no baixo, George na guitarra solo, Ringo na bateria e no pandeiro e George Martin no harmônio. 

No dia 18, os Beatles compareceram à première de Yellow Submarine, mas também finalizaram a faixa com uma nova voz de John, vocais e efeitos. Um fragmento de canção de Paul “Can you take me back faz a passagem para a faixa seguinte (o álbum não tem separação de músicas).

Revolution 9 (John Lennon)




Começa com um diálogo entre o produtor George Martin e o gerente da Apple Alistair Taylor que esquecera de trazer uma prometida garrafa de vinho e pede desculpas para Martin. Daí entra uma voz repetindo “number nine” encontrada numa fita de teste usada por John para criar um loop repetido ao longo da peça, inspirada nos experimentalismos de gênios como John Cage e Karlheinz Stockhausen. Seis minutos cortados do final de Revolution 1 formam a base aqui, com os gritos de Right e Alright de John.

A colagem foi feita por John e Yoko, com uma força de George Harrison, e inclui coisas como John e George falando coisas aleatórias: “take this brother, may serve you well”, “the watusi”, “the twist”, “the eldorado”, “economically viable”, “financial imbalance”, “there ain’t no rule for company freaks”. Yoko canta “you become naked” e solta aqueles gritos irritantes. 



Outros sons:
- George Martin para o engenheiro de som Geoff Emerick:“Acenda a luz vermelha” com muito eco e repetida várias vezes.
- Um coral com violinos ao contrário.
- Uma peça sinfônica picotada ao contrário;
- Um pequeno trecho orquestral de A Day in the Life repetido várias vezes.
- Um mellotron de trás pra frente (tocado por John).
- Vários trechos de sinfonias e óperas. Identificou-se A Fantasia de Beethoven para Coral As Ruas de Cairo , Estudos Sinfônicos de Schumann (ao contrário), moteto de Vaughan Williams O Clap Your Hands, e o acorde final da Sinfonia nº 7, de Sibelius. 




E ainda a canção Awal Hamsha do cantor e compositor sírio Farid al-Atrash, um dueto de trompa e oboé, uma guitarra elétrica ao contrário, um efeito usado em Tomorrow Never Knows. E muitos sons avulsos como tiro, pratos percutidos com força, risadas de multidão, vidro quebrado, buzinas de carros e uma multidão num estádio de futebol americano cantando “Hold that line\ Block that kick.” Pelo menos 45 sons diferentes foram identificados.



Um engenheiro falou que o “number nine number nine” virou mania na gravadora e as pessoas ficaram semanas repetindo como um mantra. John levou os funcionários de arquivo e os engenheiros à loucura com sua pesquisa de sonoridades, colagens feitas na base de gilete e cola, loops grandes que tinham que ser segurados com lápis longe dos gravadores e a loucura de jogar tudo isso nos oito canais e fazer a mixagem com efeitos de pan. Chegou a usar os três estúdios de Abbey Road para as montagens com 10 gravadores repetindo loops, alguns, grandes, segurados com lápis por técnicos da gravadora, muitos deles putos da vida porque a montagem entrou pela noite e vários tinham pegado nove da manhã.

Quando ficou pronto, John mostrou aos demais. Paul só disse “Not bad\ Não é ruim”, o que significou que não tinha gostado. George e Ringo nada disseram, ficaram sem jeito. Paul e George Martin tentaram, sem sucesso, demover John de incluir a peça no álbum porque não era o estilo da banda. Resultado: Milhões de fãs em todo o mundo tiveram o primeiro contato com a música concreta.
Depois disso, só restava finalizar o disco com algo bem careta.

Good Night ( John Lennon)




Ringo canta esta cantiga de ninar feita por John para seu filho Julian, de cinco anos. Resultado do momento em que vivia, separando-se da esposa Cynthia e do filho Julian, então com cinco anos, para ficar com Yoko Ono.

Nos dias 28 de junho e dois de julho, John e Ringo gravaram uma base, que George Martin levou para criar o arranjo de orquestra, gravado no dia 22 de julho por 26 músicos, com o coral dos Mike Sammers Singers, quatro rapazes e quatro moças. Ringo colocou o vocal definitivo nesta noite numa sessão que foi de sete e meia da noite a uma e 40 da madrugada.




quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Álbum Branco, Parte 3: Helter Skelter inspira chacina

O lado três de The Beatles, o álbum branco que completa 50 anos, tem a música mais polêmica, o rockão de Paul McCartney Helter Skelter, usado pelos fanáticos da seita californiana de Charles Manson como desculpa para assassinar a atriz Sharon Tate, dois amigos dela e outro. que foi visitar o jardineiro na edicula, estava saindo quando Manson chegou e foi a primeira vítima.


Sharon Tate tinha 26 anos

Helter Skelter, Blackbird, Sexy Sadie, I Will, Honey Pie e Piggies, entre outras,  conteriam mensagens de uma rebelião que jogaria negros contra brancos numa guerra racial e Manson se ergueria como o guia dos vencedores. Ele via os Beatles como Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. 

Charles Manson morreu na cadeia em novembro de 2017 aos 83 anos. Quando cometeu os crimes tinha 34 anos

O crime chocou o mundo pela violência e, ao estilo show business da América, pela morte da bela Sharon, grávida de oito meses. É óbvio que a música nada tinha a ver com isso, mas ficou associada ao crime. Helter Skelter, ao pé da letra significa confusão, desordem, na Inglaterra era um escorrega em espiral nos parques de diversões e a letra se refere a isso: “quando eu chego ao fundo, volto ao alto do escorregador, onde dou voltas num passeio, chego ao fundo e te vejo de novo”.

O lado três tem três músicas de John Lennon, duas de Paul McCartney, uma de George Harrison e a única de Lennon e McCartney: Birthday, que abre o lado três. Vamos às faixas:

Birthday (Lennon & McCartney)





Única da lendária dupla no álbum, com os dois se revezando na voz principal. A parte principal é de Paul completada por John. Gravada no dia 18 de setembro, quando a BBC exibiu pela primeira vez o filme The Girl Can’t Help It, estrelado pela louraça belzebu Jayne Mansfield como uma cantora em busca da fama. Mas o atrativo principal eram os números musicais de Little Richard, autor da canção-título, Fats Domino, The Platters e Gene Vincent & The Blue Caps. Os Beatles combinaram de começar a sessão de gravação às 17h em Abbey Road, depois seguir para a casa de Paul, na vizinha Cavendish Avenue, para ver o filme às 21h05. Paul foi o primeiro a chegar ao estúdio e os outros o encontraram levando Birthday ao piano com sua voz no alcance máximo ao estilo de Little Richard, usada por ele no passado em Long Tall Sally e I'm Down.



