segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Paul McCartney se mantem fiel ao baixo e ao amplificador usados nos tempos do Beatles

Paul usa hoje o baixo Hofner 500/1 1963 com amps Vox de 100 watts
Sempre fiquei intrigado de ver Paul McCartney usar nos shows o baixo Hofner do começo da carreira dos Beatles e os amplificadores Vox, mas nunca me dei ao trabalho de investigar. Agora que estou pesquisando instrumentos e equipamentos da banda consegui as respostas.

Paul diz que o Hofner é o baixo que todos querem vê-lo tocar, tão simbólico quanto a bengala de Carlitos. Apesar de continuar produzindo material inédito, ele se rendeu ao fato de que nunca será maior do que os Beatles. Sempre que lança um novo álbum, como o recente Egypt Station, sabe que boa parte das entrevistas de divulgação serão sobre os Beatles. E sua constante presença na midia é garantia de manter vivo o interesse nos Beatles, junto com um eficiente planejamento de marketing que abastece o mercado periodicamente do mesmo material dos anos 60 reciclado de maneira engenhosa.


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Paul nos Beatles com o Hofner 500/1
Paul entrou para os Beatles como guitarrista, usando modelos baratos da fábrica inglesa Framus, enquanto Chas Newby e depois Stuart Sutcliffe ficavam no baixo. Quando Stuart saiu da banda, a bomba caiu no colo de Paul, já havia dois na guitarra, John Lennon, o líder, e George Harrison, daí precisou comprar um baixo. Foi na loja Steinway Musichaus, Hamburgo, onde os Beatles faziam temporadas, e comprou, pelo equivalente a 30 libras, um baixo com dois captadores da fábrica alemã Hofner, modelo 500/1, o que estava exposto era para músico destro, ele contou que não havia instrumentos para canhotos na época, daí encomendou um com as cordas e controles invertidos. Um atrativo foi o formato simétrico, parecido com um  violino e bem leve se comparado a outros.


Beatles ao vivo com amps Vox AC 50. No canto esquerdo um pedaço do AC 100 de Paul
Foi com ele que se familiarizou e aprendeu a curtir o baixo e com ele gravou vários álbuns dos Beatles. Em 1963 a Hofner lhe deu um baixo do mesmo modelo com alguns aperfeiçoamentos e é este instrumento que ele usa hoje em dia nas turnês. O primeiro 500/1 foi roubado dos estúdios Twickenham nas filmagens de álbum Get Back/Let it Be em janeiro de 1969 e nunca mais reapareceu.

Paul passou a usar o modelo mais novo, com o de 1961 como baixo reserva, já com dois novos captadores e revestimento. As fábricas de instrumentos competiam para que os Beatles usassem seus modelos, todos adotados por eles viravam sucesso de vendas. 


Paul em estúdio com o baixo Rickenbacker 4001 c64
Em fevereiro de 1964, na primeira turnê na América, a Rickenbacker mostrou vários modelos, John e George encomendaram duas guitarras, uma de seis, outra de 12 cordas. A Paul mostraram um baixo 4001 c 64, mas era para destros. Um ano e meio depois, durante a segunda turnê americana, Paul recebeu um baixo vermelho para canhotos, o modelo que vira, 4001 c64, com uma identificação de 1964, o ano anterior, o primeiro baixo para canhotos da empresa. Daí em diante, usou o Rickenbacker nas gravações de Rubber Soul e Revolver, e o Hofner 500/1 1963 ao vivo. No álbum branco e em Let It Be usou o Hofner e um 1966 Fender Jazz Bass . Em Abbey Road usou o Hofner e Rickenbacker 4001 (Outra fonte diz que só voltou a usar o Hofner nas sessões de Let It Be).

Amplificador Vox AC 30

Depois do fim dos Beatles, quando formou a banda Wings, Paul foi para a estrada com baixos Rickenbacker, havia nele um ressentimento pelo fim dos Beatles que o tempo se encarregou de dissolver. Na turnê de 2002, depois de uma década sem excursionar, voltou a usar o Hofner.


Amplificador Vox AC 100
Paul é fiel até hoje aos amplificadores da Vox, que era uma pequena fábrica até o empresário Brian Epstein fechar um contrato para a banda usar exclusivamente amps Vox, o maior negócio fechado pela fábrica, que representou um estouro de vendas depois dos Beatles passarem a usá-los. Em primeiro lugar o modelo AC 30, preferido de muitos músicos até hoje, com 30 watts e dois falantes de 12 polegadas. 

