domingo, 25 de novembro de 2018

The Beatles final: numberninenumberninenumberninenumbernine






No dia de hoje, 25 de novembro, há 50 anos, era lançado na América The Beatles, o álbum branco, no Reino Unido tinha sido dia 22. Duplo, mais caro, mesmo assim ficou em primeiro lugar por nove semanas nos domínios do Tio Sam. Hoje acumula 19,5 milhões de cópias por lá, o que deve aumentar com a edição de aniversário enriquecida por uma nova mixagem, um CD acústico e dois CDs de takes de estúdio.

Encerro a série sobre o álbum com o lado quatro, dominado por duas canções de John Lennon. Revolution 1 é o início de sua fase política que se estenderá à carreira solo, culminando com o segundo álbum, Sometime In New York City (1972), incluindo uma "guerra" contra o governo de Richard Nixon que o via como subversivo pela militância (Nixon caiu em 1974 pelo escândalo Watergate e John conseguiu o visto em 1976). 

Na segunda, Revolution 9, ele levou a música concreta às massas, oito minutos e 20 segundos de algo nunca ouvido fora do restrito círculo da música experimental em que brilhavam nomes como John Cage e Karlheinz Stockhausen. Os fãs entraram em órbita ouvindo aquilo, ainda mais com os neurônios aditivados por letrinhas mágicas como THC e LSD. 

Neste último lado temos quatro canções de John, uma de Paul e uma de George. Interessante o contraste entre Revolution Nine e Good Night, que fecha o disco, ambas de John, uma muito louca, outra uma canção de ninar com orquestra. A mesma diversidade se repete para os demais Beatles e a grande conclusão, infelizmente saudosista, é que eram bons tempos em que quatro caras de uma banda faziam um disco de 30 músicas diferentes umas das outras.
Let's go.

 Revolution1 (John Lennon)



A primeira manifestação política de John. Ele contou à Rolling Stone que já tinha vontade de criticar a Guerra do Vietnam quando a banda fez a última turnê americana em 1966, mas o empresário, Brian Epstein, proibiu.

Os acontecimentos de 1968, a revolta estudantil na França, protestos na América, o assassinato do líder negro Martin Luther King, a pregação de uma revolução pela militância de esquerda americana, do Youth International Party aos Panteras Negras. Tudo isso o motivou a fazer Revolution.

Foi a primeira música gravada do álbum branco, John a queria para lado A de um single, Paul e George vetaram por ser política, daí ele resolveu gravar uma versão rápida e distorcida que acabou no lado B de Hey Jude com o título de Revolution.



A versão lenta do álbum passou a ser Revolution 1. A letra é um diálogo imaginário de John com um militante que prega a revolução e John responde “We all want to change the world (...) when you talk about destruction. Don’t you know that you can count me out.” Todos queremos mudar o mundo, mas quando você fala em destruição, não conte comigo.” É assim que ele canta no single, mas no álbum sua posição e dúbia porque diz, ao mesmo tempo, “out in.” Mais adiante afirma ao interlocutor imaginário “But if you want money for people with minds that hate. All I can tell is brother you have to wait” (Mas se você quer dinheiro para gente com mentes que odeiam. Tudo que posso lhe dizer é que terá que esperar). Aos que culpam a Constituição, ele manda que mudem suas cabeças. Aos que levam posters do líder chinês Mao Tse-tung, ele rebate que nada vão conseguir. O Take 18 tem 10 minutos e 28 segundos. Os seis minutos finais foram retirados e formam a base de Revolution 9.




John ficou mordido com a recusa de a versão lenta ser lado A do single, embora reconhecesse a qualidade de Hey Jude.
“Os Beatles poderiam muito bem ter lançado a versão lenta como single, fosse ela um disco de ouro ou de madeira. Mas estavam chateados com o lance da Yoko e com o fato de eu estar me tornando tão dominante e criativo como nos primeiros tempos, depois de anos apático. Eu acordei e não ficaram nem um pouco satisfeitos,” disse ele, citado no livro All We Are Saying, de David Sheff.


John colocou a voz deitado no estúdio por se sentir mais confortável

A gravação aconteceu em quatro sessões a 30 e 31 de maio, quatro e 21 de junho: John cantou, tocou violão e guitarra; Paul tocou piano, órgão, baixo e fez vocais; George tocou guitarra e fez vocais e Ringo tocou bateria. Esta versão tem dois trompetes e quatro trombones. 