Os quatro começaram a trabalhar na base com Paul na voz e piano, John na guitarra, voz e vocal, George no baixo e Ringo castigando os tambores. Um rock rápido ao melhor estilo de Little Richard. Depois do filme voltaram para concluir, acertando algumas partes, John gravou sua contribuição, duas esposas que estavam no estúdio, Pattie Harrison e Yoko Ono ajudaram nos vocais. A canção substitui o tradicional Parabéns Pra Você nos aniversários da turma do rock. 


Yer Blues (John Lennon)



"Uma coisa engraçada sobre o campo do Maharishi é que, apesar de ser muito bonito e de eu meditar oito horas por dia, estava compondo as canções mais deprimentes da Terra. Em Yer Blues quando escrevi  'I'm so lonely I want to die,' não estava brincando. Era como me sentia, tentando alcançar Deus e sentindo impulsos suicidas," contou Lennon na Beatles Anthology. Na época ele já conhecia Yoko Ono, mas o romance não tinha engatado e ela escrevia muitas cartas para ele. John ainda estava com Cynthia, presente em Rishikesh.



Eles gravaram numa a sala pequena do estúdio dois por causa de um comentário irônico do engenheiro de som Ken Scott quando gravaram Not Guilty, de Harrison: "George queria gravar na sala de controle com falantes em volume máximo para ter a sensação de estar ao vivo. Lembro que John entrou nessa hora e lhe disse 'que diabos, do jeito que vocês andam fazendo, vão acabar gravando na sala ao lado.' Era usada para guardar máquinas de gravação, sem tratamento acústico. John achou a ideia maravilhosa e disse que a próxima seria gravada na sala," contou Scott citado em The Complete Beatles Recording Sessions, de Mark Lewisohn. E assim foi feito com todos os vazamentos a que tinham direito.

Ringo se entusiasmou: "Yer Blues foi o máximo, imbatível. Éramos nós quatro de verdade numa sala pequena sem separações. Era o nosso grupo, juntos, algo como um grunge dos anos 60, grunge blues," disse ele na Anthology, numa demonstração de saudade dos tempos em que os quatro tocavam juntos de verdade.

As guitarras de John e George passaram por caixas Leslie, Paul tocou baixo e Ringo bateria nas sessões de 13 e 14 de agosto. John faz uma grande interpretação nesta canção e faz o solo de apenas duas notas. No final John canta sem o microfone com captação mínima, dando a impressão de que está bem longe. No dia 20, Ringo gravou a contagem “two, three...” que abre a canção.Na sessão do dia 14 John também gravou What’s the New Mary Jane, que ficaria inédita em lançamento oficial até 1996, quando foi incluída no volume três da Beatles’ Anthology, relançada agora nos Extras da nova edição do álbum branco.

Mother’s Nature Son
( Paul McCartney)



A letra fala de um rapaz pobre que nasceu filho da mãe natureza. Em sua atobiografia Many Years Fron Now, Paul conta que se inspirou numa palestra do Maharishi sobre a natureza. John também foi tocado pelas palavras do guru e fez A Child of Nature, que ficou de fora porque preferiu-se a canção de Paul com o mesmo tema. Na carreira solo John mudou a letra e gravou como Jealous Guy.

Paul terminou a canção em Liverpool. “Fui visitar meu pai, sempre me sentia bem quando ia lá, o que me deixava inspirado. Tinha uma canção de Nat King Cole que eu adorava, chamada Nature Boy, com um verso 'Havia um garoto, muito estranho e gentil...que ama a natureza,’ isso me inspirou.”

Paul gravou sozinho com voz dobrada, violões, bateria e tímpano em 25 takes, aproveitando o 24º. A primeira sessão foi no dia nove com gravação só de voz e violão. No dia 20 de agosto, Paul gravou um segundo violão, o tímpano e a bateria. Para esta última pediu ao engenheiro Ken Scott que ela tivesse um som parecido com bongôs e sugeriu que fosse gravada no corredor. Também foram gravados os sopros: dois trompetes e dois trombones.

Everybody's Got Something to Hide Except Me and My Monkey
(John Lennon)



Esta canção, de aparente letra non sense, se refere a a charge de um jornal inglês que mostrava Yoko Ono como um macaco nas costas de Lennon. John e Yoko ficaram muito chocados com as reações negativas ao relacionamento deles. "Estávamos felizes na Swinging London e, de repente, a Idade Média desabou sobre nós," disse ela numa entrevista. Monkey  tinha outra conotação, uma gíria para heroína, John teve um "relacionamento" com a droga neste período. Em Happiness is a warm gun, outra referência quando ele diz "I need a fix cos I'm going down," fix a injeção ou pico da droga.

Alguns versos são citações do Maharishi durante a estada da banda na Índia.“Come on it’s such a joy” (“Venham, é tanta alegria”) era uma frase frequente do guru indiano. “The deeper you go the higher you fly” (“Quanto mais fundo você for, mais alto voará”) e “Your inside is out and your outside is in” (“Seu interior está para fora e seu exterior para dentro”).

Gravada em quatro sessões nos dias 26 e 27 de junho e 1º e 23 de julho, John cantou, tocou guitarra e percussão. George fez vocal, tocou guitarra e percussão. Paul fez vocais, tocou baixo e percussão. Ringo tocou bateria e percussão. Todos bateram palmas. A canção tem uma insistente sineta.
No dia primeiro de julho, Paul gravou um baixo e vocais. Todos os quatro contribuíram para os repetidos “comeoncomeoncomeoncome on” no final.

Sexy Sadie (John Lennon)



Uma ácida crítica de John Lennon a um suposto assédio do guru Maharishi Mahesh Yogi a uma das mulheres presentes ao ashram em Rishikesh, India.

Tudo não passou de fofoca de um trambiqueiro grego chamado Alex Mardas, conhecido como Magic Alex, que convenceu os Beatles de que poderia construir um estúdio de 72 canais e não fez coisa alguma, só mamou nas tetas do Fab Four até ser posto porta a fora. Alex chegou a Rishikesh e se ressentiu de Lennon não estar lhe dando a atenção que  julgava merecer, daí tramou para John sair e ele voltar a ficar bem com ele novamente.


“Alexis começou a espalhar o boato que repercutiu no campo sem qualquer evidência ou justificativa. Ficou claro que ele queria tirar os Beatles dali, não tive dúvidas disso,” disse Cynthia Lennon, esposa de John (ele já conhecia Yoko, mas não tinham começado uma relação).