Les Paul Custom Painted
Quando começaram a tocar para plateias histéricas, pediram amps mais potentes na esperança de serem ouvidos. Inicialmente a Vox deu a Paul o T 60, cabeçote de 60 watts com uma caixa de dois falantes, um de 15 e outro de 12 polegadas. Não funcionou, muito instável, daí veio o AC 100 Super de Luxe com 100 watts e uma caixa com quatro falantes Celestion de 12 polegadas, batizado de Beatles Amp. Para John e George amps de 50 watts com uma caixa de dois falantes de 12 e uma corneta para médios. A intenção foi boa, mas de nada adiantou, a garganta das fãs tinha um milhão de watts e não existia sistema de amplificação para abafá-las.


Gibson Les Paul Standard
Hoje em dia Paul usa dois cabeçotes Vox AC 100, mas as caixas são duas Mesa Boogie Standard Power House com seis falantes de 10 polegadas cada, mais um cabeçote Mesa Boogie Strategy 88 Bass para reforçar os graves. Paul também toca guitarra nos shows, com predominância de uma Gibson Les Paul Standard, uma Les Paul Custom Painted, sua véia de guerra Epiphone Casino, os violões Epiphone Texan FT-79, com que gravou Yesterday e Gibson J-185 de 12 cordas. Ele tem uma infinidade de guitarras e violões, mas estes são os mais usados. Para as guitarras usa dois cabeçotes Vox AC 100 em duas caixas Vox com quatro falantes de 12 polegadas. 

Obs. Matéria feita com pesquisa na internet e no site beatlemania.net de Ricardo Puglialli, com farto e detalhado material sobre a banda.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Camisa de Venus bota pra fude em novo DVD





Dançando em Porto Alegre  é o mais recente lançamento do Camisa de Venus, banda punk baiana que se juntou ao Rock Brasil em 1983, momento de decolagem da Geração 80. Aos 18 anos do século 21, lançou em novembro o DVD Dançando em Porto Alegre, gravado em 2016 na capital gaúcha, onde tem um fã clube engajado. Um CD duplo com a íntegra do DVD também está à venda nas lojas virtuais e onde tiver sobrado alguma loja de discos.


Aos 65 anos de idade na época, Marcelo Nova nada perdeu de sua corrosiva postura de andar na contramão de sua geração. O Camisa hoje é um híbrido com dois da formação original, Ele e Roberio Santana (baixo) e três que acompanham Marcelo na carreira solo: Drake Nova (guitarra solo), Leandro Dalle (guitarra) e Celio Glouster (bateria). Drake, filho de Marcelo, também assina a masterização e a arte gráfica. Seu estilo é rock mainstream e hard, usa até o setup clássico de Les Paul-Marshall-pedaleira, o que altera o status punk da banda,mas não é novidade, em duas voltas anteriores a formação incluiu o mestre Luiz Carlini.



Apesar disso, a essência do Camisa se mantem intacta na apresentação de 17 músicas em uma hora e meia. Base suja, letras ácidas, sem concessões e pela primeira vez, num registro ao vivo, quatro novas do primeiro álbum de inéditas em 20 anos, Dançando na Lua (2016). 

Algumas dos anos 80 se lançadas hoje desencadeariam um linchamento da banda nas redes sociais. Bete Morreu, do álbum de estreia, descreve o estupro e morte dela e ainda um "Bete se fudeu" omitido agora. Silvia fala de uma adultera em termos machistas, com o coro de "piranha" e no final "sua puta."  Ambas não despertaram o furor que desencadeariam hoje em dia.


Marcelo Nova - Divulgação

O som no começo era bem cru, ninguém sabia tocar direito, Marcelo sempre segurou bem na voz e os temas fugiam do lugar comum romântico. E isso não mudou. Raça Mansa, single do último álbum, não alivia: "Quantos senhores, ministros, pastores. Mais de mil palhaços no salão. Convenceram o pobre do seu Zé que a fé substitui a razão." E mais: "Acabou de chegar um cavalheiro lá do Distrito Federal. Com a ganância enfiada no rabo e nesse rabo cabe um arsenal."

A captação de imagens respeitou a iluminação do show, nada de luz chapada, então há muitos momentos sombreados, o que tem a ver com o repertório. Há um telão muito mal aproveitado no DVD, só se vê um pouco quando há imagens do palco inteiro, um material que podia enriquecer o visual através de superposições. A direção é de Andre Sittoni e a fotografia de Mauricio Borges de Medeiros.