Honey Pie (Paul McCartney)




Canção ao estilo das bandas de vaudeville dos anos 20, com sopros manipulados tecnicamente para soarem como as antigas gravações em 78 rotações. A história de uma garota pobre do norte da Inglaterra que faz sucesso na América e seu apaixonado a chama de volta. 

Paul ouvia muito jazz tradicional em casa. Seu pai James “Jim” McCartney tocava numa banda e tinha muitos discos. “Gosto das melodias e das letras dessas canções antigas, coisas que não se ouve hoje em dia. Eu até gostaria de ser um escritor dos anos 20, saca, cartola e fraque. Então nesta sou eu fingindo que vivo em 1925,” disse Paul em 1968. 

Ele falou que John também gostava de vaudeville, apesar de chamar canções de Paul como esta e When I’m Sixty Four de “Canções de vovozinha.”

Gravado nos estúdios Trident nos dias 1, 2 e 4 de outubro, com Paul na voz, piano e guitarra; John na guitarra; George no baixo e Ringo na bateria. Os sopros são cinco saxofones e dois clarinetes. Um verso “now she’s hit the big time”, no princípio, recebeu forte compressão e chiados para soar como num disco antigo.

Savoy Truffle (George Harrison)




Brincadeira com o guitarrista Eric Clapton, grande amigo de Harrison, que devorava caixas de bombons Good News com sabores como Savoy Truffle, Montelimart, Gingersling, Cream Tangerine e Coffee Dessert, todos citados na letra. 

George conta na autobiografia I Me Mine que Clapton tinha cáries pela grande quantidade de chocolates que ingeria. Na época da composição, depois de voltar da Índia, ele tinha consertado os dentes, mas viu na casa de George uma caixa de Good News e atacou. George contou que o verso “you have to have them all puled out...” significava que Clapton tinha que parar de comer doces. 



O verso “You know that what you eat you are” é do assessor de imprensa da banda Derek Taylor. Faltava um verso, George perguntou se tinha alguma ideia e Derek lembro do filme You Are What You Eat, do amigo dele Alan Pariser. Ele deu um twist e sugeriu a George “You know that what you eat you are” que o autor rimou com “we all know Obladi Bla da”, a canção de Paul que tinha torrado o saco do resto da banda por ter exigido zilhões de takes.

Gravada no Trident e em Abbey Road nos dias 3, 5, 11 e 14 de outubro, teve George no vocal com dobra e guitarra, Paul no baixo e Ringo na bateria e pandeiro. Os sopros são seis saxofones – dois barítonos e quatro tenores – que tocaram lindamente o arranjo do assistente de George Martin, Chris Thomas. Quando estava pronto, George pediu ao engenheiro Ken Scott que distorcesse o som, o que foi feito injetando os sopros em dois amplificadores que foram saturados e sujaram tudo. 

Antes de os músicos ouvirem, George pediu desculpas pelo que tinha feito, mas explicou que era assim que queria. Eles não gostaram nem um pouquinho, mas estavam ali para fazer o que o autor desejava.

Cry Baby Cry (John Lennon)



Canção inspirada num comercial que mandava as crianças chorarem para as mães comprarem uma marca de flocos de milho ("Cry baby cry\ Make your mother buy). Em Sgt Pepper’s John também tinha feito uma inspirada em comercial de flocos de milho, Good Morning Good Morning (ele deixava a TV ligada).



Letra inspirada em histórias de fantasia  que John conhecia da infância. A segunda estrofe de Sing a Song for Sixpence é uma das influências:
“The king was in his counting house counting out his money
The queen was in the parlor eating bread and honey
The maid was in the garden hanging out the clothes
When down came a blackbird and pecked off her nose”
John escreveu: “The king of Marigold was in the kitchen cooking breakfast for the queen. The queen was in the parlour playing piano for the children of the king.” Mais adiante ele coloca o rei colhendo flores no jardim e a rainha pintando retratos para as férias das crianças. E a duquesa de Kircaldy sempre atrasada para o chá e por aí vai.

Gravada nos dias 15, 16 e 18 de julho, com John na voz, violão, piano e órgão, Paul no baixo, George na guitarra solo, Ringo na bateria e no pandeiro e George Martin no harmônio. 