Paul McCartney não se impressionou com o suposto assédio e rebateu: “Ele nunca disse que era um deus, pelo contrário, sempre ressaltou que era um professor de meditação. Nunca se falou em voto de castidade, nem em uma proibição de tocar nas mulheres. Não dei importância, não vi motivo para ir embora,” disse Paul.

John Lennon  já estava de saco cheio de tanta meditação e viu ali uma desculpa para se mandar: “Comecei a compor esta quando já estávamos de malas prontas esperando um táxi que não chegava. Entramos numas de que estavam retardando o táxi para não podermos escapar de lá. O grego maluco estava com a gente, paranoico, repetindo toda hora que era magia negra, que iam me manter lá pelo resto da vida,” contou John.

Alex Mardas, o 171

Os primeiros versos citavam o guru: 
“Maharishi, what have you done? You made a fool of everyone.” George reclamou: “Não pode dizer isso, é ridículo. Então sugeri Sexy Sadie e ele aceitou,” disse.

Os dois versos iniciais são de uma canção do grande cantor, compositor e produtor americano Smokey Robinson, I’ve Been Good to You, que dizem: “Look what you've done/You made a fool of everyone". 

A canção consumiu 35 horas de estúdio nos dias 19 e 24 de julho e 13 e 21 de agosto. John fez a voz com dobra, vocal, tocou violão, órgão Hammond e guitarra base. Paul tocou baixo, piano e fez vocal. George tocou guitarra solo e fez vocal e Ringo tocou pandeiro e bateria. 

A sessão do dia 19, de 19h30 até 3h30, foi dispersiva, com muitos improvisos, incluindo seis minutos instrumentais de Summertime, de George Gershwin. Vinte e um takes foram gravados da canção, mas John rejeitou todos. No dia 24, recomeçaram com 23 takes, John marcou um deles como melhor, mas começou tudo de novo no dia 13 de agosto, desta vez mais rápido, com apenas sete takes. A canção foi finalizada no dia 21 de agosto. 

Helter Skelter (Paul McCartney)





Uma das primeiras canções, se não a primeira, do que viria a ser chamado de heavy metal. Paul ficou mordido com uma declaração de Pete Tonshend na Melody Maker sobre ter gravado a “canção mais alta, barulhenta e crua” da carreira do Who. 

Paul resolveu fazer uma que fosse muito mais tudo isso e há versões de que foi uma resposta a quem o acusava de só fazer baladas. Os Beatles gravaram em três sessões nos dias 18 de julho, nove e 10 de setembro com Paul no vocal, guitarra e baixo. John tocou baixo, sax tenor, baixo, guitarra e vocal. George tocou guitarra e fez vocal e Ringo bateria, numa performance excepcional. A sessão do dia 18 foi toda de jam sessions, uma delas de 27 minutos e uma outra foi editada e incluída no volume três da Antologia. 


Helter Skelter

A sessão do dia nove de setembro foi descrita como uma loucura total pelo engenheiro Brian Gibson, que insinua que eles estavam drogados. O auxiliar de George Martin, Chris Tomas, conta que George Harrison botou fogo num cinzeiro e andou com ele na cabeça enquanto Paul gravava a voz. 

A canção tem um fade out e, a seguir, um fade in até um final caótico em que Ringo grita que está com bolhas nos dedos - "I've got blisters on my fingers" - , uma referência à performance incendiária nos tambores e pratos. 

Long Long Long (George Harrison)




Depois da demência de Helter Skelter esta balada de George cai muito bem. Gravada em três sessões nos dias sete, oito e nove de outubro com John Lennon ausente. George cantou com dobra e tocou violões, Paul tocou baixo e órgão Hammond. O coprodutor Chris Thomas piano. 

Um ruído climático no final é de uma garrafa de vinho que estava em cima da caixa Leslie e começou a tremer quando Paul tocava. Eles gostaram do som e o repetiram com um microfone para a devida captação. 

A letra de George pode ser interpretada como de amor romântico, mas o engajamento religioso dele pode lhe dar uma outra interpretação: “Faz muito, muito, muito tempo/ Como eu posso ter te perdido/ Se eu te amava/ Levou muito, muito, muito tempo/ Agora estou feliz por ter te encontrado”.

Fim do lado três. Falta um.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Os 50 anos do álbum branco dos Beatles (Segunda Parte)



The Beatles, o álbum branco, está em posições privilegiadas entre os melhores de todos os tempos. Em 10º lugar na lista dos 500 discos mais importantes da revista Rolling Stone. Em 39º lugar entre os 200 discos definitivos do Rock’n’Roll Hall of Fame, que dá o primeiro lugar a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e inclui mais três álbuns, Abbey Road (12º), Revolver (42º) e Rubber Soul (110º).

Na América tem 19 milhões de cópias vendidas, equivalentes a um disco de diamante e 19 de platina. Numa eleição promovida pelo Canal 4 inglês, o jornal The Guardian e a Classic FM, o álbum ficou em 10º lugar na lista de Músicas do Milênio. A revista conservadora Time colocou o álbum entre os 100 mais importantes de todos os tempos numa lista por década, sem ordem de classificação. Nos Estados Unidos, é o décimo disco mais vendido da história. Foi lançado em 22 de novembro de 1968 na Grã-Bretanha e no dia 25 nos Estados Unidos. 


Ringo, Paul, George, John

Nas entrevistas que deu para a série de DVDs The Beatles Anthology, Ringo Starr disse que o pior das gravações desta fase mais elaborada era ficar muito tempo sem fazer nada até chegar sua vez. E, muitas vezes, quando chegava, o baterista tinha que reproduzir o que o autor da canção queria, em vez de o deixarem livre para elaborar sua participação, como era antes. 

Rolava um clima ainda amistoso, mas havia sinais de fissuras no ar. John disse que sua Everybody’s Got Something to Hide Except for Me and My Monkey era uma espécie de adeus à dupla com Paul McCartney. A partir dali teria uma parceria conjugal e profissional com Yoko Ono. Paul McCartney trabalhou em I Will na Índia com seu amigo e cantor Donovan e não com John. George se queixava que John e Paul não tinham,, com as canções dele o mesmo empenho dedicado ao material deles. O álbum branco é o início do testamento musical do Fab Four, que ainda se estendeu por Abbey Road (1969) e Let It Be (1970).

