quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Álbum Branco, Parte 3: Helter Skelter inspira chacina

O lado três de The Beatles, o álbum branco que completa 50 anos, tem a música mais polêmica, o rockão de Paul McCartney Helter Skelter, usado pelos fanáticos da seita californiana de Charles Manson como desculpa para assassinar a atriz Sharon Tate, dois amigos dela e outro. que foi visitar o jardineiro na edicula, estava saindo quando Manson chegou e foi a primeira vítima.


Sharon Tate tinha 26 anos

Helter Skelter, Blackbird, Sexy Sadie, I Will, Honey Pie e Piggies, entre outras,  conteriam mensagens de uma rebelião que jogaria negros contra brancos numa guerra racial e Manson se ergueria como o guia dos vencedores. Ele via os Beatles como Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. 

Charles Manson morreu na cadeia em novembro de 2017 aos 83 anos. Quando cometeu os crimes tinha 34 anos

O crime chocou o mundo pela violência e, ao estilo show business da América, pela morte da bela Sharon, grávida de oito meses. É óbvio que a música nada tinha a ver com isso, mas ficou associada ao crime. Helter Skelter, ao pé da letra significa confusão, desordem, na Inglaterra era um escorrega em espiral nos parques de diversões e a letra se refere a isso: “quando eu chego ao fundo, volto ao alto do escorregador, onde dou voltas num passeio, chego ao fundo e te vejo de novo”.

O lado três tem três músicas de John Lennon, duas de Paul McCartney, uma de George Harrison e a única de Lennon e McCartney: Birthday, que abre o lado três. Vamos às faixas:

Birthday (Lennon & McCartney)





Única da lendária dupla no álbum, com os dois se revezando na voz principal. A parte principal é de Paul completada por John. Gravada no dia 18 de setembro, quando a BBC exibiu pela primeira vez o filme The Girl Can’t Help It, estrelado pela louraça belzebu Jayne Mansfield como uma cantora em busca da fama. Mas o atrativo principal eram os números musicais de Little Richard, autor da canção-título, Fats Domino, The Platters e Gene Vincent & The Blue Caps. Os Beatles combinaram de começar a sessão de gravação às 17h em Abbey Road, depois seguir para a casa de Paul, na vizinha Cavendish Avenue, para ver o filme às 21h05. Paul foi o primeiro a chegar ao estúdio e os outros o encontraram levando Birthday ao piano com sua voz no alcance máximo ao estilo de Little Richard, usada por ele no passado em Long Tall Sally e I'm Down.



Os quatro começaram a trabalhar na base com Paul na voz e piano, John na guitarra, voz e vocal, George no baixo e Ringo castigando os tambores. Um rock rápido ao melhor estilo de Little Richard. Depois do filme voltaram para concluir, acertando algumas partes, John gravou sua contribuição, duas esposas que estavam no estúdio, Pattie Harrison e Yoko Ono ajudaram nos vocais. A canção substitui o tradicional Parabéns Pra Você nos aniversários da turma do rock. 


Yer Blues (John Lennon)



"Uma coisa engraçada sobre o campo do Maharishi é que, apesar de ser muito bonito e de eu meditar oito horas por dia, estava compondo as canções mais deprimentes da Terra. Em Yer Blues quando escrevi  'I'm so lonely I want to die,' não estava brincando. Era como me sentia, tentando alcançar Deus e sentindo impulsos suicidas," contou Lennon na Beatles Anthology. Na época ele já conhecia Yoko Ono, mas o romance não tinha engatado e ela escrevia muitas cartas para ele. John ainda estava com Cynthia, presente em Rishikesh.



Eles gravaram numa a sala pequena do estúdio dois por causa de um comentário irônico do engenheiro de som Ken Scott quando gravaram Not Guilty, de Harrison: "George queria gravar na sala de controle com falantes em volume máximo para ter a sensação de estar ao vivo. Lembro que John entrou nessa hora e lhe disse 'que diabos, do jeito que vocês andam fazendo, vão acabar gravando na sala ao lado.' Era usada para guardar máquinas de gravação, sem tratamento acústico. John achou a ideia maravilhosa e disse que a próxima seria gravada na sala," contou Scott citado em The Complete Beatles Recording Sessions, de Mark Lewisohn. E assim foi feito com todos os vazamentos a que tinham direito.

