segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O álbum branco dos Beatles completa meio século

Versão De Luxe, seis CDs, um blu-ray e livro

 PREÂMBULO 

No dia nove de novembro os 50 anos do Álbum Branco dos Beatles receberão novas e luxuosas versões que permitirão ao fã uma visão completa desta obra prima, desde uma nova mixagem às 27 demos feitas no bangalô de George Harrison em Esher, a 40 minutos de Londres, e 50 takes inéditos das gravações. Todos os detalhes do álbum na matéria abaixo, aqui as novas edições remixadas pelo produtor Giles Martin, filho do produtor original, George Martin e o engenheiro Sam Okell. 

Eles partiram dos originais em quatro e oito canais com carta branca de Paul McCartney, que lhe disse que o papel deles era ousar o máximo possível e ele, Ringo, Yoko Ono Lennon e Olivia Harrison julgariam se ele tinha ido longe demais. Até onde se sabe, houve total aprovação. 

Em 1968, o formato stereo ainda era incipiente, não houve uma mixagem com o rigor feito agora, então é a primeira mixagem stereo real pelos padrões atuais. 



Álbum em dois CDs e Esher Demos

Os formatos novos são os seguintes. Três CDs, dois com o álbum e um com as Esher Demos. Único previsto para lançamento no Brasil. 
Caixa de vinil em edição limitada com quatro discos, o álbum em stereo e as 27 demos Esher. 
Álbum duplo em vinil 180 gramas com a edição stereo 
A cereja do Bolo é a edição super luxo com sete discos, a saber: 
CDs 1 e 2: O álbum na nova mixagem stereo 
CD3_ Esher Demos: Faixas 1 a 19 na mesma sequência do álbum (não tem todas) e de 20 a 27 variadas. 
CDs 4, 5 e 6: 50 takes das gravações organizados por datas. 
CD 7 Blu-ray com o álbum em stereo de alta resolução; Edição 5.1 DTS HD; 5.1 Dolby; mixagem original em mono 

 O ÁLBUM: DISCO 1 LADO 1 



The Beatles, mais conhecido como o álbum branco, foi lançado na Grã-Bretanha em 22 de novembro de 1968. É considerado o começo do fim dos Beatles porque já não demonstravam a mesma união de antigamente. John, Paul e George trabalharam várias canções sozinhos e os três usavam os demais como músicos de estúdio. Giles Martin, o produtor das edições de 50 anos, disse em entrevistas que não foi tão pesado o clima, porque nas fitas originais ele ouviu muitas brincadeiras e provas de que eles ainda trabalhavam como uma banda e há até elogios para a participação de Yoko Ono em algumas faixas. Ela tida, injustamente por muitos, como responsável pelo fim da banda. 

O álbum branco tem 13 músicas de John, 11 de Paul, quatro de George, uma de Lennon e McCartney e uma de Ringo. Em fevereiro de 1968, os quatro Beatles foram a Rishikesh, na Índia, para o centro de meditação do guru Maharishi Mahesh Yogi, que conheceram em agosto de 1967 durante um período de meditação no País de Gales. Concentrados lá com seus violões, eles compuseram adoidado e John até brincou que Ringo tinha composto sua primeira canção, Don't Pass Me By, graças às vibrações inspiradoras da meditação. 

As gravações começaram no dia 30 de maio na EMI em Abbey Road, Londres, com Revolution 1, de John Lennon, e terminaram dia 13 de outubro com Julia, do mesmo Lennon. Eles também gravaram nos Trident Studios, onde havia uma máquina de oito canais. Abbey Road ainda estava com quatro canais. Depois de irem ao Trident souberam que havia uma de oito canais ainda para testes na EMI e exigiram que a fizessem funcionar. 


A ideia era fazer um disco de rock não rebuscado como o anterior Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band, mas não foi bem assim. A capa do artista pop Richard Hamilton, toda branca é um contraponto à de Sgt Pepper's, excessivamente rebuscada, com mil elementos visuais. A simplicidade não vingou totalmente porque o álbum duplo trazia encartado um grande poster com colagens na frente montadas por Hamilton e Paul McCartney e as letras atrás. 

