segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Os 50 anos do álbum branco dos Beatles (Segunda Parte)



The Beatles, o álbum branco, está em posições privilegiadas entre os melhores de todos os tempos. Em 10º lugar na lista dos 500 discos mais importantes da revista Rolling Stone. Em 39º lugar entre os 200 discos definitivos do Rock’n’Roll Hall of Fame, que dá o primeiro lugar a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e inclui mais três álbuns, Abbey Road (12º), Revolver (42º) e Rubber Soul (110º).

Na América tem 19 milhões de cópias vendidas, equivalentes a um disco de diamante e 19 de platina. Numa eleição promovida pelo Canal 4 inglês, o jornal The Guardian e a Classic FM, o álbum ficou em 10º lugar na lista de Músicas do Milênio. A revista conservadora Time colocou o álbum entre os 100 mais importantes de todos os tempos numa lista por década, sem ordem de classificação. Nos Estados Unidos, é o décimo disco mais vendido da história. Foi lançado em 22 de novembro de 1968 na Grã-Bretanha e no dia 25 nos Estados Unidos. 


Ringo, Paul, George, John

Nas entrevistas que deu para a série de DVDs The Beatles Anthology, Ringo Starr disse que o pior das gravações desta fase mais elaborada era ficar muito tempo sem fazer nada até chegar sua vez. E, muitas vezes, quando chegava, o baterista tinha que reproduzir o que o autor da canção queria, em vez de o deixarem livre para elaborar sua participação, como era antes. 

Rolava um clima ainda amistoso, mas havia sinais de fissuras no ar. John disse que sua Everybody’s Got Something to Hide Except for Me and My Monkey era uma espécie de adeus à dupla com Paul McCartney. A partir dali teria uma parceria conjugal e profissional com Yoko Ono. Paul McCartney trabalhou em I Will na Índia com seu amigo e cantor Donovan e não com John. George se queixava que John e Paul não tinham,, com as canções dele o mesmo empenho dedicado ao material deles. O álbum branco é o início do testamento musical do Fab Four, que ainda se estendeu por Abbey Road (1969) e Let It Be (1970).

Vamos ao lado dois do primeiro disco. Todos os áudios abaixo da nova mixagem pelo produtor Giles Martin e pelo engenheiro de som, Sam Okell:

Martha My Dear (Paul McCartney)



Martha era a cadela pastor de Paul, que morava no mesmo bairro da gravadora EMI, St. John’s Wood, e ele de vez em quando a levava para passear. Um grupo de fãs que fazia plantão diante de sua casa às vezes recebia o privilégio de levar Martha para passear. Paul também sentava na janela de noite com o violão e cantava para elas, assim reza a lenda. Paul conta em sua autobiografia Many Years From Now que muita gente  estranha quando ele fala que a letra é sobre ele e sua cadela, explica que ela era bem carinhosa e que tinham um bom relacionamento, mas ressalta que o amor do casal era puramente platônico.

Paul e Martha


O arranjo de cordas e sopros é de George Martin. Paul costumava passar para ele de boca o que queria e Martin orquestrava. Na nova versão há um take da canção sem sopros e cordas que mostra que ela poderia muito bem prescindir desses acréscimos.


Gravada com George (guitarra) nos estúdios Trident, Londres, onde já havia uma máquina de oito canais, enquanto Abbey Road continuava com quatro. Paul se revezou entre piano, baixo, guitarra, bateria, palmas e vocal com dobra. Foram dois dias de trabalho, quatro e cinco de outubro, com 14 músicos fazendo sopros e cordas: quatro violinos, duas violas, dois cellos, três trompetes, flugelhorn, trombone e uma inusitada tuba. 


Gravação de sopros 4 de outubro com Paul e George
A maior parte gravada na sessão do dia quatro, que durou de quatro da tarde às quatro e meia da manhã. No dia seguinte, Paul gravou baixo e guitarra. Na sessão do dia quatro, foram gravados também os sopros de outra música de Paul, Honey Pie. 

I’m So Tired (John Lennon) 



John compôs esta música na Índia, numa referência ao seu cansaço com tanto estudo e meditação no ashram do Maharishi Mahesh Yogi, embora ele sempre tenha sido bem preguiçoso. Ela se conecta diretamente com I’m Only Sleeping, do LP Revolver (1966), pela semelhança do tema. Naquela, John pede que não o acordem porque está ferrado no sono. Em I’m So Tired”, ele tenta combater o cansaço com um drinque e um cigarro e, de quebra, xinga de babaca Sir Walter Raleigh, o cara que introduziu o tabaco na Inglaterra. No final John murmura “Monsieur, monsieur, what about another one?”     