Ringo se entusiasmou: "Yer Blues foi o máximo, imbatível. Éramos nós quatro de verdade numa sala pequena sem separações. Era o nosso grupo, juntos, algo como um grunge dos anos 60, grunge blues," disse ele na Anthology, numa demonstração de saudade dos tempos em que os quatro tocavam juntos de verdade.

As guitarras de John e George passaram por caixas Leslie, Paul tocou baixo e Ringo bateria nas sessões de 13 e 14 de agosto. John faz uma grande interpretação nesta canção e faz o solo de apenas duas notas. No final John canta sem o microfone com captação mínima, dando a impressão de que está bem longe. No dia 20, Ringo gravou a contagem “two, three...” que abre a canção.Na sessão do dia 14 John também gravou What’s the New Mary Jane, que ficaria inédita em lançamento oficial até 1996, quando foi incluída no volume três da Beatles’ Anthology, relançada agora nos Extras da nova edição do álbum branco.

Mother’s Nature Son
( Paul McCartney)



A letra fala de um rapaz pobre que nasceu filho da mãe natureza. Em sua atobiografia Many Years Fron Now, Paul conta que se inspirou numa palestra do Maharishi sobre a natureza. John também foi tocado pelas palavras do guru e fez A Child of Nature, que ficou de fora porque preferiu-se a canção de Paul com o mesmo tema. Na carreira solo John mudou a letra e gravou como Jealous Guy.

Paul terminou a canção em Liverpool. “Fui visitar meu pai, sempre me sentia bem quando ia lá, o que me deixava inspirado. Tinha uma canção de Nat King Cole que eu adorava, chamada Nature Boy, com um verso 'Havia um garoto, muito estranho e gentil...que ama a natureza,’ isso me inspirou.”

Paul gravou sozinho com voz dobrada, violões, bateria e tímpano em 25 takes, aproveitando o 24º. A primeira sessão foi no dia nove com gravação só de voz e violão. No dia 20 de agosto, Paul gravou um segundo violão, o tímpano e a bateria. Para esta última pediu ao engenheiro Ken Scott que ela tivesse um som parecido com bongôs e sugeriu que fosse gravada no corredor. Também foram gravados os sopros: dois trompetes e dois trombones.

Everybody's Got Something to Hide Except Me and My Monkey
(John Lennon)



Esta canção, de aparente letra non sense, se refere a a charge de um jornal inglês que mostrava Yoko Ono como um macaco nas costas de Lennon. John e Yoko ficaram muito chocados com as reações negativas ao relacionamento deles. "Estávamos felizes na Swinging London e, de repente, a Idade Média desabou sobre nós," disse ela numa entrevista.

Alguns versos são citações do Maharishi durante a estada da banda na Índia.“Come on it’s such a joy” (“Venham, é tanta alegria”) era uma frase frequente do guru indiano. “The deeper you go the higher you fly” (“Quanto mais fundo você for, mais alto voará”) e “Your inside is out and your outside is in” (“Seu interior está para fora e seu exterior para dentro”).

Gravada em quatro sessões nos dias 26 e 27 de junho e 1º e 23 de julho, John cantou, tocou guitarra e percussão. George fez vocal, tocou guitarra e percussão. Paul fez vocais, tocou baixo e percussão. Ringo tocou bateria e percussão. Todos bateram palmas. A canção tem uma insistente sineta.
No dia primeiro de julho, Paul gravou um baixo e vocais. Todos os quatro contribuíram para os repetidos “comeoncomeoncomeoncome on” no final.

Sexy Sadie (John Lennon)



Uma ácida crítica de John Lennon a um suposto assédio do guru Maharishi Mahesh Yogi a uma das mulheres presentes ao ashram em Rishikesh, India.

Tudo não passou de fofoca de um trambiqueiro grego chamado Alex Mardas, conhecido como Magic Alex, que convenceu os Beatles de que poderia construir um estúdio de 72 canais e não fez coisa alguma, só mamou nas tetas do Fab Four até ser posto porta a fora. Alex chegou a Rishikesh e se ressentiu de Lennon não estar lhe dando a atenção que  julgava merecer, daí tramou para John sair e ele voltar a ficar bem com ele novamente.


“Alexis começou a espalhar o boato que repercutiu no campo sem qualquer evidência ou justificativa. Ficou claro que ele queria tirar os Beatles dali, não tive dúvidas disso,” disse Cynthia Lennon, esposa de John (ele já conhecia Yoko, mas não tinham começado uma relação).



