quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Camisa de Venus bota pra fude em novo DVD





Dançando em Porto Alegre  é o mais recente lançamento do Camisa de Venus, banda punk baiana que se juntou ao Rock Brasil em 1983, momento de decolagem da Geração 80. Aos 18 anos do século 21, lançou em novembro o DVD Dançando em Porto Alegre, gravado em 2016 na capital gaúcha, onde tem um fã clube engajado. Um CD duplo com a íntegra do DVD também está à venda nas lojas virtuais e onde tiver sobrado alguma loja de discos.


Aos 65 anos de idade na época, Marcelo Nova nada perdeu de sua corrosiva postura de andar na contramão de sua geração. O Camisa hoje é um híbrido com dois da formação original, Ele e Roberio Santana (baixo) e três que acompanham Marcelo na carreira solo: Drake Nova (guitarra solo), Leandro Dalle (guitarra) e Celio Glouster (bateria). Drake, filho de Marcelo, também assina a masterização e a arte gráfica. Seu estilo é rock mainstream e hard, usa até o setup clássico de Les Paul-Marshall-pedaleira, o que altera o status punk da banda,mas não é novidade, em duas voltas anteriores a formação incluiu o mestre Luiz Carlini.



Apesar disso, a essência do Camisa se mantem intacta na apresentação de 17 músicas em uma hora e meia. Base suja, letras ácidas, sem concessões e pela primeira vez, num registro ao vivo, quatro novas do primeiro álbum de inéditas em 20 anos, Dançando na Lua (2016). 

Algumas dos anos 80 se lançadas hoje desencadeariam um linchamento da banda nas redes sociais. Bete Morreu, do álbum de estreia, descreve o estupro e morte dela e ainda um "Bete se fudeu" omitido agora. Silvia fala de uma adultera em termos machistas, com o coro de "piranha" e no final "sua puta."  Ambas não despertaram o furor que desencadeariam hoje em dia.


Marcelo Nova - Divulgação

O som no começo era bem cru, ninguém sabia tocar direito, Marcelo sempre segurou bem na voz e os temas fugiam do lugar comum romântico. E isso não mudou. Raça Mansa, single do último álbum, não alivia: "Quantos senhores, ministros, pastores. Mais de mil palhaços no salão. Convenceram o pobre do seu Zé que a fé substitui a razão." E mais: "Acabou de chegar um cavalheiro lá do Distrito Federal. Com a ganância enfiada no rabo e nesse rabo cabe um arsenal."

A captação de imagens respeitou a iluminação do show, nada de luz chapada, então há muitos momentos sombreados, o que tem a ver com o repertório. Há um telão muito mal aproveitado no DVD, só se vê um pouco quando há imagens do palco inteiro, um material que podia enriquecer o visual através de superposições. A direção é de Andre Sittoni e a fotografia de Mauricio Borges de Medeiros.




O  publico é igualmente mal aproveitado. Há muitas manifestações radicais em shows engajados como este, sem falar que há integração total com a plateia, que canta com Marcelo o show inteiro. E com muita gente jovem, prova de que a mensagem do Camisa passou de geração em geração.

Marcelo disse uma vez que "crítico é igual a eunuco numa suruba: eles vêem fazer, eles gostariam de fazer, mas eles não podem." Eu faço o que gosto, escrever, músicos em geral se acham acima de críticas, acham genial tudo que fazem. Marcelo também disse  que o Camisa é seu autorama, gosta de brincar um pouco e enjoa logo. E mais: "Não vou fazer disto minha carreira, pois é algo no qual eu já virei a página. Eu tenho orgulho, ótimas lembranças daquilo, mas eu não gosto de nostalgia." Pois é, mas esta é a quinta volta do Camisa e já dura desde 2015. O autorama está demorando a voltar pro depósito. Por que $erá?



Roberio Santana e Drake Nova

Observações de eunuco à parte, o que interessa é a música e o DVD mostra um show enérgico de um sessentão que não perdeu o pique. Impossível entrarem todos os sucessos e canções que marcaram a carreira do Camisa, mas lá estão Joana D'Arc no encerramento, Hoje, Deus Me De Grana, Só o Fim, My Way e outras. Garantia de divertimento e reflexão, melhor curtido com o som no talo.

EXTRA EXTRA EXTRA


Nos Extras há um divertido vídeo chamado História do Preservativo. Não é uma biografia, mas o histórico da camisinha, hoje a superstar dos tempos da Aids. Gravado num preto e branco churreado, o cineasta Mauricio Borges de Medeiros encarna um professor que conta, em inglês com legendas, que já na Roma antiga usava-se preservativos feitos com intestino e bexiga de animais. As doenças venéreas eram tidas como um castigo da deusa Vênus, daí o nome de camisa de Vênus.


A brincadeira remete ao choque causado pelo nome da banda quando contratada pela gravadora Som Livre para o primeiro LP. Falar no preservativo era "feio" na época, até o nome da banda era publicado como Camisa de... Daí Marcelo Nova foi chamado para uma reunião na Som Livre quando lhe prometeram acesso a programas da Globo desde que mudasse o nome. Marcelo disse que  tudo bem desde que o novo nome fosse Capa de Pica e mandou a Som Livre para a pqp. Há uma outra versão contada pelo colega ricrado Schott, que cito: "O Reinaldo Barriga, que produziu o Camisa na RGE, me contou uma vez uma história diferente sobre a banda - segundo ele, o João Araújo adorava o Marcelo Nova mas achou melhor tirar o grupo da Som Livre e passá-lo para a RGE, que era uma espécie de 'purgatório' da gravadora por aqueles tempos.'' 



O álbum saiu sem divulgação, mas foi tiro no pé porque em álbuns posteriores passaram da marca de 300 mil cópias vendidas. E a Camisa de Venus caiu na boca do povo como preventivo contra a Aids ou seja a capa de pica venceu.

Repertório

01. Introdução
02. Bota Pra Fudê (álbum Plugado - 1995)
03. Hoje (Batalhões de Estranhos - 1984)
04. Bete Morreu (Camisa de Vênus - 1983)
05. Dançando na Lua (Faixa título - 2016)
06. Manhã Manchada de Medo (Dançando na Lua - 2016)
07. Quem É Você? / Cidade Fantasma / Gotham City (Quem É Você - 1996/ Batalhões de Estranhos - 1984)
08. Eu Vi o Futuro (Quem É Você - 1996)
09. Vento Insensato (Dançando na Lua - 2016)
10. Deus Me Dê Grana (Correndo Risco - 1986)
11. A Ferro e Fogo (Correndo Risco - 1986)
12. A Raça Mansa (Dançando na Lua - 2016)
13. Só o Fim (Correndo Risco - 1986)
14. My Way (Camisa de Venus Viva - 1986)
15. Silvia (Camisa de Venus Viva - 1986)
16. Simca Chambord / O Ponteiro Tá Subindo (Correndo Risco - 1986)
17. Eu Não Matei Joana D’Arc (Batalhões de Estranhos - 1984)

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