Vamos ao lado dois do primeiro disco. Todos os áudios abaixo da nova mixagem pelo produtor Giles Martin e pelo engenheiro de som, Sam Okell:

Martha My Dear (Paul McCartney)



Martha era a cadela pastor de Paul, que morava no mesmo bairro da gravadora EMI, St. John’s Wood, e ele de vez em quando a levava para passear. Um grupo de fãs que fazia plantão diante de sua casa às vezes recebia o privilégio de levar Martha para passear. Paul também sentava na janela de noite com o violão e cantava para elas, assim reza a lenda. Paul conta em sua autobiografia Many Years From Now que muita gente  estranha quando ele fala que a letra é sobre ele e sua cadela, explica que ela era bem carinhosa e que tinham um bom relacionamento, mas ressalta que o amor do casal era puramente platônico.

Paul e Martha


O arranjo de cordas e sopros é de George Martin. Paul costumava passar para ele de boca o que queria e Martin orquestrava. Na nova versão há um take da canção sem sopros e cordas que mostra que ela poderia muito bem prescindir desses acréscimos.


Gravada com George (guitarra) nos estúdios Trident, Londres, onde já havia uma máquina de oito canais, enquanto Abbey Road continuava com quatro. Paul se revezou entre piano, baixo, guitarra, bateria, palmas e vocal com dobra. Foram dois dias de trabalho, quatro e cinco de outubro, com 14 músicos fazendo sopros e cordas: quatro violinos, duas violas, dois cellos, três trompetes, flugelhorn, trombone e uma inusitada tuba. 


Gravação de sopros 4 de outubro com Paul e George
A maior parte gravada na sessão do dia quatro, que durou de quatro da tarde às quatro e meia da manhã. No dia seguinte, Paul gravou baixo e guitarra. Na sessão do dia quatro, foram gravados também os sopros de outra música de Paul, Honey Pie. 

I’m So Tired (John Lennon) 



John compôs esta música na Índia, numa referência ao seu cansaço com tanto estudo e meditação no ashram do Maharishi Mahesh Yogi, embora ele sempre tenha sido bem preguiçoso. Ela se conecta diretamente com I’m Only Sleeping, do LP Revolver (1966), pela semelhança do tema. Naquela, John pede que não o acordem porque está ferrado no sono. Em I’m So Tired”, ele tenta combater o cansaço com um drinque e um cigarro e, de quebra, xinga de babaca Sir Walter Raleigh, o cara que introduziu o tabaco na Inglaterra. No final John murmura “Monsieur, monsieur, what about another one?”     


John por Annie Leibovitz

A gravação rolou num único dia, 8 de outubro, com John na voz, violão guitarra e órgão. Paul tocou baixo, piano elétrico e fez vocal, George guitarra e Ringo bateria. A sessão durou de quatro da tarde às oito da manhã com os quatro trabalhando também em The Continuing Story of Bungalow Bill, de John, e na balada Long Long Long, de George. 

Blackbird (Paul McCartney)  



Os jovens ingleses usavam a palavra Bird (Pássaro) para designar mulheres, daí Blackbird, pássaro preto, se referir à mulher negra. Paul disse que lia sobre o movimento dos direitos civis na América e se interessou particularmente pelo lado feminino. Houve boatos de que ele se referia a Angela Davis, hoje com 74 anos, na época militante da organização radical Panteras Negras, mas Paul desmente:


Militante dos Panteras Negras

“Fiz para uma mulher negra que passasse por estes problemas nos Estados Unidos para encorajá-las a continuar tentando, a manter a fé e a esperança. Ninguém especificamente, mas um símbolo,” diz em sua autobiografia Many Years From Now. Paul conta que a música começou com a peça Bouree em mi menor para alaúde, de Bach, que ele e George aprenderam antes da fama e tocavam como exercício. A partir daí foi modificando até se tornar a harmonia e a melodia. 

Paul gravou em 11 de junho, sozinho, em Abbey Road, com violão Martin D-28 com execução dedilhada. Apesar de simples, Paul gravou 32 takes, 11 deles completos. O canto do pássaro na faixa veio do volume sete da sonoteca de efeitos de Abbey Road: “Pássaros de Pena”. A mixagem pôs um clique (metrônomo) marcando no canal esquerdo como se fosse percussão e o restante no meio. Paul trabalhou no estúdio dois de 18h30 a 0h15. 

Piggies (George Harrison) 



Canção que ecoa Animal Farm (A Revolução dos Bichos), de George Orwell, em que os porcos dominam os demais animais com o mote de que todos são iguais, mas uns são mais iguais do que outros, o que se encaixa perfeitamente no conceito ocidental de democracia. A letra fala de porcos pequenos que chafurdam na lama e dos grandes porcos, sempre com roupas limpas, que saem com as esposas para jantar e comem bacon, dos porcos pequenos, supõe-se.    



A canção tem um arranjo barroco com quatro violinos, duas violas e dois cellos. O coprodutor Chris Tomas, que dirigia as sessões na ausência de George Martin, tocou cravo. Paul tocou baixo, Ringo bateria e John fez os loops de fita com os roncos dos porcos usando o volume 35 da sonoteca de áudios: Animais e Abelhas. George gravou a voz com dobra em alguns trechos. 

O engenheiro Ken Scott explica como conseguiu o efeito: “Passamos o sinal do microfone por um filtro muito agudo da câmara de eco que cortou tudo acima e abaixo do nível de três kilohertz, criando uma faixa de som bem estreita”. George contou com ajuda de Lennon, autor do verso “clutching forks and knives to eat their bacon” (“Empunhando facas e garfos para comer seu bacon”) e sua mãe, Louise, fez o verso “What they need is a damn good whacking” (o que eles precisam é de uma boa surra”). 



A canção foi interpretada como sendo contra a polícia porque “pigs” é uma gíria para policiais. Charles Manson, o líder de uma seita que trucidou quatro pessoas numa mansão da Califórnia, se disse inspirado pela canção Helter Skelter, deste álbum, e escreveu “morte aos porcos” na porta, uma referência, ao que parece, à música de George. Uma de suas vítimas foi a atriz Sharon Tate, 26 anos, oito meses e meio grávida do marido, o cineasta Roman Polanski, que estava viajando. E três amigos, dois homens e uma mulher.  

Rocky Raccoon (Paul McCartney) 



Canção com relato cômico sobre o caubói Rocky Raccoon que vivia nos morros do estado de Dakota. A mulher dele, Magill, foge com um tal de Dan, ele vai atrás para lavar a honra, encontra os dois, mas Dan é mais rápido e atira nele. Paul fez parte da letra no estúdio. 