Completava uma foto individual de cada um pelo fotógrafo John Kelly. O nome da banda estava impresso em alto relevo na frente, também em branco, e as primeiras edições eram enumeradas com sete casas -  0000001. Hamilton disse que era uma brincadeira com a “previsão” de chegar a cinco milhões de cópias (em um mês vendeu 4 milhões no mundo, no fim de 1970, 6,5 milhões). Na segunda capa havia os nomes das músicas e, na terceira capa, fotos individuais em preto e branco.


Contra a guerra do Vietnam

1968 foi um ano de grandes acontecimentos. A guerra encarniçada no Vietnam e a revolta se espalhando pelas universidades americanas. O maio de 1968 na França, o endurecimento da ditadura no Brasil e a primavera de Praga sufocada pelos tanques soviéticos em agosto. 

Um ano de grandes discos: John Wesley Harding (Bob Dylan), We're Only In It for the Money (Frank Zappa and the Mothers of Invention), A Saucerful of Secrets (Pink Floyd), Beggar's Banquet (The Rolling Stones), Electric Ladyland (Jimi Hendrix Experience), entre outros. 



A capa do LP de Frank Zappa satirizava Sgt Pepper's

E filmes marcantes como Z (Costa Gavras), Teorema (Pier Paolo Pasolini), O Bebê de Rosemary (Roman Polanski). Nos livros destaque para Do Androids Dream of Electric Sheep (Philip K. Dick), inspirador de Blade Runner, The Armies of the Night (Norman Mailer), The Electric Kool Aid Acid Test (Tom Wolfe) e Castaneda: Os Ensinamentos de Don Juan: O Caminho Yaqui do Conhecimento (Hellen Ker). 

O álbum provocou um curto circuito no establishment rock da época, aliás um terceiro, depois de Revolver e Sgt. Pepper's. Nada menos que 30 canções distintas, arranjos idem, grande mistura de estilos, mais uma vez a concorrência comia poeira e os Beatles se reafirmavam como a mais importante banda de rock do mundo.

Os Beatles àquela altura já estavam confortáveis no estúdio, eles mesmos produziram várias faixas. Passaram a trabalhar de noite, às vezes até de manhã, o produtor George Martin não podia acompanhá-los porque tinha outros afazeres. Daí designou o jovem Chris Thomas para quando não estivesse presente. Thomas era inexperiente, ele disse que recebeu créditos de produção por insistência de John mas, na verdade, eles mesmos se produziam.

Os seguintes engenheiros trabalharam no disco: Geof Emerick, que vinha acompanhando os Beatles desde o começo, como assistente de Norman Smith, e depois como engenheiro de Revolver, Sgt. Pepper's e Abbey Road. Os demais são Ken Scott, o mais frequente neste álbum, Peter Brown, Barry Shinefield e Ken Townshend. 

 Os 50 anos do álbum branco serão dividido em quatro posts. Este primeiro abrange o lado um do álbum duplo. A edição em CD é dupla com os lados um e dois no primeiro CD e os dois restantes no segundo CD. Os áudios ainda são da versão original, com exceção de Back In the USSR, While My Guitar Gently Weeps e Glass Onion, já da nova mixagem.

Back in the USSR (Paul McCartney)




Os Beatles eram proibidos na União Soviética e esta saiu três meses depois de as tropas soviéticas sufocarem a Primavera de Praga, o que provocou acusações ridículas de que seu autor estivesse defendendo o comunismo. Paul contou que fez uma paródia de California Girls, dos Beach Boys, e um contraponto com Back in the USA, de Chuck Berry. Ele achou divertido falar da URSS como se fosse os EUA e das garotas da Ucrânia como as garotas da Califórnia. 

A canção nasceu em Rishikesh, onde também estava o vocalista dos Beach Boys Mike Love, para quem Paul tocou a canção e este lhe sugeriu que citasse vários locais da União Soviética. Paul acatou e incluiu citações à Ucrânia, Moscou e Georgia. Esta última, além de ser uma república soviética, é um estado americano, daí Paul aproveitou para adaptar um verso do clássico Georgia, sucesso de Ray Charles. Paul canta “And Georgia’s always on my mind” e o verso de Ray Charles é “Keeps Georgia always on my mind.” 


Paul tocou bateria em Back in the USSR e Dear Prudence
A gravação rolou em 22 e 23 de agosto sem a presença de Ringo Starr. Ele e Paul brigaram por causa da levada de bateria desta canção e resolveu deixar o grupo. Saiu dia 22 de agosto e voltou dia 5 de setembro para encontrar seu kit todo florido. Ringo: “Eu saí porque senti duas coisas: não estava tocando direito, os outros três pareciam muito felizes juntos e eu parecia um estranho. Peguei a família e fui para a Sardenha.” 