John por Annie Leibovitz

A gravação rolou num único dia, 8 de outubro, com John na voz, violão guitarra e órgão. Paul tocou baixo, piano elétrico e fez vocal, George guitarra e Ringo bateria. A sessão durou de quatro da tarde às oito da manhã com os quatro trabalhando também em The Continuing Story of Bungalow Bill, de John, e na balada Long Long Long, de George. 

Blackbird (Paul McCartney)  



Os jovens ingleses usavam a palavra Bird (Pássaro) para designar mulheres, daí Blackbird, pássaro preto, se referir à mulher negra. Paul disse que lia sobre o movimento dos direitos civis na América e se interessou particularmente pelo lado feminino. Houve boatos de que ele se referia a Angela Davis, hoje com 74 anos, na época militante da organização radical Panteras Negras, mas Paul desmente:


Militante dos Panteras Negras

“Fiz para uma mulher negra que passasse por estes problemas nos Estados Unidos para encorajá-las a continuar tentando, a manter a fé e a esperança. Ninguém especificamente, mas um símbolo,” diz em sua autobiografia Many Years From Now. Paul conta que a música começou com a peça Bouree em mi menor para alaúde, de Bach, que ele e George aprenderam antes da fama e tocavam como exercício. A partir daí foi modificando até se tornar a harmonia e a melodia. 

Paul gravou em 11 de junho, sozinho, em Abbey Road, com violão Martin D-28 com execução dedilhada. Apesar de simples, Paul gravou 32 takes, 11 deles completos. O canto do pássaro na faixa veio do volume sete da sonoteca de efeitos de Abbey Road: “Pássaros de Pena”. A mixagem pôs um clique (metrônomo) marcando no canal esquerdo como se fosse percussão e o restante no meio. Paul trabalhou no estúdio dois de 18h30 a 0h15. 

Piggies (George Harrison) 



Canção que ecoa Animal Farm (A Revolução dos Bichos), de George Orwell, em que os porcos dominam os demais animais com o mote de que todos são iguais, mas uns são mais iguais do que outros, o que se encaixa perfeitamente no conceito ocidental de democracia. A letra fala de porcos pequenos que chafurdam na lama e dos grandes porcos, sempre com roupas limpas, que saem com as esposas para jantar e comem bacon, dos porcos pequenos, supõe-se.    



A canção tem um arranjo barroco com quatro violinos, duas violas e dois cellos. O coprodutor Chris Tomas, que dirigia as sessões na ausência de George Martin, tocou cravo. Paul tocou baixo, Ringo bateria e John fez os loops de fita com os roncos dos porcos usando o volume 35 da sonoteca de áudios: Animais e Abelhas. George gravou a voz com dobra em alguns trechos. 

O engenheiro Ken Scott explica como conseguiu o efeito: “Passamos o sinal do microfone por um filtro muito agudo da câmara de eco que cortou tudo acima e abaixo do nível de três kilohertz, criando uma faixa de som bem estreita”. George contou com ajuda de Lennon, autor do verso “clutching forks and knives to eat their bacon” (“Empunhando facas e garfos para comer seu bacon”) e sua mãe, Louise, fez o verso “What they need is a damn good whacking” (o que eles precisam é de uma boa surra”). 



A canção foi interpretada como sendo contra a polícia porque “pigs” é uma gíria para policiais. Charles Manson, o líder de uma seita que trucidou quatro pessoas numa mansão da Califórnia, se disse inspirado pela canção Helter Skelter, deste álbum, e escreveu “morte aos porcos” na porta, uma referência, ao que parece, à música de George. Uma de suas vítimas foi a atriz Sharon Tate, 26 anos, oito meses e meio grávida do marido, o cineasta Roman Polanski, que estava viajando. E três amigos, dois homens e uma mulher.  

Rocky Raccoon (Paul McCartney) 



Canção com relato cômico sobre o caubói Rocky Raccoon que vivia nos morros do estado de Dakota. A mulher dele, Magill, foge com um tal de Dan, ele vai atrás para lavar a honra, encontra os dois, mas Dan é mais rápido e atira nele. Paul fez parte da letra no estúdio. 

Gravada numa única sessão no dia 15 de agosto, das 19h às três da manhã, com Paul na voz e violão, John no vocal, gaita, harmonium e baixo, George no vocal e Ringo na bateria. O produtor George Martin gravou o solo com um piano de armário para soar como um piano de Saloon do Velho Oeste. 


A canção inspirou a Marvel a criar o personagem Rocky Raccoon

Alguns versos deixados de lado: “roll up his sleeves on the sideboard”; “roll over Rock...he said oh, it’s OK doc, it’s just a scratch and I’ll be OK when I get home” “This hear is the story of a boy living in Minnesota”. Nos takes de gravação da nova versão tem uma parte falada sobre o anti herói da canção.

