segunda-feira, 27 de maio de 2019

Banda Quilomblocada é destaque no Segundo Festival Boto Rock que reuniu 49 bandas em Porto Velho


Quilomboclada - Fotos de Licias Santos

Estive sexta e sábado no 2º Boto Rock, festival com bandas de Porto Velho entre autorais e covers. Com dois palcos de rock, Rosa e Tucuxi, e um de rap, o festival se estendeu do meio da tarde até a madrugada nos dois dias no Parque Circuito, um antigo seringal convertido em espaço público. Vi bandas ainda desgovernadas, cada músico prum lado, bandas que podem muito bem entrar no circuito nacional de festivais, como Quilomboclada, Distopia, Eurritmia, Coveiros, Nitro. E covers, uma delas Perpetual Power, assassinou sem piedade a obra do Deep Purple. Em compensação a Hey Joe’s, cobrindo Charlie Brown Jr, fez um dos melhores shows, devia investir em material próprio.




No geral o que notei nas bandas autorais que assisti (não vi todas) foi falta de prática, muitas com um repertório viável em letras e melodias, mas sem que os músicos tivessem o entrosamento que define a qualidade de uma banda. Keith Richards falou a respeito quando disse que eles eram grandes músicos que faziam algo maior do que eles, The Rolling Stones. A falta de lugar para tocar deve ser um fator que impede a regularidade de muitas dessas bandas.


O Boto é um símbolo local, daí o nome do Festival e dos palcos Boto Rosa e Boto Tucuxi

O rock não tem a devida força em Porto Velho, cidade dominada por sertanejos, pagode e funk. Festivais de rock são comuns no Brasil, mas fazer um deste tamanho aqui é um feito que revitalizará o gênero, aplausos para a Fundação Municipal de Cultura, dirigida por Ocampo Fernandes, que bancou a realização com 49 bandas e 38 apresentações de hip hop num palco alternativo. A Infra funcionou bem, os dois palcos estavam um de frente para o outro a uma pequena distância, quando terminava o show num deles, começava no outro, o que impediu longos intervalos. O festival foi dedicado A Heavy Ney, o pioneiro do rock em Porto Velho, já falecido.


Quilomblocada

O grande destaque para mim foi o coletivo Quilomboclada, uma formação que tem ecos de Planet Hemp, nos três vocalistas frenéticos, e Nação Zumbi na percussão e na guitarra distorcida num timbre quase igual ao de Lúcio Maia da Nação. Mas o que não falta neles é identidade própria e protesto em defesa de negros e indígenas: “Já quebramos a corrente que você me colocou. Paulo Freire me ensinou. Hoje eu sei a diferença do oprimido e do opressor,” dizem versos de Soul Quilomboclada.”



Os habitantes de Porto Velho, bem como do restante da Amazônia que moram à beira de rios, são chamados de Beiradeiros, aqui pelo Rio Madeira, que corta a cidade. Daí a afirmação de uma cultura sobre costumes e crenças da região com população nativa majoritariamente de caboclos, descendentes de brancos com índios. Também incluem valores da religião afro brasileira, falam contra o racismo a homofobia e o machismo. 


Roda de Ciranda no show do Quilomboclada
Um estudo sobre a música Soul Quilomblocada, do Centro Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa do Imaginário Social da Universidade Federal de Rondônia, afirma:
“(...) A letra contagia e convida a juventude amazônica a se rebelar contra o sistema de opressão e a se orgulhar de suas caracteristicas étnico-raciais e multiculturais.(...) Um movimento de negação da invisibilidade social e da marginalização à procura de outras bases identitárias para suas relações com o mundo nesta região amazônica.” 


Homenagem dos Coveiros a um certo presidente, com a boca costurada

Academiquês à parte, o som da banda é contagiante com os rappers Bera Samuel, Bera Ákilas Boca e Daniel metralhando as letras e incendiando a galera que responde à altura. O show incluiu uma roda de ciranda na plateia a pedido da banda que cantou o tema folclórico Escravos de Jó, não sem antes aludir a outra tradição, do boi bumbá, com a presença de uma máscara do dito cujo.


Coveiros
A banda que reuniu uma rapaziada mais engajada foi a Coveiros, seu nome escrito na  parte de baixo do retrato pintado de um certo presidente com a boca costurada, homenageado com as músicas Democracia e Glifosato, um veneno agrícola, alusão à liberação recorde de pesticidas na era Bolsonaro. A banda toca hardcore/thrash no estilo dos Ratos de Porão que o vocalista Giovanni Marini disse serem os ídolos junto com o Sepultura, ecos das duas bandas ouvidas em alguns vocais como em Sua Cara Sua Bunda. Curioso que a pateia aqui não faz roda de pogo, só bate cabeça.

Bate cabeça ao som de Coveiros

Uma banda já mais organizada para entrar em circuito nacional é a Distopia, com um som pop bem estruturado e já com representantes no Rio e São Paulo. Lançaram há pouco o vídeo À Deriva, produzido por Luiz Carlos Maluly (Metrô e RPM). Um diferencial é o vocal com duas vozes, não tão comum no rock, um trabalho comercial de possível inserção radiofônica, especialmente as canções Amor Sem Nexo e À Deriva.



Segue o barco, outras bandas regulares que valem trabalhar mais o som são Eurritmia, Sexy Tape, Vitrola de Ficha e Jowe. Last but not least PVH Blues, uma afiada banda dedicada aos standards do blues. Mandaram, entre outros, Got My Mojo Workin’, Sweet Home Chicago e Roadhouse Blues. Prognoise foi a única banda progressiva que vi no festival, bons músicos, bons arranjos, mas mal executados e com um vocalista sofrível.


PVH Blues

O 2º BotoRock mostrou uma presença forte de rock na cidade e no estado, bem como de rap, que sirva para fortalecer a cena e criar novos lugares para tocar. Porto Velho Rocks!
P.S. Agradeço a Daniel  Duarte das bandas Semaforo 89 e Pilsen Bullets pela ajuda na informação sobre as bandas. Ele tocou cover de Ultraje a Rigor com a Semaforo 89, mas a outra banda é autoral (Video abaixo).




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