No dia 22 gravaram a base com Paul na bateria, George na guitarra solo e John na guitarra. No dia 23 gravaram mais duas baterias, Paul e George nas guitarras solo, dois baixos (Paul e George), Paul colocou a voz, John e George fizeram vocais a la Beach Boys e bateram palmas. 

O engenheiro Ken Scott levanta a hipótese (mas não afirma) que John e George gravaram as duas baterias e foi feita uma montagem com gilette, cortando e colando as fitas. O som do jato é de um avião turbo hélice Viscount, gravado no aeroporto de Londres, arquivado na sonoteca da EMI como Volume 17: Motor a Jato e a Pistão. 

Dear Prudence (John Lennon) 



Prudence é irmã da atriz Mia Farrow. Ambas estavam na Índia e Prudence se mostrava muito arredia, trancada num bangalô com seus exercícios de meditação. A letra a chama para sair e aproveitar o dia de sol, o céu azul, tudo lindo e ela também. John e George gravaram as guitarras dedilhadas. Paul gravou a bateria, tudo isso no dia 28 de agosto. No dia seguinte, Paul gravou o baixo, John o vocal com dobra e os vocais, pandeiro e palmas gravados por Paul e George. O primo de Paul, John MCCartney, o cantor e guitarrista contratado da Apple Records, a gravadora dos Beatles, Jackie Lomax e o roadie Mal Evans ajudaram nos vocais e palmas. No dia 29, Paul gravou piano e flugelhorn. Paul dá uns vacilos na bateria durante a levada, mas no final ele manda ver nas viradas. A canção devia terminar com palmas e gritos, gravados por todos, mas não vingou na forma final. A canção começa em fade in e acaba em fade out. 

Prudence Farrow (primero plano)
 John conta que ele e George foram encarregados de tentar fazê-la sair do bangalô. Fala John: “Nós conseguimos tirá-la de lá. Estava trancada há três semanas tentando alcançar Deus mais depressa que os demais. Esta era a competição no campo do Maharishi: quem iria ser cósmico primeiro. O que eu não sabia é que já era cósmico (risos).” (John Lennon All We Are Saying, David Sheff).


Glass Onion (John Lennon) 


John sempre se divertiu com interpretações às letras dos Beatles e gostava de colocar coisas sem sentido, como esta Cebola de Vidro. A letra de Glass Onion é para provocar um curto circuito nos que buscam significados ocultos. Contém referências a Strawberry Fields Forever ("I told you about Strawberry Fields/ you know the place where nothing is real"), I am the Walrus ("Well here's another clue for you all/The Walrus was Paul''), Lady Madonna ("Lady Madonna trying to make ends meet"), Fool On the Hill ("I told you about the Fool On the Hill") e Fixing a Hole ("Fixing a Hole in the ocean"). 

 A canção foi gravada em 11, 12, 13 e 16 de setembro e 10 de outubro. No primeiro dia, 34 takes da base com John (violão), Paul (baixo, piano), George (guitarra solo) e Ringo (bateria). No dia seguinte, o vocal de John e um pandeiro por Ringo e, no dia 13, piano e bateria. No dia 10 de outubro, as cordas por um octeto com quatro violinos, duas violas e dois cellos. Quando John cita Fool On the Hill rola uma breve flauta tirada da música e inserida em 16 de setembro com auxílio de um gravador por Paul e John. 
Cordas: Henry Datyner, Eric Bowie, Norman Lederman, Ronald Thomas: violinos. 
John Underwood, Keith Cummings: violas.
Eldon Fox, Reginald Kilbey: cellos 

Ob-la-di Ob-la-da (Paul McCartney) 



Uma canção infantil de Paul em ritmo de ska que ele sugeriu como single, mas os outros discordaram. A banda escocesa Marmalade regravou e alcançou o primeiro lugar. A história de Desmond, dono de uma carrocinha no mercado, e Molly, cantora numa banda. Eles se casam, têm dois filhos, de dia trabalham no mercado, de noite ela canta num bar. O título veio de um percussionista nigeriano amigo de Paul, Jimi Scott, que sempre falava a frase “Obladi Oblada, life goes on, bra” de onde saiu o nome da música e o verso do refrão. Paul lhe mandou uma grana depois em reconhecimento. 

