quarta-feira, 16 de junho de 2021

Beatles na India em busca de iluminação

No penúltimo ano de vida, os Beatles brilharam artisticamente com um álbum de 30 músicas, todas distintas, o single de maior vendagem Hey Jude/Revolution, a entrada e cena da artista de vanguarda Yoko Ono, um agravante na abalada relação dos quatro e de John com a esposa Cynthia Powell. E a última tentativa de buscar iluminação espiritual numa viagem ao ashram do Maharishi Mahesh Yoga em Rishikesh, Índia, cidade aos pés do Himalaia conhecida como a Capital Mundial do Yoga.
Em 1967, John, George, Paul e Ringo tiveram o primeiro contato com a Meditação Transcendental do Maharishi, viram uma palestra em Londres, foram ao pais de Gales para um seminário, interrompido pela morte súbita do empresário Brian Epstein. Daí tiveram que assumir os negócios da banda e decidiram produzir o filme para a TV Magical Mystery Tour.
Em meados de fevereiro de 1968 começaram sua Magical Mystery Tour da vida real, rumo à Índia. No dia 15, embarcaram em Londres John e a esposa, Cynthia, Paul e a noiva Jane Asher. No dia 19 foi a vez de George e Ringo com as respectivas esposas Pattie e Maureen. No dia 14 tinha ido na frente o faz tudo Mal Evans com bagagens e a ordem de arranjar transporte para o ashram. Depois de 20 horas de voo, com escalas, até Nova Delhi nada de carros confortáveis, mas táxis precários do aeroporto até Rishikesh numa precária estrada de terra chacoalhando por seis horas. Como estavam imbuídos de fé e espírito aventureiro adoraram. Quebrados da viagem foram alojados em bangalôs de formato oval e apagaram.
Enquanto os Beatles descansam vamos dar um pulo na Rishikesh atual. Como tudo que os Beatles tocam vira ouro, com o passar dos anos peregrinos começaram a ir à cidade para conhecer o lugar onde os Beatles meditaram. O ashram abandonado foi restaurado e pode ser visitado por duas libras, agora com o nome de Beatles Ashram.  Em 2018, 50º aniversário da estada deles, pouco mais de 10 mil pessoas lá estiveram.
Pousadas e restaurantes surgiram para receber o que chamam de Flower Power Pilgrims, jovens que vivem hoje como se ainda fosse a era psicodélica dos anos 60. Há lugares para meditar, todo tipo de serviço como Terapia New Age, Mãos Curadoras da Escola Heiki e coisas como Cristais Sonoros Tibetanos de Cura, Pedras Vedicas etc. E cidades vizinhas também aproveitam a aura deixada pelos Beatles para faturar.
De volta ao passado, quase refeitos do cansaço, uma noite não basta, ainda mais em condições precárias, os Beatles foram conhecer o lugar. A Academia de Meditação Transcendental ficava em um complexo a 45 metros de altura do Rio Ganges, cercada por montanhas. O acesso era por uma ponte suspensa onde havia o aviso Proibido camelos e elefantes.  Havia umas 60 pessoas da Europa e da América entre elas celebridades como a atriz Mia Farrow e sua irmã Prudence. O vocalista dos Beach Boys Mike Love, o cantor Donovan, amigo de Paul e, ofuscando a todos, a maior banda de rock do planeta.
A alimentação era toda vegetariana. Como tinha problemas de estômago, Ringo levou uma mala cheia de feijões em lata que comia com ovos, ele tinha medo da comida indiana, muito temperada. O almoço e o jantar variavam pouco: sopa seguida de um prato principal, arroz e salada com tomate, alface, nabo, cenoura e batata. O refeitório era grande, com paredes de vidro. Macacos invadiam em busca de comida, quem bobeasse dançava. O Maharishi comia em seu luxuoso bangalô.
Um alfaiate local fez roupas para todos, calças tipo pijamas e blusas largas, os quatro cultivaram barbas. Fazia muito calor de dia e só amenizava no final da tarde. Havia palestras com o Maharishi de manhã e à noite, seguidas por sessões de meditação de manhã e à tarde que os Beatles curtiram por um tempo para relaxar das tensões de seu cotidiano. Num final de tarde foram todos passear de barco pelo Ganges com dois cantores locais fazendo a trilha sonora. Como não podia deixar de ser, George e Donovan começaram a cantar, os outros seguiram numa mistura de canções inglesas e alemãs.
Foi bom enquanto durou para Ringo, o primeiro a jogar a toalha, que voltou para Londres no dia primeiro de março. Alegou saudade dos filhos e as queixas da mulher, Maureen contra nuvens de mosquitos que a atacavam. Em 26 de março foi a vez de Paul puxar o barco. Os mais resistentes foram John e George que partiram em 12 de abril em meio a uma confusão sobre suposto assédio a Prudence, irmã de Mia Farrow (Não vou detalhar porque está bem explicado nos posts sobre o álbum branco).
John voltou para Londres com seu casamento abalado, Cynthia se queixou de desinteresse dele e do interesse pelas cartas de Yoko Ono que chegavam quase diariamente. Em novembro se divorciou e ficou com Yoko. George e Pattie ficaram na Índia até 21 de abril, foram a Madras visitar Ravi Shankar. O melhor saldo foi que os Beatles voltaram com 48 canções e esboços que se espalhariam pelo álbum branco e Abbey Road.
Tem mais, só desculpem a demora porque sou muito enrolado.
Posts do álbum branco:
Primeira parte – Não localizado. Tentando
Segunda parte - http://www.blogdojama.com.br/2018/11/os-50-anos-do-album-branco-dos-beatles.html
Terceira parte - http://www.blogdojama.com.br/2018/11/album-branco-parte-3-helter-skelter.html
Quarta parte - http://www.blogdojama.com.br/2018/11/the-beatles-final-numberninenumberninen.html


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