Gravada numa única sessão no dia 15 de agosto, das 19h às três da manhã, com Paul na voz e violão, John no vocal, gaita, harmonium e baixo, George no vocal e Ringo na bateria. O produtor George Martin gravou o solo com um piano de armário para soar como um piano de Saloon do Velho Oeste. 


A canção inspirou a Marvel a criar o personagem Rocky Raccoon

Alguns versos deixados de lado: “roll up his sleeves on the sideboard”; “roll over Rock...he said oh, it’s OK doc, it’s just a scratch and I’ll be OK when I get home” “This hear is the story of a boy living in Minnesota”. Nos takes de gravação da nova versão tem uma parte falada sobre o anti herói da canção.

Don’t Pass Me By (Ringo Starr)



O baterista da banda sempre tentou fazer músicas mas, quando mostrava aos outros, eles caíam na gargalhada porque eram músicas já existentes. Este country levou cinco anos para ficar pronto, uma canção de amor com versos pueris. Levou quatro sessões, em cinco e seis de junho e 12 e 22 de julho, com Ringo na voz, bateria, sineta, piano, Paul ao piano e baixo e Jack Fallon ao violino. Fallon era um empresário de shows e músico que contratou os Beatles para alguns shows no começo da carreira deles. John e George não participaram da gravação. 

Why Don't We Do It in the Road? 
(Paul McCartney) 



Um blues de verso único com apenas um minuto e 40 segundos gravado por Paul e Ringo em duas sessões nos dias nove e 10 de outubro, na reta final do álbum branco, no estúdio um. Paul tocou violão, guitarra, baixo e bateu palmas, Ringo tocou bateria e bateu palmas. Paul usa todos os seus recursos vocais nesta faixa, indo do gutural ao falsete numa sonoridade bem crua. John adorou e ficou chateado por não ter sido convidado a participar quando Paul gravou as bases no dia nove. John e George estavam acompanhando mixagens em outro estúdio. 

I Will (Paul McCartney)



Outra das belas baladas de Paul como And I love Her, Here There and Everywhere, For Noone, Yesterday, entre outras. Letra simples do tipo ''eu te amo e você sabe que vou te esperar", com um arranjo e interpretação tocantes. 


Jane Asher com Paul

Muitas dessas baladas foram feitas para a atriz Jane Asher, com quem Paul ficou de 1963 a 1968. Não houve menção a ela aqui, até porque Jane tinha rompido com ele ao chegar inesperadamente de viagem e encontrá-lo na cama com a americana Francie Schwartz, última de uma série de puladas de cerca que ela aguentou. Jane anunciou a separação no dia 20 e Francis foi a algumas sessões de gravação do álbum.

Paul gravou dias antes do anúncio de Jane, em duas sessões, em 16 e 17 de setembro, com Paul na voz e violões, John na percussão e Ringo nas maracas, címbalos e bongôs. A canção exigiu nada menos que 67 takes até que Paul ficasse satisfeito com o take 65 na sessão que durou de sete da noite às três da manhã. Os dois seguintes receberam overdubs. No dia 17, Paul gravou um “baixo de boca.”  Em Rishikesh Paul trabalhou na letra com seu amigo cantor Donovan e não com Lennon.

Julia (John Lennon) 



Homenagem de John à sua mãe, Julia Stanley, que cuidou dele apenas nos primeiros quatro anos, passando a responsabilidade à irmã Mary, ou melhor, a Tia Mimi, que criou John. Julia prezava sua liberdade, via John apenas ocasionalmente, mas ele sempre a adorou. Os dois foram mais próximos na juventude de John, quando ele formou os Quarrymen, a banda à qual se agregariam Paul e George. Julia morreu atropelada em 15 de julho de 1958, quando John tinha 17 anos, e ele sempre demonstrou um trauma em relação ao abandono. Na canção “Mother”, de sua carreira solo, ele canta “mãe, você me teve, mas eu nunca tive você”. 


John e Julia

Lennon adaptou alguns versos do poema Sand and Foam, do poeta libanês  Kahlil Gibran “Half of what I say is meaningless; but I say it so that the other half may reach you" virou o verso de abertura “!Half of what I say is meaningless, but I say it just to reach you, Julia.”

Kahlil: "When life does not find a singer to sing her heart she produces a philosopher to speak her mind", daí Lennon: “When I cannot sing my heart, I can only speak my mind." 

Julia é uma declaração para a mãe, mas também cita Yoko Ono no verso “ocean child calls me”: Yoko significa “criança do oceano” em japonês. Os psicólogos de plantão interpretam que Yoko finalmente preenchera o vazio que ele sentiu com a morte da mãe, a quem amava muito. 

Julia fazia o papel de amiga e o encorajava criativamente. Sua morte, segundo os supracitados, o levou a adotar uma postura rebelde e a tratar mal as mulheres até conhecer Yoko. John gravou sozinho cantando e tocando violão duas vezes e estas duas versões foram superpostas no estéreo, o que dá um efeito quando ele canta “Julia”. Esta canção foi a última a ser gravada para o álbum branco, em 13 de outubro, e encerra o lado dois.
Próximo post o lado um do segundo disco do álbum duplo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O álbum branco dos Beatles completa meio século

Versão De Luxe, seis CDs, um blu-ray e livro

 PREÂMBULO 

No dia nove de novembro os 50 anos do Álbum Branco dos Beatles receberão novas e luxuosas versões que permitirão ao fã uma visão completa desta obra prima, desde uma nova mixagem às 27 demos feitas no bangalô de George Harrison em Esher, a 40 minutos de Londres, e 50 takes inéditos das gravações. Todos os detalhes do álbum na matéria abaixo, aqui as novas edições remixadas pelo produtor Giles Martin, filho do produtor original, George Martin e o engenheiro Sam Okell. 

Eles partiram dos originais em quatro e oito canais com carta branca de Paul McCartney, que lhe disse que o papel deles era ousar o máximo possível e ele, Ringo, Yoko Ono Lennon e Olivia Harrison julgariam se ele tinha ido longe demais. Até onde se sabe, houve total aprovação. 

Em 1968, o formato stereo ainda era incipiente, não houve uma mixagem com o rigor feito agora, então é a primeira mixagem stereo real pelos padrões atuais. 