No dia 18, os Beatles compareceram à première de Yellow Submarine, mas também finalizaram a faixa com uma nova voz de John, vocais e efeitos. Um fragmento de canção de Paul “Can you take me back faz a passagem para a faixa seguinte (o álbum não tem separação de músicas).

Revolution 9 (John Lennon)




Começa com um diálogo entre o produtor George Martin e o gerente da Apple Alistair Taylor que esquecera de trazer uma prometida garrafa de vinho e pede desculpas para Martin. Daí entra uma voz repetindo “number nine” encontrada numa fita de teste usada por John para criar um loop repetido ao longo da peça, inspirada nos experimentalismos de gênios como John Cage e Karlheinz Stockhausen. Seis minutos cortados do final de Revolution 1 formam a base aqui, com os gritos de Right e Alright de John.

A colagem foi feita por John e Yoko, com uma força de George Harrison, e inclui coisas como John e George falando coisas aleatórias: “take this brother, may serve you well”, “the watusi”, “the twist”, “the eldorado”, “economically viable”, “financial imbalance”, “there ain’t no rule for company freaks”. Yoko canta “you become naked” e solta aqueles gritos irritantes. 



Outros sons:
- George Martin para o engenheiro de som Geoff Emerick:“Acenda a luz vermelha” com muito eco e repetida várias vezes.
- Um coral com violinos ao contrário.
- Uma peça sinfônica picotada ao contrário;
- Um pequeno trecho orquestral de A Day in the Life repetido várias vezes.
- Um mellotron de trás pra frente (tocado por John).
- Vários trechos de sinfonias e óperas. Identificou-se A Fantasia de Beethoven para Coral As Ruas de Cairo , Estudos Sinfônicos de Schumann (ao contrário), moteto de Vaughan Williams O Clap Your Hands, e o acorde final da Sinfonia nº 7, de Sibelius. 




E ainda a canção Awal Hamsha do cantor e compositor sírio Farid al-Atrash, um dueto de trompa e oboé, uma guitarra elétrica ao contrário, um efeito usado em Tomorrow Never Knows. E muitos sons avulsos como tiro, pratos percutidos com força, risadas de multidão, vidro quebrado, buzinas de carros e uma multidão num estádio de futebol americano cantando “Hold that line\ Block that kick.” Pelo menos 45 sons diferentes foram identificados.



Um engenheiro falou que o “number nine number nine” virou mania na gravadora e as pessoas ficaram semanas repetindo como um mantra. John levou os funcionários de arquivo e os engenheiros à loucura com sua pesquisa de sonoridades, colagens feitas na base de gilete e cola, loops grandes que tinham que ser segurados com lápis longe dos gravadores e a loucura de jogar tudo isso nos oito canais e fazer a mixagem com efeitos de pan. Chegou a usar os três estúdios de Abbey Road para as montagens com 10 gravadores repetindo loops, alguns, grandes, segurados com lápis por técnicos da gravadora, muitos deles putos da vida porque a montagem entrou pela noite e vários tinham pegado nove da manhã.

Quando ficou pronto, John mostrou aos demais. Paul só disse “Not bad\ Não é ruim”, o que significou que não tinha gostado. George e Ringo nada disseram, ficaram sem jeito. Paul e George Martin tentaram, sem sucesso, demover John de incluir a peça no álbum porque não era o estilo da banda. Resultado: Milhões de fãs em todo o mundo tiveram o primeiro contato com a música concreta.
Depois disso, só restava finalizar o disco com algo bem careta.

Good Night ( John Lennon)




Ringo canta esta cantiga de ninar feita por John para seu filho Julian, de cinco anos. Resultado do momento em que vivia, separando-se da esposa Cynthia e do filho Julian, então com cinco anos, para ficar com Yoko Ono.

Nos dias 28 de junho e dois de julho, John e Ringo gravaram uma base, que George Martin levou para criar o arranjo de orquestra, gravado no dia 22 de julho por 26 músicos, com o coral dos Mike Sammers Singers, quatro rapazes e quatro moças. Ringo colocou o vocal definitivo nesta noite numa sessão que foi de sete e meia da noite a uma e 40 da madrugada.




Um comentário:

  1. É incrivel como algo que soava desconfortável para os demais Beatles com seus comportamentos conservadores e quase Mainstream , tornou o Álbum Branco cult... Revolution 9 ... Sem essa faixa o AlbÁl Branco não seria o mesmo... Icônica

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