Paul levou os demais à loucura fazendo e refazendo a canção num total de 42 horas nos dias 3,4,5,8,9,11 e 15 de julho. Paul cantou, fez vocais com dobra e tocou baixo; John fez vocal e tocou piano; George fez vocal e tocou violão e Ringo bateria, bongôs e percussão. Todos bateram palmas e fizeram "percussão de boca", além dos inúmeros barulhinhos e falas ouvidos ao longo da canção. Exemplos: John canta "arm" e George canta "legs" depois de Paul cantar "Desmond let the children lend a hand". E George ainda canta "foot". 



Paul gravou uma guitarra em timbre grave para soar como um baixo, John o piano da introdução com o detalhe de ter tocado bêbado e em desespero porque Paul não se dava por satisfeito, gravando mais e mais takes. Ele entrou, sentou no piano, martelou as notas e disse “pronto, está aí a introdução.” No dia 11 gravaram três saxofones e um piano elétrico. Paul levou uma cópia da canção para casa e, no dia 15, gastou boa parte da sessão, de 15h30 às 3h30 da madrugada, refazendo a voz. Não consta quem tocou os saxofones. 

Wild Honey Pie (Paul McCartney) 




 Gravada por Paul sozinho no dia 20 de agosto, enquanto John e Ringo trabalhavam em Yer Blues e em Revolution 9 em outro estúdio. É uma brincadeira em cima de outra música dele no disco, Honey Pie. 

The Continuing Story of Bungalow Bill (John Lennon) 



Canção bem humorada de John inspirada no americano Richard Cook III, que também estava em Rishikesh com a mãe, Nancy. Os dois se ausentaram por uns dias para caçar tigres e depois voltaram para continuar seus estudos de aperfeiçoamento espiritual. Diante dessas duas figuras, John partiu para a gozação: "Ele saiu para caçar tigres com sua arma e um elefante/ Em caso de acidentes, ele sempre levava a mãe/ Ele é aquele americano saxão filho da mãe com cabeça em forma de bala", daí ele chamava para o refrão com "Todas as crianças cantem". Todos em Abbey Road foram convocados para cantar o refrão e fazer uma zona no final, incluindo Yoko Ono e Maureen Starr, mulher de Ringo. 


Yoko Ono cantou nesta música

Yoko Ono canta em dois versos na terceira estrofe. Ela faz "But when he looked so fierce", aí John "his mummy butted in". Em seguir ela e John cantam "If looks could kill it would have been us instead of him". Yoko se tornou a primeira mulher a cantar (e não fazer vocal) num disco dos Beatles. A canção foi gravada num único dia, 8 de outubro, numa sessão que durou 16 horas, de quatro da tarde às oito da manhã do dia nove (aniversário de John, 28 anos), também com registros de Long Long Long, I'm So Tired e Bungalow Bill. John e George tocaram violões, Paul baixo, Ringo bateria e pandeiro. Chris Thomas tocou mellotron com sons de bandolim e trombone. 


While My Guitar Gently Weeps (George Harrison) 



George teve dificuldades em gravar suas quatro canções no álbum branco. "Tive que fazer umas 10 de John e Paul antes que me dessem uma chance", contou ele em 1987. Foram cinco sessões nos dias 25 de julho, 16 de agosto, três, cinco e seis de setembro. George tocou violão e órgão e a voz principal com dobra, Paul piano, órgão e baixo distorcido, John guitarra e Ringo bateria e pandeiro. O grande trunfo é o solo de Eric Clapton, gravado no dia seis de setembro com uma Gibson Les Paul. 

Harrison se queixou de indiferença de John e Paul em gravar a canção. George: “John e Paul estavam tão acostumados a produzir em série suas próprias canções que era difícil se empenharem em uma das minhas. Não estavam levando a sério, então fui para casa naquela noite pensando ‘que vergonha’ porque sabia que era uma boa canção. No dia seguinte, indo para Londres com Eric Clapton, o convidei para tocar comigo. Ele se assustou, disse que ninguém nunca tocava numa música dos Beatles e que os outros não iam gostar. Respondi que a canção era minha e gostaria que ele tocasse. Quando cheguei com ele no estúdio anunciei que Eric ia participar e, a partir daí, eles começaram a gravar a sério.” (George em Beatles Anthology). 