Álbum em dois CDs e Esher Demos

Os formatos novos são os seguintes. Três CDs, dois com o álbum e um com as Esher Demos. Único previsto para lançamento no Brasil. 
Caixa de vinil em edição limitada com quatro discos, o álbum em stereo e as 27 demos Esher. 
Álbum duplo em vinil 180 gramas com a edição stereo 
A cereja do Bolo é a edição super luxo com sete discos, a saber: 
CDs 1 e 2: O álbum na nova mixagem stereo 
CD3_ Esher Demos: Faixas 1 a 19 na mesma sequência do álbum (não tem todas) e de 20 a 27 variadas. 
CDs 4, 5 e 6: 50 takes das gravações organizados por datas. 
CD 7 Blu-ray com o álbum em stereo de alta resolução; Edição 5.1 DTS HD; 5.1 Dolby; mixagem original em mono 

 O ÁLBUM: DISCO 1 LADO 1 



The Beatles, mais conhecido como o álbum branco, foi lançado na Grã-Bretanha em 22 de novembro de 1968. É considerado o começo do fim dos Beatles porque já não demonstravam a mesma união de antigamente. John, Paul e George trabalharam várias canções sozinhos e os três usavam os demais como músicos de estúdio. Giles Martin, o produtor das edições de 50 anos, disse em entrevistas que não foi tão pesado o clima, porque nas fitas originais ele ouviu muitas brincadeiras e provas de que eles ainda trabalhavam como uma banda e há até elogios para a participação de Yoko Ono em algumas faixas. Ela tida, injustamente por muitos, como responsável pelo fim da banda. 

O álbum branco tem 13 músicas de John, 11 de Paul, quatro de George, uma de Lennon e McCartney e uma de Ringo. Em fevereiro de 1968, os quatro Beatles foram a Rishikesh, na Índia, para o centro de meditação do guru Maharishi Mahesh Yogi, que conheceram em agosto de 1967 durante um período de meditação no País de Gales. Concentrados lá com seus violões, eles compuseram adoidado e John até brincou que Ringo tinha composto sua primeira canção, Don't Pass Me By, graças às vibrações inspiradoras da meditação. 

As gravações começaram no dia 30 de maio na EMI em Abbey Road, Londres, com Revolution 1, de John Lennon, e terminaram dia 13 de outubro com Julia, do mesmo Lennon. Eles também gravaram nos Trident Studios, onde havia uma máquina de oito canais. Abbey Road ainda estava com quatro canais. Depois de irem ao Trident souberam que havia uma de oito canais ainda para testes na EMI e exigiram que a fizessem funcionar. 


A ideia era fazer um disco de rock não rebuscado como o anterior Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band, mas não foi bem assim. A capa do artista pop Richard Hamilton, toda branca é um contraponto à de Sgt Pepper's, excessivamente rebuscada, com mil elementos visuais. A simplicidade não vingou totalmente porque o álbum duplo trazia encartado um grande poster com colagens na frente montadas por Hamilton e Paul McCartney e as letras atrás. 

Completava uma foto individual de cada um pelo fotógrafo John Kelly. O nome da banda estava impresso em alto relevo na frente, também em branco, e as primeiras edições eram enumeradas com sete casas -  0000001. Hamilton disse que era uma brincadeira com a “previsão” de chegar a cinco milhões de cópias (em um mês vendeu 4 milhões no mundo, no fim de 1970, 6,5 milhões). Na segunda capa havia os nomes das músicas e, na terceira capa, fotos individuais em preto e branco.


Contra a guerra do Vietnam

1968 foi um ano de grandes acontecimentos. A guerra encarniçada no Vietnam e a revolta se espalhando pelas universidades americanas. O maio de 1968 na França, o endurecimento da ditadura no Brasil e a primavera de Praga sufocada pelos tanques soviéticos em agosto. 

Um ano de grandes discos: John Wesley Harding (Bob Dylan), We're Only In It for the Money (Frank Zappa and the Mothers of Invention), A Saucerful of Secrets (Pink Floyd), Beggar's Banquet (The Rolling Stones), Electric Ladyland (Jimi Hendrix Experience), entre outros. 



A capa do LP de Frank Zappa satirizava Sgt Pepper's

E filmes marcantes como Z (Costa Gavras), Teorema (Pier Paolo Pasolini), O Bebê de Rosemary (Roman Polanski). Nos livros destaque para Do Androids Dream of Electric Sheep (Philip K. Dick), inspirador de Blade Runner, The Armies of the Night (Norman Mailer), The Electric Kool Aid Acid Test (Tom Wolfe) e Castaneda: Os Ensinamentos de Don Juan: O Caminho Yaqui do Conhecimento (Hellen Ker). 

O álbum provocou um curto circuito no establishment rock da época, aliás um terceiro, depois de Revolver e Sgt. Pepper's. Nada menos que 30 canções distintas, arranjos idem, grande mistura de estilos, mais uma vez a concorrência comia poeira e os Beatles se reafirmavam como a mais importante banda de rock do mundo.

Os Beatles àquela altura já estavam confortáveis no estúdio, eles mesmos produziram várias faixas. Passaram a trabalhar de noite, às vezes até de manhã, o produtor George Martin não podia acompanhá-los porque tinha outros afazeres. Daí designou o jovem Chris Thomas para quando não estivesse presente. Thomas era inexperiente, ele disse que recebeu créditos de produção por insistência de John mas, na verdade, eles mesmos se produziam.

Os seguintes engenheiros trabalharam no disco: Geof Emerick, que vinha acompanhando os Beatles desde o começo, como assistente de Norman Smith, e depois como engenheiro de Revolver, Sgt. Pepper's e Abbey Road. Os demais são Ken Scott, o mais frequente neste álbum, Peter Brown, Barry Shinefield e Ken Townshend. 

 Os 50 anos do álbum branco serão dividido em quatro posts. Este primeiro abrange o lado um do álbum duplo. A edição em CD é dupla com os lados um e dois no primeiro CD e os dois restantes no segundo CD. Os áudios ainda são da versão original, com exceção de Back In the USSR, While My Guitar Gently Weeps e Glass Onion, já da nova mixagem.

Back in the USSR (Paul McCartney)




Os Beatles eram proibidos na União Soviética e esta saiu três meses depois de as tropas soviéticas sufocarem a Primavera de Praga, o que provocou acusações ridículas de que seu autor estivesse defendendo o comunismo. Paul contou que fez uma paródia de California Girls, dos Beach Boys, e um contraponto com Back in the USA, de Chuck Berry. Ele achou divertido falar da URSS como se fosse os EUA e das garotas da Ucrânia como as garotas da Califórnia. 

A canção nasceu em Rishikesh, onde também estava o vocalista dos Beach Boys Mike Love, para quem Paul tocou a canção e este lhe sugeriu que citasse vários locais da União Soviética. Paul acatou e incluiu citações à Ucrânia, Moscou e Georgia. Esta última, além de ser uma república soviética, é um estado americano, daí Paul aproveitou para adaptar um verso do clássico Georgia, sucesso de Ray Charles. Paul canta “And Georgia’s always on my mind” e o verso de Ray Charles é “Keeps Georgia always on my mind.” 