Don’t Pass Me By (Ringo Starr)



O baterista da banda sempre tentou fazer músicas mas, quando mostrava aos outros, eles caíam na gargalhada porque eram músicas já existentes. Este country levou cinco anos para ficar pronto, uma canção de amor com versos pueris. Levou quatro sessões, em cinco e seis de junho e 12 e 22 de julho, com Ringo na voz, bateria, sineta, piano, Paul ao piano e baixo e Jack Fallon ao violino. Fallon era um empresário de shows e músico que contratou os Beatles para alguns shows no começo da carreira deles. John e George não participaram da gravação. 

Why Don't We Do It in the Road? 
(Paul McCartney) 



Um blues de verso único com apenas um minuto e 40 segundos gravado por Paul e Ringo em duas sessões nos dias nove e 10 de outubro, na reta final do álbum branco, no estúdio um. Paul tocou violão, guitarra, baixo e bateu palmas, Ringo tocou bateria e bateu palmas. Paul usa todos os seus recursos vocais nesta faixa, indo do gutural ao falsete numa sonoridade bem crua. John adorou e ficou chateado por não ter sido convidado a participar quando Paul gravou as bases no dia nove. John e George estavam acompanhando mixagens em outro estúdio. 

I Will (Paul McCartney)



Outra das belas baladas de Paul como And I love Her, Here There and Everywhere, For Noone, Yesterday, entre outras. Letra simples do tipo ''eu te amo e você sabe que vou te esperar", com um arranjo e interpretação tocantes. 


Jane Asher com Paul

Muitas dessas baladas foram feitas para a atriz Jane Asher, com quem Paul ficou de 1963 a 1968. Não houve menção a ela aqui, até porque Jane tinha rompido com ele ao chegar inesperadamente de viagem e encontrá-lo na cama com a americana Francie Schwartz, última de uma série de puladas de cerca que ela aguentou. Jane anunciou a separação no dia 20 e Francis foi a algumas sessões de gravação do álbum.

Paul gravou dias antes do anúncio de Jane, em duas sessões, em 16 e 17 de setembro, com Paul na voz e violões, John na percussão e Ringo nas maracas, címbalos e bongôs. A canção exigiu nada menos que 67 takes até que Paul ficasse satisfeito com o take 65 na sessão que durou de sete da noite às três da manhã. Os dois seguintes receberam overdubs. No dia 17, Paul gravou um “baixo de boca.”  Em Rishikesh Paul trabalhou na letra com seu amigo cantor Donovan e não com Lennon.

Julia (John Lennon) 



Homenagem de John à sua mãe, Julia Stanley, que cuidou dele apenas nos primeiros quatro anos, passando a responsabilidade à irmã Mary, ou melhor, a Tia Mimi, que criou John. Julia prezava sua liberdade, via John apenas ocasionalmente, mas ele sempre a adorou. Os dois foram mais próximos na juventude de John, quando ele formou os Quarrymen, a banda à qual se agregariam Paul e George. Julia morreu atropelada em 15 de julho de 1958, quando John tinha 17 anos, e ele sempre demonstrou um trauma em relação ao abandono. Na canção “Mother”, de sua carreira solo, ele canta “mãe, você me teve, mas eu nunca tive você”. 


John e Julia

Lennon adaptou alguns versos do poema Sand and Foam, do poeta libanês  Kahlil Gibran “Half of what I say is meaningless; but I say it so that the other half may reach you" virou o verso de abertura “!Half of what I say is meaningless, but I say it just to reach you, Julia.”

Kahlil: "When life does not find a singer to sing her heart she produces a philosopher to speak her mind", daí Lennon: “When I cannot sing my heart, I can only speak my mind." 

Julia é uma declaração para a mãe, mas também cita Yoko Ono no verso “ocean child calls me”: Yoko significa “criança do oceano” em japonês. Os psicólogos de plantão interpretam que Yoko finalmente preenchera o vazio que ele sentiu com a morte da mãe, a quem amava muito. 

Julia fazia o papel de amiga e o encorajava criativamente. Sua morte, segundo os supracitados, o levou a adotar uma postura rebelde e a tratar mal as mulheres até conhecer Yoko. John gravou sozinho cantando e tocando violão duas vezes e estas duas versões foram superpostas no estéreo, o que dá um efeito quando ele canta “Julia”. Esta canção foi a última a ser gravada para o álbum branco, em 13 de outubro, e encerra o lado dois.
Próximo post o lado um do segundo disco do álbum duplo.

2 comentários:

  1. Gosto muito de " Dont Pass me by " , faltou só o coro em falsete de John Lennon e George Harrison no final das frases , mas como você disse , eles não participaram da gravação , uma pena.

    ResponderExcluir
  2. A primeira vez que li sobre as canções do white album foi num poster da revista som três.

    ResponderExcluir