A letra era uma aplicação dos ensinamentos aprendidos na Índia com uma abordagem condescendente que mereceu críticas: "Eu não sei como alguém te controlou. Eles te compraram e te venderam. Eu olho para todos vocês e vejo o amor dormindo, enquanto minha guitarra gentilmente chora." George: “Compus esta na casa da minha mãe em Warrington. Estava pensando no I Ching, o Livro das Mutações. O conceito oriental é que tudo que acontece estava previsto, não existem coincidências. While My Guitar Gently Weeps foi um estudo simples baseado nesta teoria. Decidi escrever uma canção a partir da primeira coisa que lesse quando abrisse um livro qualquer e as palavras foram ‘gently weeps.’ Comecei a compor a partir daí.” 

While my guitar... teve duas versões. A primeira gravada nos dias 26 de agosto, três e cinco de setembro. George não gostou e resolveu começar tudo de novo no mesmo dia cinco. Gravaram 28 takes com Harrison ao violão e voz guia, Lennon na guitarra, Paul no piano e órgão, Ringo na bateria e Eric na guitarra em todos os takes. No dia seguinte, seis de setembro, completaram com um baixo distorcido por Paul, órgão por George, percussão por Ringo. George colocou a voz definitiva com vocais de Paul. Eric não recebeu crédito na época por problemas contratuais.

Happiness Is a Warm Gun (John Lennon) 



O título violento foi achado por John numa revista de armas, The American Rifleman, uma sugestão de que a felicidade é uma arma quente, ou seja, que acabou de ser disparada contra alguém. O assessor de imprensa Derek Taylor contou que as citações de aparente nonsense da letra surgiram em uma viagem de ácido dele com John, Neill Aspinall, diretor da Apple e o amigo de infância de John, Pete Shotton. O primeiro verso “she’s not a girl who misses much” é uma gíria de aprovação de Liverpool. A menção a “velvet hands” foi dita por um cara que abordou Neill, e sua mulher Joan, num hotel na Ilha de Mann. Explicou que usava luvas de pele porque gostava de acariciar a namorada com elas, daí o “she’s well acquainted with the touch of the velvet hands” seguido de “like a lizard on a window pane,” sobre um lagarto visto na janela da casa de Derek na Califórnia. (Derek Taylor em A Hard Day's Write de Steve Turner). 




Uma notícia de jornal sobre um torcedor do Manchester City preso porque colocava espelhos nos sapatos para ver por baixo das saias das mulheres nos estádios virou “the man in the crowd with the multicoloured mirrors on his hobnail boots.” Um ladrão que usava um engenhoso esquema para roubar lojas com mãos falsas, enquanto fingia apenas olhar as mercadorias, gerou o verso “lying with his eyes while his bands are busy working overtime”. Em Liverpool de vez em quando topava-se com o fedor de merda de gente que ia se aliviar nas moitas e serviu para inspirar versos sobre doar merda para o National Trust, o Instituto Histórico: “A soap impression of his wife which he ate and donate to the National Trust.” 

“Mother Superior jump the gun” refere-se ao relacionamento com Yoko Ono, a quem John chamada às vezes de Madre Superiora e “jump the gun” se refere a sexo. John: “Estávamos no começo do relacionamento e eu gostava muito de fazer sexo na época. Quando não íamos para o estúdio, ficávamos na cama.” (John Lennon em All We Are Saying, de David Sheff). O vocal é um dos melhores de John em disco. Começa suave e vai num crescendo à medida que ele enuncia a letra, até a parte final, inspirada em doowop, com a voz gritada e o coro de resposta por ele, Paul e George. 

John tocou guitarra, George guitarra distorcida, Paul baixo, órgão e piano. Foram 70 takes nos dias 20, 23 e 24 de setembro. John decidiu que a primeira parte do take 53 e a segunda parte do take 65 eram as melhores. Daí fizeram a edição no dia 25. 

 FIM DO LADO UM

2 comentários:

  1. muito bom, jama. espero o próximo. abraços

    ResponderExcluir
  2. Algumas coisas eram de meu conhecimento , outras não , mas é maravilhoso mergulhar no Universo Beatle... Somos todos Beatles Jama... Muito bom

    ResponderExcluir