Paul McCartney não se impressionou com o suposto assédio e rebateu: “Ele nunca disse que era um deus, pelo contrário, sempre ressaltou que era um professor de meditação. Nunca se falou em voto de castidade, nem em uma proibição de tocar nas mulheres. Não dei importância, não vi motivo para ir embora,” disse Paul.

John Lennon  já estava de saco cheio de tanta meditação e viu ali uma desculpa para se mandar: “Comecei a compor esta quando já estávamos de malas prontas esperando um táxi que não chegava. Entramos numas de que estavam retardando o táxi para não podermos escapar de lá. O grego maluco estava com a gente, paranoico, repetindo toda hora que era magia negra, que iam me manter lá pelo resto da vida,” contou John.

Alex Mardas, o 171

Os primeiros versos citavam o guru: 
“Maharishi, what have you done? You made a fool of everyone.” George reclamou: “Não pode dizer isso, é ridículo. Então sugeri Sexy Sadie e ele aceitou,” disse.

Os dois versos iniciais são de uma canção do grande cantor, compositor e produtor americano Smokey Robinson, I’ve Been Good to You, que dizem: “Look what you've done/You made a fool of everyone". 

A canção consumiu 35 horas de estúdio nos dias 19 e 24 de julho e 13 e 21 de agosto. John fez a voz com dobra, vocal, tocou violão, órgão Hammond e guitarra base. Paul tocou baixo, piano e fez vocal. George tocou guitarra solo e fez vocal e Ringo tocou pandeiro e bateria. 

A sessão do dia 19, de 19h30 até 3h30, foi dispersiva, com muitos improvisos, incluindo seis minutos instrumentais de Summertime, de George Gershwin. Vinte e um takes foram gravados da canção, mas John rejeitou todos. No dia 24, recomeçaram com 23 takes, John marcou um deles como melhor, mas começou tudo de novo no dia 13 de agosto, desta vez mais rápido, com apenas sete takes. A canção foi finalizada no dia 21 de agosto. 

Helter Skelter (Paul McCartney)





Uma das primeiras canções, se não a primeira, do que viria a ser chamado de heavy metal. Paul ficou mordido com uma declaração de Pete Tonshend na Melody Maker sobre ter gravado a “canção mais alta, barulhenta e crua” da carreira do Who. 

Paul resolveu fazer uma que fosse muito mais tudo isso e há versões de que foi uma resposta a quem o acusava de só fazer baladas. Os Beatles gravaram em três sessões nos dias 18 de julho, nove e 10 de setembro com Paul no vocal, guitarra e baixo. John tocou baixo, sax tenor, baixo, guitarra e vocal. George tocou guitarra e fez vocal e Ringo bateria, numa performance excepcional. A sessão do dia 18 foi toda de jam sessions, uma delas de 27 minutos e uma outra foi editada e incluída no volume três da Antologia. 


Helter Skelter

A sessão do dia nove de setembro foi descrita como uma loucura total pelo engenheiro Brian Gibson, que insinua que eles estavam drogados. O auxiliar de George Martin, Chris Tomas, conta que George Harrison botou fogo num cinzeiro e andou com ele na cabeça enquanto Paul gravava a voz. 

A canção tem um fade out e, a seguir, um fade in até um final caótico em que Ringo grita que está com bolhas nos dedos - "I've got blisters on my fingers" - , uma referência à performance incendiária nos tambores e pratos. 

Long Long Long (George Harrison)




Depois da demência de Helter Skelter esta balada de George cai muito bem. Gravada em três sessões nos dias sete, oito e nove de outubro com John Lennon ausente. George cantou com dobra e tocou violões, Paul tocou baixo e órgão Hammond. O coprodutor Chris Thomas piano. 

Um ruído climático no final é de uma garrafa de vinho que estava em cima da caixa Leslie e começou a tremer quando Paul tocava. Eles gostaram do som e o repetiram com um microfone para a devida captação. 

A letra de George pode ser interpretada como de amor romântico, mas o engajamento religioso dele pode lhe dar uma outra interpretação: “Faz muito, muito, muito tempo/ Como eu posso ter te perdido/ Se eu te amava/ Levou muito, muito, muito tempo/ Agora estou feliz por ter te encontrado”.

Fim do lado três. Falta um.

Um comentário:

  1. Jamari , muito bom saber de coisas que eu não imaginava , sobre as músicas dos Beatles , parabéns pelo seu trabalho.

    ResponderExcluir