segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Projeto Legião Urbana XXX anos faz show impecável em Porto Velho

Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá - Fotos de Diego Matheus

Não costumo esperar nada do sábado à noite aqui em Porto Velho, mas este foi diferente. Muitas emoções, bicho. O Projeto Legião Urbana XXX Anos baixou aqui para revisitar as canções do segundo álbum da banda, Dois (1986) e o terceiro, Que País É Esse (1987), este um registro do repertório do Aborto Elétrico, primeiro formação punk de Brasília, que tinha Renato Russo e os irmãos Fê e Flávio Lemos, ambos hoje no Capital Inicial. Mais do que revisitar foi uma recriação do repertório, com um som vigoroso que foi ao hardcore várias vezes sob o comando de Dado Villa-Lobos numa das melhores performances que vi e foram muitas. Os dois legionários, Dado e Marcelo, sentiram a porrada do massacrante calor amazônico, não passaram bem, mas prevaleceu o profissionalismo. As cinco mil pessoas que foram à Talismã 21 dançaram e cantaram a maior parte do repertório, incluindo os 168 versos da cinematográfica Faroeste Caboclo, a saga do indigitado João de Santo Cristo.
O show comemorou o oitavo aniversário do Grego Original, uma casa de rock aqui de Porto Velho que está se mantendo numa cidade majoritariamente breganeja. 


André Frateschi e Dado Villa-Lobos

O primeiro bloco com músicas de Dois, a começar por Daniel na Cova dos Leões, me jogou numa viagem de lembranças dos primeiros shows no Circo Voador com Renato equilibrando um baixo Rickenbacker maior que ele e noites memoráveis no Noites Cariocas. Good times, mas vale o presente. Dado e Marcelo encontraram em André Frateschi o intérprete perfeito para seu repertório. Canta à sua maneira, performance de palco própria e com respeito por estar interpretando um dos maiores legados musicais da História de nossa música. No camarim perguntei a ele se tinha assistido shows da Legião com o Renato no vocal, disse que sim, então tem conhecimento de causa do que está fazendo. A banda também não é mais a mesma, reformulada musicalmente para um som mais pesado. Uma segunda guitarra com Lucas Vasconcellos, que segura a base e faz alguns solos, o performático baixista Mauro Berman e Rodrigo Tavares nos teclados e programações.


Lucas Vasconcellos (guitarra e violão)

Quase Sem Querer, suave em disco, ganhou peso e o coro da plateia. Eu Sei, também conhecida como Sexo Verbal, ganhou um solo rasgado de Dado, que mandou power chords em Índios.
Os dois titulares cantaram várias. Marcelo abriu o bloco punk com Tédio e Dado fechou com Conexão Amazônica, adequada por estarem in loco, e verdadeira porque Rondônia faz fronteira com a Bolívia e muita cocaína é apreendida aqui, então muitas vezes a conexão amazônica está interrompida, mas sempre retomada porque há narizes ávidos por toda parte. Musica Urbana 2 vai sem Dado, André canta e toca gaita. Depois faz uma homenagem a quem chama de maior compositor e cantor do Brasil e grita pelo nome de Renato Russo. A casa vem abaixo, muita emoção rolando. Marcelo deixa a bateria para cantar a saga do improvável casal, o prosaico Eduardo e a intelectual Monica, com cinco mil vozes no apoio. No final, volta para a bateria e fazem um grand finale estendido.


Mauro Berman (baixo)

É hora da épica saga de João de Santo Cristo, Faroeste Caboclo, outra grande comunhão de palco e plateia, com os músicos no final pulando pelo palco. Aliás, os que podem se movimentam bastante.
Em Que Pais é Esse um momento marcante. André passa uma toalha num vinho derramado e a levanta “ensanguentada” nos versos “Terceiro mundo se for, piada no exterior. Mas o Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão. Quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão,” gesto bem adequado ao clima de terror vigente nas reservas indígenas com invasões e assassinatos de líderes.


Rodrigo Tavares (teclados e programações)

Reta final, as suaves Angra dos Reis e Andrea Doria, porrada em Fábrica. Dado encerra com Tempo Perdido, todos cantam com ele este hino de esperança de quem julga ter todo o tempo do mundo, o que Renato não teve. 


Dado Villa-Lobos

Rápida saída e volta para um alentado bis que começa com Marcelo cantando Vento no Litoral marcando numa pandeirola, de repente espatifa o instrumento com força no chão. Na hora dos versos “Olha só o que eu achei, cavalos marinhos” teve um momento de raiva e falou “Achei cavalos marinhos e não manchas de óleo”, vai ao fundo do palco e volta para finalizar a canção. 



Marcelo Bonfá

Dado emenda com Giz, seguida por Há Tempos, do disco seguinte aos dois do show, As Quatro Estações (1989), que a plateia canta junto na empolgação, que emenda com Será, do álbum de estreia que levou o nome da banda (1985). Fecha os trabalhos com o manifesto político Perfeição, do álbum O Descobrimento do Brasil (1993). Eles me comentaram que, em todos os anteriores, a plateia mandava o “Fora Bolsonaro”, mas não rolou em Porto Velho.



Foto de Ticiane Moura

Duas horas de show sem a gente sentir, prova da excelência da banda e do repertório. Deram um tempo no camarim e partiram para pegar suas coisas no hotel com voo para o Rio marcado para 4h40 da madrugada, uma escala e total de quase seis horas de volta. Esta é a vida de músicos. Para fazer o que gostam, duas horas de palco, espera em aeroportos e voos longos, mas felizes pelo dever cumprido e pela alegria levada a uma plateia que adoraram.
Urbana Legio Omnia Vincit mais uma vez.






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