Paul tocou bateria em Back in the USSR e Dear Prudence
A gravação rolou em 22 e 23 de agosto sem a presença de Ringo Starr. Ele e Paul brigaram por causa da levada de bateria desta canção e resolveu deixar o grupo. Saiu dia 22 de agosto e voltou dia 5 de setembro para encontrar seu kit todo florido. Ringo: “Eu saí porque senti duas coisas: não estava tocando direito, os outros três pareciam muito felizes juntos e eu parecia um estranho. Peguei a família e fui para a Sardenha.” 

No dia 22 gravaram a base com Paul na bateria, George na guitarra solo e John na guitarra. No dia 23 gravaram mais duas baterias, Paul e George nas guitarras solo, dois baixos (Paul e George), Paul colocou a voz, John e George fizeram vocais a la Beach Boys e bateram palmas. 

O engenheiro Ken Scott levanta a hipótese (mas não afirma) que John e George gravaram as duas baterias e foi feita uma montagem com gilette, cortando e colando as fitas. O som do jato é de um avião turbo hélice Viscount, gravado no aeroporto de Londres, arquivado na sonoteca da EMI como Volume 17: Motor a Jato e a Pistão. 

Dear Prudence (John Lennon) 



Prudence é irmã da atriz Mia Farrow. Ambas estavam na Índia e Prudence se mostrava muito arredia, trancada num bangalô com seus exercícios de meditação. A letra a chama para sair e aproveitar o dia de sol, o céu azul, tudo lindo e ela também. John e George gravaram as guitarras dedilhadas. Paul gravou a bateria, tudo isso no dia 28 de agosto. No dia seguinte, Paul gravou o baixo, John o vocal com dobra e os vocais, pandeiro e palmas gravados por Paul e George. O primo de Paul, John MCCartney, o cantor e guitarrista contratado da Apple Records, a gravadora dos Beatles, Jackie Lomax e o roadie Mal Evans ajudaram nos vocais e palmas. No dia 29, Paul gravou piano e flugelhorn. Paul dá uns vacilos na bateria durante a levada, mas no final ele manda ver nas viradas. A canção devia terminar com palmas e gritos, gravados por todos, mas não vingou na forma final. A canção começa em fade in e acaba em fade out. 

Prudence Farrow (primero plano)
 John conta que ele e George foram encarregados de tentar fazê-la sair do bangalô. Fala John: “Nós conseguimos tirá-la de lá. Estava trancada há três semanas tentando alcançar Deus mais depressa que os demais. Esta era a competição no campo do Maharishi: quem iria ser cósmico primeiro. O que eu não sabia é que já era cósmico (risos).” (John Lennon All We Are Saying, David Sheff).


Glass Onion (John Lennon) 


John sempre se divertiu com interpretações às letras dos Beatles e gostava de colocar coisas sem sentido, como esta Cebola de Vidro. A letra de Glass Onion é para provocar um curto circuito nos que buscam significados ocultos. Contém referências a Strawberry Fields Forever ("I told you about Strawberry Fields/ you know the place where nothing is real"), I am the Walrus ("Well here's another clue for you all/The Walrus was Paul''), Lady Madonna ("Lady Madonna trying to make ends meet"), Fool On the Hill ("I told you about the Fool On the Hill") e Fixing a Hole ("Fixing a Hole in the ocean"). 

 A canção foi gravada em 11, 12, 13 e 16 de setembro e 10 de outubro. No primeiro dia, 34 takes da base com John (violão), Paul (baixo, piano), George (guitarra solo) e Ringo (bateria). No dia seguinte, o vocal de John e um pandeiro por Ringo e, no dia 13, piano e bateria. No dia 10 de outubro, as cordas por um octeto com quatro violinos, duas violas e dois cellos. Quando John cita Fool On the Hill rola uma breve flauta tirada da música e inserida em 16 de setembro com auxílio de um gravador por Paul e John. 
Cordas: Henry Datyner, Eric Bowie, Norman Lederman, Ronald Thomas: violinos. 
John Underwood, Keith Cummings: violas.
Eldon Fox, Reginald Kilbey: cellos 

Ob-la-di Ob-la-da (Paul McCartney) 



Uma canção infantil de Paul em ritmo de ska que ele sugeriu como single, mas os outros discordaram. A banda escocesa Marmalade regravou e alcançou o primeiro lugar. A história de Desmond, dono de uma carrocinha no mercado, e Molly, cantora numa banda. Eles se casam, têm dois filhos, de dia trabalham no mercado, de noite ela canta num bar. O título veio de um percussionista nigeriano amigo de Paul, Jimi Scott, que sempre falava a frase “Obladi Oblada, life goes on, bra” de onde saiu o nome da música e o verso do refrão. Paul lhe mandou uma grana depois em reconhecimento. 

Paul levou os demais à loucura fazendo e refazendo a canção num total de 42 horas nos dias 3,4,5,8,9,11 e 15 de julho. Paul cantou, fez vocais com dobra e tocou baixo; John fez vocal e tocou piano; George fez vocal e tocou violão e Ringo bateria, bongôs e percussão. Todos bateram palmas e fizeram "percussão de boca", além dos inúmeros barulhinhos e falas ouvidos ao longo da canção. Exemplos: John canta "arm" e George canta "legs" depois de Paul cantar "Desmond let the children lend a hand". E George ainda canta "foot". 



Paul gravou uma guitarra em timbre grave para soar como um baixo, John o piano da introdução com o detalhe de ter tocado bêbado e em desespero porque Paul não se dava por satisfeito, gravando mais e mais takes. Ele entrou, sentou no piano, martelou as notas e disse “pronto, está aí a introdução.” No dia 11 gravaram três saxofones e um piano elétrico. Paul levou uma cópia da canção para casa e, no dia 15, gastou boa parte da sessão, de 15h30 às 3h30 da madrugada, refazendo a voz. Não consta quem tocou os saxofones. 

Wild Honey Pie (Paul McCartney) 




 Gravada por Paul sozinho no dia 20 de agosto, enquanto John e Ringo trabalhavam em Yer Blues e em Revolution 9 em outro estúdio. É uma brincadeira em cima de outra música dele no disco, Honey Pie. 