O  publico é igualmente mal aproveitado. Há muitas manifestações radicais em shows engajados como este, sem falar que há integração total com a plateia, que canta com Marcelo o show inteiro. E com muita gente jovem, prova de que a mensagem do Camisa passou de geração em geração.

Marcelo disse uma vez que "crítico é igual a eunuco numa suruba: eles vêem fazer, eles gostariam de fazer, mas eles não podem." Eu faço o que gosto, escrever, músicos em geral se acham acima de críticas, acham genial tudo que fazem. Marcelo também disse  que o Camisa é seu autorama, gosta de brincar um pouco e enjoa logo. E mais: "Não vou fazer disto minha carreira, pois é algo no qual eu já virei a página. Eu tenho orgulho, ótimas lembranças daquilo, mas eu não gosto de nostalgia." Pois é, mas esta é a quinta volta do Camisa e já dura desde 2015. O autorama está demorando a voltar pro depósito. Por que $erá?



Roberio Santana e Drake Nova

Observações de eunuco à parte, o que interessa é a música e o DVD mostra um show enérgico de um sessentão que não perdeu o pique. Impossível entrarem todos os sucessos e canções que marcaram a carreira do Camisa, mas lá estão Joana D'Arc no encerramento, Hoje, Deus Me De Grana, Só o Fim, My Way e outras. Garantia de divertimento e reflexão, melhor curtido com o som no talo.

EXTRA EXTRA EXTRA


Nos Extras há um divertido vídeo chamado História do Preservativo. Não é uma biografia, mas o histórico da camisinha, hoje a superstar dos tempos da Aids. Gravado num preto e branco churreado, o cineasta Mauricio Borges de Medeiros encarna um professor que conta, em inglês com legendas, que já na Roma antiga usava-se preservativos feitos com intestino e bexiga de animais. As doenças venéreas eram tidas como um castigo da deusa Vênus, daí o nome de camisa de Vênus.


A brincadeira remete ao choque causado pelo nome da banda quando contratada pela gravadora Som Livre para o primeiro LP. Falar no preservativo era "feio" na época, até o nome da banda era publicado como Camisa de... Daí Marcelo Nova foi chamado para uma reunião na Som Livre quando lhe prometeram acesso a programas da Globo desde que mudasse o nome. Marcelo disse que  tudo bem desde que o novo nome fosse Capa de Pica e mandou a Som Livre para a pqp. Há uma outra versão contada pelo colega ricrado Schott, que cito: "O Reinaldo Barriga, que produziu o Camisa na RGE, me contou uma vez uma história diferente sobre a banda - segundo ele, o João Araújo adorava o Marcelo Nova mas achou melhor tirar o grupo da Som Livre e passá-lo para a RGE, que era uma espécie de 'purgatório' da gravadora por aqueles tempos.'' 



O álbum saiu sem divulgação, mas foi tiro no pé porque em álbuns posteriores passaram da marca de 300 mil cópias vendidas. E a Camisa de Venus caiu na boca do povo como preventivo contra a Aids ou seja a capa de pica venceu.

Repertório

01. Introdução
02. Bota Pra Fudê (álbum Plugado - 1995)
03. Hoje (Batalhões de Estranhos - 1984)
04. Bete Morreu (Camisa de Vênus - 1983)
05. Dançando na Lua (Faixa título - 2016)
06. Manhã Manchada de Medo (Dançando na Lua - 2016)
07. Quem É Você? / Cidade Fantasma / Gotham City (Quem É Você - 1996/ Batalhões de Estranhos - 1984)
08. Eu Vi o Futuro (Quem É Você - 1996)
09. Vento Insensato (Dançando na Lua - 2016)
10. Deus Me Dê Grana (Correndo Risco - 1986)
11. A Ferro e Fogo (Correndo Risco - 1986)
12. A Raça Mansa (Dançando na Lua - 2016)
13. Só o Fim (Correndo Risco - 1986)
14. My Way (Camisa de Venus Viva - 1986)
15. Silvia (Camisa de Venus Viva - 1986)
16. Simca Chambord / O Ponteiro Tá Subindo (Correndo Risco - 1986)
17. Eu Não Matei Joana D’Arc (Batalhões de Estranhos - 1984)