The Continuing Story of Bungalow Bill (John Lennon) 



Canção bem humorada de John inspirada no americano Richard Cook III, que também estava em Rishikesh com a mãe, Nancy. Os dois se ausentaram por uns dias para caçar tigres e depois voltaram para continuar seus estudos de aperfeiçoamento espiritual. Diante dessas duas figuras, John partiu para a gozação: "Ele saiu para caçar tigres com sua arma e um elefante/ Em caso de acidentes, ele sempre levava a mãe/ Ele é aquele americano saxão filho da mãe com cabeça em forma de bala", daí ele chamava para o refrão com "Todas as crianças cantem". Todos em Abbey Road foram convocados para cantar o refrão e fazer uma zona no final, incluindo Yoko Ono e Maureen Starr, mulher de Ringo. 


Yoko Ono cantou nesta música

Yoko Ono canta em dois versos na terceira estrofe. Ela faz "But when he looked so fierce", aí John "his mummy butted in". Em seguir ela e John cantam "If looks could kill it would have been us instead of him". Yoko se tornou a primeira mulher a cantar (e não fazer vocal) num disco dos Beatles. A canção foi gravada num único dia, 8 de outubro, numa sessão que durou 16 horas, de quatro da tarde às oito da manhã do dia nove (aniversário de John, 28 anos), também com registros de Long Long Long, I'm So Tired e Bungalow Bill. John e George tocaram violões, Paul baixo, Ringo bateria e pandeiro. Chris Thomas tocou mellotron com sons de bandolim e trombone. 


While My Guitar Gently Weeps (George Harrison) 



George teve dificuldades em gravar suas quatro canções no álbum branco. "Tive que fazer umas 10 de John e Paul antes que me dessem uma chance", contou ele em 1987. Foram cinco sessões nos dias 25 de julho, 16 de agosto, três, cinco e seis de setembro. George tocou violão e órgão e a voz principal com dobra, Paul piano, órgão e baixo distorcido, John guitarra e Ringo bateria e pandeiro. O grande trunfo é o solo de Eric Clapton, gravado no dia seis de setembro com uma Gibson Les Paul. 

Harrison se queixou de indiferença de John e Paul em gravar a canção. George: “John e Paul estavam tão acostumados a produzir em série suas próprias canções que era difícil se empenharem em uma das minhas. Não estavam levando a sério, então fui para casa naquela noite pensando ‘que vergonha’ porque sabia que era uma boa canção. No dia seguinte, indo para Londres com Eric Clapton, o convidei para tocar comigo. Ele se assustou, disse que ninguém nunca tocava numa música dos Beatles e que os outros não iam gostar. Respondi que a canção era minha e gostaria que ele tocasse. Quando cheguei com ele no estúdio anunciei que Eric ia participar e, a partir daí, eles começaram a gravar a sério.” (George em Beatles Anthology). 




A letra era uma aplicação dos ensinamentos aprendidos na Índia com uma abordagem condescendente que mereceu críticas: "Eu não sei como alguém te controlou. Eles te compraram e te venderam. Eu olho para todos vocês e vejo o amor dormindo, enquanto minha guitarra gentilmente chora." George: “Compus esta na casa da minha mãe em Warrington. Estava pensando no I Ching, o Livro das Mutações. O conceito oriental é que tudo que acontece estava previsto, não existem coincidências. While My Guitar Gently Weeps foi um estudo simples baseado nesta teoria. Decidi escrever uma canção a partir da primeira coisa que lesse quando abrisse um livro qualquer e as palavras foram ‘gently weeps.’ Comecei a compor a partir daí.” 

While my guitar... teve duas versões. A primeira gravada nos dias 26 de agosto, três e cinco de setembro. George não gostou e resolveu começar tudo de novo no mesmo dia cinco. Gravaram 28 takes com Harrison ao violão e voz guia, Lennon na guitarra, Paul no piano e órgão, Ringo na bateria e Eric na guitarra em todos os takes. No dia seguinte, seis de setembro, completaram com um baixo distorcido por Paul, órgão por George, percussão por Ringo. George colocou a voz definitiva com vocais de Paul. Eric não recebeu crédito na época por problemas contratuais.

Happiness Is a Warm Gun (John Lennon) 



O título violento foi achado por John numa revista de armas, The American Rifleman, uma sugestão de que a felicidade é uma arma quente, ou seja, que acabou de ser disparada contra alguém. O assessor de imprensa Derek Taylor contou que as citações de aparente nonsense da letra surgiram em uma viagem de ácido dele com John, Neill Aspinall, diretor da Apple e o amigo de infância de John, Pete Shotton. O primeiro verso “she’s not a girl who misses much” é uma gíria de aprovação de Liverpool. A menção a “velvet hands” foi dita por um cara que abordou Neill, e sua mulher Joan, num hotel na Ilha de Mann. Explicou que usava luvas de pele porque gostava de acariciar a namorada com elas, daí o “she’s well acquainted with the touch of the velvet hands” seguido de “like a lizard on a window pane,” sobre um lagarto visto na janela da casa de Derek na Califórnia. (Derek Taylor em A Hard Day's Write de Steve Turner). 




Uma notícia de jornal sobre um torcedor do Manchester City preso porque colocava espelhos nos sapatos para ver por baixo das saias das mulheres nos estádios virou “the man in the crowd with the multicoloured mirrors on his hobnail boots.” Um ladrão que usava um engenhoso esquema para roubar lojas com mãos falsas, enquanto fingia apenas olhar as mercadorias, gerou o verso “lying with his eyes while his bands are busy working overtime”. Em Liverpool de vez em quando topava-se com o fedor de merda de gente que ia se aliviar nas moitas e serviu para inspirar versos sobre doar merda para o National Trust, o Instituto Histórico: “A soap impression of his wife which he ate and donate to the National Trust.” 

“Mother Superior jump the gun” refere-se ao relacionamento com Yoko Ono, a quem John chamada às vezes de Madre Superiora e “jump the gun” se refere a sexo. John: “Estávamos no começo do relacionamento e eu gostava muito de fazer sexo na época. Quando não íamos para o estúdio, ficávamos na cama.” (John Lennon em All We Are Saying, de David Sheff). O vocal é um dos melhores de John em disco. Começa suave e vai num crescendo à medida que ele enuncia a letra, até a parte final, inspirada em doowop, com a voz gritada e o coro de resposta por ele, Paul e George. 

John tocou guitarra, George guitarra distorcida, Paul baixo, órgão e piano. Foram 70 takes nos dias 20, 23 e 24 de setembro. John decidiu que a primeira parte do take 53 e a segunda parte do take 65 eram as melhores. Daí fizeram a edição no dia 25. 

 FIM DO LADO UM